segunda-feira, agosto 08, 2016

OS DESBRAVADORES Capítulo 03




OS DESBRAVADORES

CAPÍTULO 03

Calfilho




III




O casamento foi cerimônia simples, sem luxo ou ostentação, em dezembro de 1915.
Mesmo assim, várias pessoas compareceram, a maioria amigos do “seu” Almeida, pai de Faustino, devido à sua influência na cidade. Do noivo mesmo, só Madeira e uns dois amigos mais íntimos. De Maria Teresa, só seus familiares, já que eles, de origem humilde, não tinham maior relacionamento com a alta sociedade de Fortaleza.
Foram residir numa das casas de propriedade de Faustino, para onde ele já se mudara poucos meses antes do casamento, na Praça José de Alencar.
Os primeiros dois meses da vida em comum foram maravilhosos, Faustino agora completamente enamorado da mulher, procurava fazer-lhe todas as vontades. Quase não saía de casa e, quando o fazia, era sempre em companhia de Maria Teresa.
Mas, no mês de abril, quando ela teve certeza de que estava grávida, a alma boêmia de Jacinto começou a falar mais alto.
No início, saía às tardes, para uma cervejinha com Madeira.
Depois, voltou discretamente às mesas de jogo e, quando começou a perder dinheiro, para elas voltou com toda a intensidade, passando as noites fora de casa, só voltando com o dia já claro.
Maria Teresa nada falava, não reclamava. No seu silêncio, sofria amargurada e, pior, sentia medo de perder o marido para outra mulher. Se já dele gostava muito antes do casamento, agora estava perdidamente apaixonada, ainda mais depois da certeza da gravidez do primeiro filho.
Entretanto, os temores de Maria Teresa eram infundados, pelo menos em relação a ter ele outra mulher. Não, sua atração era apenas pelas noites passadas nas mesas de jogo, pela cerveja tomada com os amigos. Gostava sinceramente da mulher e não passava por sua cabeça ter uma aventura fora do casamento.
O que acumulara na segunda viagem à Amazônia logo se dissipou nas cartas e na roleta. Vendeu duas das casas que comprara e começou a pensar em como voltar a ganhar dinheiro.
Falou com a mulher em retornar ao Amazonas, preparando sua própria expedição.
– Mas, Faustino, aquilo lá é muito perigoso, tem índio, animal selvagem, você mesmo me contou – argumentou ela. – Além disso, têm as doenças, você quase morreu lá, lembra?
Ele tentou tranquilizá-la:
– Não, Teresa, eu conheço todos os perigos. Já estive lá por duas vezes, sei onde pisar. Além disso, agora eu serei o patrão, vou dirigir a expedição do meu modo. Sei que é muito te pedir para ir comigo, mas se você quiser ficar aqui, pode ficar. Deixo você com minhas irmãs ou você pode ficar com sua mãe.
Ela relutou um pouco. Depois, perguntou:
– Você quer mesmo que eu vá com você?
– Claro, Teresa, você é minha mulher e eu queria estar junto de você quando a criança nascer.
Ciosa dos seus deveres conjugais, educada que fora no sentido de que a mulher deve acompanhar o marido nos bons e maus momentos, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, mesmo temerosa do que iria encontrar, acabou concordando.
– Está certo, Faustino, eu vou com você.
– Desculpe, meu bem, pedir isso a você. Mas, é que eu não aguento mais essa rotina daqui de Fortaleza, essa mesmice de vida. E tenho que aproveitar a oportunidade da extração da borracha lá na Amazônia, enquanto ela ainda existe. O mundo inteiro precisa dela, principalmente a indústria de automóveis, para fabricar os pneus. Já ouvi vários boatos de que sementes da seringueira foram contrabandeadas pela Inglaterra para suas colônias na Ásia. Aí, adeus à nossa extração de borracha. Aquilo lá era uma mina de ouro e, se os boatos forem verdadeiros, em pouco tempo a mina está esgotada.
E concluiu:
– Pode deixar, fique tranquila, nada de mal vai te acontecer, eu te prometo. Já me dou bem com os índios da região e o pessoal que vai comigo é de inteira confiança. E, vai até ser original: nosso filho vai nascer no Amazonas.
Ela, já agora adulta e mulher feita, deixou a hesitação de lado. Disse, incisiva:
– Tudo bem, mas quero que você me prometa uma coisa.
Ele olhou para ela, curioso.
– Diga aí, Teresa – respondeu, com um sorriso de ironia.
Ela voltou a hesitar, um pouco temerosa. Tomou coragem e disse:
– Bem... bem, Faustino... eu queria que você me prometesse não jogar mais até a gente voltar da viagem... você fica tão alucinado com isso, perde a razão...
Ele refletiu. Depois, respondeu:
– Tá certo, Teresa, você ganhou. Você tem razão. Também, não queria jogar mais mesmo – disse, com ar desconsolado. – Prometo.
Ela sorriu e murmurou baixinho:
– A raposa e as uvas...











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