OS DESBRAVADORES
Capítulo 32
Calfilho
XXXII
O cacique Arumã estava satisfeito.
Afinal, depois de longo tempo afastados, conseguira
rever o amigo Faustino, o “homem do chapéu grande”, como o chamava. Tinha para
com ele impagável dívida de gratidão. Se não fosse Faustino, alguns anos atrás,
a essa hora já estaria visitando seus antepassados. Quando fora picado por
aquela cobra venenosa no meio da selva, não haveria recurso índio que o
salvasse. O veneno daquela era diferente do das outras, matava em poucos
minutos. As ervas e beberagens que costumava usar para mordidas de cobra não
iriam funcionar daquela vez. Faustino prestou-lhe socorro prontamente, chupara
o veneno do seu sangue, os dentes grudados em sua canela que já inchara
bastante segundos após a mordida. Depois, aplicou-lhe uma picada no braço com
aquele líquido branco espumoso que correu para dentro do seu corpo. Engraçado,
pensou, “a picada daquele negócio que depois veio saber chamar-se injeção
doeu mais que a mordida da cobra”.
Arumã já era chefe de sua tribo há várias luas, mais
de vinte anos, segundo lhe explicou Faustino, fazendo a conversão do tempo de
luas para anos. Pertencia aos Kuniva Deni, variação dos Deni, tribo que
habitava a região dos rios Purus e Juruá. Eram índios nômades, não ficavam
muito tempo no mesmo lugar, mudavam-se constantemente em busca de melhores
áreas para a caça e, desde algum tempo, fixaram-se na margem esquerda do grande
rio, depois de Itacoatiara e antes de Parintins. Estavam fixados ali por mais
tempo porque, com o auge da exploração da borracha na região, aproximaram-se
dos brancos e com eles conseguiram trabalho. Os brancos, em troca do serviço
braçal, forneciam-lhes as mercadorias básicas para a sobrevivência da tribo,
sem que tivessem mais necessidade de sair em busca do que comer. Antigamente, a
caça e a pesca eram as únicas fontes de alimentos. Mas, apenas com arcos e
flechas, nem sempre conseguiam êxito e muitos morriam de fome ou doenças bobas,
como um simples arranhão ou um osso quebrado numa queda na selva.
Na realidade, seu nome verdadeiro, na língua Aruak,
não era Arumã. Mas, como era muito difícil de ser compreendido o que falavam,
os exploradores aportuguesavam o que conseguiam entender. Fora Faustino quem,
depois de tentar inutilmente pronunciar com exatidão o nome do cacique, acabou
por dar-lhe uma forma adaptada para o português, que ficou sendo Arumã. Com o
passar do tempo, os dois conseguiram se comunicar melhor. Mas, inicialmente,
nenhum entendia o que o outro dizia e a linguagem dos gestos é que servia de
meio de comunicação entre ambos.
Assim também ocorreu com Auã, que Pedro recrutou numa
das paradas do “Rosamar”, a caminho de Belém. Como ninguém conseguia entender o
que ele dizia, nem mesmo o seu nome, este acabou sendo aportuguesado para Auã.
Apesar dele morar numa cidade civilizada pelos brancos já há algum tempo. Os
índios não faziam a mínima questão em querer aprender o português, mantendo-se
fiéis à língua de origem. Os outros que se virassem e que aprendessem a falar
com eles.
Assim, era engraçado ouvir Pedro ou outro dos
seringueiros dando ordens a algum dos índios que fazia parte do seu grupo de
extração do látex. Falavam alto, gritavam, esbravejavam e os índios ficavam
olhando para eles com ar inocente, sem entender nada do que diziam. Somente
pelos gestos feitos com as mãos ou com os pés é que conseguiam entender alguma
coisa.
Maria Teresa e as índias que a cercavam, da mesma
forma, só se conseguiram fazer compreender depois de vários dias de
convivência. Também era muito engraçado vê-las soltando grunhidos e sons
ininteligíveis, fazendo gestos espalhafatosos com as mãos. Mas, com elas era um
pouco diferente dos homens: riam sem parar, achavam graça em tudo, procuravam o
entendimento com bom humor. Já os homens viviam aos gritos, não conseguindo
esconder a exasperação. Praguejavam, soltavam palavrões, xingavam os índios.
Arumã, depois que conheceu Faustino, em 1909, muito
antes do episódio da mordida da cobra, acabou por nele confiar totalmente.
Passaram alguns dias naquele processo de conhecimento mútuo, um desconfiando do
outro, mas como Faustino, capataz da expedição, precisava desesperadamente
conseguir homens para o trabalho braçal e Arumã também necessitasse de suprir
sua tribo dos mantimentos que os brancos tinham estocados, a necessidade de
ambos acabou por aproximá-los.
Fizeram uma boa amizade naquele primeiro contato e quando
Faustino voltou à Amazônia, em 1912, Arumã foi logo procurá-lo. Foi então que
ocorreram os episódios da mordida da cobra e da malária de Faustino, o que mais
aproximou os dois.
Agora, dessa vez, quando Arumã foi avisado por Morais
que Faustino iria voltar à região, procurou logo entrar em contato e colocar
seus índios à disposição do amigo branco.
Arumã lembrava-se com nitidez de sua infância e da
adolescência, passadas em companhia do pai e da mãe, vagando para lá e para cá,
pelas duas margens do grande rio. Passavam longe das cidades, nem das menores
se aproximavam. Não queriam contato maior com a civilização, a não ser o mínimo
indispensável que lhes fornecesse algum meio de sobrevivência.
A selva já não era como antigamente, quando somente os
índios nela habitavam e transitavam, onde a caça e a pesca eram abundantes e
não havia disputas maiores para procurar o alimento. Naquele tempo, as únicas
preocupações da tribo Kuniva Deni eram os perigos naturais da grande floresta e
a rivalidade com os índios Akawés, tribo inimiga e que às vezes, cruzava o
mesmo território.
Arumã perdera três irmãos, que não chegaram a atingir
a idade adulta. Dois morreram em lutas travadas com os Akawés e o outro, mais
velho que ele e que seria o futuro cacique, atacado por uma cobra venenosa.
Cruzaram toda aquela região, quase fronteira com o Peru até depois de Manaus. O
pai de Arumã nunca quis contato com o homem branco, mas este, na fase áurea do
ciclo da exploração da borracha, chegava aos milhares à região, trazendo com ele
suas doenças, seus vícios, invadindo a cada dia que passava o território
virgem, somente pisado antes pelas tribos indígenas.
O velho cacique, pressentindo a chegada cada vez mais
próxima do invasor, mal se fixava num terreno e pulava para outro, tentando
evitar por todos os meios possíveis que sua gente fosse contaminada. Mas, eles
não paravam. Dia a dia iam avançando mata adentro, derrubando árvores, fazendo
queimadas, iniciando culturas de mandioca, feijão, batatas e outras mais. Arumã
já ouvira histórias de que alguns índios de outras tribos que tiveram contato
com os brancos foram por eles rapidamente corrompidos. Adquiriram o vício da
embriaguez, suas mulheres foram violentadas ou acabaram seduzidas pelas falsas
promessas dos caboclos nordestinos, acabaram fazendo todo o trabalho braçal sem
nenhuma compensação, na condição de escravos. E, pior, com sua aproximação cada
vez mais intensa, espantaram a caça animal e poluíram as águas dos rios,
reduzindo a pesca outrora abundante.
Quando o pai morreu, Arumã, agora o filho mais velho,
foi aclamado como o novo cacique. Tinha, na época, pouco mais de vinte anos,
tendo que resolver de pronto o grave problema de como alimentar o seu pessoal.
A aproximação com os brancos tornou-se então
inevitável.
Sua grande sorte foi que o primeiro branco que
conheceu foi Faustino, em 1909, quando este tinha apenas vinte e três anos de
idade e chegava pela primeira vez na Amazônia.
Faustino, capataz daquela expedição, estava
fiscalizando uma colocação de um seringal, onde trabalhavam seis homens,
extraindo o látex de umas trinta árvores. Pedro era um desse homens.
Faustino, no seu vistoso terno branco de sempre,
chapelão de aba na cabeça, botas de cano alto, bigodinho fino sobre o lábio
superior, dava ordens aos homens, indicando uma coisa ali, corrigindo outra
ali.
Arumã e alguns dos seus homens já vigiavam a colocação
há uns três dias, desde que perceberam a chegada dos seringueiros. Estavam
curiosos antes de tudo, já que nunca tinham visto de perto um homem branco. Em
segundo lugar, queriam observar de longe o que eles comiam, do que se
alimentavam.
Estavam acampados ali perto, a uma distância de uns
trezentos metros aproximadamente. Quando ouviram vozes na mata, deixaram os
outros integrantes da tribo na taba e, chefiados por Arumã, uns sete deles
foram observar os brancos. Esconderam-se na mata, escondidos atrás da densa
vegetação, ficando a uns trinta metros dos seringueiros.
Não entendiam porque os brancos faziam aqueles cortes
nas árvores e colocavam aquelas cacimbas embaixo, onde a seiva viscosa era
recolhida. “Será que aquele líquido branco servia para beber? Ou faziam
alguma espécie de comida com ele?” –pensava Arumã.
Quando o sol estava a pino, quase encoberto pelas
copas das altas árvores, os homens pararam de trabalhar e sentaram-se no chão.
Já era por volta do meio-dia. Conversavam alegremente em torno de uma pequena
fogueira, onde uma grande vasilha preta de ferro cozinhava o almoço. O cheiro
de charque e jerimum exalava fortemente da vasilha e, mesmo de onde estavam, os
índios o sentiram no ar.
Arumã e seus homens nunca haviam sentido aquele
cheiro, que lhes pareceu delicioso. Os homens se serviram, colocando a refeição
em marmitas de alumínio, comendo com satisfação. Os índios continuavam
observando de longe.
Arumã também ficou encantado com as roupas usadas por
Faustino. Aquele terno branco de linho, o chapéu e as botas davam um aspecto de
distinção àquele branco alto e que gritava muito com os outros homens.
“Ele deve ser o cacique deles” – pensou.
Sentado numa toalha sobre o chão de terra, para não
sujar a calça branca do terno, Faustino almoçava ao lado de Pedro. Disse
baixinho:
– Pedro, tem uns índios observando a gente.
Pedro virou o pescoço para os dois lados.
– Não vejo ninguém, patrão. Como é que o senhor sabe?
– Já reparei neles há uns dois dias atrás. Eles só
estão olhando, parece que estão com medo de se aproximar.
– Será se são perigosos? – perguntou Pedro.
– Não sei, vou tentar descobrir durante o dia. Não
alerte os homens, senão vão acabar fazendo merda.
– Tá certo, patrão – retrucou Pedro.
Depois do almoço, os homens retomaram o trabalho, cada
um retornando às suas seringueiras. Faustino, fingindo despreocupação, dava uma
ordem aqui, outra ali, circulando entre as árvores como quem não quer nada. Foi-se
embrenhando mata adentro, até que chegou bem perto do local de onde Arumã e
seus índios observavam o ambiente.
De repente, quando olhou em volta, viu-se cercado por
vários arcos e flechas apontados para ele. Os índios o haviam cercado
silenciosamente, sem que ele percebesse qualquer ruído ou movimento. Olhou
fixamente para eles, um a um, até que parou o olhar sobre aquele que lhe
pareceu o chefe, pois tinha um cocar na cabeça.
Tentou falar:
– Boa tarde, eu sou Faustino.
Os índios continuavam com os arcos e flechas apontados
em sua direção. Nada disseram, não moveram um músculo. Depois de algum tempo em
silêncio, Arumã caminhou em sua direção. Olhou-o com curiosidade, reparou que
os dois tinham aproximadamente a mesma idade. Deu uma volta ao seu redor. Faustino
permanecia imóvel, Arumã viu o revólver dependurado em sua cintura. Não sabia
ao certo o que era, para que servia, mas deduziu que seria aquele objeto de que
lhe falara seu pai. Aquele que os homens brancos traziam consigo, que fazia um
estouro e matava os índios.
Apontou para o revólver e fez um gesto para que
Faustino o jogasse ao chão. Ele obedeceu imediatamente. Arumã mandou que um dos
seus guerreiros apanhasse o revólver.
Faustino procurou manter a calma, respirando
profundamente. Novamente, tentou falar:
– Nós estamos aqui em paz. Vocês entendem a minha
língua?
Ninguém respondeu, pois não entenderam nada do que ele
disse. Arumã continuava a dar voltas em torno de Faustino, examinando-o
detalhadamente. Não se conteve e tocou na aba de seu chapéu. Faustino continuou
imóvel. Percebendo o interesse do índio no chapéu, tirou-o da cabeça e estendeu
a mão, passando-lhe o mesmo.
Arumã pegou o chapéu das mãos de Faustino, colocando-o
desajeitadamente na cabeça. Os outros índios riram. Arumã também acabou rindo.
Faustino, sentindo que ganhava a confiança deles, também sorriu. Ajeitou com as
mãos o chapéu na cabeça do cacique. Os outros índios aplaudiram, continuando a
rir, como se achassem melhor a nova posição daquele objeto estranho na cabeça
de seu chefe.
Faustino arriscou avançar um pouco mais. Fazendo
gestos com as mãos, indicava aos índios para que o acompanhassem. Eles, a
princípio, não entenderam direito o que ele queria dizer. Depois, parecendo
entender, ficaram desconfiados. Mas, Faustino fez o gesto definitivo, aquele
que os convenceu. Levou as mãos à boca, indicando que os convidava para comer
alguma coisa.
Eles, que estavam de estômago vazio desde a manhã,
quando começaram a vigiar o acampamento, entreolharam-se, hesitando se
aceitavam ou não o convite.
Faustino insistiu, abrindo um largo sorriso e puxando
Arumã pelo braço. Este, ainda com o chapelão enterrado na cabeça, deixou-se
arrastar. Os outros o seguiram.
Chegando no centro da área de exploração, onde a
pequena fogueira ainda ardia no chão, Faustino distribuiu algumas marmitas
entre os índios. Depois, com a concha, foi servindo em cada uma o charque, o
jerimum e a farinha de mandioca. Distribuiu, também, colheres entre eles. Os
índios, com a marmita numa das mãos e a colher na outra, não sabiam o que
fazer, olhando para Faustino. Este, percebendo-lhes a hesitação, pegou também
uma marmita para ele, enchendo-a com a comida. Segurando uma colher, levou-a à
boca, cheia de carne seca e jerimum.
Os índios o imitaram, saboreando o gosto da comida. Em
pouco mais de um minuto esvaziaram as marmitas. Faustino voltou a enchê-las.
Arumã e sua tribo, é claro, já conheciam o fogo. Mas,
no preparo da caça ou pesca, nunca utilizavam sal ou outros temperos. Por isso,
sua comida não tinha gosto, o sabor era nenhum.
Experimentando aquela mistura de charque e jerimum,
regada à farofa, bem temperada com cebola, alho, coentro, salsa, sal e muita
pimenta, acharam-na maravilhosa. Riam muito enquanto comiam, faziam comentários
em sua língua ininteligível. Depois, levantaram-se e começaram a dar passos de
dança em volta de Faustino, levantando os braços em saudação para ele.
Os seringueiros, trabalhando junto às suas árvores,
olhavam de lado para aquela cena, com medo de nela interferir. Não sabiam ao
certo o que Faustino estava fazendo, estavam com receio de provocar os índios.
E, se eles fossem perigosos? Talvez canibais?
Depois que os índios pararam de dançar, Faustino
convidou Arumã a sentar-se no chão. Tentou explicar, por gestos, que eram
amigos, que estavam ali em paz, trabalhando, colhendo a seiva das árvores para
transformar em borracha... Arumã olhava para ele com expressão apalermada,
pouco entendendo de sua explicação.
Com cuidado, Faustino gritou:
– Pedro, vem cá. Traz um balde cheio de látex.
Pedro obedeceu, caminhando vagarosamente em direção
aos dois sentados, com o balde nas mãos. Estava pesado, devia ter uns doze
quilos.
Faustino pegou o balde e mostrou o látex a Arumã. Fez
um esforço danado para explicar que ele seria esquentado no fogo e depois
transformado em borracha. O cacique entendeu pouca coisa.
Faustino disse para Pedro:
– Olha, vou tentar levar eles até o acampamento. Vem
atrás de mim sem que eles percebam. Mas, só atire em último caso, só se eles
mudarem o comportamento. Parece que são pacíficos e vou tentar ver se eles
querem trabalhar com a gente.
Levantou-se, estendendo a mão direita a Arumã,
ajudando-o a ficar em pé. Com novos gestos, convidou-o a acompanhá-lo. O
cacique, ainda com o chapelão enterrado na cabeça, hesitou mais uma vez.
Faustino insistiu. O índio decidiu acompanhá-lo, fazendo sinal para que os
outros o seguissem.
Foram atravessando os “varadouros” com cuidado até
chegarem à colocação. O pessoal que lá estava, inclusive o chefe da expedição,
ficaram surpresos com Faustino puxando uma fila de índios. Ficaram meio de
longe, olhando, curiosos.
Faustino falou, em voz alta, para que todos ouvissem:
– Pessoal, estes aqui são alguns índios que
encontramos lá embaixo, num dos seringais. Acho que são pacíficos. Por favor,
não façam nenhum gesto brusco ou falem muito alto para não assustá-los. Se
confiarem na gente, acho que podemos convencê-los a nos ajudar aqui.
O pessoal obedeceu, inclusive Fernando, o chefe dos
seringueiros.
Faustino disse-lhe, em voz baixa:
– Fernando, acho que eles estão com mais medo da gente
do que nós deles. Parecem assustados, acho que nunca viram o homem branco.
Também parecem com fome, dei de comer para eles lá no seringal, devoraram tudo.
Fernando respondeu:
– Tudo bem, vai em frente, vê se consegue lidar com
eles. E, se conseguir convencê-los a trabalhar, ótimo. Estamos precisando de
gente aqui, quantos braços a mais vierem, melhor.
Faustino conduziu Arumã e os índios até sua cabana.
Mostrou-lhe o sal, fazendo com que o experimentasse. Também o açúcar e outros
condimentos, dando-lhes um pouco de cada um para que os levassem. Deu-lhes
também alguns presentes, como roupas, sandálias, braceletes dourados e outras
quinquilharias.
Depois de meia hora mais ou menos, despediram-se. Os
índios nada prometeram, mas Faustino tinha certeza de que voltaria a
encontrá-los.
Realmente, no dia seguinte, bem cedo pela manhã,
apareceram eles na “colocação”. Logo que localizou Faustino, Arumã a ele se
dirigiu. O capataz não ficou surpreso. Ofereceu uma caneca de lata com café e
leite ao cacique. Este, que nunca havia bebido aquilo, saboreou com prazer o
líquido. Faustino mandou que um dos homens servisse o mesmo para os outros
índios.
Arumã mandou um dos índios colocar no chão vários
objetos, entre eles colares e cocares de penas coloridas de aves, facas e
facões rudimentares, machados, arcos e flechas. Ofereceu uma bela faca a
Faustino e mandou que os demais índios distribuíssem os outros objetos entre os
homens da “colocação”. Estes agradeceram, com um sorriso amarelo nos lábios.
Faustino aproveitou para tentar explicar a Arumã que
precisava do trabalho braçal dos índios. Explicou-lhe por várias vezes, através
de gestos, qual seria o trabalho e qual seria a recompensa.
Ficaram quase toda a manhã tentando um entendimento.
Lá pelas onze horas, Arumã parece que entendeu... Mais ou menos...
Falou com os demais índios sobre a proposta. Mas,
queriam o pagamento, não em dinheiro, que não valia nada para eles. Desejavam
mercadorias para comer, para cozinhar, algo que viesse a suprir a dificuldade
que tinham agora em caçar e pescar.
Faustino compreendeu. Ofereceu-lhes logo para que
levassem para sua taba alguns quilos de charque, sacos de sal e açúcar, farinha
de mandioca, jerimum, feijão, banha de porco.
Naquela época, Faustino ainda não sabia o nome de
Arumã, que só lhe foi dado muito tempo depois, aportuguesado. A comunicação
oral entre os dois ainda era feita por meio de grunhidos e os gestos é que
serviam como meio de compreensão. Os índios foram embora carregando os
mantimentos.
No dia seguinte, antes que o dia clareasse, Arumã
voltava com uns vinte índios atrás dele. Acordaram Faustino, que ainda dormia.
Arumã, através dos seus grunhidos e gestos, disse que estavam prontos para o
trabalho.
Começou assim a amizade entre os dois. E, como foi
dito anteriormente, Arumã teve sorte em ter sido Faustino o primeiro homem
branco que encontrou. Tinham quase a mesma idade, o que facilitou a
aproximação. Apesar de Arumã já ser casado e ter dois filhos, além de ser o
chefe de sua tribo, essas responsabilidades não o faziam ser muito diferente de
Faustino. Este respeitava a natureza, impedindo a sua degradação desnecessária.
Com ele, árvore só era cortada para um fim útil. Animal só era morto quando
servia de alimento. Evitava poluir a água dos rios e jamais fizera uma queimada
para plantação de legumes ou outros vegetais. Tinha um verdadeiro respeito pela
raça indígena, que considerava como a verdadeira dona da terra, evitando ferir
seus costumes ou tradições.
Se, ao contrário, o primeiro contato de Arumã com o
branco fosse com qualquer daqueles vários aventureiros que invadiram a região
amazônica, muitos deles malfeitores e de péssimo caráter, talvez o destino de
sua tribo fosse outro. Homens insensíveis, duros, que não respeitavam nada,
muito menos os índios que eram escravizados e pervertidos sem compaixão...
Faustino estava cansado de ouvir histórias de tribos
inteiras corrompidas e dizimadas pelo álcool, as mulheres violentadas e pegando
doenças venéreas de colonos ignorantes e ambiciosos, os índios trabalhando sem
nada receber. Era a “civilização” que chegava até eles, a “cultura” do homem
branco que ali aportara para lhes dar “melhores” condições de vida.
Por isso, às vezes era até ironizado pelo resto do
pessoal da expedição pelo cuidado exagerado que tinha em preservar a natureza,
pelo respeito que tinha pelos índios e sua cultura.
Quando partiu de volta para Fortaleza após aquela
primeira expedição, Arumã e seu povo foram despedir-se de Faustino, tendo este
prometido que voltaria em pouco tempo.
A amizade entre os dois ficou fortalecida quando
Faustino realmente voltou à região, ainda como capataz de uma segunda
expedição, em 1912. Foi recebido com alegria pelo cacique, que novamente
colocou seus bravos à disposição. Faustino levou-lhe vários presentes, para ele
e sua tribo, o que muito alegrou os índios. Foi dessa vez que ocorreram a
picada da cobra em Arumã e a malária que acometeu Faustino.
E, agora, daquela vez, quando Morais avisou Arumã da
próxima chegada do amigo branco, ainda mais acompanhado da mulher esperando
criança, o índio preparou-se com cuidado para proporcionar-lhe uma recepção
digna da amizade entre os dois.
Já se consideravam irmãos de sangue.
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