terça-feira, agosto 30, 2016

OS DESBRAVADORES Capítulo 10

   



OS DESBRAVADORES

Capítulo 10


Calfilho







X







Todas aquelas cidades, pequenos portos na costa nordestina, pareciam iguais umas às outras. Uma faixa de areia, coqueiros, muitas árvores mais para o interior. Pequenas habitações junto à praia, uma igrejinha com a cruz no alto sobressaindo sobre o teto das casas. Algumas tendinhas, onde se vendia de tudo, vários barcos pesqueiros flutuando sobre a água ou descansando sobre a areia, um restaurante primitivo onde se servia principalmente produtos do mar, uma pracinha, um coreto, o resto residências familiares. Algumas delas possuíam um bordel, para satisfação sexual dos rapazes e homens solteiros e alguns poucos casados, que ali iam escondidos, evidentemente. Pouquíssimas possuíam um banco, e quando isso ocorria geralmente era uma agência do Banco do Brasil. Na maioria delas era pouco usual a utilização de dinheiro em espécie, usando-se muito mais a troca de mercadorias como moeda corrente. Assim, grande parte daquelas populações não sabia o que era cheque, depósitos, conta corrente, empréstimos bancários.
Jeremias e Faustino, acompanhados de Pedro, logo que chegaram em terra, dirigiram-se a uma das tendinhas, a maior da cidade. Jeremias cumprimentou o dono, já seu conhecido de viagens anteriores, quando o “Rosamar” por ali passara. Apresentou-lhe Faustino:
– Severino, esse aqui é o “seu” Faustino, que está viajando comigo, comandando uma expedição para extrair borracha na Amazônia. Já é pessoa conhecida naquela região, onde já esteve outras vezes.
Faustino apertou a mão de Severino. Este perguntou:
– Em que posso ser útil, “seu” Faustino?
Da boca de Severino saía um hálito forte de cebola, misturado com alho. Para disfarçá-lo, tinha ele entre os lábios um cigarro de palha vagabunda, que cheirava a rato morto. Era um homem baixinho, roliço, que de trás do balcão ensebado de seu estabelecimento comercial, assumia ares de autoridade local.
Faustino, virando discretamente o rosto para não sentir o hálito do seu interlocutor, respondeu, procurando falar rapidamente para não prolongar o diálogo:
– Bem, “seu” Severino, estou chefiando uma expedição que deve ficar de dois a três anos na Amazônia. Estou precisando de dois homens fortes, de coragem, que não tenham medo de nada e sejam obedientes, saibam obedecer ordens. Por favor, se não for nessas condições, não me interessa. Se for algum aproveitador, pode ficar por aqui. A recompensa que prometo é que, depois de encerrado o nosso tempo lá, eles voltarão ricos.
Severino ouviu em silêncio, tirando baforadas de seu cigarro infecto. Olhou para Jeremias, depois para Faustino.
– Pode deixar, “seu” Faustino. Aqui, em Baleia, tem muito cabra querendo trabalhar. A pesca quase não dá lucro pra eles, ficam rezando para que apareça uma oportunidade como essa que o senhor está oferecendo. Se o senhor me der umas duas horas, vai ter uns quatro ou cinco homens do jeito que o senhor quer.
Faustino concordou com a cabeça.
– Tudo bem, “seu” Severino. O senhor pode apresentar eles ao Pedro aqui, que é meu capataz. Enquanto isso, vou ver na sua loja se tem alguma mercadoria de que vou precisar.
– Fique à vontade, “seu” Faustino – disse Severino.– Se não achar alguma coisa aqui em meu estabelecimento, pode ir na venda do meu primo, que fica ali embaixo na rua – concluiu, apontando com a mão para o local mencionado. – Lá, ele tem muita mercadoria de uso na mata fechada.
Jeremias despediu-se de Faustino.
– Bem, “seu” Faustino, vou deixar o senhor tratar dos seus negócios, enquanto vou cuidar dos meus. Tenho muita mercadoria para desembarcar e outras para embarcar. Fique à vontade, a gente não deve sair daqui antes da meia-noite. O barco para o navio vai ficar à sua disposição.
Faustino agradeceu e, em companhia de Pedro, ficou olhando as mercadorias da loja de Severino, enquanto este mandava recado por seus empregados para que procurassem os homens que Faustino procurava.
Já na rua, Faustino perguntou a Pedro:
– O que você acha, Pedro? Dá pra confiar?
– Só vendo, patrão. Olho no olho eu vejo quem é o cabra. Mas, sinceramente, não tou levando muita fé, não... – Esse pessoal aqui me parece muito atrasado, muito bronco. Mas, vâmo ver.
– Bem, deixo nas tuas mãos. Só me apresenta aos homens quando você tiver decidido quem serve. Não quero ficar fazendo perguntas idiotas para uns imbecis de merda... O que você escolher, dou uma olhada final e te dou minha opinião. Mas, acho que você tem razão: aqui a gente não vai achar pessoal que serve, não.
– Vamos esperar, patrão, vamos ver o que esse gordinho fedido arranja pra gente – disse Pedro, referindo-se a Severino.
Deram uma olhada nas lojas locais, compraram algumas pás, enxadas, foices, serras, cordas, facões, redes para dormir, lonas para barracas, querosene. Apesar de já terem trazido algumas dessas mercadorias desde Fortaleza, adquirido outras em Paracuru, mesmo assim comprar outras nunca seria demais.
Almoçaram numa birosca local, carne de sol, farinha, jerimum e feijão de corda. Muita pimenta, uma cachacinha e duas cervejas para acompanhar.
Só por brincadeira, Faustino comprou uma cobra dissecada para dar um susto em Maria Teresa. Tinha ela mais de dois metros de comprimento, quase vinte centímetros de largura, pele marrom, a boca escancarada, deixando aparecer os dentes afiados, ameaçadores. Quem a visse de longe, tinha a nítida impressão de que estava viva.
Lá pelas três da tarde, voltaram à venda de Severino. Este já estava à espera. Apontou para uns dez homens sentados no fundo do estabelecimento. Estes, ao verem os dois conversando com Severino, viraram-se para eles, olhar assustado, expressão de indagação nos rostos curtidos pelo sol.
– Bem, “seu” Faustino, escolhi aqueles dez para o senhor. São os melhores homens da região. Já expliquei a eles para onde vão, o que os espera, a recompensa que o senhor oferece. Pode mandar seu capataz conversar com eles.
Faustino fez um gesto com a mão para Pedro, que se dirigiu aos homens. Permaneceu em pé, encostado no balcão, continuando a conversar com Severino, mas com um olho atento para onde Pedro se dirigia.
Chegando à mesa onde os homens estavam sentados, conversando em voz baixa, mas com os olhos pregados em Faustino, Pedro foi logo dizendo, em tom rude, quase agressivo:
– Fiquem em pé, quero falar com vocês.
Todos se levantaram, olhando para Pedro, meio desconfiados. Eram quatro negros altos e fortes, dois caboclos também fortes, três mulatos não tão altos mas também  muito fortes e um branco comprido, cabelo louro, tipo sarará.
Pedro, com aquela sua voz firme e segura, foi explicando lentamente a finalidade da expedição, quanto tempo ficariam fora, os perigos que teriam que enfrentar.
– Portanto, quem acha que não vai aguentar, é melhor nem se candidatar. Vão ficar longe da mulher e dos filhos, vão correr risco de morrer todo dia, vão se cansar da rotina do trabalho. A única vantagem vai ser que vão voltar com os bolsos cheios de dinheiro.
Três dos homens logo pediram para ir embora. Um deles, um dos caboclos, disse:
– Muito obrigado pelo convite, mas não vou poder aceitar. Vai ser muito tempo muito longe da minha família. Prefiro ficar aqui vivendo da minha pesca. É pouco, mas estou aqui, perto dos meus.
Os outros dois fizeram um sinal com a cabeça, concordando. Sobraram sete.
Pedro, dirigindo-se a eles, disse:
– Bem, quanto a vocês, quero falar com um de cada vez, em particular.
Chamou um deles:
– Vamos sentar naquela mesa lá no fundo. Os outros esperem aqui que eu chamo depois.
Entrevistou cada um por cerca de dez a quinze minutos. Fez-lhes várias perguntas sobre aptidões pessoais, experiências anteriores na selva, se já haviam trabalhado na extração da borracha, sobre suas famílias, quem dependia deles, se bebiam, fumavam, quais os vícios de cada um, etc...
Terminadas as entrevistas, chamou os sete até à mesa, dizendo-lhes:
– Muito obrigado por terem vindo até aqui, mas, infelizmente, só um de vocês atende ao que eu vou precisar. Agradeço aos outros seis, fica para a próxima.
Apontando para um deles, o sarará alto e magro, disse:
– Você, vem comigo. Qual é mesmo o seu nome?
– José Ribamar, patrão, às suas ordens.
– Vamos lá falar com o chefe da expedição. O nome dele é Faustino. Muito respeito que ele não é de brincadeira.
Os outros seis homens afastaram-se, desapontados. Pedro e José Ribamar dirigiram-se até o balcão da vendinha, onde Faustino continuava encostado, conversando com Severino.
– Patrão – disse Pedro. -- Este aqui é o José Ribamar. Quer trabalhar com a gente.
Faustino olhou o homem de alto a baixo, examinando-o cuidadosamente. Achou-o um pouco magro demais, mas nada comentou. Como também nada perguntou a Pedro porque dispensara os outros nove. Conversaria com ele quando estivessem a sós.
– Você explicou bem a ele a dureza do trabalho, não é? E, que só vai receber sua parte quando o trabalho terminar, daqui a um ou dois anos?
Pedro fez um sinal afirmativo com a cabeça. José Ribamar mantinha a cabeça baixa, sem encarar Faustino.
– Então, moço, você está mesmo disposto?
O sarará respondeu, humildemente:
– Tou sim, senhor, patrão. Tou precisando do dinheiro pra ajudar minha mãe e meus irmãos.
Faustino perguntou:
– E, como eles vão viver durante o tempo em que você estiver fora? Quem vai sustentar eles?
– A gente tem uma rocinha, aqui mesmo na cidade, patrão. Lá, a gente planta alguma coisa e cria algumas galinhas e porcos. Além disso, meu irmão mais novo, que já está com vinte anos, trabalha num barco de pesca e leva alguma coisa para casa.
– Tá certo, se o “seu” Pedro te aprovou, tudo bem. Vai buscar tuas tralhas e se despedir da família. Vamos pegar o barco de volta para o navio daqui a meia hora. Leva pouca coisa, ouviu? Só a roupa do corpo e uma outra muda para trocar de vez em quando.
José Ribamar agradeceu com a cabeça. Ousou perguntar timidamente, os olhos enterrados no chão:
– Posso levar meu violão, patrão? Gosto de tocar de vez em quando e ele me ajuda muito nas horas de tristeza...
Faustino refletiu por um instante. Respondeu:
– Tudo bem, se não fizer muito volume. Um pouco de música lá na selva não vai fazer mal a ninguém.
Severino, por trás do balcão, ouviu todo o diálogo em silêncio. Quando Ribamar se afastou, perguntou a Pedro, servindo-lhe uma dose de cachaça:
– Mas, e os outros nove, “seu” Pedro? Não serviram?
Pedro respondeu, fisionomia séria:
– Não, só iriam trazer problemas.
Mais tarde, já no navio, que retomara o seu curso, Faustino e Pedro conversavam, sentados em velhas cadeiras no pequeno convés.
Faustino perguntou:
– E, então, Pedro, por que só um deles?
– Ali tinha gente preguiçosa, um deles já estivera preso por matar um homem, o outro comera a irmã e tinha um filho com ela, dois deles eram cachaceiros sem jeito, tinha um que era ladrão de galinhas. Iam trazer problemas, não é?
Faustino riu sonoramente. Comentou, com satisfação:
– Só mesmo você, Pedro. Como é que você descobriu isso tudo?
– Astúcia, patrão. Sabendo perguntar, eles abrem logo o bico, contam tudo sobre eles e sobre os outros.
Faustino continuava a rir, enquanto Pedro permanecia sério, sem entender porque o patrão ria tanto.
Os dois já se conheciam desde 1909, quando da primeira incursão de Faustino na Amazônia. Os dois, na época simples empregados de uma expedição, logo se tornaram amigos inseparáveis. Pedro já ali estivera uma vez antes e ensinou a Faustino os mistérios e segredos da selva.
Voltaram os dois na segunda expedição, a de 1912, ainda como empregados, tendo sido Pedro quem acompanhou Faustino na volta à Fortaleza, quando o mesmo contraiu malária. Ficou ao seu lado durante todo o tempo, como um fiel cão de guarda, atento às todas suas melhoras e recaídas durante a longa viagem de regresso a casa, quando o deixou aos cuidados das irmãs. Mesmo assim, visitava-o várias vezes por semana, acompanhando sua lenta recuperação.
Foi um dos poucos a comparecer no casamento de Faustino, e, quando este decidiu retornar à Amazônia, foi o primeiro a ser chamado.
Entre os dois havia um respeito mútuo, uma amizade sincera, uma lealdade que não tinha limites, uma intimidade de verdadeiros amigos. Apesar de terem trabalhado ambos como empregados nas duas expedições anteriores, Pedro tinha um respeito enorme por Faustino, já que o mesmo desempenhara as funções que hoje ele exercia, a de capataz, de segundo homem em importância na hierarquia da expedição. Até mesmo porque Faustino tinha mais instrução que ele e pertencesse a família tradicional de Fortaleza, habituara-se a chamá-lo de patrão, sem que isso significasse qualquer posição de subserviência de um em relação ao outro.
Por isso, Faustino ria gostosamente da forma como Pedro relatou como decidira recrutar apenas um entre os dez homens que apareceram como pretendentes à vaga na expedição. “Astúcia, patrão... astúcia...”.
O “Rosamar” continuava sua lenta marcha em direção a Belém, as ondas batendo fortemente em seu costado, levantando nuvens de espuma. A noite, maravilhosa como quase todas as noites nordestinas, tinha a lua cheia emoldurando aquele céu de rara beleza, coalhado de estrelas resplandecentes.
Mais um dia daquela viagem que parecia sem fim fora deixado para trás.

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