segunda-feira, julho 25, 2016

ESCOLHAS NA VIDA...

       

ESCOLHAS NA VIDA...

Calfilho





           Acredito que a maioria de nós teve momentos na vida em que tivemos que tomar uma decisão sobre o caminho a seguir, e dessa decisão nosso futuro seguiu a trajetória de vida que tivemos.
              Livre arbítrio? Destino?
           O que seria de nossas vidas, nosso futuro na época e nosso atual presente, se tivéssemos escolhido uma das opções que a vida nos colocava em nossa frente? São aquelas encruzilhadas com que nos deparamos e nos perguntamos: sigo pela estrada da direita ou pela da esquerda?
          Já passei por várias dessas ocasiões e, acredito, muito de nós também passaram. E aí nos surge aquela indagação? Sou realmente dono do meu futuro? Até onde vai meu livre arbítrio, minha capacidade de escolher aquilo que seja o melhor para mim?
          Pretendo relatar aqui alguns desses episódios de escolhas na vida, acontecidos uns comigo mesmo, outros com alguns de meus amigos mais próximos. Em relação a alguns dos personagens não vou colocar seus nomes verdadeiros, pois talvez não desejem relembrar o passado, ou, quem sabe, talvez estejam arrependidos das decisões que tomaram... Minha intenção é apenas a de constatar até onde vai o nosso livre arbítrio e como o destino pode modificar algumas das decisões sobre nossas vidas...
         Uns não acreditam em destino, consideram que suas vidas foram exclusivamente decididas por eles próprios... Outros, ao contrário, entendem que tudo já estava predeterminado desde que nasceram, a vida que tiveram já estava traçada e nada do que fizessem poderia modificar o que já estava escrito...
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           Quando estávamos para terminar o curso ginasial no Liceu Nilo Peçanha, em Niterói, em 1956, vários dos meus colegas de turma, que comigo estudaram desde 1953, já haviam decidido que iriam tentar ingressar nas Forças Armadas: o Exército, a Marinha ou a Aeronáutica. Não sei bem se essa decisão era deles mesmo (o que acho difícil, pois tínhamos acabado de completar 14 anos de idade) ou, o que é mais provável, de seus pais. Não resta dúvida que o ingresso nas Forças Armadas já praticamente garantiria o futuro dos jovens estudantes. Lizardo, que comigo estudara desde o primário, iria para a Marinha, assim como alguns outros. O Exército arrebanhou mais alguns liceístas e a Aeronáutica foi o caminho de outros. Mesmo tendo que estudar, daí em diante, em cidades distantes de Niterói, como Fortaleza, Barbacena ou Angra dos Reis.
            As meninas, em sua grande maioria, iriam para o Instituto de Educação, onde tornar-se-iam professoras primárias, então a carreira mais indicada para as moças da época.
             Lizardo bem que tentou convencer-me a ir com ele fazer o Colégio Naval, em Angra dos Reis. Além da nossa amizade anterior ao ingresso no Liceu, tínhamos sido atletas do Canto do Rio F.C., clube pelo qual disputáramos os Jogos Infantis, patrocinados pelo Jornal dos Sports. Mas, como o desejo do meu pai era que eu fosse médico como ele, desde que eu era pequeno, continuei no Liceu, assim como vários outros colegas que me acompanhavam desde o ingresso no colégio. Aí, haviam duas opções à nossa frente: cursar o científico (dirigido para aqueles que pretendiam seguir as carreiras chamadas exatas ou as biológicas, como engenharia, medicina ou odontologia, as principais) ou clássico (destinado aqueles que queriam cursar Direito ou Filosofia, principalmente). Naquele tempo, não existiam faculdades de história, geografia, fisioterapia, nutrição, administração, e tantas outras novas carreiras, como atualmente.
             Mas, sei de casos de colegas que foram para a Marinha ou o Exército e lá não se adaptaram, voltando a estudar no Liceu, no científico ou clássico.
             Eu, tenho certeza de que não me adaptaria à rigidez da vida militar, pois sempre fui um pouco indisciplinado, não gosto de obedecer ordens, sempre gostei de criar alguma coisa, de descobrir novos horizontes, não me vendo como um mero seguidor de determinações superiores.
           Bem, não esqueçamos que alguns anos depois, em 1964, eclodiu a "Redentora" no Brasil. Imagino como vários daqueles que comigo estudaram no Liceu, já então oficiais das Forças Armadas brasileiras, estariam desempenhando suas funções em atividades de repressão e tortura daqueles que consideravam "subversivos". Será que, intimamente, concordaram com aquilo tudo? Desconheço o drama de consciência por que passaram (acredito que a maioria realmente passou), pois perdi o contato com todos eles, só voltando a rever um ou dois mais de cinquenta anos depois... E, logicamente, nunca conversamos sobre aquele período negro da história do país...
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               Toninho foi o melhor amigo que tive na vida.
             Engraçado é que nós só estudamos na mesma sala um  ano, o quarto ginasial, em 1956. Já o conhecia dos "rachas" nas quadras do Liceu, dos três anos anteriores em que cursamos o ginasial, no turno da tarde. Apesar de estudarmos na mesma série, éramos de turmas diferentes. Eu, sempre nas primeiras turmas (a dos CDFS, como eram chamadas), ele em outras de alunos cujas notas não eram tão boas. Quando fomos para o turno da manhã, para o quarto ano ginasial, as turmas foram formadas por ordem alfabética, por isso ele foi parar na minha turma, já que eu continuava na primeira. Porque nossos nomes começavam por A (ele, Antonio) e C (eu, Carlos).
              Ele era o quarto de uma família de seis filhos. Criados pela mãe viúva, moravam num local humilde, num canto escondido do Fonseca. Quando terminamos o quarto ano ginasial, ele teve que ir trabalhar para ajudar em casa, indo estudar no turno da noite do Liceu.
             Jogava muito bem futebol, daí nossa amizade se fortaleceu, colega que era dos vários "rachas" que disputávamos nas quadras liceístas nos intervalos ou recreios. Atendendo convite de um outro aluno do Liceu, Robertinho Siri, fomos jogar futebol de salão num clube de Neves (São Gonçalo). Pegávamos o bonde nas Barcas todos os domingos para irmos para lá, para treinos ou jogos.
           Também o convidei para fazer parte do Canto do Rio, onde íamos treinar futebol de salão, assistir um cineminha às terças ou brincar o Carnaval.
          Depois que comecei a fazer parte da diretoria do Grêmio, logo o chamei para fazer parte do time de futebol de salão do colégio. Era o único do turno da noite que jogava no time. Depois vieram Dario e Berba. Todos os outros estudavam no turno da manhã.
             Por sua qualidade técnica, logo o coloquei no primeiro time do Liceu (eu era o técnico e jogava pelo segundo time). Toninho disputou várias partidas pelo colégio, acompanhando-nos nas excursões que fizemos ao Colégio Naval (Angra dos Reis), Mangaratiba e Cachoeiro do Itapemirim.
             Com dificuldade, terminou o científico no turno da noite. Não teve condições de pagar um cursinho pré vestibular para medicina, carreira que, muito vagamente, sonhava em seguir.
            Lembro-me perfeitamente que, uma vez, acho que em 1958, visitando-me no apartamento em que eu morava, na avenida Amaral Peixoto, conversávamos na grande sala do mesmo. 
              Toninho comentou:
         -- Puxa, Carlinhos, se eu também fizer medicina, nós podemos montar um consultório aqui. Você ficaria com a parte da janela e eu nessa outra parte.
             A sala era dividida ao meio por uma grande parede de tijolos de vidro.
               Respondi, já não muito entusiasmado com a ideia de fazer medicina, que era a carreira do meu pai e por sua insistência eu me preparava para isso, já que cursava o científico. 
                -- É, Toninho, pode ser, seria muito legal.
         Ele acabou cursando economia, mas nunca seguiu a profissão. Em janeiro de 1964 foi comigo e outros amigos a Campos, onde fizemos um concurso para admissão ao Banco do Brasil, na época considerado um grande emprego. Não foi aprovado e, mais tarde fez outro concurso para funcionário administrativo do antigo INPS, sendo aprovado.
           Aí talvez tenha entrado o destino na sua vida. Casou-se com uma médica, tiveram um filho, e, talvez sentindo-se em posição inferior a ela, por receber menos que a mulher e, quem sabe (ele nunca me confessou diretamente, isso é apenas dedução minha), talvez ouvindo em casa o que não desejava ouvir.  Depois que se separaram, ele já com mais de trinta anos, fez o vestibular para medicina, e, depois de formado e do segundo casamento, foi morar e trabalhar no interior de Minas.
         Nunca chegamos a ter nosso consultório conjunto, mas, se uma das coisas que mais me deu alegria na vida, foi comparecer à sua formatura como médico em Volta Redonda.
                                                
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            Sérgio entrou para o Liceu em 1958, para a minha turma do 2º. ano científico. Baixinho, voz fanhosa, foi logo querendo arranjar confusão com a gente, a maioria alunos que vinham juntos desde a 1ª. série do ginasial. Mas, depois de alguns dias, vendo que não adiantava querer brigar, acabou juntando-se aos demais alunos, principalmente, em relação a mim e a Irapuam.
         Tinha vários problemas familiares e só em nós dois encontrava um ouvido amigo para escutá-lo. Era obrigado a trabalhar à tarde numa loja do pai.
                  Às vezes, desabafava:
            -- Porra, estou doido para acabar o científico, fazer um concurso qualquer para sair daquela casa.
                Quando terminamos o científico, em 1959, perguntei-lhe:
                -- E aí, Serginho, vai fazer o quê da vida?
          -- Não sei -- respondeu-me. -- Vou ver se tem algum concurso aberto. Pode ser também que eu faça Faculdade de Agronomia, lá no km. 42, da Dutra. Pelo menos, fico morando lá.
             Acabou fazendo isso mesmo. Antes formou-se pelo CPOR, no Rio de Janeiro, pois estava morando com uma irmã, na Lagoa.
             Não fez agronomia e sim, veterinária. Mas, insatisfeito com a profissão, acabou fazendo vestibular para medicina.
        Viamo-nos mais espaçadamente. No início dos anos 60, ele costumava vir do Rio para jogar uma pelada com a turma da praia, composta, na sua maioria por ex-liceístas.
      Era dermatologista e, certa vez, acompanhou-me até o consultório de uma médica sua amiga, para extrair um quisto sebáceo que eu tinha nas costas.
          Muitos anos depois, fui ao aniversário de um de seus filhos, em Bonsucesso, local onde foi morar depois do casamento.
         Depois dele ter-se formado em medicina, encontrei-o algumas vezes no Rio, perto do Forum, local onde eu trabalhava. Ele também tinha um consultório ali perto.
               Para minha surpresa, nos anos 80, quando fui dar algumas aulas na Faculdade Estácio de Sá, encontrei-o na entrada. Abraçou-me efusivamente e disse:
        -- Porra, quem diria? Vi seu nome num cartaz daqui informando sobre suas aulas
               Perguntei, surpreso por vê-lo ali:
               -- E você, Serginho, o que está fazendo aqui?
         Respondeu-me com aquele sorriso maroto dos tempos de Liceu. Sua voz estridente continuava a mesma:
         -- Porra colega, estou fazendo Direito, já estou no 3º. semestre.
                -- O quê? Você não acabou medicina há pouco tempo?
        -- É, pra você ver. Quero alargar meus horizontes -- respondeu-me sorrindo.
         Serginho era assim. Vibrante, com muita garra, queria conhecer de tudo e sobre tudo. Sempre aquela sua mania de nunca se sentir inferior, de buscar a perfeição, de mostrar ao mundo o seu valor.
            Infelizmente, um câncer violento o levou do nosso convívio, com apenas 51 anos de idade.

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           Bem, eu que me preparava para fazer o vestibular de medicina, chegando a fazer um curso preparatório (o Pasteur), descobri, quando terminei o científico, que não era bem aquilo que desejava para o meu futuro.
               Aliás, para dizer a verdade, eu não sabia direito o que eu queria para o meu futuro. Estava fazendo o preparatório para medicina por influência do meu pai, que sonhava em me ver médico como ele. Apesar de ser pediatra, não clinicava, não tinha consultório, não trabalhava em hospital. Era mais voltado para o campo das pesquisas, tanto aqui no Brasil (chegou a trabalhar no Instituto Oswaldo Cruz), como no exterior (era membro do Centre International de l'Enfance, em Paris). Era médico do Ministério da Saúde, trabalhando no Instituto Fernandes Filgueiras, em Botafogo, e na Legião Brasileira de Assistência, no centro do Rio, próximo ao Aeroporto Santos Dumont.
          Fiquei todo o ano de 1960 cursando o Pasteur, ainda frequentando o Liceu (pois não queria abandonar o Grêmio, que tanto trabalho nos deu para reerguer), continuando a jogar futebol a semana inteira (campo, praia e salão), indo a muitas festinhas da comunidade liceísta e, finalmente, estudando muito menos do que deveria para passar no vestibular de medicina.
           Eu que, durante todo o curso ginasial, fui um aluno exemplar, sempre obtendo notas excelentes, relaxei muito com os estudos no científico. O Grêmio, as festinhas, o futebol, preenchiam todo o meu dia (e às vezes até as noites) do adolescente que queria aproveitar ao máximo aquela época da vida.
               No início de 1961, chegada a hora do vestibular, sabia que não tinha condições de passar para a Faculdade de Medicina. Para não dizer que não cursara nenhuma faculdade, fiz também o vestibular para Direito, considerado na época um dos mais fáceis em ser aprovado. Também não tinha nenhuma vocação para o Direito, ingressei na faculdade apenas para tentar obter um diploma qualquer, ter formação universitária. Isso talvez me pudesse ser útil no futuro.
              Meu pai não sabia de nada disso e quando dei-lhe a notícia de que tinha sido reprovado no vestibular para medicina, exibiu uma enorme decepção. Talvez tenha ficado mais decepcionado quando lhe disse:
             -- Mas, fui aprovado em Direito.
             Ele engoliu em seco a frustração e depois explodiu:
         -- Isso é faculdade de quem não quer nada, o que você espera conseguir da vida? Vai ser advogado?
          Realmente, esse era o conceito da Faculdade de Direito de Niterói. Ali ingressavam em cada vestibular mais de 200 candidatos, enquanto em medicina ou engenharia eram aprovados no máximo 50.  
            É claro que eu pretendia fazer um outro vestibular para medicina e, talvez se estudasse um pouco mais a sério, conseguiria ser aprovado. Mas, sabia que seria um mau médico. Não teria paciência para cumprir plantões em hospital, para ser acordado no meio de um sono para atender algum chamado urgente. Medicina é vocação, é sacrifício, é dedicação. Acho que não preencheria nenhum desses requisitos. Nunca gostei da rotina, da repetição. Sempre apreciei a liberdade, o improviso, de tentar fazer alguma coisa de novo, de diferente...
            Essa tenha sido, talvez, uma das principais encruzilhadas com que me deparei na vida: escolher qual a carreira a seguir.
           Imagino como seria, alguns anos depois, eu, de jaleco branco, estetoscópio no ouvido, dando uma consulta a um paciente... não, definitivamente, não combinaria comigo...

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            Naquela época de Liceu, vários colegas de turma ou mesmo de outras séries, namoravam algumas meninas da mesma sala de aula ou de outras turmas. Eram namoros tidos como sérios, definitivos. Os casais andavam de mãos dadas no recreio, deixavam o colégio abraçados, iam às festinhas sempre juntos. Todo mundo dizia que aqueles namoros acabariam em casamento.
           Na realidade, poucos acabaram casando, deixando para trás um passado de pequenos namoros e acabando por casar com pessoas muito diferentes.
           E, mesmo outros que namoraram anteriormente e acabaram casando, viram seus casamentos desmoronarem poucos anos depois. E, atentem bem: naquele tempo não havia ainda o divórcio e a mulher desquitada sempre era mal vista pela sociedade. Por isso, casamento era tido como sendo coisa para a vida toda.
        Alguns anos atrás, encontrando-me por acaso com um ex-colega de turma do Liceu, que comigo cursara desde o primeiro ano ginasial até o último do científico, comentamos sobre um namoro que ele tivera por mais de quatro anos com uma nossa colega de sala. Namoro que viera desde a terceira série do ginasial.
          Já não o via há muito tempo, talvez mais de 40 anos, havíamos perdido por completo o contato após deixarmos o Liceu. Quase não reconhecemos um ao outro.
         Sentados em frente a uma mesinha de um bar no centro da cidade, tendo um copo de whisky à nossa frente, perguntei-lhe:
        -- E você, Marcelo, casou mesmo com a Luiza? Estão felizes como naquela época de Liceu?
            Ele virou um gole do seu whisky antes de responder. Depois, disse:
               -- Nada, casei com a Marta, aquela menina que estudava umas duas séries mais novas que a gente, lembra? Acho que o Sergio, nosso colega, era apaixonado por ela.
              Puxei pela memória por algum tempo, tentando recordar-me sobre a Marta e sobre o interesse do Serginho nela. Apenas respondi:
            -- Lembro vagamente, Marcelo. Sei quem era a pessoa mas não consigo lembrar direito da fisionomia;
            -- Pois é, casamos logo depois que eu e a Luiza terminamos. Tivemos três filhos, hoje já são adultos.
          Puxou um retrato que trazia guardado numa carteira no bolso da calça.
           -- Aqui estão eles. Vê se você se lembra da Marta.
        No retrato estavam o Marcelo, a Marta, e os três filhos, ainda com cara de adolescentes.
        -- Agora sim, reconheço a Marta. Que bom que vocês casaram. Lembro sim, o Serginho tinha uma queda por ela.
             Devolvi-lhe o retrato. Ousei perguntar:
              -- E você e a Marta? Estão felizes?
            Ele pensou um pouco antes de responder. Virou outro gole da sua bebida. Respondeu, voz um pouco amargurada.
            -- Que nada. Já estivemos por nos separar umas duas ou três vezes. Só fiquei com ela esse tempo todo  por causa dos filhos. E, agora, acabei me acomodando, me acostumando. Nem vale mais a pena separar.
            Fiquei ouvindo em silêncio. Já estava bastante acostumado a ouvir os desabafos das pessoas, principalmente nos últimos tempos, quando os réus acabavam por confidenciar-me justificativas para os atos que praticaram.
             Marcelo continuou:
          -- Ah! se eu tivesse tido mais paciência com a Luiza. Nós combinávamos perfeitamente, parecia que um fora feito para o outro. Houve uma briguinha boba de namorados entre nós dois, fizemos birra, batemos o pé e acabamos terminando o namoro...
           -- Puxa, eu não sabia... para mim, vocês tinham casado um com o outro, davam-se tão bem.
             -- É a vida, meu caro... a gente pensa que tem o controle das situações e, de repente, tudo vai por água abaixo...
                Quem virou o whisky todo, de um só gole, fui eu..
           Alguns anos depois, recebi um telefonema de um antigo colega de turma do Liceu, convidando-me para um encontro que os alunos da nossa turma do científico  fariam para comemorar os nossos cinquenta anos de formatura.
                 Lá encontrei Marcelo, Marta, Luiza e seu marido...

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           Talvez a encruzilhada maior com que me defrontei na vida tenha ocorrido em outubro de 1964.
           Em agosto do ano anterior, 1963, havia perdido meu pai. Ele, com 46 anos; eu, com 21. Já cursava o terceiro ano de Direito. Não ligava muito para a faculdade que pouco ou quase nada exigia dos alunos. Bastava lá comparecer, assinar a lista de presença e no final do ano já estava aprovado para o ano seguinte. 
          Em janeiro de 1964 fiz dois concursos: um para assistente administrativo da Eletrobras, outro para escriturário do Banco do Brasil. 
            Fui aprovado nos dois. Aguardava a nomeação para alguns dias depois, talvez um mês, no máximo. Precisava trabalhar, ganhar meu próprio dinheiro, até ajudar um pouco em casa, pois as pensões deixadas por meu pai não eram grande coisa.
      Veio fevereiro, chegou março, nada de me chamarem. Estranhei, porque para o concurso da Eletrobras eu fui um dos dois únicos candidatos a ser aprovado. Para o Banco do Brasil, fui classificado em 12º. lugar.
               Então o destino aprontou.
           Em 31 de março veio a Redentora, por isso suspenderam todas as nomeações em concursos públicos. Queriam fazer um exame profundo sobre a vida dos candidatos aprovados, saber se tinham ou não qualquer posição ideológica que fosse contrária à do governo revolucionário.
          Então, somente no início de outubro, a Eletrobras me chamou. Tomei posse no dia 5 daquele mês, no escritório da estatal, que ficava no Rio de Janeiro, esquina de Presidente Vargas com Rio Branco. O salário era razoável, o horário era integral, das 9 da manhã às 5 da tarde, com intervalo para almoço.
            Só que, lá pelo dia 17 do mesmo mês, recebi um telegrama do Banco do Brasil, convocando-me para tomar posse imediatamente. Dirigi-me até a agência central do Banco, na rua 1º. de março, no centro do Rio, perto de onde eu já trabalhava. Lá me informaram que eu fora designado para trabalhar na agência de Cantagalo, no interior do Estado do Rio de Janeiro.
              Meditei bastante. 
           Os salários eram equivalentes (a Eletrobras até pagava um pouco mais). O Banco do Brasil era tido como instituição sólida, um emprego para toda a vida. O expediente seria de meio dia às seis da tarde. Quanto a Eletrobras, então empresa recém criada, não sabia nada da sua solidez. Poderia fechar da noite para o dia, ainda mais naquela época de regime de exceção do Brasil. Por outro lado, na Eletrobras eu continuaria morando em Niterói, junto de minha mãe e meus irmãos menores, que talvez precisassem de minha presença após a morte de meu pai. Em Cantagalo, cidade que ficava a quase três horas de Niterói, teria que passar a semana lá, afastando-me de minha família.
             Depois de muito pensar, acabei pedindo exoneração da Eletrobras e tomei posse como escriturário do Banco do Brasil, em Cantagalo.
                  Lá, já estavam vários outros funcionários, originários de outras cidades, que haviam formado uma "república". Convidaram-me a dela fazer parte, mas quando me contaram sobre as regras estabelecidas, não aceitei e acabei alugando uma pequena casa em Cordeiro, cidade distante apenas a 8 kilômetros de Cantagalo. Preferia minha independência, não suportaria ter que ficar arrumando cama todo dia, fazer a faxina uma vez por semana, que eram algumas das regras da república. "Na minha bagunça mando eu ", foi o que pensei na época.
             Com poucos dias de Cantagalo, vi que minha vida seria bem diferente daquela a que estava acostumado em Niterói. Nada de praia; futebol (de salão) apenas de vez em quando; festinhas todas as semanas, nem pensar. A cidade era calma, tranquila, bem diferente da agitação a que me habituara em Niterói.
                Saía de Cordeiro para trabalhar por volta das 11 horas e 15 minutos. Tinha um pequeno ônibus, bem antigo, que ligava as duas cidades, em viagens que duravam entre 15 a 20 minutos.
              Trabalhava a tarde toda e, por volta das 18 e 30 voltava para Cordeiro.
              Ficava com as manhãs e as noites livres, sem ter o que fazer.
                Já estava então terminando o 4º. ano da faculdade. Não passava pela minha cabeça, até ali, exercer alguma atividade no ramo do Direito. A profissão me parecia algo muito distante para mim. Era um pouco tímido, retraído, não me via jamais fazendo um discurso, falando em público. Como já disse anteriormente, a faculdade apenas me proporcionaria ter o título de bacharel, formar-me em alguma coisa. Nunca exercer a profissão de advogado, que acreditava ser privativa de quem possuísse uma boa oratória, um bom poder de convencimento, que conhecesse profundamente o emaranhado de leis, que, exigisse, enfim, um estudo profundo sobre a matéria.
              Depois que me entrosei com os demais funcionários do banco, principalmente aqueles que trabalhavam no meu setor, a CREAI, soube que um deles era advogado não militante e tinha um irmão que era o escrivão de um dos dois cartórios da cidade. Seu nome é Leopoldo, que, mais tarde, tornou-se um dos meus melhores amigos.
            Apenas por curiosidade, perguntei a Leopoldo se ele poderia falar com seu irmão, Cesar, para que eu pudesse ficar examinando alguns processos no cartório dele, para saber como eram. Na parte da manhã, quando eu estava livre.
            Leopoldo apresentou-me ao irmão, que me convidou a visitar o cartório na manhã seguinte.
              --Fique à vontade, o cartório está à sua disposição -- disse-me
             Aí, a grande surpresa: eu, que nunca tinha tido os autos de um processo nas mãos, ao examinar o primeiro deles, pensei comigo mesmo:
             "-- O negócio não é tão difícil como eu pensava..."
      Fui lendo os autos, verificando como os advogados peticionavam mal, até com erros grosseiros de português. "Posso fazer isso melhor que eles", refleti.
             Decidi: vou estudar Direito mais a fundo. Já estava no final do quarto ano da faculdade, nunca tinha aberto um livro sobre a matéria, nunca havia tido os autos de um processo nas mãos. Não sabia nada de nada. Teria que começar do zero.
          Quando estive em Niterói, no fim de semana seguinte, comprei alguns livros: Nelson Hungria, Magalhães Noronha, Walter Acosta. 
              O Direito Penal atraiu-me mais, parecia ser mais dinâmico, lidava com problemas e dramas humanos, com a vida e com a morte, com sentimentos. Por isso, a primeira escolha de livros.
              Acabei descobrindo que um outro funcionário do banco era advogado e já fizera alguns júris. Não trabalhava na minha seção, mas seu irmão trabalhava. Apresentou-me. Foi assim que conheci o Jorge, que tornou-se um dos meus melhores amigos e, inclusive, é o padrinho de meu filho mais novo.
          Jorge já tinha dois anos de formado, já fizera júris em Cordeiro. Ativo, quase elétrico, passou a discutir comigo o que eu estava aprendendo nos livros em que estudava sozinho às noites, no quarto de minha casa, em Cordeiro. 
            Passei praticamente todo o ano de 1965 estudando duro, quase como um louco, devorando as lições de Hungria e outros menos cotados nas noites cordeirenses. Tentava recuperar o tempo perdido. Quando me formei, no final do ano, já estava relativamente bem preparado para exercer a advocacia criminal.                Peguei um processo de réu pobre, patrocinado pela Defensoria Pública, e convidei Jorge para fazermos o julgamento em plenário. Ele aceitou, elaboramos um plano de estudo e... mãos à obra. Ia para a casa dele depois do expediente do banco e liamos e relíamos o processo do pobre lavrador acusado de homicídio. A esposa de Jorge, minha comadre Nely, às vezes ficava assistindo nossas simulações de debates, e até servia de jurada.
               O julgamento foi em fevereiro de 1966 e conseguimos uma desclassificação para homicídio privilegiado. Foi minha estreia na tribuna e, dali para a frente, minha inibição de falar em público desapareceu por completo.
                  O advogado do Banco do Brasil para o antigo Estado do Rio de Janeiro visitava Cantagalo uma vez por mês. Sabendo que eu havia me formado em Direito, convidou-me para assessorá-lo nas visitas que fazia nas comarcas próximas a Cantagalo e onde havia assuntos do banco a resolver. Assim, acabei conhecendo São Sebastião do Alto, Itaocara, Santa Maria Madalena, Cambuci e fui me entrosando com o Direito Civil. Esse advogado, Souza Leão Neto, quando pedi minha transferência para a agência de Niterói, levou-me para ser seu assistente no Departamento Jurídico do banco, tendo substituído o mesmo todas as vezes em que saía de férias.
                 Várias vezes fiquei pensando: se em vez de ter escolhido o Banco do Brasil e tivesse permanecido na Eletrobras, qual teria sido o meu futuro? Dificilmente levaria o Direito a sério, não teria estudado e aprendido por conta própria, como efetivamente fiz,  já que a faculdade pouco ou quase nada ensinava. Teria continuado a levar minha vida de festinhas e futebol que tinha em Niterói, conformando-me com o emprego na Eletrobras, sem nunca pensar que o Direito poderia ser uma carreira para mim.
               Minha ida para Cantagalo, sobre a qual eu tanto reclamei no início, por me afastar de minha família e meus amigos, foi o que realmente modificou minha vida. Ali, tive tempo para estudar, dedicar-me ao Direito, praticamente ser um autodidata na profissão.

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                José Antonio era um rapaz tímido, pouco falava, quase nada expansivo. Era natural de Itaocara, cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro e morava há pouco tempo no bairro de São Francisco, que, naquele tempo, por volta de 1960, ainda era conhecido como Saco de São Francisco.
                Eu me mudara para o bairro em maio de 1961 e sempre visitava meu ex-professor de educação física do Liceu, Alber Pessanha, que morava num edifício da Av. Feliciano Sodré, esquina com rua Visconde do Uruguai.
              José Antonio namorava uma menina do Liceu, que morava no mesmo prédio, onde também residia meu amigo Carrano, que fora presidente do Grêmio liceísta.
         Por isso, às vezes, pegávamos o mesmo trolley para voltarmos para São Francisco e até saltávamos no mesmo ponto, na praia, esquina com a rua Timbiras. Eu morava na primeira rua paralela à praia, a General Rondon. Ele seguia um pouco mais pela Timbiras, já que morava numa rua mais distante (não lembro qual era).
           Acabamos nos conhecendo quando saíamos do mesmo prédio (eu, da casa de Alber, depois de algumas cervejas; ele, da casa da namorada) e caminhávamos por toda a Visconde do Uruguai, até o ponto do trolley número 5, o São Francisco.
              Conversamos muito, ele contando-me coisas da sua cidade natal, como era a vida interiorana e várias outras coisas. Acabara de ingressar na faculdade de Engenharia. Relatava-me seus sonhos, o que projetava para seu futuro, principalmente o casamento com a namorada liceísta, que eu conhecia relativamente bem, por ser muito amiga de outra liceísta que namorava meu amigo Irapuam.
           Nunca me falou sobre gostar de música, ou que tinha alguma vocação ou educação musical.
         Anos depois, eu o vi fazendo parte de um conjunto musical que se tornou famoso na música popular brasileira, cantando num festival de canção, tão em voga nos anos 60. Esse conjunto, aliás, tem um liceísta entre seus integrantes.
        Como chegou ele a essa decisão? Por que de futuro engenheiro passou a ser integrante de um conjunto musical? O que deve ter acontecido em sua vida para ele modificar completamente o que planejara? Será que chegou a formar-se em engenharia? E, se sua experiência musical não desse certo (como felizmente deu), o que seria deu futuro?
                  Destino? Livre arbítrio?

                                         x.x.x.x.x.x

           Bem, a última história que pretendo contar aconteceu comigo. E, foi também uma das decisões mais importantes que tive que tomar, quando outra encruzilhada da vida apareceu em minha frente.
              Em fins de 1969, eu ainda trabalhando no Banco do Brasil, mas já como advogado, e fazendo parte de um escritório em Niterói, já tinha um certo conceito entre os advogados criminais de Niterói. Já fizera um júri em São Gonçalo (convidei meu compadre Jorge para dividirmos a tribuna de defesa), já fizera inúmeras audiências em Niterói e São Gonçalo, sustentações orais no Tribunal de Justiça fluminense e até já recebia convites para fazer júris em algumas cidades do interior. Mas ainda não tinha coragem de largar o Banco do Brasil para aventurar-me na advocacia. Afinal de contas, o banco era um emprego certo, com estabilidade e um bom salário. Na advocacia, tudo era incerteza.
            Foi quando foram abertos dois concursos públicos nos quais logo me inscrevi: o de Promotor de Justiça, um no Estado de São Paulo e outro no Estado do Rio.
             Estudei bastante, principalmente Direito Civil e Comercial, já que estava relativamente bem em matéria criminal.
      Foram provas muito difíceis, que muito exigiram dos candidatos, em grande número em ambos os concursos, já que, por causa da "Redentora", há muito tempo não se realizavam concursos públicos no país.
            Não sei se foi sorte ou inspiração do momento (pois não era forte em Direito Civil), mas acabei passando nos dois concursos.
        "-- Assumo o primeiro que me chamar", disse para a minha mulher, pois queria largar o serviço burocrático do Banco do Brasil.
             O Ministério Público paulista chamou-me primeiro. Voltei a São Paulo, onde havia feito as provas escritas e orais, e lá submeti-me ao exame de saúde física e mental.
       Fiquei aguardando a chamada para a posse, pois lá ainda haviam outros aprovados que deveriam passar pelos referidos exames físicos.
         Nesse meio tempo, em meados de janeiro, o Ministério Público fluminense também me chamou. Fiz os exames físicos e fiquei aguardando.
             Discuti muito com minha mãe e minha mulher para onde eu deveria ir. São Paulo pagava um pouco mais, mas eu tinha sido designado para a Comarca de Franca, bem longe da Capital. Para o Estado do Rio, eu poderia escolher a Comarca, entre aquelas que estavam vagas, já que fui o terceiro colocado no concurso.
            Os dois lugares me chamaram para assumir quase ao mesmo tempo.
                Decidi pelo Estado do Rio, local onde morava e onde fora criado.
             Hoje, me pergunto: como teria sido minha vida em São Paulo, um estado bem diferente do nosso, com costumes, colonização e hábitos próprios? Como meus filhos seriam hoje, paulistas em vez de cariocas (já que todos nasceram no Rio de Janeiro)? E meu sotaque, como estaria? Puxaria o "r" como os paulistas ou diria "imagina", como eles? Chegaria a ter feito concurso para a magistratura da Guanabara?
                                   Livre arbítrio ou destino?

                                              x.x.x.x.x.

           Convido aqueles que me me derem a honra de ler estas linhas que relatem também quais foram suas escolhas, suas encruzilhadas durante suas trajetórias de vida...





segunda-feira, julho 18, 2016

ATENTADOS...




A T E N T A D O S...

Calfilho




          Mais uma vez, em curto espaço de tempo, assistimos, não sei se estarrecidos ou enojados, mais uma notícia de outro atentado ocorrido na França... Agora, com 84 mortos e mais de duas centenas de feridos...
       Parece que o ser humano perdeu, por completo, o senso de equilíbrio e a razão, e a morte estúpida e brutal de um semelhante se tornou coisa corriqueira, sem a menor importância.
       Aqueles que me dão a honra de acompanhar o que aqui escrevo, sabem da admiração e carinho que tenho pela França, desde a primeira viagem que para lá fiz em 1957 e as várias outras efetuadas depois que me aposentei, em 1990.
           Essa admiração vem não só do imenso acervo cultural que a França oferece aos seus visitantes, mas também do modo de vida dos franceses, que cultivam, acima de tudo, o lema "saber viver e deixar viver"... A tradição contida em um dos símbolos da França, originado da Revolução de 1789, "a liberdade, igualdade e fraternidade" está sempre presente no dia a dia de seu povo. Todas as vezes que lá retorno, sinto-me realmente como se estivesse em Copacabana ou Icaraí, tamanha a identificação que tenho com sua gente, seus monumentos, sua história e sua alegria de viver. Em Paris ou qualquer outra cidade francesa, gosto de passear com tranquilidade por suas ruas, sentar-me em um café qualquer apreciando o modo descontraído e alegre de seus frequentadores (a "joie de vivre") conversando e rindo animadamente a qualquer hora do dia ou da noite.
      Ultimamente, entretanto, parece que toda essa alegria foi atingida de forma estúpida e cruel: as pessoas estão com medo, receosas, olhando com desconfiança para quem está ao seu lado, vislumbrando um possível terrorista, alguém que pretenda acabar com sua descontração  e tranquilidade. No ano passado, foram dois grandes atentados na França (um, contra uma redação de jornal, o "Charlie Hebdo", em janeiro, e outro contra uma casa de shows, o "Bataclan", em novembro), provocando inúmeras vítimas fatais. 
         Fora da França, em Bruxelas, ali bem perto, outro atentado estúpido no aeroporto e no metrô da cidade, causando também várias mortes. Este ano, recentemente, mais um grande ataque contra cidadãos inocentes, no aeroporto da Turquia.
      Agora, o mais recente, este último, em Nice, quando um indivíduo, pertencente ou não a um grupo extremista (ainda não se sabe ao certo), dirigindo um pesado caminhão, invade o "Promenade des Anglais", famosa praia litorânea da cidade de Nice, no dia em que se comemorava o 14 de julho, data nacional da França, dia da Queda da Bastilha, e mata 84 pessoas.
         Conheço Nice relativamente bem, já lá estive por quatro ou cinco vezes, em diferente ocasiões. É uma cidade alegre, vibrante, próxima à fronteira com a Itália, colada a Mônaco, muito procurada por turistas do mundo inteiro. Tanto o "Promenade des Anglais" (que é a avenida da praia), como a "rue de France", paralela, são repletas de hotéis, bares e restaurantes, sempre cheios de gente, conversando alegremente, descontraídas, aproveitando tudo de bom que a cidade oferece. Nice é um dos locais mais importantes da famosa Côte d'Azur, que também engloba Cannes, Saint Tropez, St. Raphael e outras cidades menores da Riviera francesa.
        Choca-nos ver como toda essa alegria contagiante de seus habitantes e inúmeros turistas que a visitam foi súbita e estupidamente atingida por um ato tão violento e mortal de um único ser humano. Seria como se aqui, no Rio de Janeiro, alguém dirigindo um caminhão investisse repentinamente contra a multidão que comemorasse a festa de reveillon na avenida Atlântica, em Copacabana, ou na Praia de Icaraí, em Niterói.
          O terrorismo, infelizmente, está presente em todas as grandes cidades do mundo. Os atentados contra as torres gêmeas, em Nova York; contra o metrô de Londres e a estação de trem de Atocha em Madrid, são os mais recentes e de maior repercussão. Também na Síria e Iraque acontecem com frequência. A segurança em aeroportos e locais de grande concentração de pessoas é visível e muito rigorosa na maioria de países do mundo.
          Mas, se o radicalismo de alguns atemoriza a população desses países, não se pode esquecer que alguns desses atentados são praticados por pessoas mentalmente desequilibradas, com sérios problemas pessoais e que os conduzem à prática desses atos extremos.
          Nos Estados Unidos, esses atos isolados são frequentes. Pessoas armadas invadem escolas, locais públicos e matam vários semelhantes, inocentes que, na maioria das vezes, nada têm a ver com a insatisfação ou a paranoia dos atiradores. Morrem apenas porque estavam vivos e estiveram no caminho desses loucos naqueles momentos fatídicos.
         Aqui mesmo, no Brasil, lembro-me bem de dois desses atentados que causaram centenas de mortes, praticados por um único desequilibrado mental: o incêndio do circo, em Niterói, nos anos 50 do século passado, e o atentado contra estudantes de uma escola primária no Rio de Janeiro, ocorrido alguns poucos anos atrás. Em nenhum dos dois houve conotação terrorista.
           Sinceramente, não sei onde iremos parar. Parece que duas relativamente recentes grandes guerras mundiais não saciaram a sede de sangue que o ser humano continua a ter em relação a seus semelhantes. Hoje, em qualquer cidade do mundo, mata-se por qualquer motivo ou mesmo sem ele. A violência impera em qualquer lugar, mesmo no interior dos Estados. Aqui, no Brasil, praticamente não existe mais cidade segura. Deixa-se de sair à noite porque inexiste policiamento depois das 19 horas e o risco de ser assaltado ou morto por uma bala direcionada ou perdida é enorme. Acabamos prisioneiros dentro de nossas próprias casas, cumprindo uma prisão domiciliar sem tornozeleira eletrônica, mas que nos tira a vontade de colocar o pé fora das portas de nossa residência com medo da "rua"... Os marginais, os bandidos carregam armas poderosíssimas, invadem hospitais e delegacias, matam policiais, enquanto nossas autoridades repetem que "um rigoroso inquérito será instaurado"... 
           Vejo com muita apreensão o futuro que se desenha para nossos filhos e netos...
                Até quando? 
                Ou: será se conseguiremos ser civilizados?
           Será se a sede de sangue vai um dia ser saciada e poderemos viver em paz, alegres e descontraídos como os franceses e os cariocas viveram há algum tempo atrás?
              Sinceramente, tenho sérias dúvidas...

quarta-feira, junho 29, 2016

O "DATA VENIA"...



O  "DATA VENIA"...

Calfilho




                     Em setembro de 1973 morava no bairro do Leme e, naquela ocasião, enquanto passeava pelo calçadão da praia levando minha filha de 7 anos por uma das mãos,  com a outra empurrava o carrinho do meu filho Duda, então com pouco mais de um ano de idade. Olhava, com admiração e com muita vontade de estar participando, as "peladas" que eram disputadas na areia da praia.
                    Já não jogava uma há algum tempo. Desde que fui trabalhar no Banco do Brasil, na cidade de Cantagalo, no final de 1964, abandonei o futebol de campo, areia e salão que estava acostumado a praticar durante toda a semana quando morava em Niterói. 
                         É verdade que a AABB (Associação Atlética Banco do Brasil) cantagalense tinha um time de futebol de salão e nele logo me inscrevi. Mas, os jogos eram poucos e muitos deles aos sábados ou domingos, quando eu não estava na cidade. Voltava para Niterói para passar o fim de semana com minha família, pois meu pai havia falecido há pouco mais de um ano.
        Quando fui transferido para a agência de Niterói, logo ingressei no time de futebol de campo e disputei várias partidas pela equipe, mas sem a mesma frequência de antigamente.
         Quando entrei para o Ministério Público fluminense, as "peladas" rarearam ainda mais. Havia perdido o contato com a minha turma de ex-liceístas do futebol de praia, meu ambiente de trabalho era outro, e, uma vez ou outra participava de um "racha" de confraternização entre advogados, promotores e juízes.
                      Em 30 de setembro de 1973 entrei para a magistratura do antigo Estado da Guanabara. O trabalho ocupava todo o meu tempo, inclusive os fins de semana, quando levava processos para casa para estudar ou sentenciar.
                   O contato com a bola me fazia muita falta, eu que era um verdadeiro "secura" por um bom "racha"...
                 Já em meados de 1974, um advogado carioca entrou no meu gabinete para despachar um processo e, no meio da conversa, comentou:
                  -- Excelência, o senhor é amigo do Custódio, não?
              Respondi afirmativamente. Custódio era cunhado de um funcionário do forum de Casimiro de Abreu, minha primeira comarca como Promotor de Justiça, em 1970. Quando eu precisei comprar um carro para deslocamentos para a comarca, esse funcionário indicou-me o Custódio, que morava em Ramos e ajudava numa oficina mecânica. Comprei o carro e ficamos amigos.
           Sempre que eu precisava de algum reparo no veículo, dirigia-me até Ramos e ali passávamos as tardes de sábado.
                  O advogado continuou:
              - Custódio me disse que o senhor gosta muito de participar de uma partida de futebol, verdade?
              -- Sim, muito -- respondi.
         -- Olha, eu faço parte de um grupo de promotores, juízes, advogados e ex-jogadores de futebol profissional que costumam jogar uma boa "pelada" aos sábados...
              Logo perguntei:
              -- Onde?
           -- No campinho da Escola Nacional de Educação Física, atrás do Canecão, junto ao campo do Botafogo -- respondeu. -- Se o senhor quiser, sábado eu estarei lá e o apresento ao pessoal.
                -- OK, combinado -- agradeci.
           E, no sábado seguinte lá eu estava. Fui apresentado aos "atletas", quase todos na casa dos quarenta anos ou próximo disso.                O presidente era um Promotor de Justiça do Rio de Janeiro, que eu ainda não conhecia pessoalmente: Newton Lourenço Jorge. Baixinho, magrinho, costumava jogar de cabeça de área. Havia um outro Promotor de Justiça, Joaquim Lobo, que trabalhara comigo na 15ª. Vara Criminal. Um juiz de Direito, Pedro Ligiero. Alguns procuradores do Estado, muitos advogados. Outros, ex-jogadores de futebol profissional, como Jomar Macedo (ex-Atlético Mineiro e Vasco da Gama), Richard (ex- Botafogo e um dos meus jogadores preferidos do meu time de futebol de botão, quando eu tinha 11, 12 anos de idade), Soares e Roberto (ex-América), todos formados em Direito depois que abandonaram os campos.
            Explicaram-me que os times eram divididos por ordem de chegada, sendo cada equipe composta por oito jogadores. Igual ao meu antigo futebol da Praia de Icaraí, no início dos anos 60. 
             Eram jogadas duas ou três partidas, dependendo do número dos que compareciam. Depois, no bar da Faculdade, havia uma confraternização regada a cerveja.
           O nível do futebol praticado era excelente, de alta qualidade, até pela presença de ex-jogadores profissionais no grupo.
         Depois do terceiro ou quarto sábado, já estava completamente enturmado. Fazia questão de chegar cedo pois a primeira partida era a de melhor nível técnico.
           Em dezembro de 1974 voltei a morar em Niterói, na casa que meu pai construiu em São Francisco e que acabei comprando de minha mãe. Ali criei meus filhos antes de voltar a morar no Rio.
        Mesmo com a distância sendo maior, não deixei de comparecer  aos sábados no "Data Venia". Acordava por volta das 5 da manhã, pegava o carro, atravessava a ponte e ia para Botafogo.
            Só quando assumi a presidência do I Tribunal do Júri deixei de frequentar a "pelada" de sábado. Com os julgamentos entrando pela madrugada, às vezes só terminando na manhã do dia seguinte, não tinha mais condição física para correr atrás da bola no fim de semana.
             Lá, entretanto, fiz bons amigos e pude matar as saudades da velha companheira de infância: a bola de futebol...
             Foi uma das boas fases da minha vida...

sábado, junho 18, 2016

A QUEDA DA ARROGÃNCIA...

A QUEDA DA ARROGÂNCIA...


Calfilho




                     Não posso esconder a alegria que senti quando foi anunciada, nesta semana, a queda do "treinador" Dunga do comando da seleção brasileira de futebol.
                       Já de algum tempo deixei de me empolgar com nossa seleção. Mesmo antes do fatídico 7 X 1 que nos foi imposto de forma humilhante, em pleno estádio do Mineirão, em 2014. Esse, para mim, já era um resultado anunciado há muito tempo. Talvez desde 1994, quando fomos campeões do mundo jogando um futebol feio, retrancado, sem a beleza e o esplendor das seleções de 1958, 1962, 1970 e, até mesmo a de 1982, quando não ganhamos a competição mas exibimos um futebol de primeira linha. De 1994 em diante o futebol brasileiro decaiu, apequenou-se, tornou-se presa fácil de adversários até então facilmente batidos, apenas com a exceção da equipe de 2002, onde somente o talento individual de Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo nos conduziram a mais um título mundial.
            Desde que os empresários tomaram conta do nosso futebol, permitindo que jovens promessas fossem vendidas para o exterior quando ainda não haviam completado 20 anos de idade, o talento desapareceu de nossos campos e os jogadores foram sendo criados e desenvolvidos no exterior, em times europeus, deixando de lado toda a improvisação e a genialidade dos jogadores brasileiros de antigamente, tornando-se "marcadores" implacáveis, "destruidores" ferrenhos. Poucos se salvaram desse êxodo impossível de conter. Talvez apenas Romário, Ronaldo (que cedo foram para a Holanda), Ronaldinho Gaúcho (que foi para o Paris St. Germain) e alguns poucos outros mais. A seleção brasileira passou a ser formada por "estrangeiros", isto é, por jogadores nascidos no Brasil e formados no exterior.
          Dunga é um dos representantes desse êxodo. Jogador mediano, aqui atuou pelo Internacional, Vasco e Corinthians, sem muito brilho. Vendido para a Europa, jogou sem ser quase percebido em alguns clubes italianos e alemães. Convocado para a seleção brasileira de 1990, de triste lembrança, foi o responsável pela criação da chamada "era Dunga"", sinônimo de jogador sem brilho, acostumado a dar carrinhos, que gostava de jogar futebol "deitado" e não em pé. Convocado novamente para a seleção de 1994, conseguiu dar a volta por cima e foi campeão do mundo, ajudado por Romário, Bebeto, Jorginho, Leonardo e outros de maior expressão que ele.
        Como jogador, foi no máximo razoável, beirando à mediocridade. Sem nunca ter treinado ao menos uma equipe foi guindado a técnico da seleção de 2010, que foi desclassificada pela Holanda. Dunga, nessa seleção, ficou conhecido por seu mau humor, sua quase raiva, sua impaciência e falta de educação com jornalistas e torcedores. Nada acrescentou como técnico, como não tinha acrescentado antes como jogador. Prepotência e arrogância foram suas marcas principais no comando da seleção.
                 Seu colega, Scollari, também da mesma escola gaúcha, na Copa do Mundo de 2014, fez-nos passar o maior vexame que uma seleção brasileira de futebol proporcionou em todos os tempos: as derrotas por 7 a 1 para a Alemanha e por 3 a zero para a Holanda, uma após a outra. Mas, não perdeu a pose, a arrogância, a postura de quem se achava o dono da verdade.
                E, surpresa: Dunga é novamente chamado para dirigir a seleção brasileira, depois de ter fracassado como técnico do Internacional gaúcho. Já mais velho, certamente controlado por seus assessores e chefes, iniciou um trabalho que todo mundo sabia no que ia dar: em nada. Mas, não perdeu a arrogância, a prepotência, a expressão raivosa e carrancuda de dono da verdade.
             É certo que o futebol brasileiro não é mais o mesmo: alegre, descontraído, moleque, gostoso de ser visto. Hoje, com praticamente todos os jogadores atuando em clubes europeus desde o início de suas carreiras, perdeu a magia, o encanto. Ficou apenas o futebol quadrado, sem graça, sem imaginação, desprovido de talento e de improvisação.
           Mas, acho que qualquer outro técnico, que ao menos conheça e ame o verdadeiro futebol do Brasil pode fazer melhor...
                 Dunga é mais um arrogante que deixa cair sua máscara.                    Assim como a presidente da República recém afastada...

quinta-feira, junho 16, 2016

MÚSICA POPULAR...



MÚSICA POPULAR...

Calfilho



                 Antes de começar a escrever a matéria, devo esclarecer que meu conhecimento sobre música é apenas o de um ouvinte entusiasmado, por vezes até apaixonado em escutar determinados tipos de música. Não sou conhecedor profundo, apesar da tímida tentativa que fiz em aprender a tocar violão, na minha adolescência e, mais tarde, já adulto. Mas, nunca tive a paciência e a disciplina necessárias a um bom aprendizado.
               Apesar de achar muito bonita e tranquilizante, a música conhecida como clássica nunca me atraiu. Já ouvi algumas obras de Mozart (visitei, algumas vezes, Salzburg, sua cidade natal), Bethoven, Chopin, Wagner, Villalobos, mas nunca cheguei a me entusiasmar com elas,
             Na década de 50, em que vivi minha adolescência, a música norte americana tinha grande influência no Brasil, principalmente depois do surgimento da verdadeira revolução musical que foi o rock and roll. As emissoras de rádio, a televisão, as lojas de discos só tocavam músicas cantadas por Elvis Preesley, Little Richard, Neil Sedaka, The Platters, Nat King Cole (os dois últimos cantando mais blues). É certo que já tínhamos o jazz, estilo clássico da música popular americana, criado com base nas raízes dos negros africanos, levados para os Estados Unidos como escravos.
                  Aqui, nos finais de ano, tínhamos as grandes orquestras, famosas por tocarem em bailes de formaturas de colégios, inclusive do meu, o Liceu Nilo Peçanha, de Niterói. Eram as orquestras de Severino Araujo, Epaminondas, Moacyr Silva, Waldemar Spilman e tantas outras. Imitavam um pouco as grandes orquestras norte americanas da década de 40, como as de Glenn Miller, Duke Ellington, Artie Shaw, Benny Goodman, Tommy Dorsey, sendo que nestas cantavam artistas do naipe de Frank Sinatra e Billie Holiday.
          Na referida década de 50, as músicas brasileiras que ouvíamos e cantávamos eram, principalmente, as marchinhas de Carnaval, muito samba-canção, e, também a música de fossa, que tinha em Maysa, Tito Madi, Lucio Alves, Jamelão e Silvinha Telles, seus principais intérpretes. Os boleros mexicanos também eram muito tocados, em especial nos bailinhos em casas de alunos do Liceu ou nas domingueiras do Regatas. Era a música mais fácil para nós, jovens rapazes e moças, darmos os primeiros passos na dança de salão. "Dois pra lá, dois pra cá...".
               As músicas brasileiras das décadas de 30 e 40 parece que haviam caído no esquecimento.
          Só bem mais tarde, já na década de 70, quando tentei novamente aprender a tocar violão, foi que descobri o verdadeiro tesouro que foi a década de 30 em matéria de música popular brasileira.
              A bossa nova já havia surgido no início da década anterior, a de 60, e era a grande sensação da época. Cheguei a frequentar, mesmo que esporadicamente, algumas pequenas boates de Copacabana (chamadas pejorativamente de "inferninhos"), onde tocavam muitos daqueles que seriam grandes expoentes da bossa nova. No "Beco das Garrafas" funcionavam quatro ou cinco desses "inferninhos". Num deles, o "Bottle's", cheguei a ouvir João Gilberto e outros grandes nomes, como Marisa Gata Mansa e Marcos Valle.
                Mas, meu professor de violão, com quem tomava aulas em casa, abriu-me as portas para o mundo de Noel Rosa. Foi então que tomei consciência da verdadeira música popular brasileira, da qualidade dos versos e músicas de Noel e seus parceiros, como Vadico, Lamartine, Roberto Martins. Este último, através de um amigo comum, cheguei a conhecer pessoalmente. Foi o autor de "Cai, cai" e "Renúncia", entre outras várias joias de nossa música popular.
             Mas, depois que li e ouvi quase tudo sobre Noel Rosa, realmente compreendi que foi ele o maior de nossos compositores populares. Numa época em que os recursos sonoros eram ainda precários, onde não havia gravação eletrônica, nem gravadores portáteis, compor quase trezentas músicas de excelente qualidade, realmente foi uma façanha. Quem prestar atenção às letras, às músicas, à melodia das obras de Noel vai concordar que realmente ele foi um gênio. Tendo apenas menos de 7 anos de vida musical, morrendo aos 26 anos de idade, é de espantar a quantidade e a qualidade da obra que produziu.  Se tiverem oportunidade leiam alguns livros sobre a vida de Noel e mergulhem de cabeça em seu mundo maravilhoso. Tenho certeza de que, como eu, ficarão encantados com essa viagem...
               Não deixem de ouvir "Feitiço da Vila", Palpite Infeliz" (composições que surgiram da polêmica musical entre Noel e Wilson Batista), "Feitio de Oração", "Pela décima vez", "Encontro casual", "Dama do Cabaré", "Último Desejo", "Positivismo", "Filosofia", "O X do Problema" e tantas outras. Recomendo àqueles que realmente gostam da música popular brasileira, a coletânea de CDs sobre a obra de Noel.
                Realmente, às vezes fico impressionado como as coisas boas que nós, brasileiros, produzimos, rapidamente vão para a vala funda do esquecimento...
                   Enquanto isso, as coisa ruins...

domingo, junho 05, 2016

MUHAMMAD ALI ou CASSIUS CLAY...

MUHAMMAD ALI ou CASSIUS CLAY...


Calfilho




                      O boxe nunca foi meu esporte favorito.
                    Na minha infância e adolescência, elegi o futebol como o esporte que gostava de praticar. Quando passei a frequentar o Canto do Rio F.C., aos onze anos de idade, comecei também a praticar tênis de mesa, esporte pelo qual disputei os Jogos Infantís de 1955 pelo clube. Ali também joguei futebol de salão, atividade que começava a ganhar força no Brasil (ainda com bola de serragem) e ensaiei algumas cestas no basquete e outras jogadas de voleibol, esportes que o Canto do Rio oferecia aos seus sócios.
                  A televisão dava seus primeiros passos no Brasil. No Rio, inicialmente, foi a TV-Tupi, do grupo "Associados", cujo presidente era Assis Chateaubriand. Anos depois, já em meados da década de 50, surgiu a TV-Rio, cuja sede era situada no prédio do antigo Cassino Atlântico, no posto 6, da praia de Copacabana (hoje, um hotel de luxo).
                  Claro, naquela época, a televisão era em preto e branco. 
             Na recém inaugurada TV-Rio surgiu um programa dedicado ao boxe, que era transmitido ao vivo, nos finais de noite dos domingos: o TV-Rio Ring.
                Era apresentado por Luiz Mendes, um gaúcho que já tinha alguns anos de locutor esportivo no Rio de Janeiro. E o mestre de cerimônia, aquele que apresentava os boxeadores, era o paulista Léo Batista, então começando carreira no jornalismo esportivo. Os dois usando gravatas borboletas, talvez copiadas do estilo usado pelos anunciadores de boxe norte americano.
                   O programa, grande novidade na televisão carioca, logo atraiu um grande número de espectadores, inclusive eu e meu pai, que ficávamos assistindo o programa até seu final.
               As lutas eram entre pugilistas amadores e, para mim, então com doze ou treze anos, muito empolgantes. 
               Lembro-me perfeitamente bem que nesse programa surgiu Eder Jofre, um jovem pugilista de São Paulo, que dava seus primeiros passos na carreira de pesos galo. Era assessorado por seu pai, o também ex-pugilista Kid Jofre. Eder depois tornou-se profissional e foi campeão mundial dos galos e, mais tarde, da categoria pena.
            Mas, o boxe nunca foi um esporte brasileiro. Aqui, nunca teve campeões de relevo, excluindo-se o já citado Eder Jofre e, em grau menor de importância, Servílio de Oliveira, Miguel de Oliveira, o folclórico Maguila e, mais recentemente, o Acelino "Popó" de Freitas.
          No exterior, principalmente, nos Estados Unidos, o boxe profissional, desde o início do século passado, já era um esporte popular e prestigiado.
               Na década de 50, o campeão mundial dos pesos pesados, a mais importante categoria do boxe, era o Rocky Marciano. Sempre lia notícias sobre suas vitórias e, segundo me parece, foi o único campeão do mundo que permaneceu invicto durante toda sua carreira. Mas, os jornais ainda ecoavam artigos sobre a lenda da década anterior, a de 40, o famoso Joe Louis. Li ainda alguma coisa sobre a história de outros famosos pugilistas como Jack Dempsey, Primo Carnera, Max Schemeling, e, na categoria dos médios, segundo me parece,  "Sugar" Ray Robinson.
            Até que, em 1960, nas Olímpiadas de Roma, surgiu o furacão Cassius Clay. Leembro-me perfeitamente quando ele conquistou a medalha de ouro e a forma irreverente e debochada como comemorou a conquista.
                Daí para a frente, Cassius não saía do noticiário, tanto por suas vitórias rápidas por nocaute como pelo estardalhaço que fazia após suas conquistas.
              Até que em 1964 conquista o título mundial, com apenas 22 anos de idade, ao derrotar Sonny Liston. A forma como provocou o então campeão, homem forte como um touro e de poucas palavras, tanto antes como depois da célebre luta, marcaram época na imprensa especializada.
                Mas, daí em diante foi que Clay realmente transformou-se numa lenda do esporte mundial. Ao recusar-se a ir combater na guerra do Vietnã, foi contestado e aplaudido por muitos. Uns diziam que era covarde, não era patriota, alguns até duvidaram de sua masculinidade pela forma como se apresentava nos ringues, bailando e debochando de seus adversários, dizendo, antes das lutas, o round em que os derrotaria. Outros aplaudiam sua atitude, não vendo razão na ida de jovens americanos para uma guerra que não era deles, num lugar longe de suas casas, tendo a obrigação de matar pessoas que nunca lhes fizeram mal.
             Foi então que Cassius Clay converteu-se ao islamismo e adotou o nome de Muhammad Ali, com o qual tornou-se famoso mundialmente.
              Perdeu seu cinturão de campeão mundial, ficou impedido de lutar por vários anos no auge de sua carreira e quase ficou preso para cumprimento da pena que lhe foi imposta, depois revista. 
            Mas, daí em diante, tornou-se um dos maiores defensores dos direitos dos negros, tanto na América do Norte, como em todo o mundo, um verdadeiro embaixador da paz em todos os países por onde passava. Voltou a lutar em 1972, recuperou o título mundial, perdeu-o outra vez e voltou a recuperá-lo.
          Suas lutas contra Joe Frazier, Floyd Patterson, Sonny Liston, George Foreman e, já no fim de carreira, contra Leo Spinks e Trevor Barbick, hoje fazem parte da antologia da história do boxe mundial. Vi algumas delas pela televisão e, realmente, fiquei fascinado com a figura humana do boxeador, mesmo na sua fase de declínio.
            O mal de Parkinson foi o preço que pagou por ter escolhido uma profissão tão violenta. Apesar de seu rosto parecer não aparentar marcas dos golpes sofridos, sua cabeça deve ter acumulado milhares deles o que lhe causou a terrível doença. Com ela teve que conviver por mais de 30 anos, até morrer dias atrás.
             Muhammad Ali (ou Cassius Clay, nome de seu pai) nasceu no mesmo ano que eu, 1942, sendo um dos grandes nomes de nossa geração. Seu legado para a posteridade transcende, de longe, o tamanho da obra que construiu...

sábado, abril 23, 2016

MEU POBRE RIO DE JANEIRO...

MEU POBRE RIO DE JANEIRO...


Calfilho




              Não posso deixar passar em branco a revolta e a indignação (essas palavras estão em moda atualmente, ditas e repetidas pela presidente da Republica) que tomaram conta de mim depois do trágico desmoronamento de um trecho da ciclovia que tenta oferecer uma opção de lazer aos cariocas que residem entre o Leblon e São Conrado, na cidade do Rio de Janeiro.

Vergonha!!!  Vergonha!!! Vergonha!!!

                       Já não é de agora que as grandes obras de engenharia de nossa cidade sempre apresentam problemas... muito sérios... Para não ir muito longe, lembram-se do viaduto da Av. Paulo de Frontin (obra de péssimo gosto) que desabou, ainda na época da construção, na altura da rua Hadock Lobo e que matou várias pessoas? Depois, mais recentemente, o Estádio Nilton Santos,  dito Engenhão, que foi interditado pouco mais de dois anos após sua construção, porque parte do teto estava desabando (e que até hoje não foi liberado totalmente)? 
                     Fora as vias de "trânsito rápido" do BRT, hoje repletas de buracos e obstáculos para os ônibus que nelas trafegam?
                 Agora, a ciclovia "Tim Maia" que desaba com a primeira onda forte que a atinge, como se nada disso fosse previsto ou anunciado. Morrem duas (ou mais) pessoas e tudo fica por isso mesmo, como ficaram as tragédias do passado.
                  Esse, o nosso Rio de hoje... 
            Prefeitos que querem mostrar serviço, autenticar suas gestões com obras de impacto, sem a menor preocupação com a qualidade das mesmas, com o risco que podem trazer à população... 
                 É a filosofia do "bonitinho", do que "aparece", do "que faz bem aos olhos"... Colocaram abaixo o elevado da Perimetral, obra que duraria duzentos anos, que ligava Copacabana a Niterói sem praticamente ter sinais luminosos que congestionassem o trânsito, em nome do "bonitinho", da "marca do prefeito da ocasião", como se as obras de remodelação do porto do Rio não pudessem conviver com a Perimetral... Como se tudo que foi feito anteriormente não prestasse, somente o que é novo é que tem valor...
               Aí vieram os Jogos Pan Americanos, veio o Engenhão; estão chegando as Olimpíadas e novas obras suntuosas, bonitas na aparência mas frágeis na consistência... E o dinheiro público escorrendo pelo ralo...
           Bem, esse é o Brasil de hoje... obras que caem, que desmoronam, que consomem o dinheiro público em super faturamentos e que não resistem a uma onda mais forte do mar ou a uma ventania mais rigorosa... como se o Brasil não tivesse praias, ondas e ventos... Gameleira, Mariana... E tantas outras obras iniciadas e largadas pelo meio, inacabadas... Empreiteiras enriquecendo, corrupção se alastrando...
                O que dizer aos países estrangeiros que acorrerão ao Brasil para as Olimpíadas de agosto? Podem vir em segurança, que nada vai desabar? Que não haverá epidemia de zica ou de gripe? Que os assaltos e arrastões estarão controlados?
                 Claro que em outros países existem problemas, por vezes mais graves que os nossos... terrorismo, assassinato de presidentes, fome, miséria, genocídio... Mas, aqui no Brasil, acho que já nos acostumamos com os nossos erros, com o descaso com a saúde, com a educação, com a segurança... Acostumamo-nos com a indiferença...
                  Agora, a crise é na engenharia... 
                  Ciclovia vagabunda e mal construída, a "Tim Maia"...



domingo, abril 03, 2016

O FUTEBOL NA PRAIA...

O FUTEBOL NA PRAIA...

CALFILHO




                 No início da década de 60 do século passado, meu amigo e ex-colega de turma no Liceu Nilo Peçanha, Telúrio Tércio de Aguiar, convidou-me para fazer parte de um grupo que estava organizando para jogar futebol aos sábados pela manhã, na Praia de Icaraí. Eu e Telúrio tínhamos concluído o curso científico em 1959. Eu já estava no primeiro ano da Faculdade de Direito de Niterói e ele cursava a Faculdade de Educação Física, no Rio de Janeiro. Telúrio e eu éramos apaixonados por esportes: eu, pelo futebol e tênis de mesa; ele, por basquete, mas "enganava" um pouco no futebol.
               Logo foram chamados outros "craques" de bola, a maioria ex-liceístas: Toninho Matheus, Irapuam, Silvinho, José Henrique (Josa), Oswaldinho, Pedro Aurélio,  Luiz Roberto (Bizuca), Francisco Roberto, Renato (Kid), Laércio, Cezar Loureiro, Papoula, e outros mais. Alguns de nós, que conhecíamos outros amantes do futebol que não estudaram no Liceu, fizemos o convite e eles logo aceitaram: os irmãos Paulo Fernando e José Carlos (Amarildo), Alvinho, Jorge, Madeira, Pinheiro, Adalto (irmão de Matheus), Toninho Pêssego, entre outros.
            Escolhemos nosso "campo": a faixa de areia junto à calçada entre as ruas Presidente Backer e Lopes Trovão, na Praia de Icaraí.
           Daí em diante, todos os sábados, religiosamente às 9 horas da manhã, encontrávamo-nos naquele local e dividíamos os dois times, escrevendo os nomes dos "atletas" na calçada com um pedaço de carvão.
           Essas nossas "peladas" animadas, que iam até quase o meio dia, duraram quase quatro anos. O curioso é que, na calçada, várias pessoas assistiam às mesmas, alguns ex-liceístas, outros meros espectadores. Terminado o "racha", depois de um refrescante mergulho nas águas de Icaraí, alguns de nós iam até o "Luciu's", um bar anexado a uma mercearia, na esquina de Lopes Trovão com Tavares de Macedo, para uma rápida cervejinha.
         Nossos times eram muito bons, modéstia à parte. Chegamos a fazer uma excursão à Arraial do Cabo quando empatamos em 1 X 1 com a equipe da Álcalis.
            Depois, muitos de nós seguiram suas carreiras profissionais, alguns em outras cidades e Estados, e o grupo se desfez.
          Muitos anos depois, mais de quarenta, meu inesquecível amigo, Toninho Matheus, então médico em Paraisópolis, interior de Minas, telefonou-me:
              -- Carlinhos, porra, vê se consegue entrar em contato com o pessoal do futebol da praia e marca uma reunião pra gente bater um papo, saber das novidades de cada um. Se não, a gente só vai se encontrar no enterro de algum de nós...
            Liguei para o Renato, que eu sabia ter o telefone ou endereço da maioria do pessoal do grupo, além de morar em Icaraí, sendo mais fácil entrar em contato com a turma. A convocação foi feita e, no sábado seguinte, conseguimos juntar uns seis senhores de cabelos brancos ou mesmo sem cabelo, para um chope na antiga Gruta de Capri. Dali em diante de dois em dois meses, conseguimos reunir uns doze ex-integrantes do grupo original em um botequim qualquer de Niterói.
                  Muitos já nos deixaram: Telúrio, Silvinho, Toninho Matheus, Oswaldinho, Serginho.
                    Nas nossas reuniões atuais, os pais de família e hoje advogados, médicos, engenheiros, relembram, com saudade os "rachas" dos anos 60...

domingo, março 27, 2016

A FORÇA IRRACIONAL DAS COLETIVIDADES...




A FORÇA IRRACIONAL DAS MULTIDÕES...

Calfilho





             Hoje, um domingo muito bonito em Copacabana, decidi esquecer a preguiça e voltar a escrever alguma coisa neste meu espaço virtual. Sobre algo que venho percebendo há muito tempo e, ao que parece, poucas pessoas param muito pouco tempo para pensar e refletir.
           Refiro-me às multidões, à força que delas emana e que, irracionalmente, é irradiada em todas as direções e, para aqueles que delas fazem parte, transformam-se em verdades absolutas.
                Lembro que um louco, apenas um, conseguiu dominar uma nação inteira, contagiando-a com o veneno de sua excelente oratória, levando-a a uma guerra suicida, onde milhões de jovens foram mortos estupidamente. Jovens alemães, americanos, ingleses, russos, poloneses, italianos e de outras várias nacionalidades, inclusive a nossa, pobres brasileiros que fomos lutar numa guerra que não era nossa, num continente distante, morrendo muitos em terras estrangeiras. Quando vemos os filmes sobre a Segunda Guerra Mundial, vemos como o poder irracional da multidão, ali comandada por Hitler, conseguiu contagiar praticamente quase todo o povo alemão e, como este, fanatizado, ia para as praças, braço direito levantado, gritar slogans fascistas como se fossem eles os únicos donos da verdade. Como a juventude nazista, irracional e covardemente, sempre em grupos de cinco ou mais, espancava judeus nas ruas das cidades europeias, queimava livros, idolatrava o louco que os comandava.
            De forma mais amena, vemos como as torcidas organizadas em nossos estádios de futebol, em ações estúpidas e irracionais, brigam entre si violentamente, causando, em alguns momentos, até a morte de torcedores, sejam eles do adversário... ou do próprio time. E, como essa violência, essa irracionalidade, acabou por afastar dos campos de futebol os torcedores pacatos que, como eu e muitos outros, querem apenas torcer por seus times, levando seus filhos e suas famílias. Como fomos acostumados a fazer...
            Como ainda, nas manifestações políticas que presenciamos atualmente em nosso país, quem quer externar sua opinião nas ruas às vezes é agredido pela multidão enfurecida que tem opinião contrária à sua, como se somente a do grupo que tem maior número de manifestantes é que seja a opinião verdadeira.
            As pessoas, hoje,  infelizmente, são levadas pela multidão, como cordeirinhos sem opinião própria e sem o direito de poder expressar a sua. E, somente em grupos, no anonimato das multidões, é que são os valentes, aqueles que querem impor sua opinião pela força, pela irracionalidade. Duvido que, sozinhos, ajam dessa forma.
          Quando vemos pelos noticiários da televisão um jovem sendo espancado até a morte porque estava com a camisa de um time e teve o azar de cruzar com um grupo de covardes que torciam por outra equipe; quando assistimos um jornalista morrer em plena via pública  apenas porque cumpria seu dever profissional de cobrir uma manifestação de rua, sendo atingido por uma bomba letal; quando vemos, na Europa, atentados covardes e irracionais praticados contra cidadãos inocentes que iam para o trabalho ou se divertiam numa casa noturna, tudo em nome de radicalismos raciais ou religiosos, devemos parar para refletir um pouco: até onde iremos?
               Minha geração, que nasceu quando a Segunda Guerra Mundial estava em curso, teve a sorte de não ter presenciado ou sofrido os horrores da mesma.
                 E a dos nossos filhos e netos?

domingo, março 13, 2016

BRASIIIIILLL...





B R A S I I I I L L L ....



Calfilho



                      Hoje, depois de algum tempo ausente, senti vontade de voltar a escrever alguma coisa neste espaço que a internet me concedeu...
                    Como já faço há algum tempo (com menos intensidade ultimamente, já que o passar dos anos cobra seu preço), saí para uma caminhada na área de lazer da praia de Copacabana. Acho que os cariocas sabem que, aos domingos, a pista da avenida Atlântica, junto à areia, fica fechada para caminhadas, passeios de bicicleta e lazer daqueles que moram ou frequentam o bairro.
               Já sabia desde ontem, por cartazes e faixas espalhadas pelas ruas, que havia uma convocação para uma manifestação contra o governo. Por isso, convidei minha mulher para caminharmos juntos (ela, que, por problemas de saúde, não tem podido andar muito). Apenas, para, além da pequena caminhada, apreciarmos o movimento da praia cheia, repleta de gente.
                Logo que deixamos o prédio em que moramos, vimos que a Figueiredo Magalhães já estava repleta de pessoas que caminhavam apressadamente em direção à praia, um quarteirão à frente. A maioria vestindo camisas amarelas. Homens, adultos e crianças, jovens e idosos.
                    Na pista junto à areia, já fechada desde as sete da manhã, centenas de pessoas caminhavam em direção ao posto 5, onde seria a concentração para o início da caminhada de protesto pela Atlântica. Quase todos vestiam camisas amarelas, alguns usavam verde, a maioria empunhava faixas e cartazes de protesto contra a Presidente da República e seu antecessor. Senti-me um pouco deslocado, usando a camisa preta com o escudo do meu Botafogo, o que faço habitualmente quando caminho pelo calçadão.
                  Mal andamos vinte metros, já deparamos com vários ambulantes espalhados pela pista de rolamento, interditada hoje para pedestres: vendiam água, cerveja, refrigerantes.
                  Comentei com minha mulher, sem conseguir esconder um sorriso:
           -- Veja só como é o brasileiro... aproveita logo a oportunidade para faturar. Viram que tem muita gente nas ruas, aproveitam para vender suas mercadorias.
                     Mais vinte metros e a surpresa foi maior. Já na altura da Santa Clara, outros ambulantes espalhavam-se pelo asfalto, vendendo sabem o quê?
                    Bonecos infláveis da presidenta e do antecessor, ambos vestidos com roupas de presidiários, com dizeres de PT 171. Os famosos pixulecos, que já se tornaram conhecidos da população em manifestações anteriores. Só que agora em tamanhos menores, portáteis, não aqueles bonecos gigantes que já vimos anteriormente.
                   Não consegui conter o riso.
             O brasileiro consegue ser irreverente, debochado e até aproveitador da ocasião, mesmo quando esta trata de assuntos tão sérios, como o impeachment da presidenta e a prisão do ex. Aproveita para mandar confeccionar os bonecos e vendê-los nos locais onde sabe que a demanda seria grande, a venda seria fácil.
              Mais à frente, filas eram formadas, para que algumas moças pintassem os rostos dos cariocas (de todas as idades, diga-se a verdade) de verde e amarelo...
             Não acredito mais nos políticos e na política. Já vi o suicídio de Getúlio quando tinha doze anos de idade. Li mais tarde o que fora a ditadura Vargas, quando muitos brasileiros inocentes foram torturados e alguns mortos simplesmente porque eram contra o governo. Acompanhei quando Carlos Lacerda, um dos principais opositores de Getúlio e talvez o maior responsável por seu suicídio, depois de tramar pela deposição de João Goulart e, antes, combatendo ferozmente Juscelino Kubistcheck, ele também foi cassado pela Redentora de 1964, e depois aliou-se a esses dois últimos contra os generais da Revolução. Vi, como as "respeitáveis mães de família de São Paulo" saíram às ruas no movimento "A Família e Deus pela sociedade" contra Jango e, depois que conseguiram derrubá-lo do poder, mostraram-se "desoladas e surpreendidas" quando os militares passaram a fazer o que queriam deste País e não pretendiam mais largar o governo... Durante  21 anos...
                Depois, quando o povo, inocente, embarcou na aventura Collor de Mello e, logo depois virou-se contra ele.
                E, hoje, quando a Presidente da República sofre processo de impeachment, o presidente da Câmara dos Deputados e o ex- presidente da República estão denunciados pela prática de crimes, o presidente do Senado é alvo de investigação em inquéritos policiais...
           Acreditar em quem mais? O honesto de hoje pode ser o corrupto de amanhã...
               Mas, que é bonito ver o povo na rua, fantasiado de verde e amarelo, clamando por honestidade, por um Brasil melhor, por um futuro sem corrupção, lá isso é... Que é muito bonito ouvir o Hino Nacional cantado pela multidão, seja num estádio de futebol, num comício das "Diretas Já" (onde o ex-presidente estava no palanque) ou no calçadão da Atlântica, da Av. Paulista, na Esplanada dos Ministérios, lá isso também é...
           E que os vendedores ambulantes aproveitem o momento para vender suas mercadorias, dependendo do corrupto da ocasião...