quarta-feira, julho 09, 2008

OS BILHETINHOS

OS BILHETINHOS


Calfilho



Ela corria, apressada. O trolley atrasara e estava em cima da hora da primeira aula. Seis e quarenta e oito da manhã. O uniforme azul e branco contrastava maravilhosamente com sua pele cor de canela, o último botão da blusa branca aberto, a gravata escura pendendo displicentemente no pescoço.
Tinha orgulho daquele uniforme. Usara-o durante seis anos e meio, aquele era o sétimo e último de sua passagem pelo Liceu. Ginasial e científico, tudo no mesmo colégio que, como dizia o hino de dona Edith Pinho “era a razão da própria vida...”.
O ano estava por terminar. Último, do científico. Iria colar grau em dezembro, faltavam apenas dois meses. Estava fatigada de tanto estudar: pela manhã, o Liceu, com suas onze matérias. À tarde, das duas às sete, o intensivo do Pasteur, lá na Marquês do Paraná, para o vestibular de medicina.
Finalmente, chegou a condução. Entrou no trolley pela porta de trás, deu ao trocador o passe cor de rosa, que dava direito a um desconto para os estudantes, sentou-se num dos bancos.
Enquanto o veículo trafegava lentamente pela Praia de Icaraí, parando em todos os pontos para apanhar passageiros, Soninha deixava sua mente passear no tempo. Lembrava-se dos seus primeiros anos de Liceu, quando ali ingressara há sete anos, após passar com louvor no exame de admissão. Estava toda radiante em seu primeiro dia de aula, o uniforme impecável, como sua mãe sempre fizera questão de mantê-lo, limpo e passado. Mas, o medo do trote, do qual tanto ouvira falar, não lhe saía do pensamento. Contaram-lhe mil e uma coisas, que os veteranos humilhavam os calouros, fazendo-os passar pelas mais terríveis provações.
Ela, novinha, cara de assustada, passou pelo grande portão lateral, que dava acesso às dependências do melhor colégio de Niterói. Ainda bem que logo divisou Maria Clara, sua colega de primário no Raul Vidal, lá perto da Ponta d’Areia. Abraçaram-se e sentiram uma espécie de alívio. Pelo menos, não estariam sozinhas.
Entrando no enorme pátio onde todos os alunos das três primeiras séries do ginasial aguardavam a sirene para a primeira aula, parecia que todos olhavam para as duas. Maria Clara não estava uniformizada e reclamou com Soninha:
-- Poxa, Soninha, por que você veio de uniforme? Todo mundo já sabe que você é caloura, com essa única divisa na tua blusa...
-- É mesmo, fiz besteira -- reconheceu.
Entraram em sala, sem serem molestadas. Os mais antigos pareciam que aguardavam a hora certa para dar o bote.
Procurou saber onde sua turma iria formar, antes da entrada em sala. O pessoal conversava alegremente, os veteranos olhando para os calouros com um sorriso debochado nos lábios, como se escolhessem suas futuras presas.
Veio o recreio. A sirene tocou forte, o som semelhante ao que os bombeiros faziam. Os alunos correram alegremente para o pátio, a maioria já abrindo suas lancheiras.
Aí, começou o suplício para Soninha. Ela, conversando distraidamente com Maria Clara, foi pega pelo braço por três veteranos. Tentou resistir, mas foi empurrada em direção a um dos bancos de cimento, que ficavam em volta do pátio.
Deram-lhe um palito de fósforo e mandaram-na medir o banco. Ela, vermelha como um camarão, encabulada, não sabia onde esconder o rosto. Se pudesse, enterrava-o no chão de tanta vergonha.
Os três veteranos riam dela, atrapalhavam-na na contagem que fazia com o palito. Mandavam que repetisse tudo, desde o início. Ela estava nervosa, doida para sair dali. Maria Clara, ao seu lado, petrificada, nada fazia, só olhava, aterrorizada, esperando que sua hora também chegasse.
Mais veteranos chegaram, agora trazendo um calouro. Menino gordinho, cara também de apavorado, vestindo o dólmã tradicional daqueles tempos de Liceu. Como Soninha, devia ter uns onze anos.
Mandaram que ele se ajoelhasse e fizesse uma declaração de amor para Maria Clara. O pobre do garoto ajoelhou-se, tentou falar, mas não conseguia. Gaguejava, as palavras não lhe saiam da boca. Começou a chorar.
Soninha, também, estava a pique de chorar.
Nisso, chegou um rapaz mais velho, do terceiro ginasial, e mandou que os outros veteranos parassem com aquilo. Eles, como eram do segundo ano, mais novos, portanto, ficaram com medo e obedeceram. Ainda mais que ele fazia parte da diretoria do Grêmio...
Os rapazes se afastaram e aquele que as “salvou”, perguntou:
-- Tudo bem com vocês?
Maria Clara, refeita do susto, ainda corada de emoção, conseguiu responder, com dificuldade:
-- Tudo bem, obrigada.
Ele não tirava os olhos de Soninha. Parecia encantado com o porte da menina, com a beleza da cor de sua pele, com a limpidez dos seus olhos castanhos claros.
Ela nem conseguiu olhar para ele. Estava com os olhos enterrados no chão, não saíra ainda do estado de choque que o trote lhe causara.
Ele se afastou, dizendo:
-- Bem, se precisarem de alguma coisa, me procurem na sala do Grêmio.
Nem ao menos disse seu nome.
Maria Clara comentou com Soninha:
-- Que rapaz legal, Soninha. Acho que gostou de você...
Era já o despontar de uma atração pelo outro sexo, na inocência dos seus onze anos de idade...
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Só viram o rapaz umas duas ou três vezes mais, naquele primeiro ano de colégio das duas. Nos dias que se seguiram, os demais veteranos delas não se aproximavam, talvez alertados de que elas eram protegidas de “um cara do Grêmio, da terceira série”. Davam trotes em outros alunos e alunas, mas nelas nunca mais.
Nas vezes em que passaram por ele, tentaram cumprimentá-lo, mas ele estava sempre cercado de muita gente, rapazes e moças de séries mais adiantadas, e pareceu não notar-lhes a presença.
Por isso, aquele primeiro ano das duas foi-se embora e não tiveram mais oportunidade de falar com ele.
No ano seguinte, ele passou a cursar a quarta série, que era no turno da manhã, enquanto elas continuavam no turno da tarde, agora no segunda.
Praticamente não se viram mais, nem nos poucos instantes em que o turno da manhã saía e entrava o da tarde, por volta do meio-dia. Com o passar do tempo, Soninha acabou por esquecer do seu “salvador”.
Mas, a mão do destino entrou em ação...
Quando ela já estava na terceira série e ele na primeira do científico, as meninas do turno da tarde passaram a ter a mania de deixar bilhetinhos debaixo das carteiras, na tentativa de aproximação com os rapazes mais velhos do turno da manhã.
Maria Clara, ainda colega de sala de Soninha, disse:
-- Escreve você também, Soninha. É divertido, e, quem sabe, a gente consegue arranjar um namorado?
-- Não, isso é bobagem. E eu não quero arranjar namorado nenhum. Tenho mais é que me concentrar nos estudos, se não acabo perdendo o ano.
Realmente, só pegaram professores tidos como “carne-de-pescoço”: Carias, em Matemática e Jacira, em Português, isso só para falar nos dois piores.
Mas, Maria Clara tanto que insistiu, que ela acabou concordando. Deixou um bilhetinho debaixo da carteira, em sua letra ainda quase infantil, dizendo-se interessada em conhecer quem sentava naquele lugar no turno da manhã.
-- E, se for uma moça? – perguntou Soninha.
-- Ué, se for, você deu azar e ficam elas por elas. Mas, você não perdeu nada, não é mesmo? – retrucou Maria Clara.
Acabou concordando.
Na tarde do dia seguinte, já esquecida daquilo tudo, entrou em sala e sentou-se em sua cadeira. Maria Clara, com curiosidade, logo procurou debaixo de sua carteira se havia algum bilhete. Nada...
-- Vê em baixo da tua – disse para Soninha.
Essa, meio displicentemente, sem dar muita importância, meteu a mão debaixo de sua própria carteira. Achou algo, trazendo-o para fora.
Era um pedaço de papel dobrado. Maria Clara, curiosa, pediu:
-- Abre, abre logo.
Ela abriu vagarosamente o bilhete e ali estava escrito que o signatário do mesmo também teria muito prazer em conhecer a pessoa que lhe enviara um outro no dia anterior. Pedia detalhes sobre a série em que estudava, a descrição do seu tipo físico, cor dos cabelos, dos olhos, etc., etc...
Ela enrubesceu na hora. Não esperava resposta ao bilhete que mandara despretensiosamente no dia anterior. Tinha levado na brincadeira a sugestão de Maria Clara e só escrevera para fazer-lhe a vontade.
Maria Clara quis ler e ela não teve como recusar. Passou-lhe o blhete..
-- Responde, responde – insistiu a colega.
Ela, com receio:
-- Não sei, não sei. Não estou a fim, Maria Clara, responde você.
-- Nada disso, foi para você que ele escreveu, não pra mim. Você é que tem que responder.
-- Mas, ele nem sabe quem sou eu. Como estou sentada aqui nesta carteira, poderia ser você...
-- Nada disso, é você que tem que responder – insistiu Maria Clara.
Ela acabou fazendo-lhe mais uma vez a vontade. Rabiscou uma resposta curta, sintética, falando o mínimo possível sobre ela, suas características físicas e suas predileções.
Mas, na tarde seguinte, outro bilhete. O “moço encantado”, como passou a chamá-lo Maria Clara, respondeu num outro bilhete repleto de palavras carinhosas e de admiração. Ela, ao lê-lo, ficou mais uma vez encabulada. Mas, agora, também ficara interessada.
Respondeu aquele com mais entusiasmo, mais empolgação.
Os bilhetes foram ficando mais íntimos, mais quentes, mais apaixonados.
Soninha já estava impregnada da empolgação de Maria Clara e também ansiosa por conhecer o autor dos bilhetes. Ao menos, saber quem era...
Pena que não podia entrar no colégio antes que terminassem as aulas do turno da manhã. Se não, iria até a porta da sala do primeiro científico, que ficava na ala que dava para a ruazinha atrás do Liceu, onde ficava o Jardim de Infância, e facilmente identificaria seu galã apaixonado.
Mas, como tinha que esperar tocar a sirene e aguardar sair todo o turno da manhã, continuava ficando sem saber…
Esse chove-não-molha durou quase todo o ano...
Um dia, já não agüentando mais de curiosidade, foi de manhã ao colégio, sem uniforme, na hora do recreio do turno da manhã. Pretextando ter que ir à secretaria, tendo Maria Clara ao seu lado, subiu as escadas que levavam ao segundo andar. Chegando em frente à secretaria, dobraram à direita e foram dar numa outra escada lateral, que as fazia voltar ao primeiro andar, já agora junto a saída que dava acesso ao pátio. Atravessaram todo o terreno que margeava o local de recreio dos liceístas, passaram pela cantina da dona Cremilda, subiram aquele pequeno lance de três degraus de escadas e novamente entraram no corredor lateral, aquele que dava para a pequena rua atrás do colégio. A primeira sala, à direita, era a do primeiro científico no turno da manhã, terceira série do ginasial, à tarde.
As duas meninas procuraram olhar disfarçadamente para o interior da sala, onde os alunos tinham aula de química com o professor Saleme. Encostaram-se na parede e esticaram o pescoço, tentando enxergar quem estava no interior do recinto.
Eram vários os alunos, a sala estava cheia. Aproximadamente uns trinta e cinco. Uns prestavam atenção na aula, outros olhavam distraidamente para os lados.
Foi então, que os olhares de Soninha e de seu correspondente misterioso se cruzaram. Ele olhou distraidamente para a porta e viu aquele rosto moreninho, olhos brilhantes, cheios de vida e de curiosidade, olhando fixamente para ele. Firmou o olhar, curioso, sem conseguir estabelecer a ligação entre a menina que o fitava com insistência e aquela com quem trocava os bilhetinhos apaixonados.
Ela, um pouco encabulada, desviou logo o olhar. Puxou a mão de Maria Clara, procurando sair rapidamente dali.
Maria Clara indagou, curiosa:
-- O que foi? Não conseguiu descobrir quem é? Eu não pude visualizar direito sua carteira...
Ela, ainda com o rosto vermelho, tentando se recompor, conseguiu finalmente dizer:
-- Vi sim, sei quem é...
-- Quem é? Quem é? – perguntou Maria Clara, ardendo de curiosidade.
Ela respirou fundo. Já voltando ao seu estado normal, enquanto se afastavam dali, disse:
-- É aquele rapaz que nos salvou do trote, quando entramos pro Liceu.
Maria Clara não conseguiu esconder a surpresa.
-- É mesmo? Verdade? Mas, que coincidência... – comentou, com um sorriso enigmático nos lábios.
Soninha, só na rua, já na pracinha em frente, na parada do trolley, conseguiu finalmente recuperar a calma.
-- Meu Deus, como é possível... No meio de tanta gente, logo com ele fui me corresponder.
Mas, com um sorriso no canto da boca, não pode disfarçar o contentamento que sentia com a feliz coincidência...

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Bem, acabaram se encontrando pessoalmente, começaram timidamente um namoro que pensavam não teria maiores conseqüências, mas hoje, passados mais de três anos, ele na faculdade de engenharia, ela prestes a terminar o terceiro científico, não podiam ficar mais de algumas horas longe um do outro.
Todo mundo no Liceu acompanhou de perto aquele namoro de adolescentes. Quando começou, ele tinha dezessete, ela treze anos de idade. Só viviam de mãos dadas nas horas de recreio, antes e depois das aulas. Em festinhas em casas de alunos ou nos clubes da cidade, sempre estavam juntos. Ela foi sua madrinha na festa de formatura dele, no baile do Regatas Icaraí. Dançaram a valsa, quando ela se formou no ginasial.
Finalmente, o trolley chegou ao seu ponto final, em frente aos Correios, junto à Praça Araribóia. Soninha despertou do seu devaneio, voltou à realidade daqueles dias de 1962.
Foi andando para o Liceu, subindo toda a Amaral Peixoto, como costumeiramente fazia. Ansiava por chegar a hora do término de suas aulas da manhã, quando, como fazia todos os dias, seu amado a estaria esperando na porta do colégio, para, juntos, pegarem o trolley até sua casa. Durante a semana, era um dos poucos momentos em que podiam estar juntos. Ela tinha aula a tarde toda no cursinho e ele, além das aulas da manhã, tinha as da tarde, na faculdade. Só conseguiam ver um ao outro à noite, por volta das oito horas, quando ficavam namorando até as dez.
Quase chegando ao colégio, depois de atravessar a Amaral Peixoto, pegando a calçada da esquerda, Soninha chegava ao Liceu. O portão lateral já estava fechado. Estava atrasada, já sabia. Entrou pela porta principal, desculpando-se com “seu” Borges pelo atraso...
O que o futuro reservaria para ela e seu namorado?
Como estariam dali a quarenta anos? Teriam filhos? Quantos seriam? E netos? Estariam rodeados deles? O que o destino lhes reservaria?
Perdida em seus pensamentos, nem prestava atenção ao que o professor de geografia tentava ensinar à turma...


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segunda-feira, julho 07, 2008

CACHOEIRO, CACHOEIRO...

CACHOEIRO, CACHOEIRO...





CALFILHO





Os últimos liceístas estavam chegando...
Vaninho Careca, Toninho Matheus, Renato Kid...
Já estava todo mundo ali. Telúrio ia fazer a chamada final. Falou alto, chamando a atenção do pessoal:
– Moçada, silêncio um instante, vou conferir se todo mundo está aqui pra gente poder embarcar.
Os quarenta e dois liceístas que se aglomeravam no acanhado saguão da antiga estação de trem, na avenida Feliciano Sodré, em Niterói, cessaram por instantes o alvoroço que faziam.
Teteco (Telúrio) olhava para a lista de alunos, ticando os nomes dos presentes que divisava, um a um. Quando terminou, disse alto:
– Pronto, putada, tá todo mundo aqui. Já incluí o Rochinha, que não é do Liceu. Vamos para o trem.
Rochinha tinha sido levado pelo Nélio, excelente meio-de-campo do time de futebol.
Nélio perguntara antes, quando chegara na estação, Rochinha ao seu lado:
– Carlinhos, eu trouxe o Rochinha aqui, que é meu amigo e estuda no Plínio Leite. Ele nada muito bem e como a gente não tem ninguém para as provas de natação, talvez possa ajudar. Se tiver vaga...
Carlinhos cumprimentou o Rochinha, apertando-lhe a mão direita.
– Tudo bem, sem problema. Não completamos os cinquenta que combinamos levar. Nélio, apresenta ele pro pessoal.
Rochinha era um moreno alto, com quase dezoito anos. Alegre, brincalhão, extrovertido, logo se entrosou com o grupo que aguardava o momento de embarcar na velha composição.
O pessoal estava ansioso. Temiam ainda que, a qualquer momento, chegasse o diretor, o Professor Aldo, com a polícia a tiracolo e impedisse o embarque dos atletas. Depois de tanto trabalho, tanto sacrifício...
Alguns, para disfarçar o nervosismo, já tinham ingerido algumas doses de “samba em berlim” ou um violento “traçado” de cachaça com cinzano. Todos estudantes, a grande maioria ainda dependendo da mesada dos pais, não tinham dinheiro para beber uma bebida mais sofisticada. Tinha que ser a mais barata mesmo.
Luizinho disse, enquanto virava um gole de sua bebida, em pé, junto ao balcão do bar da estação:
– Olha, estou levando três garrafas de batida. Uma de limão, outra de maracujá, outra de coco.
Mario, ponta-esquerda do time, emendou:
– Eu consegui apanhar uma garrafa de “Mansion House”, lá de casa, do bar do meu pai. Ele não percebeu, vai me dar um esporro daqueles quando voltar.
Outros também levavam, como munição para a longa viagem, suas garrafas com os mais variados tipos de bebida.
Carlinhos tentou reunir o grupo. Ele, como vários outros da delegação, tinha na cabeça o chapeuzinho tipo “Nat King Cole”, que era a coqueluche da moda da época. Falou, em voz alta:
– Pessoal, façam uma fila e todo mundo com a carteirinha do Grêmio na mão. O cara do trem vai conferir, disse que não vai dar mole pra penetra.
Os rapazes foram formando a longa fila, numa estranha disciplina para o grupo, normalmente muito bagunceiro. Continuavam a conversar em tom elevado de voz, enquanto se enfileiravam no saguão. Jorge, o presidente do Grêmio, perguntou a Carlinhos:
– Como é que a gente vai fazer com a carteira do Rochinha? Ele não tem...
– Eu trouxe alguns impressos de carteira em branco, basta ele preencher...
– À mão mesmo? – indagou Jorge.
– Claro, com letra de imprensa para não dar na pinta. Só espero que ele tenha um retrato com ele – retrucou Carlinhos, já exalando forte odor de “samba em berlim” no hálito. – Deixa que eu resolvo isso.
Deixou Jorge com uma cópia da lista de atletas na porta que dava acesso à plataforma do trem, já parado e com a máquina funcionando, aguardando os passageiros.
Dirigiu-se até a outra ponta do saguão, onde Rochinha, sempre ao lado de Nélio, conversava animadamente numa rodinha de liceístas.
Chamou-o de lado:
– Rochinha, você tem que preencher essa carteirinha do Grêmio do Liceu para poder viajar. Tem algum retrato sobrando com você?
Rochinha meteu a mão no bolso de trás da calça “Levis” preta, tirando sua carteira de dinheiro. Abriu-a e de um canto escondido da mesma, tirou um retrato 3 X 4.
– Pronto, está aqui – disse, exibindo a foto a Carlinhos.
– Bem, aqui está o espelho da carteirinha. Preencha com letra de imprensa e vê se acha um jeito de colar esse retrato nela.
Passou o documento em branco para Rochinha que dirigiu-se ao balcão do bar. Lá preencheu a carteirinha e conseguiu, não sabe como, um pouco de cola com o português que servia bebida para a rapaziada. Colou o retrato e, seguindo orientação de Nélio, entrou na fila para o embarque.
Passavam rapidamente pela roleta de entrada para a plataforma, tendo o chefe da estação, depois de examinar o memorando da Secretaria de Educação autorizando a concessão de 50 passagens para os alunos do Liceu, indicado o vagão que iriam ocupar.
Como dera trabalho para conseguir aquela autorização... Jorge e Carlinhos rodaram por diversas repartições estaduais por vários dias, até conseguirem achar o pai de um aluno que trabalhava na Secretaria de Educação que os encaminhou ao funcionário responsável. Este, burocrata de carteirinha, colocou mil e um empecilhos para conceder a autorização para a emissão das passagens. Queria ofício do Liceu de Cachoeiro, carimbo da secretaria do Liceu de Niterói, carimbo da Secretaria de Saúde, atestado de vacina dos alunos, o diabo a quatro... Mexe uns pauzinhos daqui, outros dali, finalmente conseguiram a guia autorizando a concessão das passagens...
Outro obstáculo a vencer era a autorização do diretor do Liceu, Professor Aldo, para que perdessem uma semana de aula. Antes, fizeram uma reunião da diretoria do Grêmio, onde o assunto foi amplamente debatido.
– Por mim, eu não pediria autorização nenhuma. Ia no peito – disse Carlinhos, o diretor de futebol.
– Estou de acordo – disse Irapuam, misto de diretor social e goleiro do time de futebol. – Se pedir, tenho certeza de que ele vai negar e aí, então, é que a gente não viaja mesmo.
Jorge, o presidente, foi taxativo:
– Acho que devemos pedir autorização, sim. Afinal de contas, vamos faltar uma semana de aula e não acho justo irmos para outro Estado, representando nosso colégio, sem a autorização do diretor.
– Ele vai negar, ele vai negar – insistiu Carlinhos. – Vocês sabem como ele é duro na queda, não vai permitir nunca.
A matéria ficou em discussão por vários minutos, cada diretor dando uma opinião diferente, uns a favor, outros contra a pedir a autorização para a viagem.
Finalmente, Telúrio, o diretor de esportes, exímio jogador de basquete, talvez o mais ponderado de todos, deu sua opinião:
– Tudo bem, acho que não custa nada a gente comunicar a ele, dizer que já estamos com tudo pronto para viajar. Se ele concordar, ótimo, viajamos tranquilos. Se não... a gente decide depois o que fazer.
A proposta de Teteco foi colocada em votação e, como todos o respeitavam muito, acabou vencedora.
Quando deixavam a salinha do Grêmio, finda a reunião, Carlinhos ainda resmungava:
– Ele não vai concordar, tenho certeza...

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Tudo começara uns vinte dias antes.
A F.E.S.N (Federação dos Estudantes Secundários de Niterói), à qual o Grêmio Cultural Nilo Peçanha estava filiado (pelo menos pro-forma), solicitou que enviássemos três representantes para compor uma delegação que iria fazer uma visita de cortesia à cidade de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo.
Jorge indicou seus diretores Irapuam e Carlinhos e o atleta Dario. No dia marcado, pegaram o ônibus fretado, em frente à sede da F.E.S.N, que ficava no Rink, na rua XV de Novembro. Saíram de Niterói por volta das 22 horas. Passaram por várias cidades do interior fluminense, como Araruama, São Pedro d’Aldeia, Macaé e Campos. Ingressaram em território capixaba e às 8 da manhã seguinte, chegavam à Cachoeiro.
Típica cidade de interior, com um bucólico rio, o Itapemirim, que a atravessava de cima a baixo e os picos de Itabira e do Frade e da Freira, destacando-se na paisagem ao fundo. Ficava num vale maravilhoso, cercado de vegetação abundante da Serra do Mar, naquela época ainda não devastada pela ação do homem.
Os estudantes dos vários colégios de Niterói, quando desceram do ônibus, sentiram de pronto a enorme diferença entre a agitação da cidade onde moravam e a tranquilidade de uma pequena cidade do interior. Até o ar que se respirava parecia ser outro, sem poluição, sem a contaminação das impurezas da cidade grande. Dirigiram-se para o hotel que lhes fora destinado, onde deixaram suas bagagens nos quartos.
Irapuam, Carlinhos e Dario, que não conheciam praticamente nenhum dos outros componentes da delegação da F.E.S.N, ficaram meio deslocados, sem ambiente. Procuraram saber a programação que teriam de cumprir com o presidente da Federação, o João Machado. Liberados até a hora do almoço, foram dar um passeio nas imediações do hotel, para um primeiro contato de reconhecimento com a cidade.
Cachoeiro era pequena, praticamente todo o movimento se resumia ao centro. O rio Itapemirim, majestoso, dominava o cenário, sendo o ponto maior de referência da cidade. As casas, em sua maioria, eram de um só andar, apenas um ou outro sobrado na rua principal, onde se situava o incipiente comércio.
Deram algumas voltas, passaram por pontes que atravessavam o rio, acabaram sentando nas cadeiras de um botequim perto do hotel. Pediram cerveja e ficaram jogando conversa fora, enquanto aproveitavam para paquerar uma ou outra mocinha que passava na rua em frente. As jovens, curiosas por saberem que tinha chegado um ônibus com rapazes vindos de Niterói, logo se assanharam, procurando exibir-se para os visitantes.
Isso era comum nas cidades do interior, não importando o Estado brasileiro. As moças ali nascidas ansiavam em casar com rapazes de cidades grandes, almejando, com o casamento, deixar aquela vidinha monótona de cidade pequena, onde as coisas sempre se repetiam, onde nada de novo acontecia. Tinham verdadeira atração pelas coisas do Rio, então a capital do Brasil, pelas praias badaladas, pelo comércio variado, pelos artistas de rádio, cinema e televisão. Assim qualquer rapaz de fora que ali chegasse era alvo disputadíssimo pelas moças casadoiras da cidade.
Os três liceístas continuaram sua ronda pela cidade. Vestiam quase um uniforme, apesar de não terem combinado nada. Mas, era a indumentária que estava na moda para os rapazes da época: calça de brim coringa (precursora do “jeans”), marca Far West ou Levis; camisas de malha branca com gola olímpica ou social de mangas compridas, dobradas até o cotovelo; blusão tipo “James Dean”, de tecido brilhante tipo furta-cor, que chamava a atenção. Tudo imitação da juventude norte-americana e que influenciava profundamente a nossa, principalmente no vestuário e na música. Nas rádios, só se ouviam versões de rocks e baladas daquele país. Carlinhos ainda levou o seu inseparável chapeuzinho tipo “Nat King Cole”, celebrizado depois que o cantor americano lançou seu famoso long-playing “Nat King Cole em espanhol”, onde cantava vários boleros mexicanos e cubanos, coqueluche dos “bailinhos” da juventude brasileira, onde se dançava de rosto colado e não como atualmente, o rapaz e a moça separados no salão.
Tiraram fotos, conversaram com membros da população local, fizeram amizade com o garçom e o dono do botequim onde bebiam cerveja.
Voltaram para o hotel por volta do meio-dia, quando almoçaram com o resto da delegação da F.E.S.N. Houve um pequeno desentendimento entre os liceístas e um dos diretores da Federação, o Cintra, porque chegaram eles meia hora atrasados para o almoço, quando todos já estavam sentados. O presidente da Federação estudantil local fez as honras da casa, mas também estavam presentes o prefeito e outras autoridades municipais. Vários discursos foram feitos, o que entediou os liceístas.
Por isso, logo terminou o almoço, retiraram-se para o quarto que os três dividiam, pretextando descansar da longa viagem. Isso irritou ainda mais o Cintra, pois havia uma visita programada a uma escola local e à Prefeitura, e ele queria que todos os membros da delegação estivessem presentes.
Mandaram-no solenemente à merda e foram para o quarto. Lá pelas três horas, enquanto conversavam em voz baixa, bateram na porta. Irapuam foi abrir, já em atitude agressiva, pensando que era o Cintra querendo tomar satisfações.
Eram dois rapazes desconhecidos. O mais baixo deles perguntou:
– Boa tarde. Vocês são do Liceu de Niterói?
Surpreso, Irapuam respondeu:
– Sim...
O outro estendeu-lhe a mão direita.
– Eu sou Marcelo, do Liceu daqui de Cachoeiro. Este aqui é o Paulo César, meu colega.
Apertaram-se as mãos, Irapuam convidou-os a entrar. Apresentou Carlinhos e Dario aos dois cachoeirenses. Depois que estes estavam sentados, Marcelo continuou:
– Bem, como eu disse, nós dois somos do Liceu de Cachoeiro. Daqui a vinte dias, devemos realizar os Jogos Inter-Liceus. Além de nós, vêm o Liceu de Campos, o de Vitória, o de Guarapari, o de Marataízes, o de Mimoso e o de Colatina. Há muitos anos pensávamos em convidar vocês, do Liceu de Niterói. Todo ano mandávamos ofício, mas não tínhamos resposta.
Carlinhos retrucou:
– Nossa diretoria assumiu ano passado, nunca soubemos desses convites. E vão disputar o quê?
– Futebol de campo, basquete, vôlei, tênis de mesa, natação, atletismo. Masculino e feminino, menos o futebol que é só para os homens.
– Não tem futebol de salão? – indagou Dario.
– Não, isso aqui ainda não pegou – respondeu Paulo César.
– Quando é que vai ser mesmo? – voltou a perguntar Carlinhos.
– Daqui a vinte dias – retrucou Marcelo.
Este virou-se para Irapuam. Disse:
– Me empresta teu calendário.
Irapuam procurou no bolso da calça sua carteira e dela retirou uma pequena folhinha. Passou-a a Carlinhos.
Este examinou o calendário, depois virou-se para Marcelo:
– OK. 16 de maio. Quantos dias durarão os jogos?
– Quatro. Seis com a festa de encerramento – voltou a responder Marcelo.
– Tudo bem – disse Carlinhos. – Nosso presidente não veio conosco, eu sou o diretor de futebol, o Irapuam aqui é o diretor social. Vou conversar com ele, mas acho praticamente certo que aceitemos. Se vocês puderem nos fazer um ofício formalizando o convite, eu o levo em mãos.
– Hoje mesmo eu te entrego ele – rebateu Marcelo. Vocês vão ficar quantos dias aqui?
– Só hoje e amanhã – respondeu Carlinhos.
– Então, se estiverem sem nenhum compromisso hoje à tarde, eu os convido a nos acompanhar. Quero mostrar-lhes as dependências do nosso Liceu, as acomodações onde vocês ficarão...
Carlinhos levantou-se imediatamente da beira da cama onde estava sentado. Disse:
– Será um prazer, vamos sim – disse, fazendo um sinal com a mão para que Dario e Irapuam o acompanhassem.
Já na rua, Marcelo continuou:
– Os jogos aqui são realizados de dois em dois anos. São um sucesso, a cidade fica cheia, as torcidas ficam empolgadas. E, sempre sai algum namoro engatilhado – brincou.
Carlinhos, ao seu lado, perguntou:
– E a alimentação, Marcelo? Você sabe, todo mundo lá é estudante, ninguém trabalha, não pode pagar almoço e jantar...
– Não se preocupem. Nós vamos receber vocês em nossas casas. Três ou quatro em cada uma. Nossas mães ficarão muito contentes em oferecer-lhes o almoço e a janta. Além do café da manhã, é claro – respondeu, sorrindo.
Dirigiram-se para o outro lado da cidade, onde ficava o Liceu, numa pequena colina arborizada. O caminho até o alojamento onde iriam ficar, um amplo ginásio coberto, era meio íngreme, mas calçado com paralelepípedos.
Irapuam comentou com Dario:
– Essa subidinha aqui vai curar o porre de muita gente...
O colégio propriamente dito ficava na parte de baixo, enquanto o ginásio ficava mais acima. Do outro lado, na parte mais baixa, ficavam o campo de futebol, a quadra polivalente, que servia para os jogos de vôlei e basquete.
Carlinhos comentou:
– Magníficas instalações, Marcelo. As nossas, lá em Niterói, são boas também, mas tudo é mais concentrado. Temos uma quadra de vôlei, outra de basquete, dois campos de futebol de tamanhos diferentes, pista de atletismo, vestiários masculino e feminino, um pátio enorme que serviria para jogos de salão. Temos até um necrotério nos fundos, para o caso de alguma morte súbita – brincou. -- Infelizmente, lá o esporte não é levado a sério. Com instalações tão boas, não aproveitamos nada delas. Só agora o nosso Grêmio está instituindo o futebol de salão. Construímos as balizas, compramos as redes e estamos promovendo torneios internos e jogos amistosos contra os outros colégios de Niterói.
– Mas, por que vocês não aproveitam todo esse complexo? Aqui, utilizamos tudo.
– Preguiça, meu amigo, preguiça... A educação física lá limita-se a algumas aulas sem graça de ginástica, onde o que vale mesmo é dar presença para passar de ano. Não abrem o colégio nos fins de semana, não atraem os alunos para atividades extra-curriculares. Agora é que o Grêmio está tentando fazer alguma coisa. Por isso, as diretorias anteriores não responderam os ofícios de vocês.
– Mas, vocês não têm equipes de futebol, basquete e vôlei? – indagou Paulo César?
– Equipes formadas, não. Só futebol de salão. Nossos dois times são muito bons, não tem adversário pra gente em Niterói. Mas, temos ótimos jogadores de futebol de campo, basquete e vôlei espalhados pelos clubes da cidade e até do Rio de Janeiro. Acho que dá para formar boas equipes, só vai faltar conjunto – respondeu Carlinhos.
– Bem, a piscina e o local onde serão disputadas as partidas de tênis de mesa ficam no clube da cidade. Vamos até lá – convidou Marcelo. – Tem alguém de vocês que joga xadrez? – perguntou.
Dario respondeu, meio desanimado:
– Deve ter uns babacas lá da nossa biblioteca, mas dificilmente eles viriam até aqui. O pai e a mãe não iriam deixar que se misturassem com a gente.
Marcelo levou os liceístas até sua casa, onde foram apresentados aos seus pais. Foram cumulados de gentilezas. Dona Georgina, a mãe de Marcelo, fez questão de preparar um lanche para os convidados, apesar deles dizerem que não se incomodasse, que haviam acabado de almoçar. O pai, “seu” Geraldo quis saber as novidades de Niterói, cidade em que morara na juventude e onde estudara por um tempo.
Depois, Paulo César também fez questão de levá-los para conhecer seus pais, sendo recebidos com a mesma atenção e gentileza. Ficaram encantados com o tratamento recebido. Marcelo foi providenciar o ofício convidando o Liceu de Niterói para os jogos, enquanto Paulo César conduzia os três de volta ao hotel. Tudo a pé, pois as distâncias eram pequenas. O centro da cidade ficava no vale por onde passava o rio, mas a maioria das casas residenciais se localizava nas colinas, nas encostas do morro, lembrando um pouco Santa Teresa, no Rio de Janeiro.
Ao se despedir, Paulo César convidou:
– Olha, hoje à noite, vai ter um festinha na casa da Dóris, uma colega nossa do Liceu. Se quiserem ir, terei prazer em vir buscá-los.
Carlinhos agradeceu:
– Olha, Paulo, será um prazer para nós também. Mas, estamos com essa delegação da F.E.S.N., não sei o que eles programaram para hoje à noite. Em todo caso, se não for incômodo para você dar uma passada por aqui, se não tiver nada programado, vamos com você. Será bom conhecer o pessoal local.
Despediram-se e voltaram para o quarto. Lá dentro, Dario falou:
– Quer saber de um negócio? Eu, por mim, largava esse pessoal da F.E.S.N. de lado. Vamos à festa e pronto, eles que se danem.
Carlinhos ainda ponderou:
– Mas é chato, Dario. A gente veio com eles, vai ter que voltar no mesmo ônibus. Além do mais, precisamos manter boas relações. Lembra, o problema dos passes de trolley?
Era uma reivindicação antiga do Grêmio do Liceu: passar a vender os passes estudantis no próprio colégio, evitando o deslocamento desnecessário e, às vezes, difícil para alguns liceístas até a F.E.S.N., lá no Rink. Muitos alunos não tinham tempo para isso, já que alguns já trabalhavam logo após as aulas e outros tinham cursos preparatórios para o vestibular ou para as Escolas Militares.
A F.E.S.N se mantinha inflexível, querendo manter o monopólio sobre a venda dos passes, mas as negociações entre as duas agremiações continuavam e se encaminhavam para um final feliz.
Irapuam pôs um ponto final à discussão:
– Não custa nada a gente perguntar pra eles o que vão fazer à noite. Aliás, acho melhor a gente convidar o Machado, o presidente, para uma cerveja. Ele tem cara de biriteiro e parece ser boa praça. Assim, a gente não dá bola pro babaca do Cintra, resolvemos as coisas logo com o presidente.
E, assim fizeram. Foram até o quarto do Machado, que descansava do almoço. Chamaram-no para tomar uma cerveja no botequim perto do hotel. Ele aceitou com satisfação. Vestiu uma camisa, calçou os sapatos e saíram os quatro.
Machado, realmente, era um boa praça. Alegre, brincalhão extrovertido, gostava de contar piadas.

Carlinhos perguntou:
– Qual a marca de cerveja que você prefere, Machado? Brahma ou Antártica?
– Antártica, se vocês não se incomodam. E, da Antártica, prefiro a portuguesinha.
Portuguesa era uma das espécies de cerveja que a Antártica fabricava na época.
E, depois da quinta “portuguesinha”, Machado, já alegre e descontraído, batia animadamente sobre o tampo da mesa e cantava:
–“Quem gosta de cerveja, bate a mão na mesa, portuguesa... portuguesa...”.
Era uma paródia a um “jingle” da Brahma da época, que dizia: “ Quem gosta de cerveja, bate o pé, reclama... quero Brahma, quero Brahma...”.
Os liceístas contaram-lhe sobre o convite que receberam do Liceu de Cachoeiro. Também pediram desculpas sobre o pequeno atrito que tiveram com o Cintra, na hora do almoço.
– Deixem isso pra lá. O Cintra é meio babaca mesmo. Porra, gente, fico contente com o convite que vocês receberam. Isso mostra o carinho que eles têm pela gente e a importância da Federação de Niterói no Brasil.
Carlinhos aproveitou para jogar mais vaselina na conversa:
– E, outra coisa, Machado: se a gente decidir aceitar o convite, não sei o que pessoal lá vai decidir, você é nosso convidado, queremos que você chefie nossa delegação.
Machado ficou contente, chegou a enrubescer.
– Obrigado, Carlinhos, muita gentileza de vocês.
Entusiasmado, pediu mais duas portuguesas.
Irapuam comentou, como quem não quer nada:
– Mais uma coisa, Machado: o pessoal do Liceu daqui nos convidou para uma festinha hoje á noite, na casa de uma colega deles. É claro que não podemos estender esse convite a toda comitiva da F.E.S.N, porque é muita gente. Mas, você, se quiser ir, faço questão de te levar.
Machado, já com os olhos vermelhos, concordou:
– Tudo bem, vou com vocês. Não tem nada oficial programado para esta noite.

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Como fora previsto, o Professor Aldo não permitiu a viagem dos atletas.
Quando voltaram de Cachoeiro, Carlinhos e Irapuam foram avisando os jogadores de futebol, basquete, vôlei sobre a iminência da excursão. Não seria possível levar o time de vôlei feminino, recém-criado, para uma viagem tão grande. Evidentemente, os pais não deixariam.
E, conforme haviam decidido em reunião de diretoria, foram pedir autorização ao diretor. Este foi logo cortando o entusiasmo do pessoal do Grêmio:
– De forma alguma, isso é impossível, fora de cogitação. Onde já se viu faltar uma semana de aula, logo agora próximo das provas de meio de ano?
O pessoal argumentou. Era uma oportunidade única de sair em excursão, de projetar o nome do Liceu fora do Estado. Já tinham conseguido as passagens de trem junto à Secretaria de Educação, estava tudo pronto para a viagem.
O diretor foi irredutível.
– De forma alguma, não posso permitir uma barbaridade dessas. Onde já se viu, perder uma semana de aula?
Saíram os quatro, Jorge, Telúrio, Irapuam e Carlinhos, soltando fogo pelas narinas. Já na salinha do Grêmio, Jorge disse:
– Vamos esquecer tudo, moçada, fingir de conta que nada aconteceu.
– Isso é sacanagem dele – disse Carlinhos. – Só está fazendo isso para mostrar quem manda, quem é a autoridade.
– Mas, é assim que tem que ser, temos que obedecer – rebateu Jorge.
– Não, não é assim, não – retrucou Carlinhos. – Vamos no peito e na volta a gente vê o bicho que dá...
Irapuam concordou:
– Também acho que agora a gente deve ir de qualquer jeito. Depois do trabalhão que a gente teve para conseguir as passagens.
Telúrio, como sempre o mais ponderado, sugeriu:
– Bem, que tal a gente fazer uma assembléia com os atletas convocados e decidirmos o que fazer?
Jorge disse:
– Tudo bem, se vocês querem assim. Mas, vou logo avisando, sou voto contra. Acho que devemos obedecer à determinação do diretor.
Convocaram os atletas e, naquele mesmo dia, por volta das doze horas, após o término das aulas do turno da manhã, todos estavam reunidos na pracinha em frente ao Liceu.
Expuseram o problema aos alunos. Carlinhos pediu a palavra:
– Bem, o homem não quer deixar a gente ir, alega que não podemos perder uma semana de aulas. Já temos tudo pronto, as passagens de trem, hospedagem e alimentação garantidos. O que vocês decidem? Vamos ou não?
– Acho que devemos ir – disse Marquinhos Kid. – O máximo que pode nos acontecer é sermos suspensos na volta.
– Concordo com você – disse Carlinhos.
Jorge tomou a palavra:
– Bem, vamos colocar em votação. Todos estão cientes das conseqüências, do que pode nos acontecer. Que estiver a favor de irmos mesmo contra as ordens do diretor, levante a mão direita. Os que acham que devemos obedecer, fiquem de mãos abaixadas.
Todas as mãos dos que estavam na platéia foram levantadas. Faltavam alguns alunos do turno da noite, quatro ou cinco atletas. Jorge, vendo que fora derrotado, também acabou levantando sua mão direita. Gritos de comemoração foram ouvidos no ar e o pessoal do turno da tarde que acabava de entrar nas dependências do colégio, olhou surpreso para o alvoroço na pracinha. Até os deputados estaduais, na Assembléia Legislativa em frente, viraram o pescoço, tentando descobrir o motivo de tanto barulho.
Bem, enfim, a decisão estava tomada... iriam viajar...

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Às dez e vinte da noite de segunda-feira, finalmente o trem partiu.
Eram quarenta e dois liceístas, mais o Rochinha e o Machado, presidente da F.E.S.N., que chegou em cima da hora, quase na hora do trem partir.
Velha maria-fumaça era um dos últimos trens de longo percurso a circular no Brasil. Com a implantação da indústria automobilística no país poucos anos antes pelo Presidente Juscelino Kubitscheck, a malha ferroviária brasileira foi sendo desativada, ano após ano, no que se constituiu num dos maiores erros da política de transportes do país. As ferrovias, que se achavam implantadas em grande parte do território nacional, até mesmo nas menores cidades do interior, serviram durante muito tempo para criar novas cidades em volta das mesmas, principalmente das estações, e eram o melhor meio de escoamento da produção rural. Transporte barato, de baixo custo de manutenção, conseguia levar aos portos e grandes centros numa só viagem o mesmo que cem caminhões movidos a diesel. Enfim, essa a mentalidade brasileira da época: para implantar e desenvolver a indústria do automóvel o governo teve que ceder às pressões das grandes montadoras internacionais e extinguir a principal concorrente, a ferrovia.
Localizados num dos vagões exclusivamente para eles reservados, em poucos minutos os atletas já estavam circulando por toda a composição. Conversavam com os passageiros habituais, a maioria pequenos fazendeiros, agricultores e pecuaristas que povoavam as margens da linha férrea a partir de Niterói. O trem, chamado pomposamente de “expresso”, percorria trajeto diferente dos ônibus que se dirigiam a Vitória. Enquanto estes seguiam pela serra do Mato Grosso, passando por Maricá, Saquarema, Araruama, São Pedro d’Aldeia, Barra de São João. Rio das Ostras, Macaé e Campos, o trem seguia por Barreto, Alcântara, Itaboraí, Rio Bonito, Casimiro de Abreu, Macaé e Campos. Isto porque a rodovia, por dentro, só era asfaltada até Venda das Pedras. Dali para frente era piso de terra que, quando chovia, tornava a estrada intransitável.
No vagão onde estava a maioria deles, os liceístas faziam correr de mão as diversas garrafas de batida que levaram. Além das costumeiras de maracujá, limão e coco, apareceram outras mais exóticas, como pitanga, tamarindo, pêssego e outras frutas menos cotadas. Além de muito “samba em berlim”, que era a cachaça misturada com coca-cola, hi-fi (vodka com crush) e cuba-libre (rum com coca-cola), fora a conhecida cachaça pura mesmo. Era o que o dinheiro deles dava para comprar.
O trem corria velozmente (?), passando logo pelo Barreto, nos arredores de Niterói. Depois, ingressou em São Gonçalo, passando pelo Barro Vermelho, Porto da Pedra e outros bairros da cidade fluminense.
No vagão, o pessoal batucava e cantava alegremente, recordando sambas e marchinhas de carnavais antigos. Rochinha, que não bebia nada alcoólico, mas tinha o espírito brincalhão e divertido, em cada estação que o trem parava, quando ia dar partida para ir embora, arriava as claças e colocacava a bunda de fora, numa outra imitação dos americanos (que tinham prazer em dizer “kiss my ass”), mostrando-a para os passageiros que estavam na plataforma. Por isso, três paradas depois, o chefe do trem, um homem de uns cinquenta e poucos anos, cabelos grisalhos, espesso bigode sobre os lábios, veio nos fazer a primeira advertência, quando ainda nem havíamos chegado a Itaboraí.
– Olha, rapazes, já recebemos reclamações de algumas estações por onde passamos sobre um de vocês que coloca a bunda de fora, para exibi-la para quem se encontra na estação.
O pessoal procurou negar, mas ele foi incisivo:
– Olha, sei muito bem como é que são vocês, estudantes. Muitos viajam diariamente comigo. Vamos ver se conseguimos levar as coisas na brincadeira sadia, se não vou colocar todo mundo pra fora do trem.
Todos concordaram com ele, disseram que iriam se comportar. Mas, ninguém deu maior importância à reprimenda. A batucada e a cantoria continuaram, as doses de batida continuavam sendo servidas com generosidade.
Diga-se, a bem da verdade, que nem todos gostavam de bebidas alcoólicas. Entre eles o Nélio, o Massa, o Rochinha. Eram fãs da coca-cola ou do mineirinho, o refrigerante salutar. Mas, a grande maioria entornava à vontade os diversos sabores das batidas.
As estações se iam sucedendo, uma após a outra. Itaboraí, Tanguá, Rio Bonito, Silva Jardim, Casimiro de Abreu, Rio Dourado. Lá pelas três da madrugada, poucos haviam conseguido dormir. Uns já estavam completamente embriagados, outros vomitavam nos seus chapeuzinhos “Nat King Cole”. Alguns outros ainda conseguiam jogar baralho, mas a maioria ainda continuava a batucar e cantar músicas de carnaval. Rochinha, finalmente, decidiu dar um descanso à bunda, guardando-a por debaixo da cueca e da calça.
O chefe do trem, por vezes, passava pelo vagão dos rapazes, e vendo que não dormiam, balançava a cabeça num gesto de desânimo.
Mais estações: Conceição de Macabu, Quissamã, Macaé, finalmente Campos. Ali, o “expresso” fez uma parada de quarenta minutos. Os passageiros desceram dos vagões, esticaram um pouco as pernas e tomaram o café da manhã no restaurante da estação. Os liceístas continuavam a sua bagunça particular, falando alto, continuando a cantar as marchinhas de carnaval, invadindo o saguão da estação com sua alegria contagiante. Os demais passageiros olhavam para eles, alguns com admiração, outros com raiva por não tê-los deixado dormir. Mas, quase todos riam das suas palhaçadas e brincadeiras juvenis.
Encostado no balcão do bar, Teteco pediu ao garçom:
– Uma Brahma, por favor.
O rapaz trouxe a cerveja bem gelada, abrindo-a sobre o balcão. Telúrio encheu seu copo e convidou Irapuam para acompanhá-lo. Este pediu um copo e encheu-o até a borda, colocando o dedo indicador na mesma para que o líquido não transbordasse.
Telúrio estalou a língua. Comentou:
– Nada melhor que uma cerveja bem gelada para curar a ressaca de ontem.
Irapuam concordou, virando seu copo com satisfação. Carlinhos chegou-se a eles, pedindo também um copo e sorveu o líquido amarelo com prazer. Além de Jorge, o presidente, que era mais retraído, mais compenetrado, eram eles os três mais antigos daquela turma. Estudavam na mesma turma do científico e, no geral, tinham as mesmas opiniões sobre os destinos do Grêmio. Adoravam esportes e fizeram tudo para desenvolver o futebol, basquete, vôlei masculino e feminino nas dependências do colégio. Conseguiram, com muito esforço, a permissão do diretor para que o Liceu abrisse aos sábados, quando eram realizados jogos internos entre as turmas e séries, trazendo os alunos para suas dependências e para o lazer, não ficando só no estudo. Assim os componentes das diversas séries iam se conhecendo um pouco mais, relacionando-se entre eles. Até as meninas passaram a frequentar as tardes de sábado, umas acompanhando os namorados que iam disputar alguma partida, outras apenas de farra, só para estar junto dos colegas.
O Grêmio já organizara, no ano anterior e naquele de 1959, algumas excursões esportivas e até culturais. Já fora até Marambaia, uma ilha próxima de Mangaratiba, onde as equipes de futebol de salão jogara contra agremiações locais. Depois, viajou para o Colégio Naval, em Angra dos Reis, onde disputou partidas de futebol de campo, basquete, vôlei, natação, water-polo. Pior que o colégio nem tinha piscina para o treinamento desses dois últimos esportes. Eram liceístas que disputavam tais modalidades por clubes do Rio ou Niterói. Entre eles até um campeão sul-americano de natação, o Luiz Fernando Parreiras e seu irmão mais velho, o Luiz Carlos, campeão brasileiro. Além do Luís Felipe Figueiredo, também campeão brasileiro.
Houve outro passeio até Petrópolis, onde foi feita proveitosa visita histórica ao Museu Imperial, orientados pelo professor Carlos Alberto Coelho da Costa, o Coelhinho, que sofreu com a gente quando colocamos batida de limão no filtro do trem e ele foi beber um copo pensando que fosse água. A expressão de seu rosto quando bebeu o primeiro gole merecia um retrato emoldurado...
Ao Colégio Naval e a Petrópolis, o Grêmio também levou as meninas, pois eram excursões relativamente curtas e tínhamos a companhia de um professor nos acompanhando. Em Angra, quem nos fez companhia foi o Professor Álber, de Educação Física.
Mas, a aventura de Cachoeiro seria a maior delas. Uma semana fora de Niterói... A maior parte do pessoal nunca viajara para tão longe e por tanto tempo... e, sozinhos, sem ninguém, pai, mãe ou professor nos vigiando... Seria o primeiro grande voo para a liberdade.
O alvoroço era grande no saguão. Quase todo mundo desceu do trem, somente alguns poucos que conseguiram dormir, permaneceram no vagão. Conversavam alto, riam, contavam piadas, o álcool falando por vários deles. Muitos comeram alguma coisa, um croquete ou um pastel, enganando o estômago vazio.
O chefe da estação apitou, chamando os passageiros de volta ao trem. Já passava das seis da manhã. Telúrio acabou de virar o resto da cerveja nos três copos, bebendo rapidamente seu conteúdo. Voltaram rapidamente para o vagão.
A velha maria-fumaça retomou seu resfolegar sonolento, vencendo lentamente a linha férrea em direção à fronteira com o Espírito Santo. Atravessamos a velha ponte que ligava as duas margens do Paraíba do Sul. O sol começava a derramar seus primeiros raios sobre a paisagem verdejante que se sucedia velozmente pela janela da composição. Somente agora, depois que forraram o estômago com alguma coisa sólida na parada em Campos, alguns conseguiam pegar no sono.
Outros, entretanto, continuavam a conversar, agora em tom de voz mais baixo... O cansaço começara a vencê-los...

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Lá pelas dez da manhã, o alvoroço retornou.
Quem estava dormindo, acordou. Quem ficou acordado, continuou. O infeliz do Sérgio levara uma corneta e começou a tocá-la estridentemente, fingindo marchar entre os vagões e acordando os dorminhocos. Não só o pessoal do Liceu, mas os outros passageiros, que começaram a reclamar.
Novamente, o chefe do trem veio ao nosso vagão:
– Meus filhos, a parada de vocês é a próxima... graças a Deus – murmurou baixinho.
O pessoal começou a arrumar suas tralhas. Piroco, o roupeiro, tirou o saco com nosso material de jogo do compartimento de cima, onde ficavam as bagagens. Todo mundo foi para as janelas do trem, acenando e debochando das pessoas que ficavam à margem da ferrovia.
– Ô gostosa – mexiam com alguma mulher que varria a calçada em frente à sua casa.
– Fala, ô corno – provocavam algum trabalhador que capinava a grama do jardim.
– Veado, veado – xingavam um outro pobre coitado que estava abrindo a porta do seu armazém.
Um dos passageiros comentou em voz baixa, com a mulher ao seu lado:
– É por isso que este país não vai pra frente. Veja só o nível dos nossos estudantes de hoje em dia.
Ela concordou:
– Só sabem fazer farra. Será se estudam de verdade?
O trem diminuía a velocidade. O pico de Itabira já se via ao longe.
Enquanto passava pelos arredores da cidade, as pessoas acenavam para os rapazes, que retribuíam alegremente. A linha férrea margeava o Itapemirim, correndo paralelamente ao rio. Finalmente, soltando vários apitos, a locomotiva chegou à estação, bem no centro da cidade.
Para surpresa dos liceístas, uma bandinha começou a tocar ruidosamente, saudando os visitantes. Marchas militares, marchinhas carnavalescas...
Os atletas foram descendo do trem, retribuindo com sorrisos a gentil acolhida. Marcelo e Paulo César, à frente de outros rapazes e moças, vieram ao encontro de Carlinhos e Irapuam, que desciam as escadas do vagão.
– Tudo bem, Carlinhos? Tudo bem, Irapuam? – cumprimentou Marcelo, apertando a mão direita dos dois.
Retribuídos os cumprimentos, Carlinhos foi apresentando o pessoal: primeiro, Jorge, o presidente do Grêmio; depois, alguns diretores. Irapuam e Dario ajudavam nas apresentações.
A bandinha continuava a tocar, ruidosamente. Depois que toda a delegação desceu do trem, espalhados pela plataforma, Marcelo perguntou a Carlinhos:
– Acho melhor vocês deixarem suas coisas lá no alojamento, não é? Depois, vamos almoçar. Já escalei as casas onde vocês vão fazer as refeições. Quatro por casa, tá certo?
Passou-lhe um papel com o nome dos alunos de Cachoeiro onde os niteroienses iriam comer. Pediu:
– Por favor, distribua quatro por cada um desses nomes, apresentando-os entre eles, para que já se possam conhecer.
Carlinhos pegou a relação de nomes que Marcelo lhe entregara e tirou do bolso da calça uma outra relação com os nomes dos niteroienses.
Falou em voz alta, quase gritando:
– Prestem atenção, vocês todos. Vou dividir o nosso pessoal para o almoço e janta na casa dos colegas daqui de Cachoeiro. Logo que eu cantar os nomes, por favor, procurem o dono da casa onde vão ficar e vão logo se entrosando com ele.
Fez-se silêncio, todo mundo numa rodinha em volta dele, que tinha os dois papéis nas mãos.
Começou:
– Casa de Marcelo: Carlinhos, Irapuam, Jorge e Telúrio; Casa de Paulo César: Dario, Eduardo, Maneco, Regê; Casa de Alberto: Nélio, Massa, Rochinha, Machado; Casa de Ronaldo: Mario, Vaninho...
Continuou fazendo a divisão dos atletas, que iam se apresentando aos cachoeirenses, formando pequenos grupinhos de cinco. Começavam logo a conversar entre eles, entrosando-se de imediato.
Várias meninas da cidade, do Liceu e de outros colégios, ali estavam, olhando, curiosas para os niteroienses. Conversavam e riam baixinho entre elas, fazendo comentários sobre os rapazes, que retribuíam gentilmente os olhares.
Terminada a divisão das casas, Marcelo convidou o pessoal a acompanhá-lo até o ginásio coberto do Liceu, onde ficariam alojados. Caminharam uns quinhentos metros à beira do rio e, quando chegaram ao colégio, subiram a pequena alameda calçada que dava acesso ao ginásio.
Quando entraram no mesmo, os colchonetes já estavam espalhados pelo chão, com lençol e travesseiro em cada um. Marcelo puxou um molho de chaves do bolso, passando-o a Carlinhos,que estava ao seu lado:
– Aqui estão as chaves da porta da frente do ginásio e dos chuveiros, que ficam lá no fundo – disse, apontando com a mão direita onde ficavam os banheiros.
Carlinhos entregou as chaves a Piroco:
– Olha, Piroco, você fica sendo o responsável pelas chaves do alojamento. Se acontecer alguma merda, o responsável é você. Não pode beber, tem que vir para cá logo depois que terminarem os jogos.
Piroco, aluno do primeiro científico, que não praticava esporte nenhum, pediu para acompanhar a delegação. Como não podia ir como atleta, foi-lhe dito que, infelizmente, não seria possível sua ida. Implorou, pediu, suplicou e como todo mundo gostava muito dele, foi-lhe permitido viajar como roupeiro da delegação. O pessoal, entretanto, encarnava nele.
Piroco pegou as chaves. Telúrio gritou:
– Bem, cada um escolha seu colchonete, coloque sua bagagem em cima dele e vamos sair para almoçar. Não queremos atrasar as pessoas que vão nos oferecer o almoço. E, por favor, sejam educados, vocês estão representando o Grêmio do Liceu.
Marcelo riu da advertência de Telúrio. Em poucos minutos cada um já havia escolhido o seu leito, neles depositando suas mochilas. Ainda sobrou colchonete vazio.
Novamente saíram, seguindo os diversos grupos para as casas que lhes foram destinadas, acompanhando o aluno de Cachoeiro, dono da mesma.
Telúrio ainda fez um último aviso:
– Olha, às três da tarde, todo mundo aqui. Vai ter o desfile de abertura dos jogos às quatro.



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O desfile foi muito bonito. Acostumados às paradas de Sete de Setembro, quando se apresentavam garbosamente pela avenida Amaral Peixoto, em Niterói, os liceístas da capital do Estado sentiram-se à vontade, marchando pelas ruas de Cachoeiro ao som da “furiosa” bandinha. Nem todo mundo precisou ir ao desfile. Apenas dois atletas de cada modalidade. Telúrio teve a feliz idéia de levar uma bandeira do Liceu, toda em azul escuro com as letras LNP em branco, dentro de um losango da mesma cor.
Desfilaram os Liceus de Niterói, Campos, Cachoeiro, Mimoso, Alegre, Vitória e Guarapari. O de Marataízes só chegaria à noite. Colatina acabou não indo. A população, dos dois lados da rua principal da cidade, aplaudia freneticamente a passagem dos estudantes.
Os niteroienses, com menos de sete horas na cidade, já tinham feito várias amizades, principalmente entre as meninas. Enquanto desfilavam, trocavam acenos de mão com várias delas, que sorriam de contentamento. Para elas, aqueles jogos eram a atração máxima da cidade, quando tinham a oportunidade de receber várias pessoas dos centros maiores (principalmente os rapazes).
Terminado o desfile, Marcelo procurou os niteroienses. Disse:
– Olha, hoje à noite vai ter um coquetel de recepção para as delegações na casa da Dóris. Carlinhos, você, o Irapuam e o Dario já sabem onde é, não é? Foi onde se realizou aquela festinha da outra vez em que estiveram aqui.
– Sei sim – respondeu Carlinhos. – Pode deixar, Marcelo, estaremos lá.
– E, amanhã, pela manhã, às 9 e meia, iniciamos os jogos. A primeira partida é de futebol de campo.
Pegou um papel numa pasta e passou-o a Carlinhos:
– Olha, aqui está a tabela de todos os jogos de vocês. Bem, se estiverem precisando de alguma coisa, é só falarem comigo ou com o Paulo César.
Carlinhos pegou o papel, agradecendo:
– Obrigado, Marcelo. Não se preocupe, está tudo bem.
Os atletas se agruparam em volta de Carlinhos, procurando ver o dia e o horário de seus jogos. Telúrio disse:
– Bem, vou designar um responsável por cada esporte. Vou entregar as camisas para os jogos e os horários. Vamos pro botequim que vou providenciar uma cópia dos horários.
Dirigiram-se todos ao barzinho onde Carlinhos, Irapuam e Dario ficaram na vez anterior. Já conheciam o dono e o garçom.
Carlinhos cumprimentou:
– Bom dia, “seu” Manuel. Bom dia, Serginho.
Os dois retribuíram o cumprimento. O pessoal foi sentando junto às diversas mesas espalhadas pelo amplo salão.
Irapuam pediu:
– “Seu” Manuel, traz quatro cervejas aqui pra gente. Olha, por favor, se tiver, eu queria também papel e caneta. E algumas folhas de papel.
O português providenciou o que lhe fora pedido, mandando que Serginho levasse o material até a mesa onde estavam Telúrio, Jorge, Irapuam e Carlinhos.
Teteco fez várias cópias dos horários das competições, entregando uma para Renato (basquete), outra para Mário (vôlei), uma para Carlinhos (tênis de mesa)), outra para Irapuam (futebol de campo), mais outra para Rochinha (natação) e mais uma para Vaninho (atletismo).
A cerveja rolava farta nos copos. Outros pediram mais garrafas.
Telúrio disse, virando-se para o roupeiro:
– Piroco, quando chegarmos no alojamento, entregue o material a cada um dos responsáveis, certo?
Piroco concordou com a cabeça.
Jorge, o presidente, então falou:
– Bem, pessoal, espero que vocês representem bem o nome do nosso Grêmio. Daqui pra frente, a responsabilidade é só nossa. Proponho um brinde pelo sucesso da excursão.
Todos levantaram seus copos, batendo-os uns nos outros.
Telúrio puxou a cantoria:
–“Começou a brincadeira, olê, olê, olá...”.
O pessoal se dispersou, continuando alguns no botequim, enquanto outros iam procurar as meninas para quem haviam dado adeuzinho durante o desfile.
A noite seria longa, prometia grandes surpresas...

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No coquetel, até que as coisas correram normalmente. Beberam moderadamente, dançaram com todas as meninas, que estavam em estado de graça com a presença de tantos rapazes na cidade.
Alguns voltaram mais cedo para o alojamento, outros ainda permaneceram algum tempo mais no coquetel.
Os que se recolheram mais cedo armaram tudo. Toninho comprara alguns sacos de farinha de trigo e, tendo arranjado uma escada não se sabe onde, colocou os mesmos abertos na parte mais alta da porta de entrada, encostando-a cuidadosamente.
Quando os retardatários começaram a chegar, é claro, toda a farinha de trigo derramava-se sobre eles ao abrirem a porta. Xingavam, falavam palavrões, a voz arrastada pelo efeito da bebida e o rosto todo branco pelo pó da farinha sobre o corpo. Mas, não conseguiam conter o riso.
– Vou às forras, seus putos – xingou Roberto, uma das vítmas.
E, vendo a escada atrás da porta, armou a armadilha para o próximo incauto que chegasse.
E, assim aconteceu com o Vaninho, o Marquinhos, o Renato, o Maurício. A mesma cena: os xingamentos e a armadilha para o próximo, enquanto os que permaneciam deitados nos colchonetes não paravam de rir.
Lá pelas duas da madrugada, quando chegou o último atleta, começou a sessão de “Gamexane”. Era um poderoso inseticida, vendido em pastilhas, que acesas, produziam abundante fumaça e um cheiro insuportável, não só para os mosquitos, mas para qualquer ser vivo. Ninguém sabia de onde surgiram, quem acendia as pastilhas. Só sentiam o cheiro forte, sendo que vários corriam para fora do alojamento em busca de ar fresco. E, quando abriam a porta para sair, lá vinha outra chuva de farinha de trigo.
Somente conseguiram dormir lá pelas cinco da manhã...


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O maior vexame quem pagou foi o futebol.
Em primeiro lugar, porque o Liceu não tinha futebol de campo, só salão, mesmo assim em fase embrionária. O resto, quem jogava bola, era nos “rachas” disputados na hora do recreio ou de aulas vagas, nas quadras de vôlei e basquete. O campinho de futebol, mesmo, não era usado. Quem jogava bem o fazia fora do colégio, em clubes como o Canto do Rio, Fonseca, Niteroiense, ou até mesmo em equipes juvenis do Rio. Também havia muitos liceístas que disputavam o campeonato da LAFA, nas noites da Praia de Icaraí. Tínhamos alguns craques como o Nélio, o Massa, o Continental, o Manequinho, entre outros. O resto, eram jogadores dos dois times de futebol de salão, como o Irapuam, o Jorge, o Eduardo, o Rege, o Ronaldo, o Toninho, o Carlinhos. Juntamos todo mundo e achamos que daria uma equipe razoável.
Em segundo lugar, não conseguimos que as camisas do Grêmio que já estavam encomendadas há algum tempo, ficassem prontas para a viagem. Isso porque também ninguém esperava viajar. Por isso, de última hora, conseguimos emprestado um jogo de camisas com um dos nossos atletas, que jogava futebol na praia, o Célio. Mas, só fomos ver as mesmas no dia do jogo, quando Piroco nos entregou o embrulho em que estavam.
Simplesmente ridículas: vermelha e preta muito desbotadas, algumas até furadas...
Quando mudávamos de roupa no vestiário, Nélio, ao ver as camisas, logo protestou:
– Porra, eu tenho um nome a zelar. Não vou vestir esses trapos.
Outros seguravam a camisa com desprezo, como se fosse um objeto repelente. Pior, só tinham arranjado as camisas. Não havia calções, nem meias. Por isso, cada um vestiu os seus próprios, aqueles que tinham levado, assim como suas próprias chuteiras. Jorge, nosso presidente, colocou um ridículo gorro na cabeça, tipo daqueles usados na década de 20.
Bem, em terceiro lugar, nossas precárias condições físicas. Além de quase não termos dormido na viagem de trem e na noite anterior, estávamos ainda em fase de curar a ressaca dos dois dias de batidas e cervejas.
Assim, quando entramos em campo, a tragédia já estava anunciada.
As arquibancadas cheias, principalmente pelas meninas que queriam ver os craques niteroienses, que tanto as encantaram na véspera.
Quando entramos em campo, aquele bando de maltrapilhos, cada um com um calção diferente, um par de meias de cores variadas, deve ter sido uma decepção para as jovens casadoiras.
O árbitro olhou com asco para a camisa rasgada de Jorge, quando esse, como presidente do Grêmio e capitão do time, foi tirar o “toss” no meio de campo. Aquela touquinha branca em sua cabeça era simplesmente ridícula...
O nosso jogo era contra o Liceu de Vitória.
Dada a saída, ainda tentamos um ataque. Mas, o meio de campo deles retomou a bola e, em dois passes, chegou à entrada da nossa área. Dali, sem muita pretensão, o meia deu um chute fraco na direção do gol, mais um centro do que um chute.
A bola, caprichosamente, quicou três vezes e... entrou. Nosso goleiro, Irapuam, com sua garbosa camisa azul com as letras “ESTADO DO RIO” gravadas no peito, somente ficou olhando, sem nada fazer. Dali para frente, até o final da viagem e por durante longo período de tempo, Irapuam ficou conhecido como “Os três pinguinhos...”.
Nem adiantava reclamar: todo mundo estava de ressaca, as pernas pesavam como chumbo.
Logo depois, com menos de quinze minutos, eles já haviam feito mais dois gols, Decidiram parar, colocaram o time reserva. Ainda bem que a partida ia ter só quinze minutos em cada tempo. Estávamos doidos que acabasse logo.
Voltamos para o vestiário de cabeça baixa, mas aliviados. Enquanto tomávamos banho, os comentários:
– Olha, só o Nélio e o Massa, que não beberam nada, têm direito de reclamar. Os outros todos encheram a cara, não podem nem abrir a boca – disse Carlinhos, enquanto se ensaboava.
Jorge, o presidente, suava frio, sentado num dos bancos.
– Foi esse calor miserável, sol de dez horas da manhã, o culpado de tudo – comentou Regê.
Telúrio, nosso diretor de esportes, procurava nos consolar:
– Tudo bem, gente, foi a emoção da estréia. Daqui pra frente vamos melhorar.
Nélio tirava a camisa desbotada do corpo, atirando-a com raiva sobre o banco.
– Nunca passei tanta vergonha na minha vida – disse. – Ainda bem que o pessoal lá de Niterói não me viu jogar hoje.
O pessoal tomava banho, mudava de roupa, penteava os cabelos, iam deixando o vestiário. Abatidos, cabisbaixos.
Do lado de fora, já não havia quase ninguém. As meninas, que foram ao estádio pensando em nos aplaudir, já tinham se retirado. Somente Marcelo e Paulo César ali permaneciam.
– Tudo bem gente, não esquentem a cabeça. Foi a estréia de vocês. E, o time deles é muito bom, deve ser o campeão disparado. Tem, até jogador profissional na equipe – tentou animar o pessoal, mas sem conseguir esconder um pequeno sorriso de ironia no canto da boca.
Paulo César juntou-se a Marcelo:
– Hoje à tarde, depois do almoço, vão ser as provas de natação. Os nadadores de vocês são bons?
Telúrio respondeu, meio sem jeito:
– Só conseguimos trazer um. Mas, ele é muito bom, nada todos os estilos – chutou, sem saber se aquilo que dissera era verdade.
Só Carlinhos e Piroco permaneciam no vestiário.
– Piroco, confere todo o material, vê se não esqueceu nada aí – disse Carlinhos, enquanto ajeitava o topete “à la Elvis” na testa, com o pente de osso.
– Pode deixar, pode deixar – resmungou Piroco, enquanto colocava as camisas suadas no saco de couro.


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O almoço na casa dos cachoeirenses não foi muito alegre, naquele primeiro dia dos jogos. Pelo menos, para o pessoal do futebol. Tristes, acabrunhados, evitavam comentar detalhes da derrota vexatória. Os outros atletas, do vôlei e basquete, não foram tão afetados, mas também não esbanjavam alegria. Procuraram brincar com os anfitriões no almoço, contavam as novidades do Rio e Niterói, falavam do seu Liceu, narravam histórias da sua cidade.
Pelas duas e meia, a maioria estava descansando no alojamento, lá no ginásio coberto. O chão, junto à porta, ainda estava manchado do branco da farinha de trigo, no ar sentia-se um leve odor de“Gamexane 22”. As provas de natação começariam às quatro horas.
Rochinha dirigiu-se para a piscina do clube da cidade por volta das três da tarde. Acompanhado por Telúrio, Carlinhos, Nélio e mais uns cinco liceístas, chegou, trocou de roupa, vestindo a sunga de natação do Regatas, onde era atleta.
Lavou a alma do pessoal... Disputou as provas de nado livre, costas, peito, borboleta, medley, nas várias distâncias estipuladas. Ganhou todas. E, numa delas, nos 100 metros costas, quando estava chegando ao final, com mais de meia piscina de vantagem sobre o segundo colocado, debochadamente, começou a jogar esguichos de água para cima com a boca, como se fosse uma baleia. Ganhou todas as medalhas possíveis, foi aplaudidíssimo.
Novamente o ego dos niteroienses foi lá em cima. As meninas voltaram a assediá-los, a população retomou os paparicos. A vergonha do futebol, na manhã anterior, parecia que ia ser esquecida.
À noite, outro baile. Agora, na casa da Silvinha, outra liceísta local.


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Naquela noite, a mesma bagunça. A brincadeira da farinha de trigo não colou mais, o pessoal já estava prevenido. O “Gamexame” ainda foi solto algumas vezes, mas em número menor. Cansados do dia agitado, foram alcançados pelo sono e dormiram mais cedo, por volta de uma da madrugada.
No dia seguinte, depois do café da manhã na casa de Marcelo, Carlinhos preparou-se para a competição de tênis de mesa. Dirigiu-se para o clube e lá já estava o Machado, presidente da F.E.S.N. que, com ele, iria disputar a partida de duplas.
Carlinhos venceu as duas primeiras partidas de simples, perdendo na final para um liceísta de Guarapari. Ficou com a medalha de vice-campeão.
Nas duplas, ele e Machado venceram todos os oponentes, sagrando-se campeões. Mais medalhas para o Liceu de Niterói...
Na parte da tarde teria prosseguimento a competição de futebol de campo, da qual o Liceu estava eliminado e, portanto, não estaria mais participando. Ainda bem...
Veio a noite, quando tiveram lugar as eliminatórias de vôlei e basquete masculinos. O Liceu niteroiense venceu facilmente seus adversários, passando para a fase seguinte, ainda na mesma noite. Por volta das dez , voltaram à quadra, ultrapassando também com facilidade seus dois oponentes. Já estavam classificados para as semifinais, no dia seguinte.
O basquete tinha um timaço. Telúrio, Geraldo Pimentel, Roberto Pimentel, Renato Kid, entre outros, todos jogadores juvenis e adultos do Regatas, Central, Canto do Rio, Flamengo, Fluminense ou Botafogo.
O vôlei, apesar de não ter tantas estrelas, também era um time muito forte: Mario, Sérgio Bonvini, Haroldo, Waldo, eram os mais conhecidos, também atletas de diversos clubes de Niterói.
Como os jogos terminaram depois da meia-noite, não tiveram tempo para emendar uma cerveja no botequim do “seu” Manuel. Os que não participaram dos dois jogos ficaram assistindo, alguns deles já de namoradas locais a tiracolo. Realmente, as meninas da cidade voltaram a ficar encantadas com os niteroienses, mesmo após a vergonha do futebol de campo. Iam atrás deles para todo canto onde fossem, convidavam-nos a lanchar em suas casas, procuravam levá-los para um cantinho escuro onde pudessem namorar mais à vontade.



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Na quinta, as competições de atletismo.
Somente Telúrio, o Maia e Marcelo representaram o Grêmio.
Telúrio venceu os 100 metros, Maia foi terceiro nos 400 rasos. Só Marcelo não foi bem nos 800 metros. Mas, foi o primeiro no salto em distância e no salto triplo.
Outras medalhas para a coleção liceísta.
Depois do almoço, o pessoal se dispersou. Uns foram tentar dormir à tarde, quando era mais calmo que à noite. Outros foram para a piscina. Alguns acompanharam as namoradas ao cinema.
Eles estavam impressionados como as quadras, as pistas, a piscina, estavam sempre cheias. Não só os alunos iam prestigiar os jogos. Grande parte da população ali também comparecia, pessoas de todas as idades, jovens e velhos.
Depois do jantar, ao qual agora poucos já compareciam, pois as namoradas faziam questão de levar os rapazes para suas casas, chegou a hora das semifinais de basquete e vôlei.
A quadra estava cheia, as cadeiras de metal destinadas às autoridades já estavam todas tomadas. Muita gente em pé, cercando o quadrilátero de cimento.
A equipe de vôlei do Liceu de Niterói entrou. Ainda bem que o uniforme deles, camiseta ouro com frisos azuis, calções azul com frisos ouro, ficou pronto a tempo. Era, realmente, um uniforme muito bonito, inspirado nas cores da seleção brasileira de futebol que ganhara o campeonato mundial de 1958.
Foi um jogo emocionante contra o Liceu de Campos. Ganhamos o primeiro set, perdemos o segundo, ganhamos o terceiro, perdemos o quarto. Fomos para o último set, o decisivo. Naquele tempo não havia tie-brake, ainda havia a vantagem antes do ponto ser consignado. Por isso, as partidas estendiam-se por horas. Mas, no final, vitória nossa. Estávamos na final.
Um intervalo de quinze minutos, que deu tempo para os assistentes darem um beijinho nas namoradas, ou uma cervejinha gelada para aqueles sem as ditas cujas. Tinha gente espalhada por todas os arredores da quadra. Parecia quermesse ou festa junina. Claro, já existiam barraquinhas vendendo cachorro quente, cerveja, refrigerante. Sabedores das preferências dos niteroienses, alguns ambulantes vendiam batidas de diversos sabores, além da caninha pura.
Chegara a hora da semifinal de basquete. Niterói contra Vitória. As equipes entraram em quadra, o Liceu de Niterói também estreando seu uniforme amarelo ouro e azul escuro. Foi um verdadeiro massacre, o pessoal da capital capixaba não deu nem para torcer. Liceu de Niterói 102 x Liceu de Vitória 38. Nunca se vira uma atuação tão perfeita de um time de basquete em terras cachoeirenses.
Naquela noite, mais uma festa, agora na casa de Margareth. Todo mundo compareceu e, alegres e contentes, comemoraram as duas vitórias da noite.
O som da vitrola hi-fi na enorme casa de dois andares tocava em seu volume máximo. Ray Conniff, Nat King Cole, Frank Sinatra, Lucho Gatica, entre outros, embalavam os jovens casais que dançavam no amplo salão. Havia uma enorme mesa na varanda anexa, com pratos de salgadinhos variados e garrafas de vodka, rum, coca-cola, crush, água tônica, mineral, jarras de ponche e cidra... Estranhamente, os pais de Margareth não ficaram controlando nada, deixando o pessoal se servir à vontade...
Lá pelas onze e meia, surgiu um jovem cabeludo, magrinho, com uma guitarra elétrica nas mãos e o pessoal da cidade se reuniu em volta dele. Usava calças brim coringa, camisa de seda aberta no peito, um enorme colar com um medalhão pendendo-lhe do pescoço. Os dedos das mãos, cheios de anéis espalhafatosos.
O som da vitrola foi desligado e todos se preparavam para ouvir o rapaz.
Curioso, Carlinhos perguntou a Marcelo:
– Quem é o cara, Marcelo?
– É o Roberto Carlos, filho daqui de Cachoeiro, que está começando a fazer sucesso lá no Rio. Só canta versões de músicas americanas.
Carlinhos já ouvira falar vagamente no rapaz. Parece que ele se apresentara há pouco tempo no programa de calouros do Ari Barroso. Marcelo explicou que agora ele estava morando em Niterói, mas vinha sempre a Cachoeiro, em visita a parentes e amigos.
Realmente, ele só cantou versões de rocks americanos: Malena, Splish, Splash, O Calhambeque, Aquele Beijo que eu te dei, e outras menos cotadas... Até que cantava direitinho, apesar de ter a voz pouco vibrante, pouco sonora... Mas, a juventude da época adorava aquele tipo de música, macacos de auditório que eram de tudo que era norte-americano...
O pessoal começou a voltar para o alojamento por volta das duas da manhã. No dia seguinte, não haveria competições pela manhã, poderiam dormir até mais tarde. Voltavam, um grupo de uns oito, subindo a pequena ladeira que dava acesso ao alojamento. Conversavam alegremente, a alma lavada pelas duas vitórias, pela satisfação da noite de festa que desfrutaram. Distraidamente, conversando com o pessoal, Mario abriu a porta. Quando deu o primeiro passo para ingressar no recinto, a farinha de trigo caiu toda sobre sua cabeça. Com cara de babaca, arrependeu-se de nem mais ter pensado naquilo. A cara e a roupa toda suja de farinha, começou a bater com as mãos sobre o corpo, tentando livrar-se do pó pegajoso.
O pessoal que estava dentro, já deitados nos colchonetes e os que estavam fora esperando para entrar, caíram na gargalhada, debochando da vítima.
– Toninho, vou às forras, você não perde por esperar – disse Mario, dirigindo-se ao Toninho, que fingia dormir, mas não conseguia aguentar o riso.
Ele tentou se defender:
– Porra, por que você vem acusar logo eu? – perguntou, sem conter o sorriso maroto no canto da boca.
– Eu te conheço, “seu” puto, eu te conheço, sei que foi você – retrucou Mario.
Fuzilando de raiva, tentando ainda tirar o pó da farinha de cima da roupa, acendeu a luz de propósito:
– Vocês querem sacanagem, não é? Pois agora, ninguém mais vai dormir.
Quem estava deitado, reclamou:
– Apaga a porra dessa luz que eu quero dormir. Vão curar o porre de vocês lá fora...
Mario pegou a corneta que estava encostada num canto da parede e começou a tocá-la, a plenos pulmões.
O pessoal continuou a reclamar:
– Porra, eu quero dormir. Pega essa corneta e enfia no rabo.
Mario não deu ouvidos, continuou a tocar.
Começaram a atirar travesseiros contra ele. Dali a instantes, todos atiravam os travesseiros uns contra os outros. Aquilo virou uma bagunça geral, o pessoal gritava, ria, falava alto.
Até chegar o administrador do colégio. Bateu delicadamente na porta, uma, duas, três vezes. Somente quando perceberam as batidas, Telúrio, de cueca e sem camisa, foi atender. Pela porta entreaberta, o administrador pediu educadamente que fizessem silêncio e apagassem a luz. Telúrio pediu desculpas e fechou a porta.
Mandou todo mundo ficar quieto, calar a boca e irem dormir.
– Porra, vê se vocês sossegam. Não vão querer arranjar idéia da gente acabar sendo expulsos da cidade – gritou. Virando-se para Mario, ordenou: – Mario, porra, pára com a merda dessa corneta.
A luz foi apagada, todos se deitaram, mas continuaram conversando em voz baixa, alguns até o dia clarear.



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No dia seguinte, pela manhã, muita gente apareceu na piscina usando óculos escuros. As noites mal dormidas estavam cobrando seu preço.
Algumas meninas da cidade, que já se consideravam namoradas de rapazes da delegação niteroiense, desde as sete da manhã aguardavam do lado de fora do ginásio que seus escolhidos acordassem. Tinham marcado com eles tomarem o café da manhã juntos, nas casas delas.
Telúrio, que também era um dos atletas da equipe de basquete, convocou todos os jogadores para uma conversa naquela manhã:
– Olha, gente, quero pedir a vocês concentração total para a final de hoje à noite. Nosso time está dando um show, não pode jogar essa medalha fora. Por isso, nada de cervejinha durante o dia, façam refeições leves e procurem descansar.
O resto da equipe concordou. Discutiram a tática de jogo, armação de jogadas, quem iria marcar quem.
O mesmo aconteceu com o vôlei. Apesar de não ser tão bom como o basquete, estavam a um passo do título. O time de vôlei não tinha um líder. Recém-formado, ainda estava em fase de entrosamento. Todos tinham mais ou menos a mesma idade, cursavam a mesma série ou próximas. Mas, era de excelente qualidade, pois quase todos os atletas jogavam em equipes juvenis e até adultas de clubes. Começaram a treinar há menos de um mês, nos sábados de festa no Liceu, juntamente com a equipe feminina.
Naquele dia, o penúltimo da excursão, poucos foram almoçar nas casas dos cachoeirenses. Somente o pessoal do basquete e vôlei, que teriam jogo à noite, lá compareceu.
Os outros atletas, cujas competições já haviam terminado, passaram o dia na piscina ou no botequim do “seu” Manuel. O pessoal que ficou na piscina era o que já tinha namorada fixa. Os que baixaram acampamento no botequim eram os que não quiseram ficar presos a namorinhos de mãos dadas, visitas aos pais das garotas. Apesar da oferta feminina ser farta e variada. Tinha de tudo, à escolha dos rapazes. Namoro com moças de família, empregadinhas domésticas que estavam apenas a fim de um “sarrinho” num canto escondido, bem como coroas solitárias que ansiavam por uma companhia masculina mais jovem. Por isso, as preferências femininas dos rapazes se dividiram.
Alguns poucos mais abastados e mais velhos subiram o morro para visitar uma casa de tolerância local.
No bar ficaram os frequentadores de sempre: Telúrio, Irapuam, Carlinhos, Toninho, Silvinho, Machado e alguns outros não tão assíduos, mas que decidiram acompanhar os mais velhos na falta de melhor opção. Até Irapuam, que em Niterói era tido como namorador inveterado, ali preferiu ficar com a turma da birita.
Juntaram quatro mesas, pediram alguns salgadinhos para beliscar e muita cerveja para beber. Em pouco tempo o tampo da mesa estava repleto de garrafas vazias de Brahmas e Portuguesas. Ficaram por ali cantando músicas de carnaval, batucando nas mesas, fazendo uma algazarra geral.
Lá pelas três da tarde, Telúrio, já ligeiramente alcoolizado, os olhos vermelhos, pediu a um cidadão que estava em pé, encostado no balcão:
– Garçom, traz mais duas Brahmas, aqui pra gente...
O sujeito nem deu bola, fingindo não ter ouvido. Passados uns dez minutos, Telúrio repetiu o pedido:
– Garçom, por favor, traz mais duas Brahmas pra gente...
Nada, o cara continuou em pé, junto ao balcão, de costas para as mesas dos rapazes.
Telúrio esperou mais um pouco e, com cara de enfezado, levantou-se e foi até o balcão. Irritado, bateu de leve nas costas do sujeito, dizendo, em tom de censura:
– Porra, meu amigo, se você não quer servir a gente avisa logo. Estamos fazendo uma despesa enorme aqui, a gente merecia um pouco mais de consideração.
O homem, aparentando uns cinqu enta e poucos anos, cabelos grisalhos, barba por fazer, um pouco gordinho, olhou para Telúrio e respondeu calmamente:
– Olha, meu amigo, gosto muito de estudante, meu filho também é um aqui em Cachoeiro, mas garçom é a puta que o pariu...
O cara era apenas um dos fregueses costumeiros do botequim do “seu” Manuel e estava tomando sua cachacinha sossegado encostado no balcão.
Telúrio, sem graça, pediu desculpas várias vezes, pediu as cervejas diretamente ao português por trás do balcão e voltou para a mesa, sem nada dizer.
O pessoal caiu na gargalhada e não parou de encarnar em Telúrio.
Já eram quase seis horas quando deixaram o bar. Meio de pilequinho, as pernas um pouco trôpegas, subiram a alameda que dava no alojamento. Continuavam a cantar, falavam em voz alta. Iam tomar um bom banho, preparar-se para a noite, que se prenunciava movimentada.


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A quadra estava lotada. Quer dizer, o entorno da quadra. Foi necessário colocar uma corda em volta da mesma, a fim de evitar que o público se excedesse em seu entusiasmo e a invadisse.
Praticamente, quase toda a cidade ali estava. Naquele tempo, quando a televisão ainda engatinhava, ainda na fase do preto e branco, e as cidades do interior ainda não a pegavam direito, o ponto forte das pequenas localidades do interior eram os passeios da população em volta das pracinhas ou pelas suas ruas principais. Era o chamado “footing”, tão característico daquela época.
E, nas cidades menores, quando eram visitadas por delegações de fora, principalmente as esportivas, as competições realizadas eram o ponto máximo de atração enquanto durasse a visita.
Naquele ano de 1959, os Jogos Inter-Liceus se constituíam num tremendo sucesso. Não só pela presença dos colégios mais próximos, os do Espírito Santo e o de Campos, que ali costumavam comparecer em todas suas edições. Mas, principalmente, pela vinda do Liceu de Niterói, que ali estava pela primeira vez e era, sem dúvida, a grande atração da festa.
A ansiedade era grande pelas finais de vôlei e basquete, na última noite dos Jogos.
Às sete e meia, as equipes entraram em quadra. O uniforme dos niteroienses mal tivera tempo de secar, lavado que fora na madrugada anterior, após o jogo da véspera. Telúrio arranjara às pressas uma lavadeira na cidade, dando-lhe uns trocados pra lavar os uniformes. O adversário, o Liceu de Vitória, era tido como time poderoso, campeão invicto no seu Estado e jogando há muito tempo junto. Ganhara quase todos os adversários anteriores por três sets a zero, o que bem demonstrava seu poderio.
O jogo começou, disputado ponto, vantagem a vantagem. Depois de muita luta, vitória dos capixabas no primeiro set. O segundo foi ainda mais disputado, com vantagens para um lado e outro, pontos se revezando no marcador. Rogerinho, do Liceu niteroiense, sentiu uma distensão muscular e não pôde continuar na partida. Nova vitória dos capixabas, agora por uma diferença maior de pontos.
Tudo parecia perdido para os niteroienses. Perdendo por dois sets a zero, sem Rogerinho, um dos seus melhores jogadores, parecia inevitável a derrota. Mas, conseguindo arrancar forças escondidas, venceram o terceiro set.
O jogo ainda estava tranqüilo para os capixabas, que pareceram não sentir a perda do set anterior. Começaram fazendo quatro a zero no quarto set. Mas, Niterói novamente reagiu e lutando heroicamente, virou o marcador e acabou também vencendo aquele set.
Iam para o quinto e último, o decisivo. Jogo disputadíssimo, com as equipes se alternando na frente do marcador. Mas, no final, sob gritos frenéticos da torcida e com os atletas chorando na quadra, vitória do Liceu de Niterói.
Foram carregados em triunfo, abraçados, amassados, beijados pelas garotas. Foram necessários quase vinte minutos para que a emoção da vitória vibrante diminuísse.
Entraram em quadra, então, as duas equipes finalistas do basquete: Os Liceus de Niterói e o de Campos. Apesar de ser também uma equipe forte, os campistas não assustavam os niteroienses. A vitória veio com certa tranqüilidade, sem maiores sustos. 96 X 68, com a equipe niteroiense dando novo show em quadra.
Comemorações, muita alegria, os atletas vitoriosos foram finalmente tomar um merecido banho. No clube, haveria o baile de despedida para todas as delegações.
A noite prolongou-se até as quatro da madrugada, com muitas lágrimas de despedida entre os casais recém formados, mil promessas de um breve retorno à cidade ou de visitas das namoradas a Niterói.
Telúrio, mais uma vez, teve a feliz idéia de encomendar várias corbeilles de rosas, que foram entregues pelos atletas às donas das casas onde fizeram as refeições.
Realmente, aquela delegação do Liceu de Niterói iria deixar saudades nos habitantes das terras cachoeirenses.
Quando voltaram para o alojamento, ninguém conseguiu dormir. Ficaram conversando até o dia clarear.
O trem de volta partiu da estação às set e meia da manhã. Na estação, as despedidas finais, com Marcelo e Paulo César à frente do pessoal de Cachoeiro. Acenos de adeus, beijos, abraços, apertos de mão na plataforma lotada.
Já com a locomotiva em movimento, iniciando a longa viagem de volta, o pessoal conversava alegremente, relembrando os momentos felizes que passaram na cidade.
Nélio, nosso excelente meio-de-campo, sentado displicentemente num banco do vagão, ditava as notas dos atletas, em especial os de futebol de campo:
Irapuam: zero com estrelinhas:
Jorge: zero com estrelinhas.
Carlinhos: zero com estrelinhas.
Mario: zero com estrelinhas.
Poucos tiveram nota alta, que foi cinco.
Realmente, futebol foi o nosso maior vexame.
Ainda bem que nos outros esportes demos a volta por cima e voltamos carregados de medalhas.
Na semana seguinte, temerosos, fomos convocados ao gabinete do diretor.
Já nos preparávamos para receber uma bronca daquelas, sermos suspensos pelo menos por uma semana.
O Professor Aldo, ao nos ver perfilados à sua frente, com as medalhas luzindo em nossos peitos, não conteve o sorriso. Cumprimentou um a um, apertando nossas mãos. Apenas disse:
– Soube que vocês se comportaram muito bem na cidade e honraram o nome do Liceu. Parabéns pelas medalhas. E, que essa indisciplina não se repita – advertiu, com um tom de voz misto de seriedade e compreensão.
Essa nossa excursão a Cachoeiro do Itapemirim ficou gravada na mente de todos nós e até hoje, passados quase cinquenta anos, dela recordamos com saudade.
E, pelo que soube, nunca mais o Liceu Nilo Peçanha voltou àquela cidade maravilhosa, que nos acolheu de forma tão amável e amiga...


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