quinta-feira, novembro 26, 2020

AMADOR E PROFISSIONAL...

 

AMADOR E PROFISSIONAL...

“MEU CLUBE DE CORAÇÃO...”

Identidade clubística...

 

Calfilho

 

 

Até os primeiros anos da década de 60, quando o amadorismo já tinha sido totalmente erradicado do futebol dos principais países do mundo, os jogadores ainda tinham uma forte afinidade com os clubes em que começaram suas carreiras.

Segundo li e pesquisei, o profissionalismo foi introduzido no futebol brasileiro no início dos anos 30 do século passado. Por isso, alguns contestam o tetracampeonato carioca do Botafogo (1932/33/34 e 1935). Houve uma cisão no futebol do então Distrito Federal, alguns clubes continuaram com jogadores amadores, enquanto outros aderiram de vez ao profissionalismo. A AMEA (Associação Metropolitana de Esportes Amadores) até então tinha os clubes amadores como filiados. Em janeiro de 1933 foi criada a LCF (Liga Carioca de Futebol), tendo quase todos os clubes do Rio migrado para ela, menos o Botafogo, que continuou na AMEA. Em São Paulo, o mesmo ocorreu, tendo a liga local, a APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos) se dividido em duas, a profissional e a amadora. Na Argentina, isso já ocorrera desde 1931 (informações colhidas na internet, no site “Imortais do Futebol”). O Botafogo, continuando na liga amadora, ganhou facilmente o campeonato. Na Copa do Mundo de 1934, como a liga profissional não era reconhecida, o Brasil foi representado por jogadores, em sua maioria, do Botafogo. Ainda em, 1934, o Vasco, São Cristóvão e Bangu voltaram para a AMEA e, juntos com o Botafogo mudaram o seu nome para FMD (Federação Metropolitana de Desportos), que passou a regular, apoiado pela CBD, o profissionalismo carioca em1935, quando o Botafogo conquistou seu inédito tetracampeonato consecutivo (material da mesma fonte). Leônidas da Silva, o “Diamante Negro”, jogou pelo Botafogo nesse ano. Logo depois, transferiu-se para o Flamengo.

A transição do amadorismo para o profissionalismo não foi difícil, pois muitos jogadores que disputavam a liga amadora já recebiam prêmios por vitórias, além de outros “agrados”. A década de 40 talvez tenha sedimentado um pouco mais o profissionalismo, mas os jogadores ainda permaneciam muito ligados aos clubes que os formaram. Ainda eram raras as transferências de atletas de um clube para outro, na mesma cidade onde atuavam. Para outros Estados, ainda mais. Para o exterior, praticamente não ocorreram. A grande transferência entre clubes no futebol carioca foi a de Ademir Menezes do Vasco para o Fluminense em 1945, dando origem à famosa frase proferida pelo técnico Gentil Cardoso, então dirigindo o Fluminense: “Contratem-me o Ademir e eu lhes dou o título”. O Fluminense contratou Ademir e foi o campeão de 45. No ano seguinte, Ademir voltou para o Vasco. Nessa década de 40, jogadores totalmente identificados com seus clubes foram Heleno de Freitas, Nílton Santos (começando no Botafogo), Ademir, Barbosa, Augusto, Eli (Vasco), Zizinho, Biguá, Bria (Flamengo). São os que me lembro, apenas por ler ou ouvir falar.

Para o exterior, soube apenas de Yeso Amalfi, que se transferiu em 1948 para o Boca Juniors, no ano seguinte para o Penarol, em 1951 para o Nice (da França), em 1951 para o Torino, em 1952 para o Mônaco, tendo encerrado a carreira no Olympique de Marseille em 1959 (fonte: Wikipedia).

Na década de 1950, depois da Copa do Mundo realizada no Brasil, o profissionalismo enraizou-se de vez no futebol brasileiro. Mas, as transferências eram raras e, até consideradas como “traição” por parte dos clubes e jogadores envolvidos. Lembro-me bem de uma, que ficou bem marcada em minha memória: no início da década, um jogador da base (os antigos juvenis) do Botafogo, Joel, foi aliciado pelo Flamengo, que o contratou, desrespeitando seu coirmão que havia formado o jogador. Joel teve uma carreira vitoriosa no Flamengo, participando do time tricampeão de 1953/54/55, e foi convocado para a Copa do Mundo de 1958, sendo titular nas duas primeiras partidas, contra a Áustria e a Inglaterra. Na terceira e decisiva partida da fase eliminatória, Garrincha entrou em seu lugar e “acabou” com o jogo, sendo o titular até o final da competição, vencida pelo Brasil. Na Copa seguinte, Joel nem foi convocado, sendo Jair da Costa o reserva de Garrincha, que foi eleito o melhor jogador da equipe bicampeã mundial. Foi a “vingança” do Botafogo contra a “traição” do Flamengo e de Joel.

Nessa década, ainda os jogadores permaneciam muito tempo em seus clubes, mesmo, às vezes, não tendo sido formados por eles. Assim, o Fluminense de Castilho, Píndaro, Pinheiro, Clóvis, Vítor, Lafayette, Telê, Orlando Pingo de Ouro, manteve esses mesmos jogadores por quase toda a década em sua equipe. O Vasco de Barbosa, Augusto, Eli, Danilo, Jorge, Friaça, Maneca, Ademir, Jair da Rosa Pinto (que se transferiu para o Santos no início da década). O Flamengo de Garcia, Tomires e Pavão; Jadir, Dequinha e Jordan; Joel, Rubens, Índio, Evaristo e Esquerdinha. O Botafogo de Osvaldo Baliza (depois Gilson), Gérson e Santos; Arati, Pampolini e Didi; Garrincha, Edson, Paulinho, Quarentinha e Neivaldo. O América, de Osny, Dimas, Ranulfo, Oswaldinho, Alarcon, João Carlos, Maneco. O Bangu, de Ubirajara, Mario Tito, Zizinho, Ari Clemente e tantos outros. A garotada da época, eu aí incluído, sabia de cor a escalação de todos os times cariocas. Até do Madureira, com Irezê, Bitum e Weber (muito mais tarde, juiz de Direito na antiga Guanabara), Frazão, e outros. O Canto do Rio de Carango e Jairinho. O Olaria, de Olavo “Sarrafo”. O São Cristóvão, de Santo Cristo etc...

Vai perguntar hoje a um garoto de 10 anos qual a escalação do seu time: vai te dizer uma num dia, outra no mês seguinte, mais outra completamente diferente um ano depois... Sobre a seleção brasileira, nem se fala...

Enfim, o profissionalismo foi avassalador...

Recordo-me que naquela década de 50, a grande transferência de um jogador brasileiro para o exterior foi a de Julinho Botelho da Portuguesa de Desportos de SP para a Fiorentina, da Itália. Julinho disputara a Copa do Mundo de 1954 pela seleção brasileira e, em 1955, transferiu-se para o futebol italiano. Ponta direita de rara habilidade, foi convocado por Feola para a Copa do Mundo de 1958, juntamente com Joel, do Flamengo. Num gesto de rara humildade e grandeza, não aceitou a convocação, dizendo que não tomaria o lugar de um jogador que estivesse jogando no Brasil. Resquício forte do amadorismo, quando defender a seleção brasileira significava defender as cores do Brasil... Igual aos dias atuais, não lhes parece?

Feola não gostava de Garrincha, por achar que ele “driblava demais, sem produtividade para a equipe...”. Com a recusa de Julinho, foi quase obrigado a convocar o “anjo das pernas tortas”, já que a “grita” popular era muito forte... Vejam só o absurdo: quase deixamos de ser campeões do mundo em 1958, não fosse o ato de grandeza de Julinho...

Dino da Costa e Vinicius (Leão), atacantes do Botafogo, também foram duas outras transações marcantes do futebol brasileiro na década de 50. Foram jogar em equipes italianas, o Milan foi uma delas, a outra não me recordo... Evaristo foi para o Barcelona e, lembro-me bem da festa que a cidade preparara para ele, quando eu passei por lá, em fevereiro de 1957, numa viagem de navio em direção a Nápoles... Paulinho Valentim e Orlando Peçanha foram para o Boca Juniors, da Argentina...

No Brasil, internamente, duas transferências marcantes: a de Didi, do Fluminense para o Botafogo; a de Gilmar, do Corinthians para o Santos... ajudem-me a lembrar de outras...

Já na década de 60, Brasil bicampeão do mundo, os jogadores brasileiros valorizaram-se rapidamente. Transferência milionárias para o futebol europeu, que, constatando a superioridade da individualidade brasileira sobre os rígidos esquemas de seus países, decidiram importar em massa os “craques” tupiniquins: Amarildo para o Milan; Vavá, para o Atlético de Madrid; Didi, para o Real Madrid, Jair da Costa para a Internazzionale, Dino Sani para o Boca Juniors,  Joel Martins para o Valência... bem, quem mais?

Pelé ficou no Santos, recusando propostas milionárias. Garrincha permaneceu no Botafogo até 1966, quando preferiu deixar o clube, indo para o Corinthians, porque não conseguia recuperar-se de uma violenta lesão nos joelhos. Nílton Santos, em clubes, só vestiu a camisa do Botafogo. Gilmar, Djalma Santos, Zito, Pepe, permaneceram em seus clubes até abandonar o futebol, ou transferiram-se para equipes menores apenas para encerrar a carreira e ganhar um dinheirinho extra. Lembro bem, já no final da década de 60, que, Gerson, morador de Niterói, recusou propostas da Europa por detestar viajar de avião...

As décadas seguintes, após a conquista do tricampeonato mundial em 1970, marcaram, a meu ver, o declínio do futebol brasileiro. Mesmo conquistando mais dois outros títulos mundiais, a qualidade do nosso futebol foi caindo a olhos vistos. As transferências para a Europa e, depois, para o Japão e para o resto do mundo multiplicaram-se em velocidade exponencial. Hoje, o que vemos, são jovens com menos de quinze anos sendo recrutados pelo futebol europeu e lá aprendendo a jogar futebol como eles. Acabaram-se a improvisação, o jogo de cintura, a boa molecagem do futebol brasileiro...

Grande culpa desse declínio cabe a nós mesmos... acabando com os campos de futebol que existiam pelas cidades, com os terrenos onde animadas peladas eram jogadas, acabou-se também a improvisação, o gosto pelo futebol bem jogado... Nossos campinhos transformaram-se em prédios de cimento, e com eles nosso futebol foi afundando... Lembro-me bem que, só em Niterói, joguei nos campos do Niteroiense, Ypiranga, Fluminense, Vienense, Henrique Lage, Manufatora, Cruzeiro, Country, Caio Martins. Quantos deles existem atualmente? Hoje, as crianças começam a jogar futebol de salão (ou futsal), que nunca foi a mesma coisa que o futebol de campo... Quando vão para este, já estão viciados com o pouco espaço que o salão lhes proporcionou, obrigados a  passes curtos e rápidos, e são incapazes de levantar a cabeça,  procurar um companheiro desmarcado lá na frente e fazer um lançamento...  Não, bola pro lado, que “não quero ficar com a responsabilidade de tentar uma jogada de profundidade, uma jogada mais aguda, de tentar o drible... afinal, se perder a bola...”

Dá pena de ver a seleção brasileira em campo, atualmente... conheço apenas um ou outro jogador que esteve por algum tempo num clube brasileiro... a grande maioria é desconhecida ou só esteve aqui na base de nossos times... Não são maus jogadores, mas nem parecem brasileiros... vestem a camisa da seleção como vestem a camisa de seus clubes na Europa, sem amor, sem identidade com a mesma... alguns até se naturalizam europeus para poder jogar pelas seleções dos países de seus clubes... Os jogos do campeonato brasileiro também são duros de assistir... A comparação com o futebol europeu é inevitável e saímos perdedores, de longe, em qualidade técnica... Hoje, é muito mais agradável assistir um jogo dos campeonatos europeus pela TV do que outro do Brasileirão... Por isso, em nossas ruas já vemos algumas crianças (e até adultos) desfilando com camisas do Real Madrid, do Barcelona ou de uma seleção europeia...

           Vou falar apenas de dois exemplos mais recentes que conheço e que, por acaso, são do meu clube: o Túlio, pouco conhecido meio de campo do Botafogo na década passada, passou um tempo jogando fora do Brasil e, quando voltou, procurado por outros clubes, disse:

“-- Primeiro, quero ouvir a proposta do Botafogo, que é meu clube do coração”.

Acabou voltando para o clube, apesar de ter recebido uma proposta um pouco mais elevada de outra equipe.

O outro exemplo é Lucio Flavio, durante alguns anos meia armador do Botafogo, que, depois de ter parado de jogar, ao receber um convite do clube para trabalhar na Comissão Técnica, aceitou imediatamente.

Parabéns aos dois, amor à camisa não se demonstra apenas no momento da assinatura do contrato, quando o escudo do clube é invariavelmente beijado. Esse amor é muito mais importante quando o jogador deixa o clube, precisa dele, mesmo quando não mais joga futebol...Por isso, os dois atualmente, fazem parte da Comissão Técnica do Botafogo... Não foram jogadores excepcionais, apenas medianos, mas respeitam e têm carinho pelo time que defenderam...

O amor ao clube, coisa rara...

Os jogadores atuais trocam de camisa, como quem troca... de “camisa...”.

 

4 comentários:

Calfilho disse...

Já faço minha primeira correção, alertado por um dos meus filhos: na década de 40, a mais badalada transferência de um jogador brasileiro para fora do país foi a de Heleno de Freitas, do Botafogo para o Boca Juniors, em 1948. Com direito a muito choro e juras de amor eterno...

CARLOS disse...

1948,que foi justamente o ano em que o Botafogo foi campeão, em cima do Vasco, conquista recheada de folclore e superstições, no melhor estilo botafoguense. Heleno, que buscou tanto esse título, sem sucesso, estava em Buenos Aires, no Boca, que, décadas depois, consagraria como seu maior ídolo o já saudoso Diego.

Calfilho disse...

Obrigado, CARLOS, pela visita e colaboração com o blog. Acho que te conheço, vou me lembrar de onde...

Jorge Carrano disse...


Heleno acabou campeão envergando a camisa do Vasco.