quarta-feira, junho 29, 2016

O "DATA VENIA"...



O  "DATA VENIA"...

Calfilho




                     Em setembro de 1973 morava no bairro do Leme e, naquela ocasião, enquanto passeava pelo calçadão da praia levando minha filha de 7 anos por uma das mãos,  com a outra empurrava o carrinho do meu filho Duda, então com pouco mais de um ano de idade. Olhava, com admiração e com muita vontade de estar participando, as "peladas" que eram disputadas na areia da praia.
                    Já não jogava uma há algum tempo. Desde que fui trabalhar no Banco do Brasil, na cidade de Cantagalo, no final de 1964, abandonei o futebol de campo, areia e salão que estava acostumado a praticar durante toda a semana quando morava em Niterói. 
                         É verdade que a AABB (Associação Atlética Banco do Brasil) cantagalense tinha um time de futebol de salão e nele logo me inscrevi. Mas, os jogos eram poucos e muitos deles aos sábados ou domingos, quando eu não estava na cidade. Voltava para Niterói para passar o fim de semana com minha família, pois meu pai havia falecido há pouco mais de um ano.
        Quando fui transferido para a agência de Niterói, logo ingressei no time de futebol de campo e disputei várias partidas pela equipe, mas sem a mesma frequência de antigamente.
         Quando entrei para o Ministério Público fluminense, as "peladas" rarearam ainda mais. Havia perdido o contato com a minha turma de ex-liceístas do futebol de praia, meu ambiente de trabalho era outro, e, uma vez ou outra participava de um "racha" de confraternização entre advogados, promotores e juízes.
                      Em 30 de setembro de 1973 entrei para a magistratura do antigo Estado da Guanabara. O trabalho ocupava todo o meu tempo, inclusive os fins de semana, quando levava processos para casa para estudar ou sentenciar.
                   O contato com a bola me fazia muita falta, eu que era um verdadeiro "secura" por um bom "racha"...
                 Já em meados de 1974, um advogado carioca entrou no meu gabinete para despachar um processo e, no meio da conversa, comentou:
                  -- Excelência, o senhor é amigo do Custódio, não?
              Respondi afirmativamente. Custódio era cunhado de um funcionário do forum de Casimiro de Abreu, minha primeira comarca como Promotor de Justiça, em 1970. Quando eu precisei comprar um carro para deslocamentos para a comarca, esse funcionário indicou-me o Custódio, que morava em Ramos e ajudava numa oficina mecânica. Comprei o carro e ficamos amigos.
           Sempre que eu precisava de algum reparo no veículo, dirigia-me até Ramos e ali passávamos as tardes de sábado.
                  O advogado continuou:
              - Custódio me disse que o senhor gosta muito de participar de uma partida de futebol, verdade?
              -- Sim, muito -- respondi.
         -- Olha, eu faço parte de um grupo de promotores, juízes, advogados e ex-jogadores de futebol profissional que costumam jogar uma boa "pelada" aos sábados...
              Logo perguntei:
              -- Onde?
           -- No campinho da Escola Nacional de Educação Física, atrás do Canecão, junto ao campo do Botafogo -- respondeu. -- Se o senhor quiser, sábado eu estarei lá e o apresento ao pessoal.
                -- OK, combinado -- agradeci.
           E, no sábado seguinte lá eu estava. Fui apresentado aos "atletas", quase todos na casa dos quarenta anos ou próximo disso.                O presidente era um Promotor de Justiça do Rio de Janeiro, que eu ainda não conhecia pessoalmente: Newton Lourenço Jorge. Baixinho, magrinho, costumava jogar de cabeça de área. Havia um outro Promotor de Justiça, Joaquim Lobo, que trabalhara comigo na 15ª. Vara Criminal. Um juiz de Direito, Pedro Ligiero. Alguns procuradores do Estado, muitos advogados. Outros, ex-jogadores de futebol profissional, como Jomar Macedo (ex-Atlético Mineiro e Vasco da Gama), Richard (ex- Botafogo e um dos meus jogadores preferidos do meu time de futebol de botão, quando eu tinha 11, 12 anos de idade), Soares e Roberto (ex-América), todos formados em Direito depois que abandonaram os campos.
            Explicaram-me que os times eram divididos por ordem de chegada, sendo cada equipe composta por oito jogadores. Igual ao meu antigo futebol da Praia de Icaraí, no início dos anos 60. 
             Eram jogadas duas ou três partidas, dependendo do número dos que compareciam. Depois, no bar da Faculdade, havia uma confraternização regada a cerveja.
           O nível do futebol praticado era excelente, de alta qualidade, até pela presença de ex-jogadores profissionais no grupo.
         Depois do terceiro ou quarto sábado, já estava completamente enturmado. Fazia questão de chegar cedo pois a primeira partida era a de melhor nível técnico.
           Em dezembro de 1974 voltei a morar em Niterói, na casa que meu pai construiu em São Francisco e que acabei comprando de minha mãe. Ali criei meus filhos antes de voltar a morar no Rio.
        Mesmo com a distância sendo maior, não deixei de comparecer  aos sábados no "Data Venia". Acordava por volta das 5 da manhã, pegava o carro, atravessava a ponte e ia para Botafogo.
            Só quando assumi a presidência do I Tribunal do Júri deixei de frequentar a "pelada" de sábado. Com os julgamentos entrando pela madrugada, às vezes só terminando na manhã do dia seguinte, não tinha mais condição física para correr atrás da bola no fim de semana.
             Lá, entretanto, fiz bons amigos e pude matar as saudades da velha companheira de infância: a bola de futebol...
             Foi uma das boas fases da minha vida...

sábado, junho 18, 2016

A QUEDA DA ARROGÃNCIA...

A QUEDA DA ARROGÂNCIA...


Calfilho




                     Não posso esconder a alegria que senti quando foi anunciada, nesta semana, a queda do "treinador" Dunga do comando da seleção brasileira de futebol.
                       Já de algum tempo deixei de me empolgar com nossa seleção. Mesmo antes do fatídico 7 X 1 que nos foi imposto de forma humilhante, em pleno estádio do Mineirão, em 2014. Esse, para mim, já era um resultado anunciado há muito tempo. Talvez desde 1994, quando fomos campeões do mundo jogando um futebol feio, retrancado, sem a beleza e o esplendor das seleções de 1958, 1962, 1970 e, até mesmo a de 1982, quando não ganhamos a competição mas exibimos um futebol de primeira linha. De 1994 em diante o futebol brasileiro decaiu, apequenou-se, tornou-se presa fácil de adversários até então facilmente batidos, apenas com a exceção da equipe de 2002, onde somente o talento individual de Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo nos conduziram a mais um título mundial.
            Desde que os empresários tomaram conta do nosso futebol, permitindo que jovens promessas fossem vendidas para o exterior quando ainda não haviam completado 20 anos de idade, o talento desapareceu de nossos campos e os jogadores foram sendo criados e desenvolvidos no exterior, em times europeus, deixando de lado toda a improvisação e a genialidade dos jogadores brasileiros de antigamente, tornando-se "marcadores" implacáveis, "destruidores" ferrenhos. Poucos se salvaram desse êxodo impossível de conter. Talvez apenas Romário, Ronaldo (que cedo foram para a Holanda), Ronaldinho Gaúcho (que foi para o Paris St. Germain) e alguns poucos outros mais. A seleção brasileira passou a ser formada por "estrangeiros", isto é, por jogadores nascidos no Brasil e formados no exterior.
          Dunga é um dos representantes desse êxodo. Jogador mediano, aqui atuou pelo Internacional, Vasco e Corinthians, sem muito brilho. Vendido para a Europa, jogou sem ser quase percebido em alguns clubes italianos e alemães. Convocado para a seleção brasileira de 1990, de triste lembrança, foi o responsável pela criação da chamada "era Dunga"", sinônimo de jogador sem brilho, acostumado a dar carrinhos, que gostava de jogar futebol "deitado" e não em pé. Convocado novamente para a seleção de 1994, conseguiu dar a volta por cima e foi campeão do mundo, ajudado por Romário, Bebeto, Jorginho, Leonardo e outros de maior expressão que ele.
        Como jogador, foi no máximo razoável, beirando à mediocridade. Sem nunca ter treinado ao menos uma equipe foi guindado a técnico da seleção de 2010, que foi desclassificada pela Holanda. Dunga, nessa seleção, ficou conhecido por seu mau humor, sua quase raiva, sua impaciência e falta de educação com jornalistas e torcedores. Nada acrescentou como técnico, como não tinha acrescentado antes como jogador. Prepotência e arrogância foram suas marcas principais no comando da seleção.
                 Seu colega, Scollari, também da mesma escola gaúcha, na Copa do Mundo de 2014, fez-nos passar o maior vexame que uma seleção brasileira de futebol proporcionou em todos os tempos: as derrotas por 7 a 1 para a Alemanha e por 3 a zero para a Holanda, uma após a outra. Mas, não perdeu a pose, a arrogância, a postura de quem se achava o dono da verdade.
                E, surpresa: Dunga é novamente chamado para dirigir a seleção brasileira, depois de ter fracassado como técnico do Internacional gaúcho. Já mais velho, certamente controlado por seus assessores e chefes, iniciou um trabalho que todo mundo sabia no que ia dar: em nada. Mas, não perdeu a arrogância, a prepotência, a expressão raivosa e carrancuda de dono da verdade.
             É certo que o futebol brasileiro não é mais o mesmo: alegre, descontraído, moleque, gostoso de ser visto. Hoje, com praticamente todos os jogadores atuando em clubes europeus desde o início de suas carreiras, perdeu a magia, o encanto. Ficou apenas o futebol quadrado, sem graça, sem imaginação, desprovido de talento e de improvisação.
           Mas, acho que qualquer outro técnico, que ao menos conheça e ame o verdadeiro futebol do Brasil pode fazer melhor...
                 Dunga é mais um arrogante que deixa cair sua máscara.                    Assim como a presidente da República recém afastada...

quinta-feira, junho 16, 2016

MÚSICA POPULAR...



MÚSICA POPULAR...

Calfilho



                 Antes de começar a escrever a matéria, devo esclarecer que meu conhecimento sobre música é apenas o de um ouvinte entusiasmado, por vezes até apaixonado em escutar determinados tipos de música. Não sou conhecedor profundo, apesar da tímida tentativa que fiz em aprender a tocar violão, na minha adolescência e, mais tarde, já adulto. Mas, nunca tive a paciência e a disciplina necessárias a um bom aprendizado.
               Apesar de achar muito bonita e tranquilizante, a música conhecida como clássica nunca me atraiu. Já ouvi algumas obras de Mozart (visitei, algumas vezes, Salzburg, sua cidade natal), Bethoven, Chopin, Wagner, Villalobos, mas nunca cheguei a me entusiasmar com elas,
             Na década de 50, em que vivi minha adolescência, a música norte americana tinha grande influência no Brasil, principalmente depois do surgimento da verdadeira revolução musical que foi o rock and roll. As emissoras de rádio, a televisão, as lojas de discos só tocavam músicas cantadas por Elvis Preesley, Little Richard, Neil Sedaka, The Platters, Nat King Cole (os dois últimos cantando mais blues). É certo que já tínhamos o jazz, estilo clássico da música popular americana, criado com base nas raízes dos negros africanos, levados para os Estados Unidos como escravos.
                  Aqui, nos finais de ano, tínhamos as grandes orquestras, famosas por tocarem em bailes de formaturas de colégios, inclusive do meu, o Liceu Nilo Peçanha, de Niterói. Eram as orquestras de Severino Araujo, Epaminondas, Moacyr Silva, Waldemar Spilman e tantas outras. Imitavam um pouco as grandes orquestras norte americanas da década de 40, como as de Glenn Miller, Duke Ellington, Artie Shaw, Benny Goodman, Tommy Dorsey, sendo que nestas cantavam artistas do naipe de Frank Sinatra e Billie Holiday.
          Na referida década de 50, as músicas brasileiras que ouvíamos e cantávamos eram, principalmente, as marchinhas de Carnaval, muito samba-canção, e, também a música de fossa, que tinha em Maysa, Tito Madi, Lucio Alves, Jamelão e Silvinha Telles, seus principais intérpretes. Os boleros mexicanos também eram muito tocados, em especial nos bailinhos em casas de alunos do Liceu ou nas domingueiras do Regatas. Era a música mais fácil para nós, jovens rapazes e moças, darmos os primeiros passos na dança de salão. "Dois pra lá, dois pra cá...".
               As músicas brasileiras das décadas de 30 e 40 parece que haviam caído no esquecimento.
          Só bem mais tarde, já na década de 70, quando tentei novamente aprender a tocar violão, foi que descobri o verdadeiro tesouro que foi a década de 30 em matéria de música popular brasileira.
              A bossa nova já havia surgido no início da década anterior, a de 60, e era a grande sensação da época. Cheguei a frequentar, mesmo que esporadicamente, algumas pequenas boates de Copacabana (chamadas pejorativamente de "inferninhos"), onde tocavam muitos daqueles que seriam grandes expoentes da bossa nova. No "Beco das Garrafas" funcionavam quatro ou cinco desses "inferninhos". Num deles, o "Bottle's", cheguei a ouvir João Gilberto e outros grandes nomes, como Marisa Gata Mansa e Marcos Valle.
                Mas, meu professor de violão, com quem tomava aulas em casa, abriu-me as portas para o mundo de Noel Rosa. Foi então que tomei consciência da verdadeira música popular brasileira, da qualidade dos versos e músicas de Noel e seus parceiros, como Vadico, Lamartine, Roberto Martins. Este último, através de um amigo comum, cheguei a conhecer pessoalmente. Foi o autor de "Cai, cai" e "Renúncia", entre outras várias joias de nossa música popular.
             Mas, depois que li e ouvi quase tudo sobre Noel Rosa, realmente compreendi que foi ele o maior de nossos compositores populares. Numa época em que os recursos sonoros eram ainda precários, onde não havia gravação eletrônica, nem gravadores portáteis, compor quase trezentas músicas de excelente qualidade, realmente foi uma façanha. Quem prestar atenção às letras, às músicas, à melodia das obras de Noel vai concordar que realmente ele foi um gênio. Tendo apenas menos de 7 anos de vida musical, morrendo aos 26 anos de idade, é de espantar a quantidade e a qualidade da obra que produziu.  Se tiverem oportunidade leiam alguns livros sobre a vida de Noel e mergulhem de cabeça em seu mundo maravilhoso. Tenho certeza de que, como eu, ficarão encantados com essa viagem...
               Não deixem de ouvir "Feitiço da Vila", Palpite Infeliz" (composições que surgiram da polêmica musical entre Noel e Wilson Batista), "Feitio de Oração", "Pela décima vez", "Encontro casual", "Dama do Cabaré", "Último Desejo", "Positivismo", "Filosofia", "O X do Problema" e tantas outras. Recomendo àqueles que realmente gostam da música popular brasileira, a coletânea de CDs sobre a obra de Noel.
                Realmente, às vezes fico impressionado como as coisas boas que nós, brasileiros, produzimos, rapidamente vão para a vala funda do esquecimento...
                   Enquanto isso, as coisa ruins...

domingo, junho 05, 2016

MUHAMMAD ALI ou CASSIUS CLAY...

MUHAMMAD ALI ou CASSIUS CLAY...


Calfilho




                      O boxe nunca foi meu esporte favorito.
                    Na minha infância e adolescência, elegi o futebol como o esporte que gostava de praticar. Quando passei a frequentar o Canto do Rio F.C., aos onze anos de idade, comecei também a praticar tênis de mesa, esporte pelo qual disputei os Jogos Infantís de 1955 pelo clube. Ali também joguei futebol de salão, atividade que começava a ganhar força no Brasil (ainda com bola de serragem) e ensaiei algumas cestas no basquete e outras jogadas de voleibol, esportes que o Canto do Rio oferecia aos seus sócios.
                  A televisão dava seus primeiros passos no Brasil. No Rio, inicialmente, foi a TV-Tupi, do grupo "Associados", cujo presidente era Assis Chateaubriand. Anos depois, já em meados da década de 50, surgiu a TV-Rio, cuja sede era situada no prédio do antigo Cassino Atlântico, no posto 6, da praia de Copacabana (hoje, um hotel de luxo).
                  Claro, naquela época, a televisão era em preto e branco. 
             Na recém inaugurada TV-Rio surgiu um programa dedicado ao boxe, que era transmitido ao vivo, nos finais de noite dos domingos: o TV-Rio Ring.
                Era apresentado por Luiz Mendes, um gaúcho que já tinha alguns anos de locutor esportivo no Rio de Janeiro. E o mestre de cerimônia, aquele que apresentava os boxeadores, era o paulista Léo Batista, então começando carreira no jornalismo esportivo. Os dois usando gravatas borboletas, talvez copiadas do estilo usado pelos anunciadores de boxe norte americano.
                   O programa, grande novidade na televisão carioca, logo atraiu um grande número de espectadores, inclusive eu e meu pai, que ficávamos assistindo o programa até seu final.
               As lutas eram entre pugilistas amadores e, para mim, então com doze ou treze anos, muito empolgantes. 
               Lembro-me perfeitamente bem que nesse programa surgiu Eder Jofre, um jovem pugilista de São Paulo, que dava seus primeiros passos na carreira de pesos galo. Era assessorado por seu pai, o também ex-pugilista Kid Jofre. Eder depois tornou-se profissional e foi campeão mundial dos galos e, mais tarde, da categoria pena.
            Mas, o boxe nunca foi um esporte brasileiro. Aqui, nunca teve campeões de relevo, excluindo-se o já citado Eder Jofre e, em grau menor de importância, Servílio de Oliveira, Miguel de Oliveira, o folclórico Maguila e, mais recentemente, o Acelino "Popó" de Freitas.
          No exterior, principalmente, nos Estados Unidos, o boxe profissional, desde o início do século passado, já era um esporte popular e prestigiado.
               Na década de 50, o campeão mundial dos pesos pesados, a mais importante categoria do boxe, era o Rocky Marciano. Sempre lia notícias sobre suas vitórias e, segundo me parece, foi o único campeão do mundo que permaneceu invicto durante toda sua carreira. Mas, os jornais ainda ecoavam artigos sobre a lenda da década anterior, a de 40, o famoso Joe Louis. Li ainda alguma coisa sobre a história de outros famosos pugilistas como Jack Dempsey, Primo Carnera, Max Schemeling, e, na categoria dos médios, segundo me parece,  "Sugar" Ray Robinson.
            Até que, em 1960, nas Olímpiadas de Roma, surgiu o furacão Cassius Clay. Leembro-me perfeitamente quando ele conquistou a medalha de ouro e a forma irreverente e debochada como comemorou a conquista.
                Daí para a frente, Cassius não saía do noticiário, tanto por suas vitórias rápidas por nocaute como pelo estardalhaço que fazia após suas conquistas.
              Até que em 1964 conquista o título mundial, com apenas 22 anos de idade, ao derrotar Sonny Liston. A forma como provocou o então campeão, homem forte como um touro e de poucas palavras, tanto antes como depois da célebre luta, marcaram época na imprensa especializada.
                Mas, daí em diante foi que Clay realmente transformou-se numa lenda do esporte mundial. Ao recusar-se a ir combater na guerra do Vietnã, foi contestado e aplaudido por muitos. Uns diziam que era covarde, não era patriota, alguns até duvidaram de sua masculinidade pela forma como se apresentava nos ringues, bailando e debochando de seus adversários, dizendo, antes das lutas, o round em que os derrotaria. Outros aplaudiam sua atitude, não vendo razão na ida de jovens americanos para uma guerra que não era deles, num lugar longe de suas casas, tendo a obrigação de matar pessoas que nunca lhes fizeram mal.
             Foi então que Cassius Clay converteu-se ao islamismo e adotou o nome de Muhammad Ali, com o qual tornou-se famoso mundialmente.
              Perdeu seu cinturão de campeão mundial, ficou impedido de lutar por vários anos no auge de sua carreira e quase ficou preso para cumprimento da pena que lhe foi imposta, depois revista. 
            Mas, daí em diante, tornou-se um dos maiores defensores dos direitos dos negros, tanto na América do Norte, como em todo o mundo, um verdadeiro embaixador da paz em todos os países por onde passava. Voltou a lutar em 1972, recuperou o título mundial, perdeu-o outra vez e voltou a recuperá-lo.
          Suas lutas contra Joe Frazier, Floyd Patterson, Sonny Liston, George Foreman e, já no fim de carreira, contra Leo Spinks e Trevor Barbick, hoje fazem parte da antologia da história do boxe mundial. Vi algumas delas pela televisão e, realmente, fiquei fascinado com a figura humana do boxeador, mesmo na sua fase de declínio.
            O mal de Parkinson foi o preço que pagou por ter escolhido uma profissão tão violenta. Apesar de seu rosto parecer não aparentar marcas dos golpes sofridos, sua cabeça deve ter acumulado milhares deles o que lhe causou a terrível doença. Com ela teve que conviver por mais de 30 anos, até morrer dias atrás.
             Muhammad Ali (ou Cassius Clay, nome de seu pai) nasceu no mesmo ano que eu, 1942, sendo um dos grandes nomes de nossa geração. Seu legado para a posteridade transcende, de longe, o tamanho da obra que construiu...