quinta-feira, novembro 26, 2020

AMADOR E PROFISSIONAL...

 

AMADOR E PROFISSIONAL...

“MEU CLUBE DE CORAÇÃO...”

Identidade clubística...

 

Calfilho

 

 

Até os primeiros anos da década de 60, quando o amadorismo já tinha sido totalmente erradicado do futebol dos principais países do mundo, os jogadores ainda tinham uma forte afinidade com os clubes em que começaram suas carreiras.

Segundo li e pesquisei, o profissionalismo foi introduzido no futebol brasileiro no início dos anos 30 do século passado. Por isso, alguns contestam o tetracampeonato carioca do Botafogo (1932/33/34 e 1935). Houve uma cisão no futebol do então Distrito Federal, alguns clubes continuaram com jogadores amadores, enquanto outros aderiram de vez ao profissionalismo. A AMEA (Associação Metropolitana de Esportes Amadores) até então tinha os clubes amadores como filiados. Em janeiro de 1933 foi criada a LCF (Liga Carioca de Futebol), tendo quase todos os clubes do Rio migrado para ela, menos o Botafogo, que continuou na AMEA. Em São Paulo, o mesmo ocorreu, tendo a liga local, a APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos) se dividido em duas, a profissional e a amadora. Na Argentina, isso já ocorrera desde 1931 (informações colhidas na internet, no site “Imortais do Futebol”). O Botafogo, continuando na liga amadora, ganhou facilmente o campeonato. Na Copa do Mundo de 1934, como a liga profissional não era reconhecida, o Brasil foi representado por jogadores, em sua maioria, do Botafogo. Ainda em, 1934, o Vasco, São Cristóvão e Bangu voltaram para a AMEA e, juntos com o Botafogo mudaram o seu nome para FMD (Federação Metropolitana de Desportos), que passou a regular, apoiado pela CBD, o profissionalismo carioca em1935, quando o Botafogo conquistou seu inédito tetracampeonato consecutivo (material da mesma fonte). Leônidas da Silva, o “Diamante Negro”, jogou pelo Botafogo nesse ano. Logo depois, transferiu-se para o Flamengo.

A transição do amadorismo para o profissionalismo não foi difícil, pois muitos jogadores que disputavam a liga amadora já recebiam prêmios por vitórias, além de outros “agrados”. A década de 40 talvez tenha sedimentado um pouco mais o profissionalismo, mas os jogadores ainda permaneciam muito ligados aos clubes que os formaram. Ainda eram raras as transferências de atletas de um clube para outro, na mesma cidade onde atuavam. Para outros Estados, ainda mais. Para o exterior, praticamente não ocorreram. A grande transferência entre clubes no futebol carioca foi a de Ademir Menezes do Vasco para o Fluminense em 1945, dando origem à famosa frase proferida pelo técnico Gentil Cardoso, então dirigindo o Fluminense: “Contratem-me o Ademir e eu lhes dou o título”. O Fluminense contratou Ademir e foi o campeão de 45. No ano seguinte, Ademir voltou para o Vasco. Nessa década de 40, jogadores totalmente identificados com seus clubes foram Heleno de Freitas, Nílton Santos (começando no Botafogo), Ademir, Barbosa, Augusto, Eli (Vasco), Zizinho, Biguá, Bria (Flamengo). São os que me lembro, apenas por ler ou ouvir falar.

Para o exterior, soube apenas de Yeso Amalfi, que se transferiu em 1948 para o Boca Juniors, no ano seguinte para o Penarol, em 1951 para o Nice (da França), em 1951 para o Torino, em 1952 para o Mônaco, tendo encerrado a carreira no Olympique de Marseille em 1959 (fonte: Wikipedia).

Na década de 1950, depois da Copa do Mundo realizada no Brasil, o profissionalismo enraizou-se de vez no futebol brasileiro. Mas, as transferências eram raras e, até consideradas como “traição” por parte dos clubes e jogadores envolvidos. Lembro-me bem de uma, que ficou bem marcada em minha memória: no início da década, um jogador da base (os antigos juvenis) do Botafogo, Joel, foi aliciado pelo Flamengo, que o contratou, desrespeitando seu coirmão que havia formado o jogador. Joel teve uma carreira vitoriosa no Flamengo, participando do time tricampeão de 1953/54/55, e foi convocado para a Copa do Mundo de 1958, sendo titular nas duas primeiras partidas, contra a Áustria e a Inglaterra. Na terceira e decisiva partida da fase eliminatória, Garrincha entrou em seu lugar e “acabou” com o jogo, sendo o titular até o final da competição, vencida pelo Brasil. Na Copa seguinte, Joel nem foi convocado, sendo Jair da Costa o reserva de Garrincha, que foi eleito o melhor jogador da equipe bicampeã mundial. Foi a “vingança” do Botafogo contra a “traição” do Flamengo e de Joel.

Nessa década, ainda os jogadores permaneciam muito tempo em seus clubes, mesmo, às vezes, não tendo sido formados por eles. Assim, o Fluminense de Castilho, Píndaro, Pinheiro, Clóvis, Vítor, Lafayette, Telê, Orlando Pingo de Ouro, manteve esses mesmos jogadores por quase toda a década em sua equipe. O Vasco de Barbosa, Augusto, Eli, Danilo, Jorge, Friaça, Maneca, Ademir, Jair da Rosa Pinto (que se transferiu para o Santos no início da década). O Flamengo de Garcia, Tomires e Pavão; Jadir, Dequinha e Jordan; Joel, Rubens, Índio, Evaristo e Esquerdinha. O Botafogo de Osvaldo Baliza (depois Gilson), Gérson e Santos; Arati, Pampolini e Didi; Garrincha, Edson, Paulinho, Quarentinha e Neivaldo. O América, de Osny, Dimas, Ranulfo, Oswaldinho, Alarcon, João Carlos, Maneco. O Bangu, de Ubirajara, Mario Tito, Zizinho, Ari Clemente e tantos outros. A garotada da época, eu aí incluído, sabia de cor a escalação de todos os times cariocas. Até do Madureira, com Irezê, Bitum e Weber (muito mais tarde, juiz de Direito na antiga Guanabara), Frazão, e outros. O Canto do Rio de Carango e Jairinho. O Olaria, de Olavo “Sarrafo”. O São Cristóvão, de Santo Cristo etc...

Vai perguntar hoje a um garoto de 10 anos qual a escalação do seu time: vai te dizer uma num dia, outra no mês seguinte, mais outra completamente diferente um ano depois... Sobre a seleção brasileira, nem se fala...

Enfim, o profissionalismo foi avassalador...

Recordo-me que naquela década de 50, a grande transferência de um jogador brasileiro para o exterior foi a de Julinho Botelho da Portuguesa de Desportos de SP para a Fiorentina, da Itália. Julinho disputara a Copa do Mundo de 1954 pela seleção brasileira e, em 1955, transferiu-se para o futebol italiano. Ponta direita de rara habilidade, foi convocado por Feola para a Copa do Mundo de 1958, juntamente com Joel, do Flamengo. Num gesto de rara humildade e grandeza, não aceitou a convocação, dizendo que não tomaria o lugar de um jogador que estivesse jogando no Brasil. Resquício forte do amadorismo, quando defender a seleção brasileira significava defender as cores do Brasil... Igual aos dias atuais, não lhes parece?

Feola não gostava de Garrincha, por achar que ele “driblava demais, sem produtividade para a equipe...”. Com a recusa de Julinho, foi quase obrigado a convocar o “anjo das pernas tortas”, já que a “grita” popular era muito forte... Vejam só o absurdo: quase deixamos de ser campeões do mundo em 1958, não fosse o ato de grandeza de Julinho...

Dino da Costa e Vinicius (Leão), atacantes do Botafogo, também foram duas outras transações marcantes do futebol brasileiro na década de 50. Foram jogar em equipes italianas, o Milan foi uma delas, a outra não me recordo... Evaristo foi para o Barcelona e, lembro-me bem da festa que a cidade preparara para ele, quando eu passei por lá, em fevereiro de 1957, numa viagem de navio em direção a Nápoles... Paulinho Valentim e Orlando Peçanha foram para o Boca Juniors, da Argentina...

No Brasil, internamente, duas transferências marcantes: a de Didi, do Fluminense para o Botafogo; a de Gilmar, do Corinthians para o Santos... ajudem-me a lembrar de outras...

Já na década de 60, Brasil bicampeão do mundo, os jogadores brasileiros valorizaram-se rapidamente. Transferência milionárias para o futebol europeu, que, constatando a superioridade da individualidade brasileira sobre os rígidos esquemas de seus países, decidiram importar em massa os “craques” tupiniquins: Amarildo para o Milan; Vavá, para o Atlético de Madrid; Didi, para o Real Madrid, Jair da Costa para a Internazzionale, Dino Sani para o Boca Juniors,  Joel Martins para o Valência... bem, quem mais?

Pelé ficou no Santos, recusando propostas milionárias. Garrincha permaneceu no Botafogo até 1966, quando preferiu deixar o clube, indo para o Corinthians, porque não conseguia recuperar-se de uma violenta lesão nos joelhos. Nílton Santos, em clubes, só vestiu a camisa do Botafogo. Gilmar, Djalma Santos, Zito, Pepe, permaneceram em seus clubes até abandonar o futebol, ou transferiram-se para equipes menores apenas para encerrar a carreira e ganhar um dinheirinho extra. Lembro bem, já no final da década de 60, que, Gerson, morador de Niterói, recusou propostas da Europa por detestar viajar de avião...

As décadas seguintes, após a conquista do tricampeonato mundial em 1970, marcaram, a meu ver, o declínio do futebol brasileiro. Mesmo conquistando mais dois outros títulos mundiais, a qualidade do nosso futebol foi caindo a olhos vistos. As transferências para a Europa e, depois, para o Japão e para o resto do mundo multiplicaram-se em velocidade exponencial. Hoje, o que vemos, são jovens com menos de quinze anos sendo recrutados pelo futebol europeu e lá aprendendo a jogar futebol como eles. Acabaram-se a improvisação, o jogo de cintura, a boa molecagem do futebol brasileiro...

Grande culpa desse declínio cabe a nós mesmos... acabando com os campos de futebol que existiam pelas cidades, com os terrenos onde animadas peladas eram jogadas, acabou-se também a improvisação, o gosto pelo futebol bem jogado... Nossos campinhos transformaram-se em prédios de cimento, e com eles nosso futebol foi afundando... Lembro-me bem que, só em Niterói, joguei nos campos do Niteroiense, Ypiranga, Fluminense, Vienense, Henrique Lage, Manufatora, Cruzeiro, Country, Caio Martins. Quantos deles existem atualmente? Hoje, as crianças começam a jogar futebol de salão (ou futsal), que nunca foi a mesma coisa que o futebol de campo... Quando vão para este, já estão viciados com o pouco espaço que o salão lhes proporcionou, obrigados a  passes curtos e rápidos, e são incapazes de levantar a cabeça,  procurar um companheiro desmarcado lá na frente e fazer um lançamento...  Não, bola pro lado, que “não quero ficar com a responsabilidade de tentar uma jogada de profundidade, uma jogada mais aguda, de tentar o drible... afinal, se perder a bola...”

Dá pena de ver a seleção brasileira em campo, atualmente... conheço apenas um ou outro jogador que esteve por algum tempo num clube brasileiro... a grande maioria é desconhecida ou só esteve aqui na base de nossos times... Não são maus jogadores, mas nem parecem brasileiros... vestem a camisa da seleção como vestem a camisa de seus clubes na Europa, sem amor, sem identidade com a mesma... alguns até se naturalizam europeus para poder jogar pelas seleções dos países de seus clubes... Os jogos do campeonato brasileiro também são duros de assistir... A comparação com o futebol europeu é inevitável e saímos perdedores, de longe, em qualidade técnica... Hoje, é muito mais agradável assistir um jogo dos campeonatos europeus pela TV do que outro do Brasileirão... Por isso, em nossas ruas já vemos algumas crianças (e até adultos) desfilando com camisas do Real Madrid, do Barcelona ou de uma seleção europeia...

           Vou falar apenas de dois exemplos mais recentes que conheço e que, por acaso, são do meu clube: o Túlio, pouco conhecido meio de campo do Botafogo na década passada, passou um tempo jogando fora do Brasil e, quando voltou, procurado por outros clubes, disse:

“-- Primeiro, quero ouvir a proposta do Botafogo, que é meu clube do coração”.

Acabou voltando para o clube, apesar de ter recebido uma proposta um pouco mais elevada de outra equipe.

O outro exemplo é Lucio Flavio, durante alguns anos meia armador do Botafogo, que, depois de ter parado de jogar, ao receber um convite do clube para trabalhar na Comissão Técnica, aceitou imediatamente.

Parabéns aos dois, amor à camisa não se demonstra apenas no momento da assinatura do contrato, quando o escudo do clube é invariavelmente beijado. Esse amor é muito mais importante quando o jogador deixa o clube, precisa dele, mesmo quando não mais joga futebol...Por isso, os dois atualmente, fazem parte da Comissão Técnica do Botafogo... Não foram jogadores excepcionais, apenas medianos, mas respeitam e têm carinho pelo time que defenderam...

O amor ao clube, coisa rara...

Os jogadores atuais trocam de camisa, como quem troca... de “camisa...”.

 

quarta-feira, novembro 25, 2020

COMPARAÇÕES INFELIZES...

 

COMPARAÇÕES INFELIZES...

 

Calfilho

 

 

Uma das coisas mais perigosas, quase infeliz, que se pode fazer no futebol, é querer comparar qualidade de jogadores tidos como craques em seus times ou seleções. Arriscamo-nos a cometer graves injustiças que nem nós mesmos conseguimos perceber.

Isso porque não se podem comparar coisas diferentes, apesar da aparente semelhança que possam ter. Quando se tenta fazer a comparação entre jogadores de um mesmo time ou de uma mesma seleção, temos que atentar, em primeiro lugar, se jogaram ou não na mesma época. Depois, se a posição dos dois era exatamente a mesma, ou seja, idêntica a função que exerciam em campo. E, em terceiro lugar, se os times em que jogaram tinham a mesma qualidade técnica, ou seja, se os jogadores que se quer comparar tinham ao seu lado outros atletas do mesmo nível de qualidade de futebol. Isso porque, não esqueçamos, trata-se de um esporte coletivo, nunca individual.

Mesmo que um jogador seja tecnicamente bem superior aos demais, vai ser o trabalho em conjunto, em equipe, que vai determinar o sucesso ou o fracasso do time. O “fora-de-série” pode até desequilibrar um jogo ou outro numa jogada genial e decidir uma partida. Mas, não fará isso sempre e, se seus companheiros de equipe não colaborarem com ele, sua genialidade vai ficar limitada a apenas alguns lances esporádicos. Agora, se alguns dos outros jogadores também tiverem uma técnica de razoável para boa, aí sua individualidade vai aparecer muito mais.

Já vi várias discussões sérias (algumas até transformaram amizades em inimizades) sobre quem seria melhor: Pelé ou Garrincha? Pelé ou Maradona? Maradona ou Messi? Zico ou Dida? Gerson ou Didi? Ademir da Guia ou Rivelino?

Pena que, de uns anos para cá, as comparações ficaram mais pobres... A não ser, talvez, Neymar, a nova safra de “craques” não empolga tanto... quando assistimos a atual seleção brasileira entrar em campo e vemos tantos jogadores desconhecidos, que estão fazendo suas carreiras na Europa, alguns tendo jogado apenas uma temporada aqui no Brasil (ou nem isso), não podemos realmente ficar animados...

O mal dessas comparações é que cada um de nós tem sua opinião e acredita piamente que ela é a correta, sem admitir contestações.

Deixem-me dar a minha.

Pelé ou Maradona? Para mim, Pelé. Primeiro, porque ganhou três Copas do Mundo, apesar de ter jogado pouco tempo na de 1962. Maradona só ganhou uma. Os dois foram “pontas de lança” (como preferem alguns), ou “meias avançados” (como preferem outros). Pelé sempre foi mais objetivo, jogava mais visando o gol, fez do Santos um dos maiores times do mundo no início da década de 60. Maradona, mais individualista, “cracaço” de bola, fez do Nápoli, time que nunca chegava ao título, campeão da Itália por duas vezes. O gol que fez contra a Inglaterra na Copa de 86, no México, foi um dos mais bonitos já vistos na história do futebol. Pelé teve ao seu lado Coutinho, Pepe, Mengalvio, Zito, Carlos Alberto. Maradona teve Alemão, Careca, Batistuta e tantos outros extraordinários jogadores argentinos.

Garrincha ou Pelé? Para mim, Garrincha. Pela genialidade, pelo improviso, por ter ganho duas Copas do Mundo, a de 1962 levando o time nas costas após a contusão de Pelé na segunda partida da fase eliminatória. Jogavam em posições diferentes, mas Garrincha, que foi o maior ponta-direita que vi jogar (perdoem-me Julinho Botelho e Stanley Mathews), além de infernizar defesas, na Copa de 62, fez gol de falta e até de cabeça. Pelé ganhou três Copas, mas era muito mais novo que Garrincha. Este último jogou ao lado de Didi, Quarentinha, Paulinho Valentim, Manga, além de Pelé, Zito, Pepe, Vavá, Dida... Garrincha, para mim, foi o maior gênio do futebol mundial, embora ache que ele nem se dava conta disso...

Maradona ou Messi? Maradona, na minha opinião. Também pela improvisação, pelo domínio de bola, pela genialidade. Messi, apesar de ser um “baita” jogador já tem outro estilo, já que foi ainda adolescente para a Europa e lá adaptou seu futebol ao estilo europeu, sendo mais objetivo, pragmático, apesar de às vezes também improvisar. Nunca deu sorte jogando pela seleção do seu país.

Zico ou Dida? Para mim, Dida (sei que vou ser xingado por esta opinião, inclusive por um familiar, flamenguista doente). Mas, acompanhei a carreira dos dois desde o início. Vi Dida estrear pelo Flamengo, juntamente com Babá, acho que no tricampeonato do rubro-negro de 1955. Sempre foi um jogador brilhante, artilheiro nato, decidindo jogos importantes para o seu time. Zico, mais recente, também excelente jogador, irmão mais novo de outros atacantes de sucesso (na minha opinião, Edu, o melhor deles) é mais idolatrado pela torcida do Flamengo por ter ficado mais conhecido e porque a mídia o promoveu muito. Edu, por ter jogado quase toda sua carreira no América, não teve tanta projeção, mas foi um senhor jogador.

Gerson ou Didi? Para mim, Didi. Conheci Gerson quando tinha doze anos de idade, ele, acho que dois anos mais velho do que eu. Treinávamos futebol de salão no Canto do Rio, em Niterói, ele já despontando como uma grande revelação do futebol da época. Em 1955, ele disputou os Jogos Infantis pelo clube (jogos patrocinados pelo então Jornal dos Sports) pelo time até quinze anos de idade, formando ala com Jardel, que depois jogou por vários clubes, inclusive Internacional e Fluminense). Deram um show de bola e ganharam facilmente o torneio. Eu, nem me atrevi a disputar pelo time de até 13 anos, onde teria poucas chances de ser titular (Carlos Pio jogava nesse time) e preferi participar do torneio de tênis de mesa, que também praticava no clube. Gérson teve carreira meteórica, passando para o juvenil do futebol de campo do Canto do Rio e depois transferindo-se para o Flamengo. Excelente visão de jogo, passe de primeira, sempre encontrando um jogador desmarcado. Jogou pelo meu Botafogo, pelo São Paulo e encerrou a carreira no Fluminense. Didi, quase dez anos mais velho, era o rei do meio de campo. O “Príncipe Etíope”, como o chamava Nelson Rodrigues. Jogou pelo Madureira, depois Fluminense, campeão carioca pelo Botafogo em 1957, bicampeão do mundo pela seleção brasileira em 1958 e 1962, foi tentar o sucesso no Real Madrid, não se adaptou, voltou ao Botafogo onde chegou a jogar algumas partidas ao lado do Gérson, no que foi chamado na época de “super meio de campo”. Ficou pouco tempo, foi ser técnico no Peru. Célebre ficou sua atitude num jogo da Copa do Mundo de 1958, quando, após o Brasil levar um gol, foi até o fundo das redes, pegou a bola, colocou-a debaixo do braço e, calmamente, em passos estudados, foi andando com ela até o meio do campo para dar nova saída. O Brasil virou o jogo e ganhou por 5 X 2. Grande craque.

Ademir da Guia ou Rivellino? Prefiro Ademir da Guia. Estilo clássico, muito tranquilo, domínio de bola extraordinário, para mim um dos grandes injustiçados na seleção brasileira. Jogou na mesma época de Gérson e Rivellino, que tinham muito mais cobertura da mídia (carioca e paulista), por isso era sempre preterido nas convocações da seleção. Filho do extraordinário Domingos da Guia, um dos maiores zagueiros do Brasil das décadas de 30 e 40, começou no Bangu e foi ainda muito novo para o Palmeiras, onde construiu sua carreira. Rivellino, cria do Corinthians Paulista, era adorado pela torcida do clube, ganhou o apelido de “Garoto do Parque”, também excelente meio de campo. Diferente de Ademir, temperamento explosivo, irritadiço, nunca conseguiu se firmar na seleção brasileira, até que, em 1970, Zagallo o colocou para jogar na ponta esquerda, como um ponta recuado, como ele próprio, Zagallo, jogara em seus tempos de Flamengo, Botafogo e seleção. Adaptou-se bem à função e foi um dos melhores jogadores da seleção campeã mundial de 1970. Já na seleção de 1974, titular absoluto do meio de campo, não alcançou o mesmo sucesso. Jogou no Fluminense e fez muito sucesso com a camisa tricolor.

Poderíamos tentar fazer outras comparações. Domingos da Guia ou Djalma Dias (este último, o melhor zagueiro que vi atuar; não vi Domingos).

 Leônidas da Silva, Heleno de Freitas ou Ademir Menezes? Não vi Leônidas; Heleno, só vi a última partida que jogou (meio tempo, pois foi expulso, em 1950, com a camisa do América, no Maracanã); Ademir, realmente, o melhor centro avante que vi jogar. Queria ter visto Heleno em seu auge, na década de 40.

Zizinho ou Didi? Para mim, Zizinho, que também vi jogar já em final de carreira, pela equipe do Bangu.

De tudo o que comentei, resumo: comparações são sempre difíceis, traiçoeiras, até mesmo infelizes. Tudo depende de preferências pessoais, clubísticas, época em que jogaram, estilo de jogo de cada um, qualidade dos companheiros de time...

Mas, como futebol é paixão, cada um se apaixona como acha melhor...

sexta-feira, novembro 20, 2020

PAIS E FILHOS... NO FUTEBOL...

 

PAIS E FILHOS... NO FUTEBOL...

 

Calfilho

 

 

          Em talvez oitenta por cento das hipóteses, os filhos seguem os caminhos que os pais já desempenharam em suas próprias vidas. Assim, muitos médicos também se formam em medicina porque seu pai ou sua mãe foram médicos. O mesmo ocorre na advocacia (com suas variantes para a magistratura ou Ministério Público, mesmo Defensoria), engenharia, odontologia e outras carreiras de nível superior... Não porque, necessariamente, já tinham vocação para seguir a mesma profissão,  mas, quase sempre pela influência familiar... talvez até por comodismo, por já encontrarem o escritório ou consultório do pai ou da mãe estabelecido, o bom nome que eles já conquistaram no exercício de suas profissões e a maior facilidade que teriam em começar uma atividade laborativa após o término de seus ciclos de estudos convencionais...

          Cada um deve ter sua própria história para contar. Muitas delas são iguais, outras parecidas, algumas bem diferentes...

        Vou contar a minha, se me permitem. Meu pai era médico e acho que um dos seus maiores sonhos era que eu também fizesse medicina. Por isso, cursei o antigo científico, que era preparatório para medicina, engenharia, odontologia, entre outras carreiras. Estudei, sem necessidade, matemática mais avançada, desenho, química, física, matérias que nunca utilizei no futuro.  Acabei cursando Direito (poderia ter feito o clássico e me livrado daquelas matérias) e segui outra carreira, mesmo sem ter vocação para ela. Sei que decepcionei profundamente meu pai, mas acho que fiz o que achei que era melhor para mim na ocasião. Seria um médico apenas razoável, acabei um magistrado também apenas razoável...

        No futebol, meu pai também não me influenciou... Na realidade, não sei para qual time torcia. Senti nele uma leve predileção pelo Vasco, mas foi apenas minha impressão. Entretanto, levou-me várias vezes ao Maracanã para assistir jogos de times diversos, entre eles até o São Cristóvão. Com ele, assisti partidas diurnas e noturnas, do campeonato carioca e do antigo torneio Rio-São Paulo. Minha opção pelo Botafogo, depois de minha fase cantorriense foi tomada somente por mim, por mais ninguém.

     Já em relação aos meus filhos foi um pouco diferente. Não dei nenhum palpite sobre a carreira que deveriam seguir. Deixei exclusivamente a critério deles essa escolha. Minha filha mais velha e dois dos meus filhos homens escolheram Direito, não sei o motivo. Não advogo depois que me aposentei (nem revalidei minha inscrição na OAB), não tenho escritório e pouco posso ajudá-los, já que o Direito mudou muito depois da minha aposentadoria. Outro filho meu cursou Física e hoje é professor da UFRJ, tendo vários cursos de mestrado, doutorado e pós-graduação nos EEUU., Europa, até China.

    Já quanto ao futebol, aí não. Ainda crianças de colo me acompanharam devidamente uniformizados com a camisa, calção e meia do Botafogo a jogos no Maracanã. Hoje, são quatro botafoguenses doentes. Um deles, como eu, é sócio proprietário do clube.

    Já meu neto, doutrinado pelo pai, é tricolor, não consegui influenciá-lo.

         Democracia em tudo, menos no futebol...

quarta-feira, novembro 18, 2020

O TORNEIO INÍCIO...

O TORNEIO INÍCIO...

 

Calfilho

 

 

Nos primeiros anos da década de 50 do século passado, já totalmente fascinado pelo futebol, meu pai me levou algumas vezes ao Maracanã. Acho que já comentei isso aqui: só não o acompanhei na final de Brasil X Uruguai, porque tinha apenas oito anos de idade e ele ficou com receio do tumulto que seria a saída do estádio após a vitória tida como certa da equipe brasileira. Bem, naquele tempo, não havia Uber, nem ponte, o bonde era a condução até a praça XV, e dali uma barca da Cantareira para Niterói... Primeira vez que a seleção conquistaria a Copa do Mundo de futebol... Infelizmente, o verbo “conquistar” ficou apenas no condicional, uma das maiores vergonhas do futebol brasileiro, que só seria suplantada muitos anos após, já no século seguinte...

Já tinha formado meus times de futebol de botão. Mas, ainda, sem definição como torcedor. Tinha várias equipes, muitas deles compostas de “jogadores” feitos com casca de coco, botões velhos que minha mãe não usava mais, mas nunca meus times eram desses botões que vemos atualmente, todos iguais, em material plástico, com o escudo dos clubes em cima. Os goleiros, normalmente, eram caixas de fósforos com chumbinho de pesca em seu interior, para não caírem ou virarem...

No corredor do prédio da Av. Amaral Peixoto onde morava, eu e meus irmãos jogávamos animadas partidas de futebol, com bola de meia ou de borracha, o que deve ter causado muitos aborrecimentos aos vizinhos dos outros apartamentos do mesmo andar.

Só no final de 1951, quando mudamos para a rua Nilo Peçanha, no Ingá, foi que pude verdadeiramente praticar o futebol na rua e na praia... Deliciosa época, em que fechávamos a rua com balizas improvisadas com tijolos e só éramos interrompidos quando passava um carro de duas em duas horas, ou uma senhora transitava pela calçada.

-- Para a bola!!! -- um de nós gritava e o “racha” era momentaneamente interrompido...

Mas, voltando às minhas idas ao Maracanã...

Um dos espetáculos de que mais gostava era o extinto Torneio Início, que abria o campeonato carioca de cada ano... Normalmente, os grandes times não mandavam para esse torneio de abertura seus times principais, por não darem muita importância ao mesmo... Todos os times da Federação Carioca de Futebol o disputavam, como uma festa de abertura do campeonato que começaria na semana seguinte. Deixem-me tentar lembrar quais eram as equipes no início dos anos 50: Vasco, Flamengo, Fluminense, Botafogo, América, Bangu, Madureira, São Cristóvão, Olaria, Bonsucesso, Canto do Rio... Anos mais tarde, entraram Portuguesa e Campo Grande...

No Torneio Início, todos os times cariocas compareciam ao Maracanã e, como os vestiários não eram suficientes para abrigar os jogadores de todos os times, alguns deles ficavam sentados no gramado, ao lado dos túneis dos vestiários.

Era realmente muito legal ver seus ídolos sentados ou deitados displicentemente no gramado aguardando a hora em que os jogos de seus times iriam começar. As partidas tinham a duração de vinte minutos, com dez minutos para cada tempo e eram eliminatórias. A final tinha 60 minutos, com 30 para cada tempo. As primeiras partidas, normalmente, eram entre os times considerados “pequenos” (Canto do Rio, Olaria, Bonsucesso, São Cristóvão, Madureira...), sendo a metade deles logo eliminada, e os vencedores iriam disputar com os “grandes” (Vasco, Flamengo, Botafogo, Fluminense, América e Bangu) os jogos restantes.

Era uma verdadeira festa, que tinha início ao meio dia e, muitas vezes terminava com o dia já escurecendo...

Se um dos jogos terminasse empatado, a decisão era por pênaltis ou pelo número de escanteios concedidos  ( três rodadas de pênaltis  até a definição do vencedor e todos os pênaltis deveriam ser batidos pelo mesmo jogador – segundo a Wkipedia).

A primeira edição do torneio foi em 1916 e a última em 1967 tendo havido uma edição especial m 1977, também segundo a Wikipedia.

Apenas por curiosidade e para não dizer que o então meu time de coração não ganhou nada, o Canto do Rio foi o campeão de 1953. Tinha a seguinte formação: Celso, Nanati e Garcia; Cleuson, Rubinho e Heber; Milton, Miltinho, Jaime, Dodoca e Jairo. A final teve prorrogação e tudo e o Cantusca “goleou o Vasco por 3 x 0...

 






 

 

 

 

Minha fonte foi a Wikipedia e a foto da equipe campeã do torneio início de 1953 é do “Sport Ilustrado”.


segunda-feira, novembro 16, 2020

Memórias futebolísticas...

   MEMÓRIAS FUTEBOLÍSTICAS...

                     Calfilho

Provocado por um dileto amigo, vou tentar escrever algumas linhas sobre futebol...

Acompanho o esporte desde 1950, quando tinha oito anos de idade...

Não torcia por um clube definido, gostava de ver os times jogando, a beleza das camisas coloridas, o Maracanã grandioso, mas ainda um pouco triste, depois da derrota para o Uruguai, na Copa do Mundo de 50... Meu pai às vezes me levava para assistir uma partida, seja do Vasco, Fluminense, Botafogo, América, até mesmo do São Cristóvão. Com a chegada da televisão em nossos lares, passei a acompanhar com mais frequência os jogos que os clubes permitiam a transmissão.

O Vasco era o grande time da época, base da seleção brasileira que disputou a malfadada Copa de 50. Barbosa, Augusto, Eli, Ademir, Maneca, Friaça, Tesourinha, Chico, jogavam pela equipe cruzmaltina. Foi o campeão carioca daquele ano.

O Fluminense tinha Castilho, Píndaro, Pinheiro, Clóvis, Telê, Vítor, Bigode, Orlando Pingo de ouro, entre tantos outros excelentes jogadores. Foi o campeão de 1951.

O Flamengo tinha um timaço, sendo reforçado com a vinda de Rubens e Adãozinho, que chegaram do futebol paulista. Garcia, Biguá (mais tarde Tomires) e Pavão; Jadir, Bria (depois Dequinha) e Jordan; Joel, Rubens, Adãozinho (mais tarde Índio), Benitez e Esquerdinha. Ainda entraram Evaristo, contratado ao Madureira e uma dupla que fez muito sucesso por vários anos: Dida e Babá. O Flamengo foi tricampeão carioca em 1953, 1954 e 1955...

O Botafogo, que fora campeão em 1948, depois da saída de seu melhor jogador, Heleno de Freitas, para o Boca Juniors, não conseguia formar um bom time. Até que, em 1953, surgiu um endiabrado ponta-direita, de nome Manuel Francisco dos Santos, apelidado de Garrincha, que fez voltar a alegria aos botafoguenses. Contratou Didi ao Fluminense, além de Paulinho Valentim e Quarentinha, dois excelentes artilheiros. O time foi campeão em 1957.

Já agora, eu era um fã incondicional de futebol, assistindo todos os jogos passados na televisão ou indo aos estádios de Caio Martins, Maracanã, São Januário, Álvaro Chaves e até mesmo Bariri, Teixeira de Castro, Figueira de Melo.

Era sócio do Canto do Rio F.C., clube de Niterói, que disputava o campeonato carioca. Passei a torcer por ele e a acompanhar seus jogos pelos estádios onde jogava. Em 1955, o clube contratou alguns jogadores já em final de carreira e conseguiu formar um time razoável: Garcia (Veludo), Ary Marron, Vítor, Lafayette, Eli do Amparo, Caboclo, Mituca, Zequinha, Osmar, Jairo...

Como o meu amigo Carrano já explicou em seu “post”, as tardes de domingos começavam às 13 horas com os times de aspirantes. Às quinze horas tinha início o jogo de profissionais. E, nas manhãs ensolaradas havia a partida entre os juvenis. Não vi ninguém morrendo de insolação, nem havia parada técnica para reidratação...

Eu mesmo costumava “rachar” na areia da praia de 9 da manhã ao meio-dia...

Já disse isso em outras matérias do meu blog: defini qual seria o clube pelo qual torceria depois da final do campeonato carioca de 1957, quando o time da estrela solitária goleou o Fluminense por 6 X 2, com exibições primorosas de Nílton Santos,  Garrincha, Didi, Paulinho Valentim, Quarentinha...

Devo ter dado sorte nessa escolha, pois no ano seguinte, 1958, o Brasil, finalmente, foi campeão do mundo, tendo em sua equipe justamente Nílton Santos, Garrincha e Didi. E repetiu a dose em 1962, com mais Zagallo e Amarildo no time principal, além dos três outros já citados...

 


segunda-feira, março 30, 2020

A QUARENTENA...




A QUARENTENA...

Calfilho



             Obrigado a ficar em casa, respeitando uma quarentena determinada pelas autoridades sérias deste país, pela medicina e pelo bom senso, tendo em vista a gravidade da pandemia que assola o mundo, uma de minhas atividades diárias, além da leitura e de assistir um bom filme, é a de ficar vendo os noticiários da televisão sobre a “gripezinha”.

             Já vi e ouvi de quase tudo, nesses já onze dias de reclusão domiciliar.

             Vi novas profissões surgirem. Daqui a pouco vão incluir no currículo de nossas faculdades a cadeira de professor de “lavagem das mãos”. Já repararam como apareceram em nossas telinhas pessoas (de ambos os sexos) ensinando-nos como lavar corretamente nossas mãos? “Lavem os dedos, lavem entre eles, lavem as unhas, o dorso das mãos, os punhos, etc...”, um pretendendo saber mais que o outro, virando as ditas cujas mãos de uma maneira diferente, apenas para dizer que o seu método é o que está certo, os outros estão errados... Como se nunca antes tivéssemos lavado nossas mãos... Já disse, daqui a pouco vamos ter alguns brasileiros formados em “lavagem de mãos” e, se fizerem doutorado, vão exigir serem chamados de doutores, como acontece com outras profissões ultimamente...

             Os médicos infectologistas, também, passaram a lotar os estúdios das emissoras de televisão, respondendo perguntas dos telespectadores, com informações nem sempre coincidentes sobre o problema da epidemia, ou seja,  como se pega a gripe, sua transmissão, as medidas preventivas, o que é certo e o que é errado fazer... E, com o grave risco de informar mal a população, já que a televisão entra em qualquer casa, a dos que estudaram e a daqueles com menor grau de instrução...

             Vem o Ministro da Saúde, que deveria ser a autoridade máxima na matéria, e diz, inicialmente, que devemos manter isolamento, evitar aglomerações, não ir a restaurantes (pedir entrega em casa), manter uma distância mínima de dois metros de outra pessoa, que os ônibus só devem transportar passageiros sentados, etc... etc...

            Depois, em cadeia nacional de rádio e televisão, o Presidente da República, que deveria ser o guia maior do povo nesse momento gravíssimo de crise mundial, afirma que o isolamento deve ser apenas para os idosos, pois são eles que estão morrendo em outros países. E, que as crianças (para ele, imunes ao vírus) devem voltar para a escola, que o comércio, a indústria e as demais atividades econômicas devem funcionar normalmente, dando como exemplo ele próprio (que diz ter sido “atleta”- aliás não explicou o esporte que teria praticado) e, se escapou de uma facada, não seria uma “gripezinha” que iria derrubá-lo... Talvez tenha esquecido que a grande maioria do povo brasileiro não é composta de “atletas” e, que mesmo eles, os verdadeiros atletas, também são atingidos pelo vírus e também morrem, como aconteceu com alguns deles mundo afora...

             Depois, em entrevista coletiva, transmitida ao vivo pelas televisões, o Presidente, o Ministro da Saúde e outros ministros, espalhados por uma grande mesa, portando máscaras, fizeram-me relembrar a pintura famosa de Da Vinci, a “Última Ceia”, que se encontra numa igreja de Milão... As máscaras atrapalhavam, eram retiradas do rosto quando alguém falava, depois recolocadas desajeitadamente no palestrante...

             Daí em diante, o “samba do crioulo doido”, imortalizado pelo saudoso Sérgio Porto...        Entrevistas diárias, ora pregando o isolamento vertical, ora o horizontal (aliás, quem vai acabar na “horizontal” somos nós... definitivamente), medidas provisórias assinadas e revogadas logo em seguida, Presidente convocando o povo para manifestações em seu favor, desmentindo logo em seguida essa convocação, para, no dia seguinte, misturar-se a alguns fanáticos que se dizem seus apoiadores (até quando?), novos espetáculos de bota e tira máscaras em entrevistas televisadas, e...

             Desorientação total...

             O pobre do Ministro da Saúde, que até parecia competente e bem intencionado, vê-se desmentido em suas orientações de isolamento das pessoas pelo seu chefe. Não é somente médico, também é político... Tenta contemporizar, achar um meio termo, mas, até quando?

            Só espero que a razão e o bom senso prevaleçam e não cheguemos ao número de mortos da Espanha, da Itália, da China, do Iran ou dos Estados Unidos... Que consigamos seguir o exemplo da Coreia do Sul, do Japão, de Cingapura que, tomando medidas muito duras e severas no início da pandemia em seus países, conseguiram manter um controle razoável sobre ela e choraram menos mortes...




domingo, março 29, 2020



AS TRANSFORMAÇÕES DAS CIDADES...

Calfilho



             Impressionante como as cidades do mundo sofreram grandes transformações em apenas pouco mais de um século. Refiro-me, apenas, às mudanças paisagísticas, sem me deter em outras de natureza étnica, cultural, costumes ou humanas.

                Vou-me ater, somente, àquelas que conheço pessoalmente por nelas ter vivido, algumas que visitei e outras sobre as quais li ou vi filmes que contam suas histórias.

              Nova York, por exemplo. Nunca a visitei. Mas, os filmes e fotos que vejo do início do século XX e o que vejo hoje, na televisão, mostram duas cidades completamente diferentes. Antes, as casas luxuosas dos bairros ricos, hoje os arranha-céus da trepidante Manhatan.

            Paris, Roma e Londres já as visitei. Também por fotos do início dos anos 1900 vemos que a arquitetura modificou-se bastante.  Londres ainda mantém o prédio do Parlamento, o Big Ben, a Torre. Mas, já apresenta várias construções modernas. Na parte central de Roma ainda vemos o Coliseu, as Termas de Trajano, o Fórum Romano e alguns prédios menos importantes, bem antigos. Em Paris, temos as Termas de Cluny, as Arenas de Lutéce, fora inúmeros igrejas que remontam à Idade Média, entre elas, principalmente, a Notre Dame. Alguns prédios que datam do século XIX, com quatro ou cinco andares, são restaurados apenas internamente, mantendo-se a arquitetura original  na parte exterior. Isso, praticamente, em todos os bairros do centro da cidade, em ambos os lados do Sena.

           O Rio de Janeiro é a cidade onde nasci e vivi até quase meus sete anos de vida. Moramos na Zona Norte e em Copacabana, no Lido. Conheci aquela pracinha ainda sem grades, com pequenas charretes puxadas por cabras que a contornavam e que era um dos meus passeios prediletos de criança. Via as enormes pipas, representando águias, serem empinadas na Avenida Atlântica, que, àquela época, não havia sido duplicada. Os bondes ainda trafegavam pela Avenida Nossa Senhora, as “vacas leiteiras” entregavam o leite diariamente aos moradores... Vi, na internet, fotos da Copacabana do início do século XX, com apenas algumas casas na praia e, em fotografia de 1929, o prédio do hotel Copacabana Palace, isolado, com a água do mar da Princesinha quase o tocando.  Em outra imagem, a pedra do Inhangá, que ia até o mar. Hoje, Copacabana, apesar de manter aquela imagem inconfundível do colar de pérolas que a notabilizou mundialmente, está bem diferente do que era.

          O centro da cidade, então, foi completamente desfigurado. Vi imagens da igreja de Santa Luzia e o mar chegando a seus pés. A Praça XV, as ruas transversais e paralelas, tiveram seus prédios baixos e sobrados demolidos para a construção de horrorosos espigões. Galeria Cruzeiro, Café Nice, Cineac Trianon, tudo desapareceu em nome do progresso...

         Deixo, por último, nessas divagações de quarentena (forçada por uma “gripezinha” ou “resfriadinho”), minha Niterói, que acolheu minha família no final de 1949. Voltávamos de Fortaleza, onde meu pai fora trabalhar por seis meses e encontrou dificuldades para arranjar rapidamente um local para morarmos. Aceitamos o convite de meu avô materno, que morava num apartamento no centro de Niterói, cidade onde trabalhava na construção de um prédio em Icaraí. O imóvel ficava na principal avenida da cidade, cujo nome anterior fora Duque de Caxias e mudara para Amaral Peixoto, que era genro do ex-Presidente Getúlio Vargas e interventor do antigo Estado do Rio de Janeiro. Essa avenida, que ligava a estação da Cantareira a outros bairros, fora construída há pouco tempo e havia modificado bastante a arquitetura do centro da cidade. Meu pai acabou comprando um outro apartamento no mesmo prédio e ali passei vários anos de minha infância e adolescência.

         Niterói, apesar de capital do Estado do Rio, era ainda, no início da década de 50, uma cidade provinciana, servindo de dormitório para a maioria de sua população, que atravessava diariamente a baía para trabalhar no Rio de Janeiro. Tinha um comércio razoável na rua da Conceição, e pouco mais. Os bondes que uniam os diversos bairros faziam a volta na Praça Martim Afonso, hoje Arariboia. Mudamos em 1953 para o bairro do Ingá, para um apartamento de outro prédio que meu avô ali construiu. Icaraí, o bairro chique da cidade, tinha apenas uns dois ou três edifícios na praia. Lá, no Ingá, presenciei a chegada dos “trolley bus, ou ônibus elétricos, uma das marcas características da cidade durante alguns anos. Tudo calmo, tudo tranquilo, verdadeiro paraíso para viver e criar os filhos.

           Veio a ponte Rio/Niterói, milagre da engenharia moderna que, realmente veio facilitar a vida de muitos que moram ou trabalham nas duas cidades. Mas, também veio a especulação imobiliária, acabaram-se as casas baixas e os sobrados de Icaraí... São Francisco deixou de ser o bairro tranquilo que era para virar apenas passagem para aqueles que moram nas praias oceânicas...

            Ganhamos ou perdemos?

quarta-feira, novembro 20, 2019

A EXCLUDENTE...

A EXCLUDENTE... 

 

Calfilho 




                 Como já afirmei aqui em publicações anteriores, não acredito mais em política ou em políticos... Os nossos e os estrangeiros...         Custei, mas acabei constatando que eles se aproveitam da política (que é algo imprescindível numa democracia) quase sempre para satisfação de seus interesses pessoais, de suas famílias e grupos de amigos... Infelizmente...                      Quando alcançam o poder, mesmo que inspirados  em ideais e pretensões legítimas, acabam dele gostando e não querem mais dele se afastar... Temos vários exemplos, aqui e no exterior...               Aproveitam-se de uma fase de crise de um povo para espalharem ideias radicais, salvadoras, fingindo serem aqueles escolhidos por um ser superior para levar os habitantes de um país a dias melhores, prósperos, felizes...     
           Num passado relativamente recente, podemos citar Napoleão (na França), Hitler (na Alemanha), Mussolini (na Itália), Fidel Castro (em Cuba), Getúlio, Jânio, Collor, Lula e esse que atualmente nos preside (no Brasil)... Assumiram o poder em suas épocas e países, aproveitando-se de um estado de quase desespero da população que ou passava fome, ou não tinha liberdade para expressar suas opiniões, ou era subjugada por um regime de força... ou ainda que escolheu mal seus governantes... Releiam os livros e revejam os filmes da época desses personagens citados e vejam como eram aplaudidos por multidões de fanáticos que só enxergavam e queriam ver o que  o falso líder lhes dizia, ouvidos e olhos fechados para qualquer opinião em contrário...  Os desfiles militares na Alemanha, Rússia, Itália, Coreia do Norte, China, Cuba, Brasil (principalmente na época de Getúlio) deixam claro como o povo seguia cegamente o ditador ou o "presidente" da ocasião... 
       Sinceramente, não consigo entender como o povo ainda acredita nesses candidatos ou nesses líderes...  
         Mas, o motivo maior desta matéria é comentar a tendência atual de algumas de nossas autoridades em querer voltar a implantar um estado policialesco em nosso país.       
         Durante a minha relativamente longa trajetória no Direito, quer como advogado, Promotor de Justiça ou magistrado, minha atuação maior foi na área do Direito Penal.  Apesar da opinião de um atual "eminente" ministro do Supremo Tribunal  de que "a Justiça Criminal para ser ruim precisa melhorar muito", acredito que com todas as dificuldades que enfrenta e deficiências dos órgãos que a auxiliam, ainda assim procura ela dar à sociedade a resposta devida para os criminosos que infringem as leis e alguma satisfação (se não plena), àqueles que são vítimas desses crimes.          Infelizmente, os juízes criminais julgam processos que já lhes chegam às mãos mal instruídos por inquéritos policiais mal feitos, com graves falhas de órgãos técnicos, com laudos periciais mal elaborados por institutos de criminalística mal aparelhados (cheguei a julgar processos em que os laudos periciais diziam que não tiraram fotos do local porque não tinham filme para as máquinas ou que o "filme velou"). Por isso, infelizmente, é quase sempre apenas com a prova testemunhal que conta o juiz para proferir sua decisão. E, testemunha, como todos sabem, às vezes se confunde, nem sempre viu toda a cena, em muitas oportunidades cai em contradição... Quando não são ameaçadas ou têm medo de dizer a verdade...   
         Imagino o dilema em que se sentem os jurados no Tribunal do Júri, que não são técnicos em Direito, quando vão proferir sua decisão. Mas, acredito: o júri é o melhor juiz justamente por isso: suas decisões representam o que acha o cidadão comum, aquele que vive e coabita no mesmo domicílio em que o crime foi cometido, a opinião média da sociedade sobre o fato colocado em julgamento ... Sem as tecnicidades do juiz togado, até sem uma certa deformação profissional do magistrado...   
        Essa, a triste realidade que pude constatar em cinco anos como advogado, quase quatro como Promotor de Justiça e mais outros quase dezoito como juiz, atuando na maioria desse tempo na área criminal... 
      Frequentei delegacias de Polícia como advogado e Promotor, conheço relativamente bem a qualidade da seleção da maioria de nossos policiais. Mal remunerados, com nível relativamente baixo de instrução (refiro-me aqui aos investigadores. Não, é claro, aos Delegados), têm à sua disposição uma carteira funcional e uma arma de fogo que a sociedade lhes entrega. Para defender essa mesma sociedade... Muitos ingressam na carreira como soldados da Polícia Militar ou investigadores apenas pela sensação de poder que a farda ou a carteira e, principalmente, a arma de fogo lhes dão...               E, quando são incentivados por governantes que defendem que o uso de armas de fogo e tiros na "cabecinha" são os melhores meios para enfrentar a criminalidade, aí então é que se sentem à vontade para disparar seus potentes fuzis ou pistolas que levam quando saem para uma "diligência" numa comunidade...    
         E aí, quando morre alguém, criminoso ou inocente, é lavrado o triste "auto resistência", que, em quase sua totalidade, acaba em arquivamento. Ultimamente, quando a política de combate ao crime tem sido o confronto, assistimos policiais saírem para incursões em favelas e, ao menor movimento em uma viela escura ou quando suspeitam de alguém (geralmente preto ou pardo), começam a atirar descontroladamente, acabando alguma "bala perdida" indo atingir uma criança ou uma vítima inocente. Até dentro de uma escola uma menina foi atingida meses atrás. Ou, quando são comunicados pelo rádio da viatura que determinado carro pode estar transportando criminosos, acabam atirando em qualquer veículo parecido com a descrição fornecida e só depois verificam que ele transportava uma família com crianças que apenas voltava para casa... "Atirar primeiro para perguntar depois"... 
         Isso tudo devido ao mau preparo desses policiais para a difícil missão que enfrentam diariamente. Vão trabalhar com os nervos à flor da pele, temerosos do que lhes pode acontecer em mais uma jornada de trabalho. Afinal, também têm família, mulher, filhos, pais...  
       Também porque a má remuneração oferecida não atrai gente mais qualificada para o exercício da profissão.     Por isso tudo, grande parte dos policiais acaba se embrutecendo no dia-a-dia de suas atividades, tornam-se insensíveis, a morte de um semelhante não mais os comove. Alguns deles, infelizmente, acabam se associando aos bandidos que devem combater. Daí se explicar o grande número deles que acaba expulso da Polícia civil ou militar.       Antigamente, eram os famosos "Esquadrões da Morte”, “Scuderie Le Coq”, ou similares, que hoje se transformaram nas vergonhosas milícias que dominam as comunidades carentes das grandes e pequenas cidades. E, que hoje, segundo notícias mais recentes, estão se associando aos traficantes de entorpecentes...              Com todo esse quadro caótico em que vivemos atualmente, o ministro da Justiça, que se arvorou em paladino da luta contra a corrupção, pretende incluir em nossa legislação penal, como excludente  de ilicitude, em favor dos policiais, o fato deles matarem alguém por... medo... Acredito que nosso ministro, por ter sido magistrado por vários anos, saiba bem qual a diferença entre excludente de ilicitude e causa de diminuição de pena (como a violenta emoção, logo após injusta provocação da vítima) consagrada esta última no parágrafo único, do artigo 121, do nosso Código Penal.   E, ainda, querer consagrar o medo ao lado daquelas já previstas como homicídio privilegiado, transformando-as em causas de ilicitude, positivamente, é realmente de espantar...                    Além disso, o Código Penal, depois de definir o estado de necessidade, que, como a legítima defesa, é uma das outras excludentes de ilicitude, esclarece, no parágrafo primeiro, do artigo 24, que "não pode alegar estado de necessidade quem tinha o dever legal de enfrentar o perigo"...    Ora, se o policial, que sabe quando ingressa na carreira, que vai ter que enfrentar bandidos armados, que vai se deparar com situações de perigo iminente, vai alegar que teve medo ao se defrontar com algum desses elementos ou situações, então ganharam eles uma verdadeira licença para matar... Quer assim ache ou não o ministro da Justiça... 
       O policial, como qualquer cidadão, tem que responder pelos atos praticados. Se matou alguém em legítima defesa ("não há crime"), deve ser absolvido. Mas, a excludente deve ser provada e não apenas alegada. Se cometeu excesso, deve ser julgado esse excesso. Como, aliás, a lei já prevê.       Absurdo será incluir para a categoria uma excludente de injuridicidade apenas porque o policial teve... medo...       
        Se os policiais têm medo dos bandidos, os bombeiros também têm medo do fogo. O cidadão comum também sente medo ao andar nas ruas das cidades, medo de ser atropelado, de ser atingido por uma bala perdida... Segundo esse raciocínio, todos deveriam andar armados, para que se possam defender de uma agressão real ou imaginária... Aliás, parece que nossos governantes pretendem isso mesmo... Liberação total da posse e porte de armas...      Nossos "bravos" policiais deveriam  então escolher outra profissão... Não procurar na lei uma excludente para seu ato homicida, sem se indagar se ele foi legítimo ou fruto de arbitrariedade... Se o policial é uma pessoa de bem ou alguém com uma farda ou carteira que quis se vingar de um inimigo...Ou, pior, sendo policial, se estava associado a traficantes ou marginais...
      Lamentável, em nosso modesto entendimento, a atitude do nosso ministro da Justiça...   Nisso é que dá simples seres humanos serem transformados em super-heróis... Como se somente ele tivesse sido o juiz a combater a corrupção e os outros tantos magistrados criminais do Brasil não existissem ou não fizessem nada...          
          Enfim, esse é o nosso Brasil...      
        "As redes sociais" é que o governam...   

domingo, setembro 22, 2019

O SÉCULO XXI...

O SÉCULO XXI...


Calfilho


        Não sei como acordam aqueles que, como eu, nasceram no Brasil na metade do século anterior. Quando abro os olhos todas as manhãs, nos dias atuais, parece que a realidade que encontro é algo totalmente diferente daquilo a que estava acostumado a vivenciar desde a minha infância, adolescência e fase adulta de vida. Pode ser apenas impressão minha, mas acho que o século XXI é um marco divisório entre dois modos de vida completamente diferentes.
       Tudo bem, a informática chegou de forma avassaladora e, praticamente, domina hoje todo o nosso dia-a-dia: computadores modernos, "smartphones", redes sociais, drones, satélites, robôs, são coisas que eram inimagináveis na metade do século passado, quando ainda a televisão era a grande novidade da década de 50. Como haviam chegado o automóvel, a eletricidade, o avião, no fim do século XIX, início do XX...
    Ainda ouvíamos futebol pelo rádio (Oduvaldo Cozzi, Waldir Amaral, Jorge Cury, Doalcey Camargo, João Saldanha, José Maria Scassa, Luiz Mendes), as mulheres acompanhavam as novelas (“O Direito de Nascer”), os programas de auditório eram a coqueluche dos domingos (Paulo Gracindo, César de Alencar, “Balança mas não cai”)... O rádio reinava soberano como a maior fonte de lazer da população brasileiro, os aparelhos de televisão só existiam em alguns lares privilegiados, a maioria importados... As emissoras engatinhavam... No Rio, primeiro a TV-Tupi, a pioneira; depois vieram a TV-Rio, a Continental, a Excelsior... Por último a Globo, a única daquelas que permanece viva... Em São Paulo, a Bandeirantes, a Record, a Cultura, a SBT do Sílvio Santos...
     Os jornais impressos ainda eram os principais veículos através dos quais ficávamos a par das notícias diárias e líamos as colunas interessantes dos suplementos. Lembro-me bem que ficava esperando com ansiedade meu pai chegar do trabalho para pegar o jornal de suas mãos e ler a seção de esportes ou as duas páginas de quadrinhos...
         Rapidamente, os anos passaram, chegamos ao ano 2000, início de um novo século...
            Nos dias atuais, parece que as pessoas não se entendem mais, não mais conversam entre si (pelo menos a conversa “olho no olho”), vivem com as cabeças enterradas em seus celulares onde quer que estejam: na rua, num transporte coletivo, num bar, numa reunião familiar... Outro dia, almoçando com alguns membros da família num restaurante de Niterói, reparei que, nas outras mesas, a maioria das pessoas conferia as mensagens dos celulares... e, mesmo na minha mesa, alguns filhos e noras também pareciam mais interessados na telinha do pequeno aparelho à sua frente do que conversar sobre algum assunto interessante... e aquela era uma reunião para comemorarmos o aniversário de um dos membros da família... Enfim...
         Não tenham dúvidas: a informática mudou completamente nossos estilos de vida.
      Até na política, os antigos e tradicionais comícios populares, que, em outras épocas atraíam multidões, hoje perderam lugar para as “redes sociais”. Estas conseguiram eleger o presidente dos Estados Unidos e o do Brasil. Nelas se fala de tudo, até mesmo da vida dos outros. Tem notícias verdadeiras e muitas falsas (as famosas “fake News”), onde as agressões verbais e até através de fotos e vídeos parecem dominar. Ali, quem agride, quem ataca, quem não tem educação, se acha no direito de falar o que quiser e ofender a quem bem entender, acreditando estar protegido por um aparente anonimato (hoje, nem tanto...). E, também se acham valentes bastantes para atacar a honra de outras pessoas porque não estão frente a frente com os agredidos... Talvez se estivessem nessa situação, a agressão não ocorreria...
        Sei lá, a impressão que tenho é que estou vivendo num mundo diferente, estranho, as coisas cotidianas se desenvolvem de uma maneira totalmente diversa daquela à que fui acostumado a viver durante vários anos...
        Sempre afirmei aqui e em outros espaços que a educação (ou a falta dela) é um dos maiores problemas do nosso país. Enquanto em outros países ela é realmente levada a sério, onde vemos crianças com 5, 6 anos de idade sentadas em frente a um quadro de um museu, a professora explicando-lhes o que significa a pintura, quem foi o autor do quadro, aqui poucos conseguem completar o ensino médio, a maioria nem mesmo o antigo primário. Por isso, vemos essa multidão de mão de obra mal preparada, que não conseguiu ou até mesmo não quis estudar, trabalhando como biscateiros, bombeiros, eletricistas, balconistas, porque não encontraram emprego melhor e porque não conseguiram chegar a uma universidade ou a um ensino técnico de qualidade. Mas (pelo menos no Brasil de hoje), até mesmo o diploma não significa garantia de um bom emprego: já viajei com alguns motoristas da UBER que são,  alguns, engenheiros formados, outros arquitetos, ou outros mais que concluíram algum curso superior e que foram ganhar o sustento dirigindo um carro de aluguel, por não encontrarem emprego nas profissões em que se formaram. Lamentável tudo isso...
       Também não significa dizer que o grau de instrução tornaria melhor a escolha dos nossos presidentes, governadores, prefeitos, deputados, senadores e vereadores... Sempre defendi o voto do analfabeto, porque eles também fazem parte de nossa população e devem ter o direito de escolher aqueles que irão representá-los nos postos de comando do país, de seus Estados e municípios... Mas, não resta dúvida de que se mais e mais brasileiros conseguissem alcançar um grau cultural melhor, mais seriam aqueles que analisariam o currículo dos candidatos, que teriam um conhecimento mais aprofundado sobre aqueles em que votariam e não seriam apenas influenciados por um churrasco na comunidade ou a distribuição eventual de presentes para a criançada por um Papai Noel qualquer de araque... Ou, como, para meu espanto, vi alguns "instruídos" escolherem um candidato apenas porque ele ou ela são “bonitinhos”...
       Bem, divagações à parte, o que eu queria dizer é que com todas as invenções do mundo moderno, parece que voltamos à era do rádio: as poderosas Organizações Globo lançaram, recentemente, a última novidade: os “podcasts”.
       Pode ser que eu esteja enganado (corrijam-me, em caso afirmativo, por favor), mas são eles noticiários reproduzidos por aqueles aparelhinhos que já vi pessoas usando nas orelhas para somente elas ouvirem o que está sendo transmitindo e não atrapalhar os outros na rua, numa condução, num restaurante...
       Nada mais são que os antigos "radinhos" de pilha que alguns levavam para os estádios de futebol para acompanhar os jogos pelo rádio enquanto assistiam às partidas ao vivo. Os rádios “Spica”, lembram deles?
     Daqui a pouco veremos transitando por nossas ruas uns seres estranhos com um aparelho cobrindo-lhes os ouvidos sendo atualizados com as últimas notícias... Como se já não bastasse a multidão que desfila com os olhos grudados no celular...
          Bem, mas como tudo é novidade... Tem também o patinete, brinquedo da minha infância, que ressurgiu agora com toda a força...
       Ou, como já dizia um filósofo: “Nada se cria, tudo se copia”...
          Bem vindos “podcasts”...




domingo, maio 26, 2019

NOSSOS AMIGOS, OS GARÇONS...




NOSSOS AMIGOS, OS GARÇONS...

Calfilho



            Queria prestar hoje, aqui, uma merecida homenagem a uma categoria profissional com a qual mantenho contato desde minha adolescência e que se prolongou até os dias de hoje: os garçons.
             No Rio de Janeiro, onde nasci e morei por vários anos, e em Niterói, onde passei parte da minha infância, juventude e alguns anos da fase adulta de vida, conheci vários deles nos diversos restaurantes e bares que frequentei. Com alguns deles fiz uma agradável e sólida amizade, sendo sempre recebido com um sorriso nos lábios e um atendimento impecável nas mesas onde almocei ou jantei, ou às vezes parava para bebericar alguma coisa após o dia de trabalho.
             Esse relacionamento estendeu-se a alguns restaurantes, brasseries ou bistrôs de Paris, cidade que passei a visitar com certa frequência depois de minha aposentadoria.
             É uma classe sofrida, que trabalha normalmente de dez a doze horas por dia, recebendo uma remuneração baixa e que deve manter sempre um sorriso no canto da boca para agradar os clientes. Hoje, no Rio e em Niterói, grande parte deles vem da região nordeste do Brasil, tendo muitos deixado a família nas cidades de origem e vindo para os centros maiores na tentativa de um ganho melhor.
             Muitos deles me marcaram muito e vou tentar relembrar alguns com quem troquei muitas ideias depois de um delicioso chope “bem tirado” e “sem colarinho”, uma garrafa de vinho que acompanhava uma refeição ou uma dose de whisky após um cansativo dia de trabalho.

             O “RIVIERA...”
             Talvez tenha sido a grande novidade de Niterói, inaugurado no final dos anos 50 do século passado. Novidade porque tinha vários banquinhos redondos enfileirados num comprido balcão que ia até o fundo do estabelecimento, tentando imitar, talvez, os bares norte-americanos. Niterói não tinha visto decoração idêntica anteriormente, acredito. Ficava no início da rua da Conceição, do lado direito de quem sobe a rua, vindo da estação das Barcas. Logo após ele, ficava a famosa Drogaria Barcellos, seguido da Confeitaria Sportiva e, em seguida, a antiga Farmácia Ponciano. O “Riviera” tinha como característica marcante, além dos já citados tamboretes redondos, a presença de um grande aquário do lado esquerdo de sua entrada. Era um misto de restaurante e botequim. Na parte dos fundos do estabelecimento havia um jirau de madeira e, no andar superior, eram servidas refeições. No térreo, logo após o aquário, havia um mostruário de vidro, onde eram exibidos doces, tortas e salgadinhos diversos. Depois, vinham o balcão e os tamboretes, onde os fregueses comiam um pedaço de pizza ou um prato de linguiça acebolada e bebiam um gostoso chope, tirado do barril mais ao fundo.
             O “Riviera” foi inaugurado por um português da ilha da Madeira, o Mário, que, nos primeiros meses, era também o garçom que servia atrás do balcão. Depois que o bar caiu no gosto da população niteroiense, que ali ia tomar m chopinho e bater papo após um dia de trabalho, Mário mandou vir um irmão de Portugal, o José. Rapaz novo, deveria ter pouco mais de 20 anos quando chegou ao Brasil. Cabelo caído na testa, tipo franja penteada para o lado, logo recebeu de nós, que já éramos frequentadores do bar, o apelido de “Francês”. Mas, ainda falava um português bem carregado. Ficamos logo amigos, apesar dele ser mais velho que eu, talvez uns cinco ou seis anos. Eu e alguns amigos liceístas, como Irapuam e Toninho, passamos a ser fregueses assíduos do bar. Vários fins de noite eu e Zezinho ficávamos batendo longos papos, contando-me ele a saudade que tinha da terra natal e discutindo nossos planos para o futuro. Eu já havia terminado o científico no Liceu e cursava a faculdade de Direito. Quando a grana era curta, Zezinho “pendurava” minha conta, que eu só iria pagar quando recebesse a mesada do meu pai. Depois, Mário ainda mandou vir outro irmão da “terrinha”, o João, este, um poço de antipatia. Criava caso com todo mundo, ninguém gostava dele. Sei que acabou sendo assassinado anos mais tarde por ter tido um envolvimento com uma mulher casada.
           Já no final da década de 60, Mário deixou o “Riviera” a cargo dos irmãos e inaugurou uma confeitaria na rua Visconde do Uruguai, depois do Jardim São João. Com Zezinho (era como eu o chamava) ainda mantive contato por algum tempo mais até ter ido trabalhar no interior do Estado. Quando o “Riviera” fechou, ainda encontrei Zezinho num pequeno bar que ele montara na região do Vital Brazil. Depois, nunca mais o vi. Soube pelo Mário que, talvez, ele tenha mudado para Santa Catarina.
       Do “Riviera” e do Zezinho Português guardo muitas e agradáveis lembranças...

A “GRUTA DE CAPRI...”
      Outro local de Niterói que muito frequentei, ainda na adolescência e quando estava no Liceu, foi a Gruta de Capri, restaurante italiano localizado no início da rua Miguel de Frias, em Icaraí.
           Depois de darmos o “expediente” vespertino no Grêmio do Liceu, onde apresentávamos a “Hora do Grêmio” e atendíamos os alunos do turno da tarde, eu e Irapuam costumávamos dar uma passada na “Gruta”, como a chamávamos na intimidade. O estabelecimento existe até hoje, apesar de bastante modificado em relação ao que era no final dos anos 50 do século passado.
        Sentávamos em cadeiras espalhadas pela calçada, aquelas antigas, dobráveis, de metal. As mesas também eram do mesmo material. Ali nos atendia um italiano bonachão, aparentando ter uns cinquenta anos de idade, corpulento, cabelos começando a ficar grisalhos. Quase nunca sorria, mas sempre nos atendia com muita cordialidade e presteza. Dele logo ficamos conhecidos. Chamava-se Braz.
           Com ele convivemos por dois ou três anos, sempre em finais de tarde.
     O tempo passou rapidamente, a “Gruta” modificou-se, ganhando, talvez, uma aparência de restaurante mais fino. Nem sei se as mesas e cadeiras ainda continuam na calçada da Miguel de Frias.
            Nunca mais tive notícias do Braz...

O “MANEL’S...”
       Escrevi “Manel’s”, mas a grafia correta seria “Manuel’s”.              Quando nos referíamos ao misto de mercearia e botequim situado na esquina das ruas Mariz e Barros e Lemos Cunha, também em Icaraí, eu e alguns liceístas, principalmente Irapuam, Josa, Toninho Matheus (como sempre) e outros, dizíamos apenas:
         -- Vamos tomar uma cerveja lá no “Manel’s’?
    Seu nome era Mercearia Palmira. Os donos eram dois portugueses (Manuel e Frederico, o Fred). O estabelecimento funcionava como mercearia, com duas entradas, uma pela Lemos Cunha e outra pela Mariz e Barros. Um biombo de madeira a separava do bar, que tinha outra entrada pela Lemos Cunha. Ali haviam quatro ou cinco mesas de tampo de mármore e cadeiras envernizadas de preto. Típico botequim português.
     Manuel era mais simpático que Fred. Português de fala carregada, ostentava um vasto bigode preto sobre a boca. Fred era mais novo, cabelos aloirados, irritadiço, sempre nervoso e apressado.
          Irapuam já conhecia o estabelecimento há algum tempo, pois morava em Icaraí (eu morava no centro, Josa no Barreto, Toninho no Fonseca). Apresentou-nos aos dois sócios e aos demais frequentadores habituais do estabelecimento: Coelho e Teófilo, dois senhores de meia idade, que sempre estavam em suas mesas nos finais de tarde, bebendo uma “Portuguesa”. Havia também o Beto, rapaz da nossa idade, amigo de Irapuam, que às vezes aparecia no local.
       Em pouco tempo abrimos uma conta com Manuel e só a resgatávamos nos finais de mês. Era bom, porque nenhum de nós ainda trabalhava e só recebíamos nossas mesadas nos dias 30, 31 de cada mês.
           Manuel logo se identificou com a gente, sempre nos tratando muito bem. Fred, apesar de seu constante mau humor, também sempre nos tratou bem.
       O tempo passou rapidamente, hoje, no lugar do “Manel’s” existe uma oficina mecânica. Aliás, depois da ponte Rio-Niterói, a cidade não é mais a mesma...
           Do Manuel e do Fred nunca mais ouvi falar...

O “ULRICH...”
         No início da década de 70 eu já era Promotor de Justiça em Niterói e havia me mudado para o Rio. Por isso, após o expediente de trabalho no fórum da antiga capital fluminense, atravessava a baÍa de Guanabara para chegar em casa, um apartamento que aluguei em Botafogo. Nessas travessias diárias conheci um outro Promotor de Justiça, Mário, que também morava no Rio e trabalhava numa vara cível em Niterói. Alguns anos mais velho que eu e aprovado num concurso anterior ao meu, morava no Rio Comprido. Depois de algumas travessias convidou-me timidamente para tomarmos um chope num local que conhecia da rua São José, no centro da capital carioca. Aceitei prazerosamente o convite e aí conheci o “Ulrich”, um tradicional restaurante perto da saída das Barcas. A entrada era uma daquelas portas de vai-e-vem, típicas de bar de faroeste americano. À noite, por volta das 18 e trinta, 19 horas, funcionava mais como bar do que restaurante. Mário já conhecia um dos garçons, o Manuel, que tratava com intimidade por Manolo. Senhor alto, corpulento, calvície bem acentuada, cabelos brancos nas têmporas, não era de muito rir, mas nos dispensava um atendimento especial, sempre atento aos nossos pedidos e muito gentil no tratamento. Com a continuidade da frequência ao estabelecimento, Manolo foi-se abrindo um pouco mais. Tinha 72 anos, já se aposentara, mas teve que continuar trabalhando, pois o que recebia da aposentadoria não dava para sustentar a família. Morava numa casinha modesta no Rocha, subúrbio do Rio. Dava pena vê-lo se locomovendo das mesas até o fundo do restaurante, onde havia um balcão onde eram tirados os chopes ou colocados os pratos de salgadinhos ou refeições encomendados pelos fregueses. Já andava com certa dificuldade, arrastando os pés pelo chão do estabelecimento. Nossa mesa ficava do lado direito da entrada, encostada na parede. Dali até o mencionado balcão deveriam ser aproximadamente uns trinta metros. E Manolo ia e voltava, ia e voltava, talvez umas quarenta ou cinquenta vezes numa noite em que nos atendia. Mas, nunca perdia o bom humor ou deixava de trocar um dedo de prosa com os dois jovens advogados (ele não sabia, no início, que éramos Promotores de Justiça). Aliás, aquela região do centro da cidade, nas proximidades do Palácio de Justiça, era muito frequentada por juízes, promotores, advogados, serventuários.
           Eu e Mário passamos a frequentar o “Ulrich” quase todas as noites, após atravessarmos a baía. Nossa amizade com Manolo se solidificou com o passar do tempo e, certa vez, ele nos convidou a visitá-lo em sua casa, no Rocha. Por falta de tempo e de oportunidade acabamos não indo, mas me arrependo de não ter feito essa visita.
   O tempo, como sempre implacável, também passou rapidamente...,
       O “Ulrich” continua no mesmo lugar, acho que mudou de dono. Foi totalmente remodelado, as mesas de tampo de mármore foram substituídas por outras de fórmica, as cadeiras não são mais aquelas antigas, tradicionais... Na hora do almoço está sempre cheio, pois ainda serve alguns pratos de comida caseira, e a preços razoáveis, o que atrai muita gente que trabalha nas imediações...              Mas, à noite, não apresenta mais aquele ambiente de botequim antigo, tão característico das décadas de 50, 60 e 70 do século passado...
     Manolo não trabalha mais lá... Pelo tempo e por sua idade naquela época, deve ter falecido...
        A porta de vai-e-vem foi substituída por outra mais moderna, acho que de vidro temperado ...

O “LA MAISON”...
     Quando morava em Copacabana, já neste século, passei a frequentar um restaurante muito bom, na Avenida Atlântica esquina com rua Santa Clara. Ia lá almoçar aos sábados ou domingos, pois achava a comida muito boa e variada.   Carnes, peixes e frutos do mar diversos, bons vinhos e cervejas. Além disso, nos fins de semana, podíamos desfrutar da delícia que é a orla de Copacabana em dias de verão. Movimento intenso, muitos turistas, muita gente bonita desfilando pelas calçadas da Princesinha do Mar.
         Depois de algum tempo de frequência conheci o Waldir, um dos garçons do estabelecimento. Magro, alto, devia ter uns quarenta e poucos anos quando veio nos servir pela primeira vez. Começamos a conversar amigavelmente, ele nos disse que era de Porto Seguro, na Bahia, e já estava há algum tempo no Rio. Falava sempre na vontade de voltar para a terra natal, onde sonhava abrir um pequeno negócio. Mas, acabava adiando o sonho e ali continuava trabalhando. Segundo ele, pegava no serviço às 11 da manhã e só ia embora quando o estabelecimento fechava, lá por uma ou duas da madrugada. Devia receber um pouco mais por tão extensa jornada de trabalho, mas, convenhamos, era muito tempo em pé, indo e vindo das mesas espalhadas na calçada da Atlântica até o interior do restaurante.
        Waldir, com o tempo, sempre escolhia para mim o melhor camarão, a melhor peça de carne, sugeria o melhor vinho ou me trazia um chope bem tirado. Eu, também, como sempre fiz com todos os garçons que me serviram na vida, dava-lhe uma gorjeta extra, além dos 10% que vinham incluídos na conta. Aliás, e abro aqui um parêntesis: a gorjeta, que deveria ser uma gratificação para quem te serviu bem, acaba se transformando num extra que é dividido por todo o pessoal do restaurante: gerente, cozinheiro, caixa, mesmo que estes não o tenham atendido corretamente. O pobre do garçom, que foi atencioso, solícito, acaba recebendo uma ínfima parte daqueles dez por cento que já vêm na conta a pagar.
        Por isso, sempre fiz questão de dar algo mais, diretamente, àquele que me atendeu. Waldir, sempre humilde, agradecia:
          -- Obrigado, doutor, o senhor é um dos poucos fregueses que faz isso...
      Frequentei por vários anos o “La Maison”, deixei de ir lá quando mudei para outro trecho de Copacabana. Não sei se o Waldir ainda lá está ou se voltou para Porto Seguro...

O “MAXIMS”...
       Esse restaurante fica na esquina da Av. Atlântica com Fernando Mendes, ao lado do badalado hotel Copacabana Palace.
    Passei a frequentá-lo quando mudei para um apartamento do outro lado do Palace, quase esquina com Rodolfo Dantas.
     Ali conheci dois garçons que passaram a me atender com mais frequência: o Mauro e o Sebastião.
     Mauro deve ter pouco mais de 50 anos. Tem um discreto sotaque nordestino, me disse que mora em Niterói, depois do Barreto. Já Sebastião, o “seu” Tião, aparenta ter mais de 60, cabelos brancos e a calvície já aparecendo no alto da cabeça. Também mora do outro lado baía, acho que em São Gonçalo.
     Os dois atendem as mesas que ficam na calçada em frente ao restaurante. Muito atenciosos, logo fiz amizade com os dois.                Apesar de ser um restaurante situado num ponto considerado como o mais nobre de Copacabana, nada tem de extraordinário. Serve os mesmos pratos que a maioria dos estabelecimentos da orla, os preços também são semelhantes. Mauro gosta mais de um papo do que Sebastião, apesar de ambos serem muito atenciosos e sempre procurando agradar o cliente. Também sempre os gratifiquei com algo mais do que os dez por cento convencionais.
    Ficava imaginando o sacrifício que dois homens, já na meia idade, faziam todos os dias: pegar uma condução de casa até as Barcas, em Niterói, atravessar a baía de Guanabara e ainda pegar outro ônibus para chegarem a Copacabana. E, depois, em pé, ficarem servindo mesas o dia inteiro...
     Vida muito sacrificada, o que bem demonstra como a crise do trabalho afeta o Brasil. As pessoas, mesmo depois dos 60 anos, quando já deveriam estar pensando em gozar uma merecida aposentadoria, ainda serem obrigadas a trabalhar para manter o sustento da família...
    Vejo isso acontecer com várias outras profissões, como vendedores em lojas, motoristas de táxi e de aplicativos, etc...                  Pessoas com mais de 50 anos (algumas mulheres, inclusive), mesmo aposentadas pelo INSS são obrigadas a continuar trabalhando para sustentar seus padrões de vida...

“RESTAURANT, BRASSERIE E BISTROT...”
Pelo que li e ouvi, na França, “restaurant” é o estabelecimento mais fino, onde são servidas apenas refeições, nada de apenas um drinque ou um tira-gosto. E, geralmente, nos restaurantes, os pratos são mais sofisticados, os vinhos são de melhor qualidade, o ambiente é mais requintado. Infelizmente, esse tipo de estabelecimento é mais raro na Paris de hoje, invadida por fast-foods tipo MacDonald’s ou King’s Burger, de origem norte-americana ou mesmo “pubs” irlandeses ou ingleses. As cenas que já vimos de um almoço de uma família ou amigos tipicamente franceses, que começavam ao meio-dia e terminavam quatro horas depois, acredito que, talvez, só no interior do país. Naqueles almoços eram servidos de cinco a seis pratos, com um vinho diferente acompanhando cada um deles e, no final, ainda havia um digestivo, que podia ser um conhaque ou um calvados. Nos “restaurants” as mesas são cobertas por toalhas de linho, os guardanapos também são de pano, os garçons e maîtres estão impecavelmente trajados, usando casaca e gravata borboleta pretas. Exemplos são o ‘Le Nôtre” ou o “Tour d’Argent”. Não sei se ainda exigem que os clientes trajem paletó e gravata... Nada sei deles, só os vi em filmes e fotos...
       As “brasseries” são as cervejarias, onde se pode escolher uma cerveja entre as várias que são oferecidas, na pressão ou em garrafas, originárias de países de quase todo o mundo. Já encontrei a nossa “Brahma” tipo exportação em algumas delas. Nas “brasseries”, além de saborear uma gostosa cerveja estrangeira, você pode beliscar alguma coisa típica francesa, como o “foie gras”, ou os famosos “escargots”, ou talvez uma bandeja (“assiete”) de queijo ou de frios (“charcuterie”). Pode ainda tomar uma sopa de cebola ou de legumes e, se estiver com um pouco mais de fome, pedir um sanduíche misto de queijo e presunto (“croque monsieur”) ou acompanhado de um ovo frito (o “croque madame”). E, se estiver mesmo com fome de verdade, pode pedir uma refeição, que aqui é bem mais simples que aquela servida nos restaurantes tradicionais. Tudo sempre acompanhado do delicioso pão francês e da saborosa mostarda de Dijon.
        Já o bistrô, muito mais popular entre os franceses, assemelha-se um pouco ao nosso tradicional botequim, que hoje só é encontrado nos subúrbios do Rio. Serve de tudo: cerveja, vinho, destilados, aperitivos (como o Kir e o Ricard); tira-gostos variados para beliscar (“grignoter”); pratos simples para uma refeição ligeira e, até mesmo, um simples café, onde o freguês pode ocupar uma mesa por horas lendo um livro ou, nos dias de hoje, atualizando sua caixa de e-mails.
         Fiz essa distinção acima, sem ter certeza de que é realmente a correta entre os franceses, para destacar que, como sempre, prefiro os bistrôs quando vou a Paris. Apesar de uma vez ou outra ir a uma brasserie, onde bebo uma saborosa Guiness irlandesa.
      E, nessas andanças pelos bistrôs parisienses, conheci alguns garçons extraordinários que, em pouco tempo, tornaram-se meus amigos, recebendo-me sempre com um largo sorriso nos lábios e um forte abraço quando chego à capital francesa. Trocamos cartões de Natal, levo e recebo pequenos presentes quando os revejo. Para mim e, acredito para eles também, é sempre um motivo de alegria os nossos reencontros.
      Sei que muita gente diz que os franceses, principalmente os garçons, são mal humorados, ríspidos, até grossos no tratamento com os clientes, em especial os estrangeiros. Pode até ser que isso ocorra com um ou outro, para consolidar as exceções à regra. Mas, certamente, isso não ocorre com aqueles que vou mencionar agora.


“LE TABAC DE LA SORBONNE...”
          Já disse em publicações anteriores que o local onde costumo me hospedar quando vou a Paris é o quinto distrito (“5ème arrondissement”), mais conhecido como Quartier Latin, ou bairro Latino. Foi ali que eu e minha família ficamos em 1957, quando eu tinha 14 anos de idade. Meu pai resolveu nos levar a todos para mais uma viagem que faria à Europa, onde participaria de um curso de especialização num famoso instituto de medicina do mundo, o Centre International de l’Enface. Fomos eu, meus dois irmãos, minha mãe e minha avó, acompanhando meu pai. Ele já deveria ter-se hospedado anteriormente no mesmo hotel em que ficamos, o “Excelsior”, na rue de Cujas, a um quarteirão da Sorbonne. Devo ter herdado dele o gosto e a admiração pelo bairro, sempre alegre e esfuziante, reduto dos estudantes que frequentam a famosa faculdade e um dos lugares mais tradicionais de Paris, que ainda mantém um pouco (infelizmente, só um pouco) da atmosfera da cidade antes das duas guerras mundiais. Talvez pela presença maciça dos estudantes, muitos deles originários de outras partes do mundo, que mantêm a espontaneidade e a alegria próprias de suas idades e de seus países de origem.
        Nunca mais me hospedei no Excelsior, mas sempre em outros hotéis das redondezas: Senlis, Cujas, Sorbonne, Pantheon, Suez e, mais recentemente, Home Latin e Mercure Notre Dame Saint Germain.
        E, em muitas dessas viagens, ia tomar o café da manhã ou fazer uma refeição ligeira no “Tabac de la Sorbonne”, um simpático bistrô localizado na praça da faculdade, quase na esquina do Boulevard de Saint Michel. É um misto de bar e restaurante, tendo mesas na parte interna e várias outras espalhadas na calçada em frente.
        Numa dessas vezes, enquanto me servia um “petit déjeuner” completo (café com leite, pão francês com manteiga, suco de laranja, croissant e geleia), o garçom (em francês “serveur”), um senhor já começando a ficar grisalho, cabelo cortado tipo “escovinha”, perguntou-me educadamente (em francês, é claro):
         -- Bom dia, já reparei que o senhor costuma vir tomar seu café da manhã aqui conosco com frequência. De onde o senhor vem?
       -- Brasil. Rio de Janeiro – respondi, abrindo um sorriso amigável.
            -- É um prazer servi-lo. Estou ao seu dispor, qualquer coisa é só me chamar.
            Seu nome era Jean Claude. Disse-lhe meu nome também. E, nos dias e anos seguintes, sempre que eu chegava ao “Tabac” para o café da manhã, ele se apressava em me atender, falando rapidamente:
             -- “Bonjour”, Carlos.
          Transitava rapidamente entre as mesas, tanto as do lado de fora como as internas do estabelecimento. Nas horas de maior movimento era auxiliado por um outro garçom. Mas, normalmente, fazia todo o trabalho sozinho.
        E, ainda era o guardião da chave do banheiro, que cedia prazerosamente às senhoras que queriam ir ao “toilette”. Não sei se os homens também podiam usar o “reservado”. Eu, pelo menos, nunca usei. Mas, minha mulher e minha filha sempre tinham que pedir a chave a Jean-Claude. Isso era talvez porque o bar-restaurante era muito frequentado pelos estudantes da Sorbonne e também de um Liceu que ficava do outro lado do Boulevard de Saint Michel. Os responsáveis talvez tivessem receio de que a garotada pudesse se trancar no banheiro e fazer alguma coisa reprovável.
         Como era também uma tabacaria, sempre havia uma fila junto ao caixa para comprar cigarros. Os franceses são conhecidos por fumarem muito...
       Quando o movimento estava mais fraco, Jean-Claude ficava em pé ao meu lado e conversávamos bastante. Queria saber coisas do Brasil, onde nunca estivera. Mostrei-lhe fotos de Copacabana, de Icaraí, ele ficou maravilhado. Morava num subúrbio de Paris, pegava o trem todos os dias para ir e voltar do trabalho. Trocamos endereços, na época do Natal enviávamos cartões um para o outro.
Aposentou-se há pouco mais de um ano e acho que faz muita falta ao estabelecimento. Pelo menos, foi o que me disseram dois dos gerentes que ficam junto ao caixa.



                         “Tabac de La Sorbonne” (foto da internet)





                                            Jean Claude



O “LE DÉPART...”
         No Boulevard de Saint Michel, número 1, do lado esquerdo, esquina com  o rio Sena, fica um também misto de bistrô e restaurante, o LE DÉPART SAINT MICHEL. Serve almoço e janta (pratos simples, cardápio modesto), petiscos, doces, cerveja e tem uma razoável seleção de vinhos franceses.
         O ponto é espetacular. Ali em frente há uma estação de metrô, uma das mais concorridas de Paris: a Saint Michel, que dá acesso à linha 4, do metrô regular e a duas linhas do RER (o metrô rápido), a C e a B. Dessas estações desembarcam ou embarcam pessoas do mundo inteiro (atualmente, mais os asiáticos), carregando apressadas suas malas pela calçada do boulevard famoso, carinhosamente apelidado de Boul’mich. Do outro lado, um pouco mais à esquerda do “Le Depart”, numa pequena praça, está a fonte de Saint Michel.



     
                                    Fonte de Saint Michel


             Sentados numa cadeira, assistimos aquele movimento constante e sempre volumoso de pessoas, para lá e para cá, tentando atravessar uma ponte sobre o Sena, ou subindo o boulevard, em direção a hotéis, lojas, a Sorbonne ou o Jardim de Luxemburgo, mais acima. Bebendo um cálice de “Sancerre” (meu vinho tinto preferido), degustando uma “assiete” de 6 escargots ou de “foie gras”, apreciando uma refeição (que pode ser o “veau à milanaise” com espaguete), ou engordando com uma deliciosa torta de limão coberta de suspiros (merengue)...
           Depois de algumas viagens a Paris, o “Le Depart” passou a ser um dos meus locais preferidos. Fiz amizade com alguns garçons, mas aquele com quem tenho mais afinidade é o Éric. Baixo, magrinho, usando óculos de lentes grossas, é extremamente simpático e agradável. Gosta de um bom papo, dei-lhe um escudo de metal com a bandeira do Brasil, ofertou-me uma garrafa de vinho caseiro que disse ter fabricado e, toda vez que entramos no restaurante vem rápido nos atender, indicando as mesas em que está servindo e, como sempre, cobrindo-nos de gentilezas.


                                                  Éric

Le Depart Saint-Michel

 
O “QUARTIER GREC...”
         Dentro do “Quartier Latin” há um pequeno quadrilátero que é limitado pelo rio Sena acima, pela rua de Saint Jacques de um lado, pelo Boulevard de Saint Michel do outro e pelo Boulevard de Saint Germain des Près abaixo (dependendo, é claro, da posição em que você se encontra). Dentro dele existem pequenas ruas estreitas, repletas de restaurantes típicos, de cozinhas diferentes, como a francesa, a mexicana, a italiana, a vietnamita, entre outras. Mas, neles trabalham, em grande parte, garçons de origem grega. Daí passei a chamá-lo de “Quartier Grec”. Suas ruas principais são a Harpe, a Huchete, a Saint Séverin, a Xavier Privas e uma curiosamente chamada de “rue du Chat qui Pêche”, segundo alguns, a rua mais estreita de Paris (não sei se é verdade). Nesse local também está uma das igrejas mais bonitas da cidade, pouco conhecida pelos turistas: a Saint Séverin. Suntuosa, magnífica, escondida num canto do bairro...
         Ali almoço em dois restaurantes onde fiz amizades com os garçons: o Demi Lune e um outro (cujo nome não me recordo), mas onde trabalha um desses garçons. Esses só servem refeições, apesar de serem muito simples e de preços acessíveis. Não servem apenas aperitivo, tira-gosto ou um cafezinho.
         Na “rue de la Huchete” no restaurante cujo nome não recordo, trabalha o Pandeli. Baixinho, um pouco obeso, calvo, um espesso bigode acima do lábio superior, sempre um sorriso amigável a nos receber. Já trabalhou em três restaurantes onde almocei, todos de patrões gregos, ele também grego. Quando estou em Paris e vou comer no Demi Lune, ele sempre passa por lá para me cumprimentar e me convidar a almoçar no outro dia no restaurante onde trabalha atualmente, lá na Huchete.  Pandeli é uma figura: nos recebe com um abraço, traz um Kir por conta da casa, indica-nos o melhor prato do dia.



                                          Pandeli

         Na esquina da rue Saint Sévérin com rue de Harpe está o “Demi Lune”. Restaurante simples, um portinha dando para St. Sévérin, cinco ou seis mesas na parte de baixo, outras cinco na parte superior do jirau, o bar nos fundos, a cozinha e o banheiro no subsolo. Mas, comida boa, bem feita, principalmente a pierrade, que é um prato onde eles trazem a carne crua cortada ao lado de alguns legumes também crus, e uma chapa de  pedra bem quente, onde você coloca a carne para cozinhar no ponto que você deseja. Coloca antes bastante sal na pedra e se serve dos molhos que acompanham as carnes e legumes (bernaise, mostarda, poivre verte, curry, etc ...). Delícia... Pode acompanhar com uma garrafa de um bom Bordeaux ou Brouilly. Também a água mineral para não ressecar...
          O “Demi Lune” também só serve refeições. Ali não se senta para tomar apenas um aperitivo, beliscar alguma coisa leve ou degustar um café... Apesar de se denominar restaurante, é bem simples e a comida é muito boa... Como a maioria dos restaurantes populares de Paris ele também oferece a opção da “formule” ou “menu”, como os franceses preferem chamar. É uma combinação onde você escolhe uma entrada, depois um prato principal e uma sobremesa, entre algumas opções que eles selecionam e paga um preço bem mais em conta se fosse pedir os pratos separadamente. As “formules” variam de preço, dependo dos pratos que são colocados como opção para o cliente. Alguns restaurantes oferecem ainda uma “formule” mais barata onde você escolhe, apenas, a entrada e o prato principal, ou este e a sobremesa.
      Ali conheci o Nicolas. Também grego, gordinho, adora conversar. Só que o francês dele (como o meu) não são muito bons, só consigo entender parte do que ele diz. Conta muito sobre sua terra natal, adora futebol, presenteou-me com um DVD sobre Maradona e Pelé, retribuí a gentileza oferecendo-lhe um outro DVD sobre Garrincha...
          Depois que o Pandeli deixou o “Demi Lune”, ali foi trabalhar o Momô, também grego, baixo e gordinho, beirando os 60 anos. Usa um avental onde exibe vários “botons” e escudos. Dei-lhe um do Botafogo, que ele usa até hoje com muito orgulho...
       Nicolas e Momô vivem resmungando, um reclamando do outro em voz baixa... mas, acabam se entendendo... O bom é que os dois me atendem muito bom, sempre com muita cordialidade e atenção...
   

                            Momô, na porta do “Demi Lune”


                                                   Nicolas


O “LA GUEUZE...”
        Uma das principais brasseries de Paris, que frequento desde 1990, quando me aposentei. Fica perto do hotel onde me hospedava naquela época, o Senlis, junto do Pantheon e do Jardim de Luxemburgo.
        O “La Gueuze” fica no início da rua Soufflot, , próximo à Praça Edmond Ronstand. Gostava mais dela até mudar de dono, acho que em 2014. Um grande salão com várias mesas, tem também uma parte externa envidraçada na entrada, na calçada da Soufflot. Servia várias tipos de comida, ressaltando-se a “pierrade” e “la choucrute”. Tem uma razoável carta de vinhos e uma excelente variedade de cervejas de vários países. Também serve só bebidas e tira-gosto, sem a obrigatoriedade de fazer uma refeição à “la carte”.
       Depois que mudou o proprietário, o serviço caiu um pouco. Não há mais tanta variedade de cervejas, como também dos pratos no cardápio. Fizeram uma reforma na decoração, que perdeu aquele ar de um típico bistrô francês, ficando mais moderninho, mas não chegando a ser um “fast food”.
        Lá conheci o Kamel, um marroquino (seria argelino?) em 1997, segundo me recordo. Havia levado minha filha e meu neto naquela viagem. Ficamos hospedados no Senlis, como habitualmente. Num fim de uma tarde, meu neto estava com fome e pediu-me para comer alguma coisa. Minha filha preferiu ficar descansando no hotel, eu e Diego fomos ao “La Gueuze”. Enquanto fazíamos um lanche, meu neto ficou brincando com meu chaveiro e, só no dia seguinte, fui dar pela falta do mesmo. Procurei em vários lugares e voltei ao restaurante para saber se havia ficado lá.        Chamei o mesmo garçom que me atendera na véspera e perguntei-lhe sobre o chaveiro. Pediu-me que o descrevesse. “Várias chaves e um escudo grande do Botafogo em metal”. Ele foi até o balcão do estabelecimento e me trouxe o chaveiro. Agradeci-lhe, perguntei seu nome e daí em diante, sempre que voltava no “La Gueuze” procurava pelo Kamel. Sempre também me recebia com satisfação, dando-me um abraço e me servindo com muita atenção. Deu-me seu endereço em Paris e trocamos cartões de Natal por alguns anos.
      Mesmo depois que houve a troca de proprietários, ele ainda continuou trabalhando na “brasserie”. Mas, há uns dois anos atrás disse-me que estava pensando em sair, em abrir um negócio só dele, lá perto de onde morava, em La Villete.
          Realmente, fez isso. Não o vi mais quando voltei a Paris.
       
         Mas, ainda vou ao “La Gueuze” saborear uma “Guiness” e comer uma “pierrade” ou um “chucrute...


       Devo destacar, ainda, apesar de não ser frequentador assíduo, mas sempre encontro quando vou lá, um garçom de Montmartre, ao lado da Place de Tertre, a praça dos pintores daquela região boêmia de Paris.
        Acho que seu nome é Jacques, não tenho certeza. Mencionei-o aqui, apenas por trajar ele um uniforme de um francês típico. Mas, nunca conversei mais longamente com ele. Já trabalha no mesmo restaurante há muito tempo no mesmo local, sempre o encontro quando vou a Montmartre.


                                                Jacques (?)

       Bem, essa a minha experiência com vários garçons que conheci desde a juventude. Sempre os tratei muito bem, reconhecendo a dura jornada de trabalho que enfrentam e a obrigação de sempre manter um sorriso nos lábios para agradar a clientela...
     Trate bem quem lhe serve que será recompensado... Gratifiquem bem os garçons que eles servirão melhor a você... Ganhará algum novo amigo em algum lugar...