terça-feira, agosto 30, 2016

OS DESBRAVADORES Capítulo 10

   



OS DESBRAVADORES

Capítulo 10


Calfilho







X







Todas aquelas cidades, pequenos portos na costa nordestina, pareciam iguais umas às outras. Uma faixa de areia, coqueiros, muitas árvores mais para o interior. Pequenas habitações junto à praia, uma igrejinha com a cruz no alto sobressaindo sobre o teto das casas. Algumas tendinhas, onde se vendia de tudo, vários barcos pesqueiros flutuando sobre a água ou descansando sobre a areia, um restaurante primitivo onde se servia principalmente produtos do mar, uma pracinha, um coreto, o resto residências familiares. Algumas delas possuíam um bordel, para satisfação sexual dos rapazes e homens solteiros e alguns poucos casados, que ali iam escondidos, evidentemente. Pouquíssimas possuíam um banco, e quando isso ocorria geralmente era uma agência do Banco do Brasil. Na maioria delas era pouco usual a utilização de dinheiro em espécie, usando-se muito mais a troca de mercadorias como moeda corrente. Assim, grande parte daquelas populações não sabia o que era cheque, depósitos, conta corrente, empréstimos bancários.
Jeremias e Faustino, acompanhados de Pedro, logo que chegaram em terra, dirigiram-se a uma das tendinhas, a maior da cidade. Jeremias cumprimentou o dono, já seu conhecido de viagens anteriores, quando o “Rosamar” por ali passara. Apresentou-lhe Faustino:
– Severino, esse aqui é o “seu” Faustino, que está viajando comigo, comandando uma expedição para extrair borracha na Amazônia. Já é pessoa conhecida naquela região, onde já esteve outras vezes.
Faustino apertou a mão de Severino. Este perguntou:
– Em que posso ser útil, “seu” Faustino?
Da boca de Severino saía um hálito forte de cebola, misturado com alho. Para disfarçá-lo, tinha ele entre os lábios um cigarro de palha vagabunda, que cheirava a rato morto. Era um homem baixinho, roliço, que de trás do balcão ensebado de seu estabelecimento comercial, assumia ares de autoridade local.
Faustino, virando discretamente o rosto para não sentir o hálito do seu interlocutor, respondeu, procurando falar rapidamente para não prolongar o diálogo:
– Bem, “seu” Severino, estou chefiando uma expedição que deve ficar de dois a três anos na Amazônia. Estou precisando de dois homens fortes, de coragem, que não tenham medo de nada e sejam obedientes, saibam obedecer ordens. Por favor, se não for nessas condições, não me interessa. Se for algum aproveitador, pode ficar por aqui. A recompensa que prometo é que, depois de encerrado o nosso tempo lá, eles voltarão ricos.
Severino ouviu em silêncio, tirando baforadas de seu cigarro infecto. Olhou para Jeremias, depois para Faustino.
– Pode deixar, “seu” Faustino. Aqui, em Baleia, tem muito cabra querendo trabalhar. A pesca quase não dá lucro pra eles, ficam rezando para que apareça uma oportunidade como essa que o senhor está oferecendo. Se o senhor me der umas duas horas, vai ter uns quatro ou cinco homens do jeito que o senhor quer.
Faustino concordou com a cabeça.
– Tudo bem, “seu” Severino. O senhor pode apresentar eles ao Pedro aqui, que é meu capataz. Enquanto isso, vou ver na sua loja se tem alguma mercadoria de que vou precisar.
– Fique à vontade, “seu” Faustino – disse Severino.– Se não achar alguma coisa aqui em meu estabelecimento, pode ir na venda do meu primo, que fica ali embaixo na rua – concluiu, apontando com a mão para o local mencionado. – Lá, ele tem muita mercadoria de uso na mata fechada.
Jeremias despediu-se de Faustino.
– Bem, “seu” Faustino, vou deixar o senhor tratar dos seus negócios, enquanto vou cuidar dos meus. Tenho muita mercadoria para desembarcar e outras para embarcar. Fique à vontade, a gente não deve sair daqui antes da meia-noite. O barco para o navio vai ficar à sua disposição.
Faustino agradeceu e, em companhia de Pedro, ficou olhando as mercadorias da loja de Severino, enquanto este mandava recado por seus empregados para que procurassem os homens que Faustino procurava.
Já na rua, Faustino perguntou a Pedro:
– O que você acha, Pedro? Dá pra confiar?
– Só vendo, patrão. Olho no olho eu vejo quem é o cabra. Mas, sinceramente, não tou levando muita fé, não... – Esse pessoal aqui me parece muito atrasado, muito bronco. Mas, vâmo ver.
– Bem, deixo nas tuas mãos. Só me apresenta aos homens quando você tiver decidido quem serve. Não quero ficar fazendo perguntas idiotas para uns imbecis de merda... O que você escolher, dou uma olhada final e te dou minha opinião. Mas, acho que você tem razão: aqui a gente não vai achar pessoal que serve, não.
– Vamos esperar, patrão, vamos ver o que esse gordinho fedido arranja pra gente – disse Pedro, referindo-se a Severino.
Deram uma olhada nas lojas locais, compraram algumas pás, enxadas, foices, serras, cordas, facões, redes para dormir, lonas para barracas, querosene. Apesar de já terem trazido algumas dessas mercadorias desde Fortaleza, adquirido outras em Paracuru, mesmo assim comprar outras nunca seria demais.
Almoçaram numa birosca local, carne de sol, farinha, jerimum e feijão de corda. Muita pimenta, uma cachacinha e duas cervejas para acompanhar.
Só por brincadeira, Faustino comprou uma cobra dissecada para dar um susto em Maria Teresa. Tinha ela mais de dois metros de comprimento, quase vinte centímetros de largura, pele marrom, a boca escancarada, deixando aparecer os dentes afiados, ameaçadores. Quem a visse de longe, tinha a nítida impressão de que estava viva.
Lá pelas três da tarde, voltaram à venda de Severino. Este já estava à espera. Apontou para uns dez homens sentados no fundo do estabelecimento. Estes, ao verem os dois conversando com Severino, viraram-se para eles, olhar assustado, expressão de indagação nos rostos curtidos pelo sol.
– Bem, “seu” Faustino, escolhi aqueles dez para o senhor. São os melhores homens da região. Já expliquei a eles para onde vão, o que os espera, a recompensa que o senhor oferece. Pode mandar seu capataz conversar com eles.
Faustino fez um gesto com a mão para Pedro, que se dirigiu aos homens. Permaneceu em pé, encostado no balcão, continuando a conversar com Severino, mas com um olho atento para onde Pedro se dirigia.
Chegando à mesa onde os homens estavam sentados, conversando em voz baixa, mas com os olhos pregados em Faustino, Pedro foi logo dizendo, em tom rude, quase agressivo:
– Fiquem em pé, quero falar com vocês.
Todos se levantaram, olhando para Pedro, meio desconfiados. Eram quatro negros altos e fortes, dois caboclos também fortes, três mulatos não tão altos mas também  muito fortes e um branco comprido, cabelo louro, tipo sarará.
Pedro, com aquela sua voz firme e segura, foi explicando lentamente a finalidade da expedição, quanto tempo ficariam fora, os perigos que teriam que enfrentar.
– Portanto, quem acha que não vai aguentar, é melhor nem se candidatar. Vão ficar longe da mulher e dos filhos, vão correr risco de morrer todo dia, vão se cansar da rotina do trabalho. A única vantagem vai ser que vão voltar com os bolsos cheios de dinheiro.
Três dos homens logo pediram para ir embora. Um deles, um dos caboclos, disse:
– Muito obrigado pelo convite, mas não vou poder aceitar. Vai ser muito tempo muito longe da minha família. Prefiro ficar aqui vivendo da minha pesca. É pouco, mas estou aqui, perto dos meus.
Os outros dois fizeram um sinal com a cabeça, concordando. Sobraram sete.
Pedro, dirigindo-se a eles, disse:
– Bem, quanto a vocês, quero falar com um de cada vez, em particular.
Chamou um deles:
– Vamos sentar naquela mesa lá no fundo. Os outros esperem aqui que eu chamo depois.
Entrevistou cada um por cerca de dez a quinze minutos. Fez-lhes várias perguntas sobre aptidões pessoais, experiências anteriores na selva, se já haviam trabalhado na extração da borracha, sobre suas famílias, quem dependia deles, se bebiam, fumavam, quais os vícios de cada um, etc...
Terminadas as entrevistas, chamou os sete até à mesa, dizendo-lhes:
– Muito obrigado por terem vindo até aqui, mas, infelizmente, só um de vocês atende ao que eu vou precisar. Agradeço aos outros seis, fica para a próxima.
Apontando para um deles, o sarará alto e magro, disse:
– Você, vem comigo. Qual é mesmo o seu nome?
– José Ribamar, patrão, às suas ordens.
– Vamos lá falar com o chefe da expedição. O nome dele é Faustino. Muito respeito que ele não é de brincadeira.
Os outros seis homens afastaram-se, desapontados. Pedro e José Ribamar dirigiram-se até o balcão da vendinha, onde Faustino continuava encostado, conversando com Severino.
– Patrão – disse Pedro. -- Este aqui é o José Ribamar. Quer trabalhar com a gente.
Faustino olhou o homem de alto a baixo, examinando-o cuidadosamente. Achou-o um pouco magro demais, mas nada comentou. Como também nada perguntou a Pedro porque dispensara os outros nove. Conversaria com ele quando estivessem a sós.
– Você explicou bem a ele a dureza do trabalho, não é? E, que só vai receber sua parte quando o trabalho terminar, daqui a um ou dois anos?
Pedro fez um sinal afirmativo com a cabeça. José Ribamar mantinha a cabeça baixa, sem encarar Faustino.
– Então, moço, você está mesmo disposto?
O sarará respondeu, humildemente:
– Tou sim, senhor, patrão. Tou precisando do dinheiro pra ajudar minha mãe e meus irmãos.
Faustino perguntou:
– E, como eles vão viver durante o tempo em que você estiver fora? Quem vai sustentar eles?
– A gente tem uma rocinha, aqui mesmo na cidade, patrão. Lá, a gente planta alguma coisa e cria algumas galinhas e porcos. Além disso, meu irmão mais novo, que já está com vinte anos, trabalha num barco de pesca e leva alguma coisa para casa.
– Tá certo, se o “seu” Pedro te aprovou, tudo bem. Vai buscar tuas tralhas e se despedir da família. Vamos pegar o barco de volta para o navio daqui a meia hora. Leva pouca coisa, ouviu? Só a roupa do corpo e uma outra muda para trocar de vez em quando.
José Ribamar agradeceu com a cabeça. Ousou perguntar timidamente, os olhos enterrados no chão:
– Posso levar meu violão, patrão? Gosto de tocar de vez em quando e ele me ajuda muito nas horas de tristeza...
Faustino refletiu por um instante. Respondeu:
– Tudo bem, se não fizer muito volume. Um pouco de música lá na selva não vai fazer mal a ninguém.
Severino, por trás do balcão, ouviu todo o diálogo em silêncio. Quando Ribamar se afastou, perguntou a Pedro, servindo-lhe uma dose de cachaça:
– Mas, e os outros nove, “seu” Pedro? Não serviram?
Pedro respondeu, fisionomia séria:
– Não, só iriam trazer problemas.
Mais tarde, já no navio, que retomara o seu curso, Faustino e Pedro conversavam, sentados em velhas cadeiras no pequeno convés.
Faustino perguntou:
– E, então, Pedro, por que só um deles?
– Ali tinha gente preguiçosa, um deles já estivera preso por matar um homem, o outro comera a irmã e tinha um filho com ela, dois deles eram cachaceiros sem jeito, tinha um que era ladrão de galinhas. Iam trazer problemas, não é?
Faustino riu sonoramente. Comentou, com satisfação:
– Só mesmo você, Pedro. Como é que você descobriu isso tudo?
– Astúcia, patrão. Sabendo perguntar, eles abrem logo o bico, contam tudo sobre eles e sobre os outros.
Faustino continuava a rir, enquanto Pedro permanecia sério, sem entender porque o patrão ria tanto.
Os dois já se conheciam desde 1909, quando da primeira incursão de Faustino na Amazônia. Os dois, na época simples empregados de uma expedição, logo se tornaram amigos inseparáveis. Pedro já ali estivera uma vez antes e ensinou a Faustino os mistérios e segredos da selva.
Voltaram os dois na segunda expedição, a de 1912, ainda como empregados, tendo sido Pedro quem acompanhou Faustino na volta à Fortaleza, quando o mesmo contraiu malária. Ficou ao seu lado durante todo o tempo, como um fiel cão de guarda, atento às todas suas melhoras e recaídas durante a longa viagem de regresso a casa, quando o deixou aos cuidados das irmãs. Mesmo assim, visitava-o várias vezes por semana, acompanhando sua lenta recuperação.
Foi um dos poucos a comparecer no casamento de Faustino, e, quando este decidiu retornar à Amazônia, foi o primeiro a ser chamado.
Entre os dois havia um respeito mútuo, uma amizade sincera, uma lealdade que não tinha limites, uma intimidade de verdadeiros amigos. Apesar de terem trabalhado ambos como empregados nas duas expedições anteriores, Pedro tinha um respeito enorme por Faustino, já que o mesmo desempenhara as funções que hoje ele exercia, a de capataz, de segundo homem em importância na hierarquia da expedição. Até mesmo porque Faustino tinha mais instrução que ele e pertencesse a família tradicional de Fortaleza, habituara-se a chamá-lo de patrão, sem que isso significasse qualquer posição de subserviência de um em relação ao outro.
Por isso, Faustino ria gostosamente da forma como Pedro relatou como decidira recrutar apenas um entre os dez homens que apareceram como pretendentes à vaga na expedição. “Astúcia, patrão... astúcia...”.
O “Rosamar” continuava sua lenta marcha em direção a Belém, as ondas batendo fortemente em seu costado, levantando nuvens de espuma. A noite, maravilhosa como quase todas as noites nordestinas, tinha a lua cheia emoldurando aquele céu de rara beleza, coalhado de estrelas resplandecentes.
Mais um dia daquela viagem que parecia sem fim fora deixado para trás.

domingo, agosto 28, 2016

O CONGRESSO NACIONAL...




O CONGRESSO NACIONAL...

Calfilho




          Já deixei aqui registrada minha opinião sobre a política brasileira e os personagens que a integram. Esclareço que essa opinião não é generalizada, isto é, sei que entre os políticos existem alguns que são idealistas, que realmente ocupam um cargo eletivo pretendendo fazer alguma coisa para o bem do nosso país. Infelizmente, esses são uma minoria, num universo onde a esmagadora maioria se elege apenas para tentar auferir benefícios para eles próprios, para sua família ou para um restrito grupo de amigos e correligionários.
            Desde quando fui convocado para trabalhar pela primeira vez como mesário, quando acabara de completar 18 anos de idade, depois como promotor e juiz junto à Justiça Eleitoral, percebi, desde logo, que nossa legislação sobre a escolha de nossos representantes era muito falha, cheia de brechas que permitiam o que vemos atualmente ao vivo, nas transmissões feitas pela televisão sobre o "impeachment" da presidente da República e o processo de cassação do ex-presidente da Câmara dos Deputados.
              Desde a época dos "coronéis", aqueles que controlavam os eleitores humildes do interior, naquela época somente sabendo assinar o nome, muitas vezes empregados em suas fazendas, os "coronéis" utilizavam-se desse poder para se elegerem ou indicarem alguém para ser eleito como seu representante nas Assembleias Legislativas Estaduais, na Câmara dos Deputados Federais ou no Senado da República. Lembrem-se que aqui mesmo, no antigo Estado do Rio de Janeiro, o genro de Getúlio Vargas, Amaral Peixoto, era o interventor e depois conseguiu eleger-se governador. Imaginem o que acontecia nos distantes Estados do Norte e Nordeste do país...
        Algumas conquistas foram feitas: admitiu-se o voto dos analfabetos (o que acho correto, pois também fazem parte da população do país), o "coronelato" perdeu muito de sua força... Entretanto foi substituído pelo "eleitorado de curral" que, em outras palavras quer dizer o eleitorado manipulado por algum político inteligente e hábil em promover churrascos numa comunidade carente, ou fantasiar-se de Papai Noel para distribuir migalhas para crianças carentes de alguma favela, ou, ainda, usar sua imagem de operário humilde e vítima do poder econômico para controlar sindicatos e angariar a simpatia da população mais sofrida, mais esquecida do nosso país...
             Dessa forma, explica-se porque pessoas ficam eternizadas no poder e, quando morrem, ou mesmo antes disso, passam o bastão para filhos, netos, esposas, genros ou noras... Nossa história política está repleta desses exemplos... Alguém por acaso acredita que os eleitores dessas pessoas nelas votam conscientemente, esperando que elas façam alguma coisa de útil para o país?
            Paralelas aos "currais eleitorais" existiam até pouquíssimo tempo as "doações de empresas para campanhas eleitorais". Ora, ninguém é tão ingênuo de acreditar que alguém contribua para um candidato ser eleito sem esperar algum favor em troca... É o famoso "toma lá, dá cá", que infelizmente impera em nossa política e entre a grande maioria dos nossos políticos (também infelizmente, em outros poderes da república)... Daí o que operação "Lava Jato" revelou e ainda revela ... 
              Parece que essas "doações" estão chegando ao fim, o que já é um grande avanço...
           Mas, enquanto não conseguimos que esse avanço seja o mais próximo possível da perfeição, o que assistimos pela televisão continua sendo isso mesmo: o espetáculo circense que foi a votação do impeachment na Câmara dos Deputados, com alguns dos "representantes do povo" fazendo discursos inócuos, risíveis, elogiando parentes, amigos, até pessoas que são ou estão sendo processadas, perante os olhos de toda a nação.
         E, no Senado, a Câmara alta do Poder Legislativo, assistimos, envergonhados como brasileiros, a disputa verbal entre senadores que reclamam, uns,  da ausência de moral do Senado para julgar a Presidente da República, enquanto eles mesmo estão sendo processados pela Polícia Federal ou Ministério Público; e outros, afirmando que aqueles que fazem essa alegação foram beneficiados junto ao Supremo Tribunal Federal para não serem processados...             São esses os "nossos representantes", os "representantes do povo brasileiro"? Meus, não... aliás, em quem votei para senador, pouco ou quase nunca se manifesta...
       Infelizmente, a democracia não é um regime de governo perfeito. Apresenta muitos defeitos que somente com o tempo conseguiremos aperfeiçoá-la. Mas, mesmo com todos esses inconvenientes é infinitamente superior aos regimes autoritários, aos regimes de força, onde só aqueles que detêm o poder podem manifestar-se, impondo a mordaça ao resto da população. Já vimos como esses governos acabam, como terminam, melancólica e tristemente... ou numa guerra mundial, como aconteceu na década de 40 do século passado...
            Aqui, no Brasil, saindo a presidente afastada, o que acho ser correto, tamanha sua arrogância e o seu despreparo para o exercício da função, além da imensa sede de poder que possui, acredito que o quadro político sofrerá poucas mudanças... em pouco tempo, o "toma lá, dá cá" voltará a prevalecer...
             Ao eleitor, resta a decisão: votar em quem?

sábado, agosto 27, 2016

OS DESBRAVADORES Capítulo 09




OS DESBRAVADORES

Capítulo 09

Calfilho





IX





Foram mais dois dias de viagem até o próximo porto, Baleia, ainda na costa cearense.
– Como é grande esse litoral brasileiro – comentou Faustino com Maria Teresa. – A gente viajou, viajou, e ainda não saiu do Ceará.
Estavam os dois de braços dados junto à amurada do “Rosamar”, observando a costa ao longe, aguardando que tocasse a sineta anunciando o jantar. O por-do-sol estava maravilhoso, o astro-rei parecendo uma bola de fogo, escondendo-se aos poucos na linha do horizonte, espargindo seus raios brilhantes nas águas da imensidão do azul do oceano. Os navios cargueiros, normalmente e ainda mais naquela época de poucos recursos, faziam o trajeto da costa brasileira, sempre mantendo a terra à vista, não se atrevendo a enfrentar o alto mar.
O fim de tarde estava maravilhoso. O crepúsculo descendo, a morna brisa batendo de leve no rosto do casal, o cheiro de maresia e a espuma salgada da água do mar salpicando-lhes gotas refrescantes nas faces, fizeram Faustino esquecer por alguns instantes as preocupações que João e Firmino lhe causaram, bem como Maria Teresa deixar de lembrar por momentos as crises de vômito do início da viagem.
– E o bebê, Teresa? Já está sentindo ele se mexer? – perguntou ele.
Ela riu. Respondeu:
– Deixa de ser bobo, Faustino. Ainda é muito cedo, só tem pouco mais de dois meses na barriga.
– Eu estou doido para que ele nasça, quero ver a cara dele. Será se vai ser menino ou menina? Vai ser o meu primeiro filho, meu herdeiro. Tomara que ele tenha essa alma aventureira que eu tenho, que não se acomode nunca com as coisas, que brigue por elas, faça por merecer o que conquistou. Vai ser um desbravador, jamais um burocrata, isso eu não vou deixar, se ainda estiver vivo.
Ela sorriu novamente:
– Você nem sabe se ele vai ser homem. Quero ver se nasce uma menina e você vendo ela desbravando a selva amazônica.
Ele também sorriu, tirando uma baforada do seu cigarro de palha:
– Ah! Teresa, você não sabe o que eu sinto quando entro na selva... Sinto aquela falta de barulho, aquela imensidão de lugar, aquele gigante de rio, parece que eu sou uma pequena formiga tentando achar um lugar onde eu possa gritar, onde eu possa dizer “aqui eu consigo ser alguém, consigo vencer todas as adversidades, todas as dificuldades, aqui não tenho ninguém para me controlar, me vigiar, dizer como eu devo agir, como proceder...”. “Aqui, eu posso ser eu mesmo, sem mentiras, sem hipocrisias, sem máscaras a usar”.
Fez uma pausa, meio empolgado. Continuou:
– Era isso que eu queria passar para meu filho, que ele sentisse essa coisa que eu sinto, essa alegria de enfrentar o desconhecido.
Maria Teresa ficou em silêncio por algum tempo. Depois, disse:
– Só mesmo você, Faustino, para me fazer te acompanhar nessa loucura.
Abraçando-se a ele, completou:
– Mas, eu te amo tanto, meu querido, que iria com você até o inferno se você me pedisse.
Ele, agora sim, emocionado, deu-lhe um longo beijo nos lábios.
A sineta tocou, avisando que o jantar estava servido.
Dirigiram-se vagarosamente ao refeitório, onde Jeremias já os esperava, sentado em sua cadeira.
– Por favor, sentem-se – disse, apontando as cadeiras para Faustino e Maria Teresa.
Depois que se acomodaram, Jeremias continuou:
– Amanhã, por volta das dez, devemos chegar à Baleia, ainda porto do Ceará. “Seu” Faustino, o senhor quer vir comigo a terra para ver se encontramos os homens que o senhor precisa? Assim, o senhor conversa com eles diretamente e decide se servem ou não.
Faustino servia o feijão no prato de Maria Teresa. Ainda com a concha na mão direita, respondeu:
– Claro, capitão, quero sim. Mas, se o senhor permitir, quero levar o Pedro comigo. Ele tem um olho melhor que o meu para selecionar esse pessoal, está acostumado com isso.
– Sem dúvida – retrucou Jeremias. – E a senhora, madame, também vai querer descer? – perguntou, dirigindo-se à Maria Teresa.
Ela olhou para Faustino antes de responder:
– Não sei, capitão, meu marido é quem decide.
– Acho melhor você não ir, Teresa – disse Faustino. – Nós vamos falar com gente ignorante, analfabeta, você não vai se sentir bem. Além do mais, não tenho ninguém para deixar com você, para lhe fazer companhia enquanto recrutamos os homens.
– Se você quer assim, tudo bem – retrucou ela.
O jantar, como sempre, muito farto e variado. Arroz, feijão, salada, farinha de mandioca, pernil de porco bem tostado, batata doce frita. Como sobremesa, frutas e geléia de mamão. Os dois homens beberam vinho tinto, Maria Teresa suco de maracujá.
Ficaram conversando por mais algum tempo, trocando idéias sobre suas vidas, seus sonhos, suas experiências.
Recolheram-se à cabine por volta das dez da noite.

sexta-feira, agosto 26, 2016

OS DESBRAVADORES Capítulo 08




OS DESBRAVADORES

Capítulo 08


Calfilho






VIII






Maria Teresa não ousou fazer uma só pergunta a Faustino sobre o que ocorrera. Mesmo estranhando que João e Firmino não tivessem voltado com o marido e Pedro, ficou em silêncio durante o percurso que o bote fazia do embarcadouro para o “Rosamar”.
Faustino estava sério, também quase não falou, só ordenou ao barqueiro que voltassem para o navio. Pedro falou menos ainda, só olhava de soslaio para o patrão.
Quando subiram a escada de corda que dava acesso ao navio, Jeremias os recebeu com o cachimbo soltando fumaça na boca:
– E então, “seu” Faustino, almoçaram bem? Gostaram da comida?
Faustino respondeu, cara amarrada:
– A comida estava ótima, capitão. Obrigado pela indicação.
Ele deu a mão à mulher para que subisse ao navio. Jeremias, estranhando a ausência de João e Firmino, indagou:
– Não está faltando gente, “seu” Faustino?
Respondeu secamente:
– Não, capitão, não está faltando ninguém. Os outros dois decidiram voltar para Fortaleza. Podemos zarpar na hora que o senhor quiser.
Jeremias, percebendo o ambiente pesado, gritou para o imediato:
– Zé Maria, podemos partir, mande soltar a âncora.
O gemido da corrente ficou ao longe, enquanto Faustino e Maria Teresa recolhiam-se à cabine.
Pedro, ainda com cara de quem comeu e não gostou, também voltou com Raimundo para a deles.
Já na cabine, tirando o paletó, depois a camisa e as botas, Faustino virou-se para a mulher:
– Pode perguntar agora, Teresa. E, obrigado por você ter entendido o meu silêncio.
Ela, timidamente, enquanto também se desvencilhava daquele monte de roupa sobre o corpo:
– Mas... mas, o que foi que aconteceu, Faustino?
Ele respirou fundo antes de responder. Calçando uma sandália de couro, disse:
– Nada, meu bem. Tive que mandar aqueles dois de volta para Fortaleza. Estavam completamente embriagados, não têm noção de responsabilidade.
Ela pareceu surpresa:
– Mas, foi mesmo necessário, Faustino? Você não podia dar-lhes uma reprimenda e dar-lhes outra chance?
– Não, Teresa, isso não é possível. Com essa gente você não pode vacilar. Se aqui eles já fizeram isso, quem dirá no meio da selva, quando a solidão e a saudade de casa apertarem. Se você demonstra qualquer sinal de fraqueza, eles te montam em cima.
Fez uma pausa. Continuou:
– O pior é que aqueles dois eu já conhecia, eram bons de trabalho, já tinham estado comigo da vez anterior. Agora, vou ter que arranjar mais gente. Pior, gente desconhecida. Mas, não faz mal, naqueles eu não podia confiar mais.
Tomaram um banho demorado, descansaram um pouco.
À noite, quando o navio já zarpara, por volta das nove horas, jantavam em companhia de Jeremias. Faustino contou, em poucas palavras, porque despedira João e Firmino.
O capitão comentou:
– Acho que o senhor está certo, “seu” Faustino. Para o tipo de expedição que o senhor vai fazer, tem que ter mesmo total confiança nos seus homens. Mas, não se preocupe, eu arranjo logo dois outros para o lugar deles. A gente ainda vai parar em muitos portos até chegar em Belém. O que não falta é gente querendo ganhar dinheiro rápido.
– Tudo bem, capitão, agradeço o oferecimento. Mas, por favor, só me arranje gente que o senhor já conhece, gente de confiança – retrucou Faustino. – De pilantra eu já estou cheio.
– Pode deixar comigo. Vou selecionar bem o pessoal que vou arranjar pro senhor.
Faustino levou Maria Teresa até a cabine, voltando até o refeitório da tripulação, onde Pedro jantava juntamente com Raimundo, Venâncio, Mário e Zeferino.
Eles, que conversavam em voz alta, ficaram em silêncio quando Faustino chegou. Olharam para ele, ansiosos.
Faustino falou devagar, os olhos frios cravados nos homens:
– Ouçam bem, não vou repetir o que vou dizer agora.
Fez uma pausa. Continuou, a voz gelada:
– De vocês, eu só conheço o Pedro, que é o meu braço direito. Os outros eu não conheço, foi Pedro quem tratou com vocês. Ele já deve ter contado o que aconteceu com o João e o Firmino. E, olhem bem, eu já conhecia os dois, já tinham trabalhado do meu lado na selva. A essa hora, devem estar na estrada, com os pés em carne viva.
Mais outra pausa, o pé direito sobre uma cadeira. Prosseguiu:
– Prestem bem atenção, não vou repetir: a vida na selva é coisa pra homem, não pode haver vacilo, se bobear, morre. E, ninguém vai chorar por isso. Se não tiver disciplina, obedecer rigorosamente às leis da selva, adeus. Lá, a gente vai comer o que o Mário conseguir cozinhar, beber água do rio, enfrentar animais selvagens, mosquitos, doenças. Não tem mulher dando sopa nem puteiro pra afogar o ganso. E, ai de vocês se tentarem alguma coisa com as índias. Se os maridos ou pais delas souberem de alguma coisa, arrancam o caralho com a faca na hora. Eles são ingênuos, mas têm seu código de honra e somos nós que temos que nos adaptar a eles e não eles a nós. Se sentirem falta de mulher, vão para um canto qualquer e toquem uma punheta. Nunca, em hipótese alguma, tentem qualquer aproximação com as índias. O que espera a gente é trabalho duro, dificuldades que vocês nunca imaginaram passar. Se estão dispostos a enfrentar a parada, vão ser bem recompensados no final. Vão ganhar tanto dinheiro que, se tiverem juízo, não vão mais precisar trabalhar na vida. Mas, se acham que não vão aguentar, digam agora, voltem para Fortaleza. Agora, se quiserem ficar, têm que obedecer às minhas regras. Caso contrário, vão voltar igual àqueles outros dois.
Todos ouviram em silêncio, nenhum ruído se ouvia a não ser o barulho das ondas batendo no casco do navio. Ninguém perguntou nada, ousou abrir a boca.
Faustino concluiu:
– Estamos entendidos, não é?
Outro silêncio, alguns dos homens concordaram com um gesto de cabeça.
– Se alguém quiser desistir, fale com o Pedro, que no próximo porto, arranjo para voltar para Fortaleza.
Virou as costas e saiu do refeitório. Chamou Pedro ao sair, com um sinal com os dedos.
Já do lado de fora, disse em voz baixa para Pedro:
– Fique de olho nesse pessoal, Pedro. Se alguém reclamar de alguma coisa que eu falei, me diga que eu mando logo embora. Tenho que ter gente de absoluta confiança junto de mim.
– Tudo certo, patrão. Mas, me diga uma coisa: o senhor já pensou quem vai colocar no lugar do João e do Firmino?
– Já, Pedro. Deixa comigo.
Despediram-se e Faustino foi até o camarote de Jeremias, que o convidara para uma última dose de conhaque.





segunda-feira, agosto 22, 2016

O BRASIL NAS OLIMPÍADAS...




O BRASIL NAS OLIMPÍADAS...

Calfilho





             Encerrados os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, versão 2016, acredito que cabe aqui uma breve apreciação do desempenho do Brasil nessa Olimpíada.
             Hoje, segunda feira, 22 de agosto, ao ler os jornais ou ouvir e ver as notícias na televisão, surpreendo-me com o ufanismo de parte da imprensa que acha que é uma grande vitória ter sido esta a Olimpíada em que o Brasil ganhou maior número de medalhas.
          Lamento discordar dessa sensação de euforia. Sentir-se assim só confirma a opinião que outros países têm de nós, brasileiros. "Contentam-se com pouco, vamos deixá-los ganhar algumas medalhinhas e ficam satisfeitos". 
        Acho que o número de medalhas conquistadas foi muito pouco em relação ao tamanho do país e sua população. Não consigo aceitar que nós, um país com 200 milhões de habitantes, contente-se e ache heroico conseguir alcançar 7 medalhas de ouro, enquanto outros menores e com maiores dificuldades econômicas atingiram números muito maiores e expressivos.
    Acredito que demos um show de espetáculos, civilidade, hospitalidade e alegria para todos aqueles que nos visitaram. Mesmo com várias opiniões em contrário antes do início dos Jogos, transcorreram eles num clima de respeito, segurança, confraternização e muita emoção em todos os lugares em que foram disputados e, principalmente, fora dali, nas ruas, nos locais de grande movimentação de pessoas, na cidade como um todo...              Brasileiro é muito bom nisso... sabe promover festas e sabe receber os convidados...
          Mas, voltemos à participação do Brasil propriamente dita.
         Ganhamos algumas medalhas onde não esperávamos ganhar e perdemos outras onde estavam nossas melhores esperanças.
       Acredito que, antes do início dos Jogos, esperávamos medalhas no Judô (tradição de outras Olimpíadas), no vôlei de praia (tanto o masculino como o feminino), no vôlei de quadra (especialmente o feminino), no futebol (nos dois gêneros) e no salto com vara feminino, com algumas esperanças na natação (não esqueçamos que o César Cielo não conseguiu índice para competir).
       Acho que nenhum de nós acreditava no ouro no tiro ao alvo (parabéns Felipe Wu), no ouro da Rafaela Silva (parabéns efusivos) no judô (acreditávamos que outros judocas tinham muito mais chance), no ouro de Robson, no boxe (devido à nossa pouca tradição no esporte), e, principalmente no ouro de Thiago Braz, no salto com vara, para mim, pelo menos, um ilustre desconhecido nos esportes olímpicos. Este, talvez, na minha opinião, o ouro mais surpreendente, mais emocionante e mais corajoso, quando, mesmo já tendo garantido a medalha de prata, desafiou o francês mal humorado e arrogante, campeão mundial na modalidade, para um salto numa altura que os dois ainda não haviam alcançado. O francês fez beicinho, ficou irritado com a provocação da torcida e assistiu, de boca aberta, o brasileiro até então desconhecido, vencer o desafio e conquistar a medalha dourada.
     Os outros ouros já eram mais ou menos esperados ou, pelo menos, eram uma grande probabilidade. No futebol masculino (até que enfim, nos penaltys e com muito sofrimento), no vôlei de praia masculino, na vela consagrando a família Grael, da minha Niterói, e no vôlei masculino de quadra, equipe na qual eu não levava muita esperança por ter sido muito modificada e renovada. 
        Parabéns aos ganhadores das medalhas de prata e bronze, por seu esforço e sacrifício em tentarem chegar ao pódio. Vocês realmente são heróis, tendo em vista dificuldade e a dedicação que fizeram com que persistissem na prática de esportes que não têm quase nenhum apoio ou incentivo do nosso governo.
       Para mim, talvez a maior decepção, a equipe do vôlei de quadra feminino, que eu considerava, talvez, ao lado da Fabiana Murer, no salto com vara, as duas melhores esperanças de medalha de ouro antes dos Jogos.
       Repito aqui a tecla anterior: massifiquemos o esporte em nossas crianças, busquemos valores onde achamos que não iremos encontrar, apoiemos a educação esportiva em nossas escolas, desde o curso primário.
        Talvez, um dia, estejamos entre os primeiros na classificação final de uma Olimpíada...

SONHO MEU....

SONHO MEU...

Calfilho



            Terminou ontem, com uma festa muito bonita (não tanto como a de abertura) o período de sonhos que vivemos durante os últimos dezesseis dias.
        Parece que a cidade, naquele período, viveu em outra dimensão, em outra realidade que não a nossa de cada dia.
             Já havíamos experimentado sensação semelhante quando da realização do Pan-Americano, da Festa da Juventude Cristã e da Copa do Mundo de Futebol. A cidade transforma-se, fica mais calma, mais tranquila, os assaltos rotineiros diminuem consideravelmente de intensidade, a violência cotidiana quase não aparece nas manchetes dos jornais, tem-se a sensação de vivermos num país realmente civilizado. 
           Nas ruas da cidade ouvimos vários idiomas estrangeiros, pessoas alegres, rindo descontraídas, carregando a bandeira de seus países, cantando músicas de seus lugares de origem. Nos restaurantes e ruas de Copacabana, bairro onde moro, era difícil de distinguir os países a que pertenciam as pessoas que sentavam ao nosso lado numa mesa para almoçar ou jantar, ou aqueles que conosco cruzavam durante nossas caminhadas pelo calçadão da Princesinha do Mar.
             Comodista que fiquei nos últimos anos, só fui assistir à uma partida de vôlei de praia, na arena montada em frente à rua Princesa Isabel. Muito legal, ao nosso lado estavam duas jovens americanas, na fila abaixo uma família de poloneses, na de trás alguns marroquinos, franceses, ingleses...
               Por que não promovemos outros eventos semelhantes para a cidade maravilhosa continuar fazendo jus a esse elogio que o mudo inteiro lhe faz?
              Festa, alegria, hospitalidade, amizade, congraçamento foi o que presenciamos nesses dezesseis mágicos dias... 
           Que esse espírito olímpico permaneça presente em nossa cidade ainda por alguns dias, quem sabe semanas ou meses... 
          Que não seja apenas uma nuvem passageira que passou rapidamente pelo céu carioca... 
          Que esse espírito fique presente em cada um de nós e façamos da nossa cidade, tão bonita e tão maravilhosa, um lugar onde realmente possamos viver em segurança e com tranquilidade... 
           Que nossos hospitais realmente funcionem e atendam àqueles que têm que recorrer aos seus serviços... 
              Que nossas escolas tenham reais condições de trabalho e ensinem aos nossos filhos e netos que a educação qualificada é o melhor passaporte que eles terão para construir um futuro melhor para eles próprios e para o Brasil...

QUE O SONHO CONTINUE...

terça-feira, agosto 16, 2016

UM POUCO MAIS DAS OLIMPÍADAS...






UM POUCO MAIS DAS OLIMPÍADAS...

Calfilho






          Chegamos hoje ao 11º. dia das Olimpíadas que se realizam na "Cidade Maravilhosa", cidade onde nasci e da qual sou fã de carteirinha... Apesar de ter passado a maior parte de minha vida na vizinha Niterói (que amo tanto), nunca perdi a ligação com o Rio... Afinal de contas, aqui foi a capital do Brasil durante vários anos e, apesar de ter perdido grande parte da importância que tinha até alguns atrás, continua sendo a sede cultural do país, que tem muitas coisas mais para mostrar além das belezas com que Deus nos presenteou...
            Neste ano de 2016 fomos brindados com a realização das Olimpíadas em nossa cidade. Apesar de todas as dificuldades financeiras, todas as mazelas com que nos defrontamos no nosso dia a dia, até aqui os Jogos Olímpicos têm sido um sucesso reconhecido por todo o mundo. Um problema aqui, outro assalto ali, nada disso consegue tirar o brilho das competições em nossa terra. 
          Não importa que o prefeito tenha querido deixar a marca de sua administração realizando obras até certo ponto desnecessárias, modificando a paisagem antiga da cidade para dar-lhe uma aparência de modernidade, às custas de nosso povo sofrido, que paga impostos absurdos para receber os serviços essenciais que, efetivamente não são prestados, principalmente nas áreas de saúde, educação e segurança.
         Tudo bem, deixemos para lá, o momento é de festa, de mostrar nossa cidade para o mundo. 
          Nosso desempenho olímpico, entretanto, é triste, quase lamentável. Não se entende como um país com 200 milhões de habitantes tenha um desempenho tão fraco, para não dizer medíocre. Enquanto outras nações bem menores, até com muito menos recursos econômicos, conseguem nos suplantar, deixando-nos lá atrás na classificação dos Jogos.
              O sempre celebrado Nélson Rodrigues já dizia que o Brasil tem que perder esse complexo de vira lata. Na Copa do Mundo de 1950 perdemos uma final em casa, em pleno Maracanã, porque os nervos dos nossos jogadores não suportaram a pressão exercida sobre eles. Depois, em 2014, voltamos a repetir o vexame, voltando a perder de 7 X 1, agora para a Alemanha, em pleno Mineirão.
             E, agora nas Olimpíadas, vimos há pouco dias, uma ginasta chorar mais uma vez ao fracassar num salto. Já chorara anteriormente e voltou a repetir o choro agora, com a torcida toda a seu lado.
              Na natação, não conseguimos uma só medalha. De pouco adiantou a esforçada torcida de nossos narradores de televisão, quando berravam no microfone "Fulano luta pela terceira colocação", "Fulana briga para subir no pódio" e o Fulano e a Fulana chegavam quase sempre em sétimo ou oitavo lugares.
           No atletismo, até agora, nossa maior esperança, a Fabiana Murer, também não suportou mais uma vez a pressão e foi eliminada ainda na fase classificatória. Já desistira de competir antes em Pequim, alegando que esconderam sua vara de salto e ela não a achara. Quatro anos depois, em Londres, voltou a desistir alegando que havia muito vento para ela competir. Nada disso, a verdade é que "amarelou". 
        Já o jovem atleta de Marília, que pouca gente conhecia anteriormente, foi lá, enfrentou o campeão olímpico, teve raça e coragem para desafiá-lo para um salto maior ... e ganhou a medalha de ouro.
           Tenho poucas ilusões sobre a conquista de outras medalhas...          Talvez o voleibol feminino (excelente equipe), quem sabe o futebol masculino e feminino, quem sabe o vôlei de praia e pouca coisa mais...
      Enquanto não entendermos que temos que massificar os esportes, criando em nossas crianças, desde cedo, o gosto por uma modalidade esportiva, nas escolas, nas praças, nos clubes, nas universidades, ficaremos batendo palmas para Michael Phelps ou Usaim Bolt...






domingo, agosto 14, 2016

OS DESBRAVADORES Capítulo 07



OS DESBRAVADORES

Capítulo 07

Calfilho




VII







O “Rosamar” ia vencendo lentamente a distância que o separava do seu destino.
No dia seguinte, pela madrugada, aportaram em Paracuru, porto maior que Taíba, mas também sem atracadouro direto naquela época. Navio ao largo, nova demorada descarga e carregamento de mercadorias, quase sempre as mesmas: frutas e produtos tropicais eram carregados, algumas máquinas, utensílios e roupas da moda eram descarregadas. Além, é claro, como sempre, as revistas e jornais do Sul do país.
Faustino e Maria Teresa, após o café da manhã, decidiram ir a terra, para uma mudança de ambiente. Embarcaram num dos pequenos botes que faziam o trajeto navio/porto/navio, levando e trazendo as mercadorias. Pedro os acompanhou, bem como João, Firmino e Raimundo, que iriam fazer algumas compras para a expedição, se ali encontrassem o que necessitavam: redes, capas para chuva, lampiões, óleo repelente contra os mosquitos. Apesar de terem levado muita coisa quando embarcaram em Fortaleza, ainda faltavam alguns itens específicos para uma temporada na selva fechada.
Enquanto Pedro e seus auxiliares iam em busca das mercadorias e para uma parada em alguma tendinha para uns goles de cachaça, Faustino e Maria Teresa, de braços dados, davam uma volta pela cidade. Ele, alto, porte esbelto, metido elegantemente dentro de um terno de linho branco, botas de cano alto até os joelhos, chapéu panamá na cabeça, contrastava com a figura da mulher, miudinha, trajando um vestido com bainha cobrindo-lhe os tornozelos, sapato de salto baixo, guarda-sol sobre a cabeça.
Felizmente, ela já se recuperara das crises de vômito dos primeiros dias de viagem e agora estava novamente alegre, feliz, sorrindo a todo o momento.
O mesmo não se podia dizer de Raimundo, cabra macho escolhido por Pedro para acompanhar a expedição e que até aquele dia ainda não parara de vomitar. Fora a terra, acompanhando Pedro e os outros, para ver se, mudando de ares, pisando um pouco em terra firme, conseguia fazer cessar o enjôo. O caboclo estava com a cara verde, pálido, quase não conseguia ficar em pé.
Pedro dele debochava:
– É isso aí, Raimundo, o grande homem que você é? Aquele que se gabava de não ter medo de briga, que enfrentava qualquer um que te aporrinhasse?
– Pára com isso, Pedro – retrucou Raimundo. – Não tá vendo que foi essa porcaria de navio que me fez ficar assim? Homem eu sei enfrentar na ponta da minha peixeira, mas esse negócio de mar não é comigo não.
Pedro, João e Firmino riram gostosamente. Rodaram a cidade, procuraram nas lojas e vendas, mas só conseguiram comprar pouca coisa da mercadoria de que necessitavam. A cidade era muito pobre, quase não tinha nada. Almoçaram num botequim vagabundo e ali ficaram tomando aguardente. Pedro sabia a hora de parar, era só dar tempo para que Faustino, que fora almoçar com Maria Teresa no melhor local do vilarejo, mandasse chamá-los.
O capitão Jeremias havia indicado a pequena pensão do português Rodrigo para que Faustino almoçasse com a mulher.
– Bom dia – cumprimentou Faustino, dando a mão ao português. – O capitão Jeremias me indicou a sua casa como o melhor lugar para se comer aqui em Paracuru. Estamos viajando no navio dele, o “Rosamar”, eu e minha senhora – disse, apontando para Maria Teresa.
Rodrigo abriu um largo sorriso, apertando a mão de Faustino.
– Ora, pois, pois, meu caro amigo – disse. – É um prazer recebê-lo aqui no meu humilde estabelecimento. E o capitão Jeremias, não veio almoçar com os senhores?
– Não – respondeu Faustino. – Ele disse que tem muita coisa a fazer no navio, que ficou ancorado ao largo. Mandou lhe dar um abraço e suas recomendações.
– Por favor, vamos sentar, fiquem à vontade – retrucou Rodrigo, puxando uma cadeira e fazendo uma mesura para Maria Teresa.
Depois que Faustino e a mulher se acomodaram numa das mesas do salão, que já tinha outras ocupadas com pessoas do local, Rodrigo veio com uma garrafa de aguardente nas mãos, servindo uma dose para Faustino.
– Essa cachaça é daqui da região, meu senhor – disse, com o sotaque lusitano bem carregado. – Que tal, gostou?
Rodrigo deixou o líquido espalhar-se pelo interior da boca, estalando a língua depois que o engoliu.
– Muito boa, “seu” Rodrigo. Mas, eu vou querer uma cerveja depois, por favor.
– E a senhora, madame – perguntou o português, dirigindo-se a Maria Teresa. – Bebe o quê?
– Um refresco de caju, por favor – respondeu ela.
– Bem, hoje temos um cabrito refogado e leitão assado. O que vão preferir? – indagou Rodrigo.
– É, o capitão Jeremias tinha razão. Os seus pratos são mesmo de dar água na boca. Acho que vou experimentar os dois, o cabrito e o leitão, um pouco de cada coisa, se isso não lhe causar transtorno. Mas, para minha mulher, por favor, alguma coisa mais leve, por favor. Talvez uma saladinha e ela experimenta o cabrito.
– Pois não, meu caro senhor. Aguardem só um pouquinho.
Enquanto Faustino e Maria Teresa comiam vagarosamente, saboreando a deliciosa culinária local, o cabrito e o leitão bem temperados, cozidos e assados no ponto certo, Pedro, João, Firmino e Raimundo continuavam bebendo aguardente na tendinha ali próxima.
Lá pelas duas da tarde, Pedro chamou os outros para buscarem as mercadorias que haviam encomendado uma lojinha ali perto. Raimundo, que não estava conseguindo beber nada devido às crises de vômito, logo levantou-se para acompanhar Pedro. João disse para Pedro:
– Pedro, vai na frente que eu e o Firmino já vamos já. Deixa a gente beber mais umas doses, porque no navio a gente não consegue nada.
Pedro hesitou por alguns instantes, mas, reconhecendo que a viagem de navio estava entediando os homens, acabou concordando.
– Está bem, mas não demorem. Vocês sabem que o “seu” Faustino não gosta de atrasos, nem de bebedeiras. A loja é aquela onde a gente fez a encomenda, é perto daqui, vê se no máximo em uma hora vocês estão lá.
Saíram os dois, deixando João e Firmino no interior da tendinha.
Faustino, depois de saborear o cabrito, dividindo-o com Maria Teresa, começou a atacar o leitão. Bem assado, o courinho crocante, ainda fumegando, a carne tenra e macia, o limão despejado generosamente em cima dela, a farofa, o arroz quentinho e molhado, a batata frita como acompanhamentos. A gordura empapava-lhe o bigode negro e alguns respingos caiam-lhe sobre a camisa impecavelmente limpa, já que o paletó do terno estava dependurado nas costas da cadeira.
Pediu mais uma cerveja ao português. Este, voltando com a garrafa nas mãos, despejou-a no copo de Faustino e perguntou:
– E, então, meu amigo, gostou da comida? Procurei fazer o melhor...
Faustino, ainda lambendo os beiços, respondeu, passando o guardanapo nos lábios e no bigode:
– Excelente, “seu” Rodrigo, excelente... prato dos deuses... parabéns. Pena que eu não posso ficar mais tempo por aqui, se não...
– Se não o quê? – perguntou Rodrigo, com um sorriso malicioso nos lábios.
– Se não, eu queria experimentar aquela carne seca que está lá pendurada no balcão com jerimum e farinha... Pena que a gente vai embora, não é, Teresa?
Ela concordou com um gesto de cabeça, esboçando um pequeno sorriso ante a satisfação do marido.
Às quatro da tarde, Faustino tomou a cerveja saideira, com Rodrigo fazendo-lhe companhia. Pagou a despesa, acendeu um cigarro de palha e desceu os dois lances de escada do restaurante do português. Maria Teresa ao seu lado, segurando-lhe o braço. Foram caminhando vagarosamente em direção ao porto improvisado, aonde o bote viria buscá-los para levá-los de volta ao “Rosamar”.
Faustino, um pouco cansado e já meio bebido, sentou-se num pequeno banco de madeira.
– Gostou, Teresa? – perguntou, afrouxando as botas e o colarinho da camisa. – Pelo menos a gente saiu daquela rotina do navio. Fiquei satisfeito que você melhorou, comeu alguma coisa.
Deixou os pés cansados respirarem um pouco nas águas tépidas do mar em frente a eles. A água salgada molhava a bainha da calça de linho, agora arriada até os tornozelos, depois que ele retirou dos pés as botas de cano alto.
Já eram quase cinco da tarde, um dos barqueiros que fazia o transporte para o “Rosamar” veio avisá-lo:
– “Seu” Faustino, esse vai ser o último barco para o navio. Vamos agora?
Olhou para o barqueiro, os olhos cheios de sono. Perguntou:
– Aqueles homens que vieram comigo, já voltaram para o navio?
– Não, não senhor. Ainda devem estar por aí...
Faustino praguejou baixinho:
– Filhos da puta, onde foi que se meteram?
– Quer que eu vá atrás deles? – perguntou o barqueiro.
– Não, pode deixar, vamos esperar mais uns quinze minutos – retrucou Faustino.
Com efeito, uns dez minutos depois chegavam Pedro e Raimundo. Faustino foi logo esbravejando:
– Porra Pedro, onde é que vocês estavam? O navio já vai sair, a gente tá atrasado...
Pedro baixou os olhos. Respondeu, meio sem graça:
– Porra patrão, a gente tá procurando o João e o Firmino. Num sabemo onde eles se meteram...
– Filhos da puta... – repetiu Faustino. – Onde é que vocês deixaram eles?
– Na tendinha, patrão. Eu e o Raimundo fomos apanhar as mercadorias que a gente encomendou e eles ficaram de encontrar a gente lá. Mas, não apareceram – respondeu Pedro, visivelmente aborrecido. – Mas, eu pego eles... – murmurou baixinho.
– Vamos voltar lá na tendinha, vai ver que aqueles putos se meteram em confusão – disse Faustino. Virando-se para Raimundo, disse: – Raimundo, você fica aqui com dona Maria Teresa até a gente voltar, ouviu?
O caboclo assentiu com a cabeça. Faustino e Pedro deixaram o embarcadouro a passos largos, Faustino já botando os bofes para fora.
Chegando na tendinha, perguntaram ao dono se sabia dos dois. O homem, meio sem graça e já um pouco temeroso da atitude de Faustino, já falando alto e soltando palavrões, respondeu, com voz baixa:
– Eles tomaram mais algumas cachaças depois que o moço aqui foi embora – respondeu, apontando para Pedro. – Depois, me perguntaram onde podiam arranjar algumas mulheres.
Hesitou um pouco antes de continuar. Faustino gritou:
– Anda, homem, desembucha logo. Onde é que eles foram?
O homem acabou dizendo:
– Eu indiquei a eles o puteiro da Marli, que fica logo aqui perto.
– Filhos da puta... – mais uma vez repetiu Faustino.
Saíram da tendinha, pegaram uma pequena rua atrás, depois dobraram mais umas duas, seguindo as instruções recebidas. Chegaram numa rua onde só havia casas de pau a pique, teto de folha de bananeira.
– Onde é o puteiro da Marli? – perguntou Faustino a uma mulher que lavava roupa numa bacia de madeira.
– Ali na frente – apontou ela, com olhar curioso. – Mas, acho que ela está ocupada agora – concluiu, continuando a esfregar a roupa com as mãos.
Chegando na porta do barraco, Faustino foi logo entrando. João estava emborcado no chão, roncando ruidosamente. Pedro abriu uma cortina que separava um cômodo do outro. Lá estava Firmino em cima de uma velha gorda, desdentada, gemendo a plenos pulmões.
Pedro arrancou-o violentamente de cima da mulher, dando-lhe dois tapas no rosto. Faustino chegou logo em seguida, tirou o cinto da calça e começou a espancar o caboclo nu, ainda com a piroca dura.
– Seu filho da puta sem-vergonha... Tu queria foder com a minha expedição, não é, seu puto? – Eu bem que te avisei, Pedro, eu já estava de olho nesse puto desde a vez passada...
Firmino levava as mãos ao rosto, procurando evitar os golpes com o cinto. Faustino esbravejava, bufava, gritava:
– Tu queria me fazer perder o navio, não é? Jogar todo o meu dinheiro fora... Pois agora, vocês dois vão para Fortaleza a pé...
Virou-se, colocou o cinto novamente no cós da calça, chamou Pedro:
– Vamos, Pedro, vamos embora. Esses putos vão aprender andando...
Pedro ainda pensou em interferir, pedir uma segunda oportunidade para os dois. Mas, vendo o estado de exaltação de Faustino, desistiu, saindo do barraco atrás do patrão. João continuava deitado no chão, sonhando talvez com a boa trepada que dera na velha gorda...