domingo, novembro 28, 2021

 

DIVAGAÇÕES...

 

Calfilho

 

 

                 A consulta estava marcada há algum tempo...

           Chegou, como sempre, antes da hora marcada... 10:45, a consulta era às 11 horas... Detestava chegar atrasado para um compromisso...

                A enfermeira, solícita, mandou que entrasse:

          -- Por favor, Dr. Marcio, disse-lhe, apontando a porta do consultório.

               A doutora, jaleco branco, parecia muito simpática...

               -- Prazer, sou a dra. Josephine...

               Ele, de máscara, fruto da COVID-19, só a cumprimentou:

             -- Bom dia, doutora. O Dr. Joaquim me encaminhou para a senhora, sou cliente dele.

                Joaquim era o dono da clínica onde ele fazia um tratamento sério, pois já sofrera três intervenções cirúrgicas...

                -- Já vi seu histórico de cliente. Em que posso ajudar?

              --Não sei, doutora, foi o dr. Joaquim quem me encaminhou para a senhora...

               Ela passou os olhos no histórico antigo da clínica.

            -- Seus exames aparentemente estão bons... O que o senhor está sentindo?

         -- Dores, doutora, dores no estômago e intestino. Consequência dos remédios que estou tomando. Sei que eles são bastante invasivos, o Dr. Joaquim já me disse isto, talvez ele me tenha encaminhado para a senhora para ver ser há algum medicamento que alivie um pouco essas dores, esse mal estar...

            -- Seus exames não denotam isso... Sei que o senhor deve estar preocupado com o resultado dos seus exames, mas não há razão para isso...

               -- Tá bem, doutora, então não sei o que vim fazer aqui com a senhora...

             -- Vamos examiná-lo, retrucou ela. Tire a camisa, deite na cama, vou tirar sua pressão, sua temperatura.

            Ele obedeceu, até que era sensato em cumprir ordens médicas.

              -- Pressão 12/8,-- ela sorriu. Temperatura 35,7. Parece um garoto.

          -- Pode vestir a camisa. Ele pediu auxílio para ajudar a levantar da cama. Sua lombar doía muito.

            Sentaram-se novamente um em frente ao outro, médico e paciente.

             -- Realmente, eu não sei muito em que posso ajudá-lo. Seus exames estão dentro da normalidade, mesmo levando em conta sua idade. As sequelas de sua doença são previsíveis. Posso rejeitar um analgésico, mas será apenas um paliativo.

              Aí, então, ela falou a frase infeliz:

           -- Talvez o senhor esteja com um problema psicológico. O que seria normal, tendo em vista a gravidade da sua doença principal. O senhor quer que eu o encaminhe a um psicólogo?

             Ele a encarou firmemente, um breve sorriso cínico insinuou-se em sua boca;

             Perguntou, ainda com o meio sorriso estampado na boca:

            -- Desculpe perguntar, doutora... quantos anos a senhora tem? Se achar que foi indiscrição minha, não precisa responder.

            Ela refletiu dois segundos antes de responder:

        - Quarenta e oito -- retrucou com um certo orgulho na voz (talvez aquele paciente achasse que ela não fosse competente...)

              Ele refletiu com seus botões: 

              “idade dos meus filhos...”

               Respondeu, olhar longe, bem distante:

       --Doutora, agradeço seu conselho, mas não acredito em psicólogo. No meu tempo de estudante, isso nem existia, pelo menos para consumo público...Aliás, hoje, na medicina, inventaram um monte de profissões paralelas nas quais também não acredito... sou do tempo antigo, doutora, tenho 84 anos, fui Delegado de Polícia por 35 anos, a morte era meu instrumento de trabalho, vi as chacinas da Candelária, do Vigário Geral, corpos estraçalhados, crianças com 5, 6 anos de idade estendidas no chão, vidas sem oportunidade de crescer, de sobreviver...Desculpe, a palavra é sobreviver mesmo, coisas que nós aqui, do lado “civilizado” da cidade não estamos acostumados a vivenciar...

        Ela ouvia, calada, duas lágrimas iluminaram seu rosto. Emprestei-lhe um lenço de papel que achei sobre a mesa.

            -- Por isso, doutora, concordo com a senhora, até acho que tenho que debater meus problemas pessoais com outras pessoas. Não sou o dono da verdade, e todo ser humano penso que tem necessidade de conversar coisas íntimas com alguém. Mas, nunca com um profissional, com um carinha que pegou um diploma e vem se achar no direito de discutir meus problemas pessoais, meu passado, minhas angústias, minha vida. Faço isso com um irmão, com algum amigo de mais de 50 anos de convivência, como também ouço suas apreensões, suas angústias, suas incertezas. Afinal, todos estamos caminhando para um trajeto que não tem volta, novos ou velhos, por isso muita coisa nos preocupa, sempre é bom conversar, desabafar...

     Fez uma pequena pausa. Continuou:

        -- Meu psicólogo já me ouve há muito tempo...Não marcamos consulta, nem tive a felicidade de conhecê-lo pessoalmente...  Não resolve muita coisa, mas me deixa feliz quando ouço suas composições... Nome dele: NOEL DE MEDEIROS ROSA.  Quando tiver um tempinho livre dessa loucura de consultório, ouça algumas composições dele...  “Pela décima vez”, minha sugestão...e, se gostar, acompanha com um cálice de Pinot Noir, da região da Bourgogne...

              Obrigado pela consulta...

          Márcio deixou o consultório, pegou o elevador, que desceu velozmente do 21 para o térreo...

 

 

 

 

quarta-feira, setembro 22, 2021

OS PRECATÓRIOS...

 

OS PRECATÓRIOS...

Calfilho

 

            Lamentável a tentativa do governo brasileiro de tentar postergar o pagamento de precatórios devidos pela União.

          O cidadão, que teve um direito seu violado pelo Estado (apenas dois exemplos: o policial negligente dispara sua arma numa operação numa favela e mata, por sua falta de cuidado e atenção, uma criança que brincava no quintal de sua miserável casa; a ponte mal construída de afogadilho e superfaturada, empregando material de terceira categoria, despenca e mata passageiros de veículos que por ela trafegavam e pedestres que passavam sob ela), entra com ação indenizatória contra a União, Estado ou município responsáveis pelo delito, ganha na primeira instância depois de dois anos de tramitação do processo; o órgão público recorre, mais quatro anos até o julgamento em segunda instância, que novamente dá razão ao pai da criança ou aos parentes das vítimas do “acidente” da ponte. O Estado, inconformado, impetra novo recurso ao STJ. Mais seis anos aguardando a decisão, que, outra vez, dá razão aos requerentes.                    Embargos de declaração, rejeitados após seis meses de espera. O Estado (em sentido amplo) oferece novo recurso ao STF, alegando inobservância de preceito constitucional nas decisões anteriores. Oito anos mais e, finalmente, a decisão do STF, reconhecendo o direito da ou das pobres vítimas, tornando a decisão definitiva, da qual, felizmente, não cabe mais recurso.

          Essa decisão, transforma-se, assim, num precatório, ou seja, em termos leigos, um título de crédito da vítima do ato ilícito contra o Estado infrator.

          Mais outras várias providências administrativas e, enfim, o Estado é obrigado a pagar...

          Mas, não, vem uma sumidade qualquer do Ministério da Fazenda e diz que precisa de dinheiro para custear o substituto do “bolsa família”, plano de auxílio aos necessitados do Brasil (que são muitos).

REUNIÃO NO PLANALTO

-- Tem que tirar dinheiro de algum lugar. Preciso recriar esse “bolsa família”, que vou mudar o nome, para garantir o voto daquele povo do nordeste.

-- Mas, Presidente, precatórios  são títulos de dívida pública reconhecidos pela Justiça.

-- Não sei, arranja um jeito, preciso daqueles votos. Basta dar comida pra eles, que votam em mim. Vocês têm outra saída?

Timidamente, um ministro mais ponderado e nem tão radical, arrisca:

-- Presidente, que tal tirar um pouco das emendas dos deputados e senadores. O valor é absurdo...

 Depois de alguma reflexão, a resposta:

-- Não, não posso mexer com isso. Vou perder o apoio do Congresso...

O tímido oferece outra sugestão:

-- Abate mais desse fundo partidário. Eles aumentaram muito...

Veio logo a resposta:

-- Nunca, isso nunca... Vão votar logo, logo meu impeachment...

Após uma pausa:

-- Então, sem solução?

Sem resposta.

-- Então, ministro, avança nos precatórios...

 

     BRASIL ACIMA DE TUDO...