quarta-feira, junho 27, 2007

ORGULHO

O R G U L H O





Luís espantou-se ao acender o cigarro, vendo como suas mãos tremiam. Amassou com força o palito de fósforo, levantando-se em seguida. Foi até a janela e olhou para o céu, assistindo o despertar de um novo dia... Colocou a cabeça entre as mãos, correndo os dedos pelos cabelos em desalinho. Por que nascera, meu Deus? Por que vivia? Por que o mundo era tão cruel, tão ruim? Não, não - duas pequenas lágrimas principiaram a desabrochar em seus olhos - aquilo tudo era sonho mau, não podia ser realidade... Shirley estava bem, deveria estar em casa àquela hora, dormindo um sono tranqüilo. E ele não estava em nenhum hospital, aquilo tudo não passava de um pesadelo...
Abriram a porta e ele voltou à realidade. Era a enfermeira carregando uma bandeja.
Olhou-a interrogativamente. Perguntou baixinho, a voz trêmula, embargada pela emoção:
- E então?
- Nada ainda. O doutor vai operar agora...
Voltou a olhar para fora, para o céu escuro, mas coalhado de estrelas... Shirley, Shirley, por que você fora tão criança? Por que não deixou de lado seu orgulho bobo, sua vontade infantil de aparecer?
Mas, por que supunha ele aquilo? Talvez, na realidade, ela nunca o tivesse amado de verdade... Talvez o considerasse mais um de seus amigos, diferente dos outros, quem sabe, mas apenas mais um com quem quisesse se divertir, brincar um pouco com ele, com seus sentimentos...
Mas, ele a amara tanto, amava-a ainda loucamente... Brigaram, separaram-se, porque ela pôs à prova sua dignidade, seu caráter de homem honesto, um pouco crescido demais em mentalidade para sujeitar-se aos seus caprichos e aos daquela turminha de idéias curtas que a acompanhava.
Ela que, junto de seu grupo, aparentava tanta confiança em si mesma, que era a atirada, a de coragem, a "avançada", como se julgava, perto dele era uma criancinha frágil, desamparada, que sentia falta de proteção, do verdadeiro amor...
Rememorava os fatos... Lembrou-se de como a conhecera... Saíra cedo naquele dia para fazer uma reportagem na Zona Sul. Já era quase uma da tarde e ele estava morto de fome, após haver andado por toda a manhã. Entrou num daqueles restaurantes tipo popular, lanchonete, melhor dizendo, que começavam a proliferar em Copacabana e onde podia fazer uma refeição ligeira. Sentou-se numa mesa de canto e, enquanto esperava ser atendido, rabiscava algumas notas num papel. O local estava movimentado, com vários grupinhos espalhados pelas mesas, rindo e conversando alegremente enquanto faziam um lanche. Continuava a escrever, quando uma bolinha de papel, batendo-lhe no rosto e caindo dentro de seu copo de chope, respingou o líquido.em seu terno, fazendo com que ele levantasse o olhar... Numa mesa em frente à sua, um grupo de sete, três moças e quatro rapazes, riram de sua reação de surpresa...
Luís os encarou firmemente, de cara amarrada. Os componentes da outra mesa ficaram um pouco sem graça, menos uma moça que continuava a rir gostosamente. Disse, olhando para os seus companheiros e apontando para ele, em tom de deboche:
- Tadinho dele, sujou o terninho... Mamãe vai zangar quando ele chegar em casa...
Os outros, mais encorajados, riram da observação da menina. Zombavam dele agora...
Luís levantou-se com calma, encarando-a com os olhos gelados.
Chegando em frente a ela, que permanecia sentada, puxou-a violentamente pelo braço, arrastando-a com rapidez para o fundo do bar. Os outros, colhidos pelo imprevisto de sua reação, permaneceram em seus lugares. Apertando fortemente o braço da menina, Luís disse-lhe, em tom ríspido:
- Tome cuidado, neném. Veja com quem você brinca. Um dia desses você pode se dar mal...
Ela, já refeita da surpresa, tentou desvencilhar-se:
- Solte meu braço, seu... seu "fresco".
Luís vibrou-lhe uma bofetada, a mão aberta estalando no rosto da garota.
Um dos companheiros dela veio correndo da mesa. Luís, empurrando-o para o lado, encarou-o firmemente.
- Que é que você quer, garoto? Vê lá se quer se machucar...
O outro, bem mais fraco que ele, parou. A moça disse:
- Deixa p'ra lá, André. Pode deixar que eu resolvo...
O rapaz olhou Luís de lado, depois voltou para a sua mesa. Virando-se para a moça, Luís reparou que de sua boca escorria um filete de sangue. Puxou seu lenço do bolso traseiro da calça, passando-lhe o mesmo, num gesto displicente.
- Toma. Limpa a boca...
Ela apanhou o lenço, passando-o pelos lábios intumescidos.
- Doeu... - disse, num meio sorriso.
Olhava-o maliciosamente, dois olhinhos verdes, ariscos, que não paravam de brilhar.
Ele apanhou o lenço de volta e, vendo que os lábios dela ainda permaneciam inchados, puxou-a pelo braço, dizendo com frieza:
- Venha cá. Vamos dar um jeito nisso.
Conduziu-a ao lavatório e, após molhar o lenço, passou-o com cuidado, levemente, pelos lábios da menina, fazendo pressão com a ponta dos dedos, a fim de estancar o sangue.
Ela continuava com os olhos grudados nos dele, como em transe. Apertou-lhe o pulso da mão que segurava o lenço, dando um gritinho de dor.
- Ai, cuidado. Não aperta tanto, você acaba quebrando o meu dente... - disse, com voz melosa.
Ela sorria maravilhosamente. E ele, não sabia o motivo, estava um pouco perturbado.
Aqueles olhos verdes em cima dele mexiam com seu interior. Retirou o lenço, olhou para a ferida com olhar de entendido.
- Acho que agora está melhor... Abriu a torneira e deixou a água correr sobre o lenço. Torceu-o, enrolou-o em papel higiênico e colocou-o de volta no bolso. Ela, ainda encarando-o com um sorriso zombeteiro,perguntou:
- Qual é o seu nome?
- Luís - respondeu secamente.
- Você não quer se sentar com a gente?
- Não, obrigado - respondeu ele, em frente ao espelho, passando o pente no cabelo. - Já pedi na minha mesa.
- Então... eu posso sentar com você?
Luís virou-se para ela e sentiu, então, toda a força de seu olhar. Ela permanecia fitando-o fixamente, dentro dos olhos, sem pestanejar. Em outra ocasião, ele teria respondido que não... Era meio metido a machão, não gostava de paparicar mulher. Mas, ela tinha algo que o atraía, não sabia o que era... Talvez fossem os olhos verdes, talvez sua pele bem moreninha, de um bronzeado cor de cobre. Poderia ser ainda o cabelo curtinho, franja na testa, ou mesmo o corpo certinho, sem sobrar nem faltar coisa alguma. Ou, quem sabe, aquele sorriso encantador,um pouco ingênuo, um pouco debochado...
Respondeu, quase sem refletir:
- Tudo bem, se você quiser. Mas, não vou demorar muito. Tenho várias coisas p'ra fazer.
Ela tomou-lhe o braço e dirigiram-se para a mesa dele. Seus companheiros da mesa ao lado nem pareceram notar que ela estava com ele, continuando a conversar.
Seu nome era Shirley. Filha de papai rico estudava por esporte, mas sua profissão era gozar a vida. Passava a maior parte dos seus dias nos bares, discotecas, inferninhos, praia, clube, etc... Bebia, dançava, fumava, freqüentava os motéis da Barra, também começando a aparecer no início daqueles anos 60... Papai liberal financiava tudo.
Ele almoçava rapidamente, tinha que fazer uma entrevista dali a meia hora. Ela continuava falando sem parar. Seu linguajar era um festival de gírias, uma língua difícil de entender.
- E é só essa a sua vida? Você não pensa em fazer nada de útil? - perguntou ele, enquanto mastigava um pedaço de carne.
Ela o encarou com uma expressão divertida. Respondeu, assumindo uma pose de filósofa de lanchonete:
- E, o que você considera ser útil? Viver sob as regras dessa sociedade falsa, cheia de hipocrisia, que se esconde sob uma capa de moral artificial, quando no fundo são todos podres? Que criam seus filhos sem amor, sem carinho, sem dar-lhes nenhuma orientação? Pensam apenas neles próprios, em sua posição social, nas festas e recepções a que comparecem por dever social e onde o prato do dia é falar da vida alheia... Não, meu bem, prefiro o meu mundinho, que pode ser pequeno, considerado desregrado, mas que, ao menos, é sincero, livre, onde se tem a impressão de ser alguém. Não um autômato cumprindo ordens, relegado a um segundo plano, mas alguém que vive, que respira e que também tem o direito de pensar, de falar, de ter idéias próprias...
Falava como se desabafasse, não conseguindo disfarçar um tom de revolta em sua voz.
Luís sentia-se intimamente entediado. Já vira aquele filme diversas vezes antes: menininhas filhinhas do papai, cheias de dinheiro, revoltadas contra a sociedade, com raiva do mundo... "É que nunca tiveram que lutar pela vida, nunca passaram dificuldades, tudo sempre foi fácil para elas...". E ainda se faziam de vítimas.
Luís levantou os olhos. Perguntou, sério:
- Você tem problemas em casa, não tem?
Ela sorriu, um pouco sem graça. Pensou um pouco antes de responder:
- Eu não. O que me interessa é o dinheiro deles. Eles que vivam como entenderem, pouco me importa. Desde que não me falte o "tutu"...
Luís decidiu dar uma de moralista, um pouco cinicamente:
- E você não pensa em casar, ter filhos, sua casa? Não pense que vai ser jovem a vida inteira... Um dia você envelhece e vai chegar à realidade de que não foi e nunca conseguirá ser ninguém...
- Eu sou alguém - ela o interrompeu, de forma um pouco brusca. - Pelo menos, p'ra quem me interessa ser. - Apontou para seus companheiros, na mesa ao lado: - Pergunte a eles...
Luís levantou-se e disse-lhe, encerrando a conversa:
- É o que você pensa. Espera que o tempo passa e você vai ver se eles ainda estarão do teu lado.
- Mas, como você é careta - retrucou ela, sorrindo. - Fala igualzinho ao meu pai...
Ele a olhou de cima a baixo, sem nada dizer. Após pagar a conta, virou-se para ela, despedindo-se:
- Bem, vou andando. Infelizmente - sorriu pela primeira vez - tenho que ganhar a vida...
Já ia embora, quando subitamente, não sabe a razão, virou-se outra vez para ela e perguntou:
- Quando é que eu te vejo de novo?
Ela, com um sorriso maroto nos lábios, levantando-se:
- Qualquer dia desses. Depois das dez da noite, estou sempre por aqui.


* * *


Os dias se passaram. Luís, após o dia normal de trabalho, terminava a noite com Shirley e seus amigos. Iam a festas, bebericavam nos bares, faziam programas de violão até altas horas da madrugada, sucedendo-se os dias numa agitação contínua. Luís, cada vez mais, sentia-se prender a Shirley. As tardes, agora, em vez de trabalhar, passava-as com ela, passeando de mãos dadas pela cidade, apreciando seus recantos pitorescos. Era a única oportunidade em que podia estar a sós com ela, pois as noites, Shirley fazia questão de passá-las em companhia de sua turma.
Os companheiros de fé da menina eram duas moças, Rose e Gilda, dois efeminados, Juju e Ricardo, Vítor, o namorado de Gilda e André, o boa vida. Esse era o único pobre da turma, vivendo encostado no dinheiro dos outros. O "parasita", como eles o chamavam. Ele, com cinismo, aceitava com prazer aquele título. Todos, entretanto, gostavam muito dele. Era esse o mundo maravilhoso de Shirley. Seis imbecis, com pouco mais ou menos 20 anos de idade, considerando-se os donos do mundo. Luís não os suportava, Mas, queria estar junto dela, não lhe bastavam apenas as tardes em que ficavam sós. Por isso, reunia-se a eles todas as noites, agüentando, entediado, as conversas que dali nasciam.
Junto ao seu grupo, ela era autoconfiante, dominava suas emoções, fazendo-se de superior, de dominadora do ambiente. Perto dele, entretanto, quando estavam os dois sozinhos, ela parecia mais frágil, mais insegura, parecendo necessitar de alguém que a protegesse. Não era tão atirada, tão convencida, deixando que ele tomasse todas as decisões. Fazia questão, no entanto, de.não admitir sentimentalismos. Gostava de demonstrar, sempre que possível, que vivia somente na realidade, encarando-a crua e friamente, sem fantasias...
Lembrava-se de uma dessas suas demonstrações contra o sentimentalismo... Certa tarde, passeando os dois pela Nossa Senhora de Copacabana, o pôr-do-sol chegando, um fotógrafo de rua, aproveitando a pose dos dois abraçados, andando distraidamente, a cabeça dela apoiada no ombro dele, bateu a chapa. Ela pareceu aborrecer-se com aquilo, e, quando o fotógrafo lhe entregou o papel do estúdio para que apanhasse o retrato posteriormente, ela o amassou com desprezo, fazendo o seguinte comentário e assumindo aquele ar de filósofa, mais uma vez:
- Retratos... P'ra que isso? Eles não espelham a alma, só a aparência. Tenho nojo dessas emoções baratas...
Luís nada disse. Aliás, prometera a si mesmo, desde que começara a sair com ela, a respeitar-lhe a opinião, mesmo que com ela não concordasse. E ela era terna, carinhosa, alegre, uma verdadeira criança em seus braços. Talvez mimada demais, mas nada mais que uma criança.
Adorava pregar-lhe peças, divertia-se com suas reações um tanto ou quanto sérias, chamava-o de ultrapassado, de velho, a ele, que tinha apenas 25 anos. Tinha quase certeza de que ela já começava a amá-lo. Quando a beijava, percebia que ela sentia prazer verdadeiro, fechando os lindos olhinhos e enfiando a língua, nervosa e sem controle, dentro de sua boca... Ela estremecia todinha, entregando-se àquele momento de carinho... Nas madrugadas passadas nos motéis, da Lapa ou da Barra, eram as poucas ocasiões em que ela se traía, deixando transparecer uma pontinha de emoção...
Durou sete meses aquela quase lua-de-mel. O rompimento veio de modo fútil. Mas, a decisão que tomou foi a correta. Não poderia submeter-se a caprichos idiotas e estragar seu futuro, ir contra seus princípios...
Foi num daqueles fins-de-noite, quando já bastante excitados pela bebida, estavam na rua os oito. Ricardo, um dos efeminados, teve a idéia luminosa. Disse, cheio de afetação:
- Vamos fazer alguma coisa diferente hoje? Essa rotina tá me cansando...
Os outros o olharam, curiosos. Shirley, a cabeça apoiada no ombro de Luís, perguntou:
- Que é que vai ser?
- Que tal roubar um carro? Vai ser um barato, vocês vão ver - respondeu a bicha, desmunhecando.
- Juju, que é que você acha? - perguntou Shirley, a princípio desinteressada.
A outra bicha, entusiasmada:
- Legal, ótima idéia. Quem é que vai fazer a ligação direta?
Os outros concordaram. Luís disse:
- Bem, eu vou embora. Se vocês querem fazer merda, não contem comigo...
Ricardo o encarou, fazendo-se de ofendido
- Que foi que houve, grande homem? Tá com medo? Eu acho que você é quem devia fazer a ligação...
Luís deu-lhe as costas, dizendo:
- Sai p'ra lá, palhaço. - Virou-se para Shirley, puxando-a pelo braço: - Vamos embora, Shirley.
Ela separou-se dele, largando do seu braço. Disse calmamente:
- Não, eu fico com eles. Se você é covarde, nós não somos. Vai dormir cedo, benzinho. Lugar de criança é na cama...
Luís ficou chocado com a reação da menina. A raiva tomou conta dele, fazendo-o ficar vermelho como um camarão. Controlou-se, entretanto. Disse-lhe baixo, com voz rouca:
- Está bem, faz o que você quiser. Você é dona da sua vontade, sabe de tudo. Mas, depois, quando se arrepender, não vem chorar no meu ombro...
Afastou-se, deixando-os rindo dele.

* * *

Não mais a viu por uns dois meses. Afastou-se completamente dos lugares onde poderia encontrá-la e ao seu grupo. Voltou ao ritmo normal de trabalho, produzindo agora mais que nunca, na esperança de, com as horas do dia cheias, conseguir esquecê-la. Em vão... Ela não saía de seu pensamento. Dormia e acordava com sua figura na mente. Por várias vezes, pensou em procurá-la, abraçá-la e beijá-la loucamente, dizendo-lhe o quanto a amava... Acabava resistindo à tentação. Tinha que lhe mostrar que era mais forte e que aquele não era o caminho a seguir na vida. Viver cercada de parasitas, de gente vazia...
Viu-a uma vez, quando fazia uma reportagem à noite, numa Delegacia de Polícia da Zona Sul... O camburão chegou, trazendo-a e à sua turminha de babacas. Todos alcoolizados.
Quando o viu, ela pareceu ter um choque. Controlou-se, fingindo não o reconhecer, virando o rosto com desprezo. Seus colegas, ao vê-lo, embriagados, comentaram, em tom de deboche:
- Olha ali o fujão. Tem ido cedo p'ra caminha, babaca?
Ele nada respondeu. Ficara perturbado ao vê-la naquele estado. Completamente bêbada, transtornada, fora de si, numa Delegacia de Polícia...
O Delegado mandou recolhê-los. Depois que saíram, perguntou a Luís:
- São seus conhecidos?
- Sim, conheço eles. O que é que fizeram?
- Nada de sério. Bebedeira, arruaça num bar...
- Se o senhor quiser, eu me responsabilizo por eles. Pode soltá-los...
Depois de um tremendo esporro do Delegado, foram mandados embora. Menos Shirley... Ao saber que Luís intercedera por eles, recusou-se a sair. Preferiu ficar detida...
Disse ao Delegado, com desprezo e insolência:
- Por favor, avise meus pais. Eles vêm me soltar. Não preciso que nenhum babaca faça nada por mim...
E dormiu na cadeia...

* * *

Alguns meses mais tarde, ao sair da redação do jornal, foi abordado por André, que o fez parar.
- Como é que vai?
Luís fitou-o de alto a baixo. Respondeu, um pouco aborrecido:
- Tudo bem. Alguma novidade?
André estava alegre. Sorria muito, mostrando os dentes, naquele cinismo que o caracterizava.
- Novidade? Nenhuma... Por que você sumiu?
Luís voltou a olhá-lo de cima a baixo, procurando adivinhar porque ele fora procurá-lo, já que, evidentemente, aquele encontro não era casual. Respondeu secamente:
- Você deve saber melhor que eu...
André sorriu novamente. Bateu-lhe no ombro, num gesto amistoso.
- Deixa isso p'ra lá, meu amigo. Aquilo realmente foi uma besteira, mas já passou.
- Olhe, Rose vai dar uma festa na casa dela, no sábado. Por que você não aparece? Só p'ra bater um papo com o pessoal...
Luís ficou em silêncio por um instante. Depois, respondeu, procurando demonstrar indiferença:
- Vamos ver. Vou pensar...
Estava doido para perguntar por Shirley, mas se conteve...

* * *

Na noite de sábado, em seu velho Austin, rodava a esmo por Ipanema, que naquele janeiro de 1960 era bem diferente do que é atualmente. Menos edifícios, mais casas, inclusive na beira da praia, hoje praticamente inexistentes. Menos gente nas ruas, movimento tranqüilo das pessoas, sem o corre-corre dos dias de hoje; uns saíam da sessão de cinema, na Praça Nossa Senhora da Paz; outros tomavam um sorvetinho, aproveitando a brisa gostosa que vinha da praia.
Luís pensava se decidia ir ou não à casa de Rose. Será se "ela" estaria lá? Deveria estar. Tinha quase certeza de que havia sido ela quem mandou André procurá-lo com aquela conversa mole.
Depois de rodar muito, indeciso, resolveu ir. Deu a volta por trás da casa e estacionou o carro. Ficou dentro dele por algum tempo. Começou a chover forte. Fora do carro, via o céu sendo riscado a todo instante por um sem-número de relâmpagos. Acendeu um cigarro, ligou o rádio e ficou olhando para a casa. Então a viu. Em pé, junto a uma janela do sobrado, lá estava ela. Aquela silhueta tão familiar realçava-se na moldura da janela, cada vez que o céu se iluminava. Esperava-o, tinha certeza. Espiava a todo instante para ver se ele vinha, pensou... Ela,.entretanto, não o vira, nem sabia que ele a observava. Permanecia ali, em pé, qual um espectro noturno, olhando para a rua, em seu posto de vigília.
Acabado o cigarro, ajeitou melhor a gravata, penteou-se frente ao retrovisor, fechou as janelas do carro e saiu.
Entrou na casa. André, já meio "tocado", recebeu-o de copo na mão. Sorria, como sempre...
- Quer dizer que você se dignou a se misturar com a plebe... Venha, vamos entrar...
Luís cumprimentou-o friamente, estendendo-lhe a mão com indiferença. Shirley, que já devia tê-lo visto entrar, dançava agarradinha com um rapaz. Ao vê-lo no salão, apertou-se mais ainda ao par, fingindo não havê-lo notado.
A luz do recinto era tênue, a vitrola tocava em seu volume máximo um long-play de Ray Coniff, todos já pareciam um pouco alegres demais. Rose, ao vê-lo, veio bamboleando, toda risonha.
- Luís, que agradável surpresa. Como foi bom você ter vindo, Temos tanta coisa p'ra te dizer. E, a gente te deve mil desculpas pelo modo como te tratamos...
Tomou-lhe o braço e o levou até uma janela. Ali, ficaram conversando, olhando para fora, para a chuva que caía, copiosa, respingando forte nos vidros e nas poças formadas no chão.
Chuva de verão... Vinha e ia logo embora... Só para refrescar...
Rose, falando muito pelo efeito da bebida, achegou-se mais a Luís, apertando seu corpo contra o dele. Disse-lhe, em voz baixa:
- Olhe, não ligue p'ro que eu estou fazendo. Mas, é que eu quero dar uma lição na Shirley. Ela jurou que você não vinha, que isso pouco lhe importava, você sabe como ela é... No entanto, não dançou com ninguém antes que você chegasse, ficando grudada naquela janela, bebendo como um gambá, espreitando se você vinha ou não... E. agora, se agarra com qualquer um, só p'ra te fazer ciúmes...
Fez uma pausa. Luís deixava-a falar.
- Ela te ama, Luís... Mas, não quer dar o braço a torcer. Quer que você se humilhe a ela, fique de joelhos, para, então, se sentindo a dominadora, aí se entregar ao amor de vocês dois... - Mas, eu sei que você não vai entrar no jogo dela, por isso me deixa te ajudar, já que vocês parecem duas crianças. Daqui a pouco você me beija escandalosamente, aqui mesmo, na frente de todo o mundo, e vamos ver qual será a reação dela... Ou te dá um bom tapa na cara ou cai chorando nos teus braços...
Ele achou aquilo tudo muito estranho. Não sabia se o que ela dizia era sincero, ou se não passava do efeito do porre em que ela se encontrava... Ou, talvez, mais um de seus caprichos, fazer ciuminho na amiga de farra... Deixou-se levar, curioso...
- Tá legal, disse sorrindo. Mas, não pense que faço isso por ela. Ela não me interessa mais. Faço por você...
Rose sorriu maliciosamente. Disse, com ironia:
- Pode deixar que eu acredito...
Continuavam de costas para o salão. Daí a três minutos, os dois já abraçados, Rose puxou o braço dele.
- Agora, Luís, está perto. Vire-se e me beije.
Luís virou-se para o pessoal que dançava e deu de cara com Shirley, ali, pertinho dele.
Seus olhares se cruzaram, e ela, vendo que ele a olhava fixamente, agarrou-se mais ao seu par, beijando-o no rosto..Luís, puxando Rose para junto de seu peito, deu uma sonora gargalhada e beijou-a na boca, com sofreguidão. Reparou que Shirley, a dois passos dele, pareceu ficar surpresa, depois a raiva fuzilou-lhe os olhos. Abandonou seu par no salão e saiu dali correndo, o belo vestido branco esvoaçando no ar...
Luís empurrou Rose para o lado e atravessou com dificuldade aquela multidão de gente dançando. Não a via mais. Ela saíra do salão... Transpôs a porta de entrada da casa e a viu entrar, muito nervosa, num Volks azul. Gritou:
- Shirley... Shirley, me espera. Quero falar com você...
Ela ligou o carro e se afastou velozmente, batendo de leve, ao arrancar, em outro automóvel estacionado. Luís correu para o Austin e o ligou, nervoso. Suava frio, as mãos tremiam... Engrenou a primeira e saiu atrás dela. As luzes traseiras do fusca brilhavam na frente, a uns cem metros de distância... O velocímetro do Austin já estava em 90, ela parecia cada vez se distanciar mais... Pisou o acelerador até o fim. O velho carro parecia que ia desintegrar-se, tal o esforço que fazia... 95, 100... E ela, cada vez mais longe. Ainda bem que, àquela hora, quase duas da madrugada, o tráfego era fraco. O Volks, já em Copacabana, cantou os pneus ao dobrar na Av. Atlântica (que ainda não havia sido duplicada). Ela sabia que ele o seguia... Copacabana foi-se num instante. Atravessaram o Túnel Novo, entrando em Botafogo. No morro da Viúva, ao fazer a curva, parecia que os carros iriam parar no mar... Entraram nas pistas do Aterro do Flamengo. Então, com mais velocidade, aproveitando a falta total de movimento, aconteceu...
Luís viu de longe o Volks bater num dos postes de iluminação, rodar em volta de si mesmo por toda a extensão da pista, capotar três vezes, ficando de rodas para o ar...
Dirigiu-se para o local rapidamente. Ali, saltou correndo do Austin e, entre aquele monte de ferro amassado que sobrou do fusca, do cheiro de gasolina e de borracha de pneus queimada, divisou, estendido no chão, ao lado do carro, o corpo inanimado de Shirley. O rosto, uma máscara de sangue. Sua perna direita deixava à mostra a tíbia fraturada... O braço, também o direito, quebrado, pendia inerte... Sua cabeça parecia rachada, com o sangue correndo em abundância por uma fresta aberta... O cabelo, empapado de sangue, caía-lhe no rosto... Ajeitou-a com cuidado... Os lindos olhinhos verdes permaneciam fechados, como se ela dormisse. Num gesto de torpor momentâneo, beijou-lhe os lábios molhados de sangue. Voltando à realidade, colocou-a nos braços, ajeitando-a com cuidado no banco traseiro do Austin. Dali, quase voou para o hospital.

* * *

Desde as três da manhã estava naquela sala de espera... E nada, nenhuma notícia...
A enfermeira dissera que iriam operar. Meu Deus, ela tinha que ficar boa. Viveria só para ela.
Compreendia, então, o quanto a amava.
Tinha o corpo cansado. A noite em claro fazia, agora, sentir seus efeitos. A cabeça começava a doer-lhe, um torpor tomava conta de si. Os pulmões lhe ardiam, castigados pela fumaça ininterrupta dos cigarros consumidos. Sentia uma sensação de vácuo no estômago, sem ter fome nem sede... As pálpebras tornavam-se pesadas, sentia dificuldade em manter os olhos abertos..Virou-se, ao ouvir abrirem a porta. Era o médico. Estava ainda de avental, e um gorro branco encimava-lhe a fronte. Tinha a fisionomia cansada, mas os traços de seu rosto eram duros, firmes, dando-lhe uma expressão de austeridade.
Luís caminhou para ele, ansioso. Hesitou no meio do caminho, parou... O médico olhou-o de cima a baixo, examinando-o num só relance.
- Foi o senhor quem trouxe a moça?
- Sim, fui eu - respondeu gaguejando. - E, então, doutor, como é que ela está?
O médico olhou para ele. Depois, disse, em tom rápido, com uma certa aspereza na voz:
- Infelizmente, ela faleceu na mesa de operações...
Luís sentiu-se estremecer. Fez um grande esforço para controlar-se, mas suas mãos tremiam nervosamente. Apertou-as com força, uma contra a outra. Procurou dizer alguma coisa, perguntar algo... Nada. Ficou em silêncio.
Depois de algum tempo, passada a paralisia causada pelo choque da notícia, perguntou, com voz sumida:
- Ela... ela disse alguma coisa?
- Não, ela não saiu do "coma".
O médico, tirando um pequeno saco plástico do bolso do avental, passou-o a Luís.
- Tome, isto estava com ela. Devia gostar muito do senhor, pois trazia isto por dentro do soutien, junto ao seio esquerdo. Era sua esposa?
Luís apanhou o saco plástico. Como um autômato. Viu que havia alguma coisa em seu interior. Abriu-o e, ao ver o que era, estremeceu fortemente, suas mãos quase perdendo a sensibilidade. Não, não... não podia ser verdade. Aquilo... A fotografia que tiraram juntos em Copacabana. Então, ela não tinha jogado fora o papel do estúdio... Apenas o amassara, guardando-o consigo... E, depois, apanhara o retrato. Guardava-o junto do coração. Lá estava ela, sorrindo maravilhosamente, a cabeça apoiada em seu ombro, os lindos olhinhos verdes faiscando qual duas estrelas no firmamento...
Seus olhos começaram a se encher de água. Afastou-se em passadas rápidas, deixando o médico no meio da sala... Dirigiu-se ao banheiro. Lá, encostou a cabeça na parede, dando vazão à dor que lhe dilacerava a alma. Chorava, soluçando, mordendo os lábios com raiva... Se um homem não costuma chorar, naquele momento ele era uma exceção à regra...

* * *

Meia hora depois, estava em Copacabana, na Av. Atlântica. Andava pelo calçadão, do lado da praia. O sol apontava, majestoso, no horizonte ao longe, refletindo seus primeiros raios sobre o morro do Leme e o Pão de Açúcar, ao fundo. Os pombos, em bando, esvoaçavam em busca de comida. Cinco e quarenta. A praia ainda estava deserta. Apanhou o retrato do bolso do paletó. Deu-lhe uma última olhada, depois o rasgou em pedacinhos, atirando-os para o ar, atrás de si. Deu-lhes as costas e afastou-se vagarosamente, cabeça baixa, mãos no bolso, gravata frouxa no pescoço, paletó nas costas....A brisa que soprava naquela manhã, que prometia ser de uma luminosidade maravilhosa, levantava no ar, afastando para longe e distribuindo-os pela areia, pela calçada e pela rua, os pequenos fragmentos da fotografia rasgada...

* * *

ENCURRALADO

E N C U R R A L A D O


CALF


Rabecão despertou assustado... Seus ouvidos, já acostumados a perceber o menor ruído, alertaram-no dos movimentos que faziam fora da casa. Levantou-se silenciosamente, arrastando-se pelo chão até a janela. Com cuidado, correu com os olhos as cercanias do local em que se encontrava. Lá estavam eles, mexendo-se com cautela, fechando o cerco em volta da choupana, fazendo o possível para que ele não os ouvisse, pois esperavam pegá-lo desprevenido.
Tinha de ser assim, porque só em pensar em enfrentá-lo frente a frente, tremiam de medo.
Covardes... Mais de vinte homens, todos armados até os dentes, e tremiam... tremiam diante dele... Arrastou-se até a outra janela e, dali, viu que eles também já se deslocavam por aquele lado.
Cercado... Sentou-se calmamente no meio do compartimento (a casa só possuía aquele) e começou a enrolar um cigarro. Acendeu-o, enquanto seu cérebro trabalhava febrilmente, com uma rapidez espantosa. Eliminava mentalmente os modos que imaginava em poder fugir dali... Dessa vez, parecia que estava "frito". Mas, se o levassem, seria somente morto... Sabia muito bem, mesmo que se entregasse, eles o matariam, não lhe dariam a mínima chance... Desde que fugira da penitenciária, há três anos trás, já acabara com dois deles, e, morte de polícia tem que ser paga com a vida... Esse era o lema deles... Para aquelas mentalidades ignorantes e vingativas, só a morte do criminoso saciaria a sede da sua "justiça"...
A erva começava a fazer efeito. Sua mente tornava-se turva, enevoada, o grau de excitação de seu organismo aumentava rapidamente. Estava tenso, músculos e sentidos prontos a reagir ao primeiro estímulo exterior. Puxou outra tragada profunda: seus olhos ficaram mais vermelhos, ardiam mais... Permanecia num silêncio absoluto. Esgueirou-se lentamente até junto de sua cama. Levantou o colchão de crina e apanhou os dois "45". Conferiu suas cargas e os enfiou por dentro da calça. Arrastou-se de novo até a janela. Viu que conversavam agora em voz baixa, acertando os últimos detalhes para o ataque. Respeitavam-no, e, por isso, queriam ter certeza de que não teria a menor possibilidade de reação. Só então investiriam...
Sentou-se no chão, encostando-se na parede e estirando as pernas para a frente. Relembrava, a poucos instantes do fim que se aproximava, o que fora sua vida... Moleque criado na favela, o pai morto quando ele ainda não tinha dois anos de idade; a mãe, passando a semana toda fora, trabalhando em casa de família, na Zona Sul. Viveu sua infância jogado aqui e ali, aprendendo a ter que se "virar" por si próprio para sobreviver. Assim, com 13 anos já roubava e, aos 14, estava internado numa casa de recuperação de menores... Bem, chamavam-na de recuperação, mas foi ali onde verdadeiramente aprendeu todas as artimanhas e truques do crime..Ali, foi espancado pelos "inspetores de disciplina", foi enrabado por um dos rapazes mais velhos, seguro por outros dois... Depois, matou os três... Mentes jovens já impregnadas de revolta, de ódio. Revoltados até pelo simples fato de terem nascido. O que poderia esperar daquela promiscuidade? As portas do crime lhe foram abertas. Logo reconheceu que ninguém de fora lhe estenderia a mão, aquele é que era o seu mundo, teria que se acostumar com ele... Mas, aquela convivência maléfica, talvez, é que acabou por perdê-lo... Fugindo dali, continuou a assaltar, passando a ser conhecido como um dos terrores das favelas... Aos 17 anos, já tinha cinco mortes nas costas... Daí em diante, sua vida foi uma sucessão de prisões e fugas. Aos 23, já inteiramente constituída sua forma humana, era um tremendo "crioulão" de quase dois metros de altura, forte como um touro. Sempre roubando, matando quem quer que lhe ousasse barrar os passos. Brigas por dinheiro, brigas por mulheres, brigas com a polícia... Matando sempre, agora friamente, sem qualquer emoção...
A sociedade tinha que bani-lo de seu convívio. Ela, que se preocupou tanto com sua infância, procurando encaminhá-lo para o estudo, dando-lhe uma vida decente, longe daquele morro infecto. Aquela mesma sociedade que sempre se preocupou com a pobreza, com a miséria, com o menor desamparado. Sentia nojo de todos eles... Tinham mais é que morrer...
Sempre fora um pária. Nascera marginalizado, vivera marginalizado e morreria como marginal... Escorraçado pelo mundo que lhe negou o direito de viver honestamente, apenas porque nasceu pobre...
Já agora, decorridos três anos de sua última fuga, era considerado o "inimigo público nº 1", sucessor de "Mineirinho", "Lucio Flávio", "Fernando C. O." e outros tantos que, antes dele, atemorizaram a cidade, a polícia, a sociedade... As famílias, quando sabiam que ele estava por perto, tremiam de medo, fechavam portas e janelas, refugiavam-se em suas casas. Seu nome era notícia obrigatória das primeiras páginas dos jornais. A perseguição sobre ele estava implacável.
A polícia vasculhava noite e dia todas as favelas, todos os morros da região. Sempre escapara por pouco, fugindo milagrosamente no último momento.
E, em suas escaramuças com a polícia, liquidara dois deles. Por isso, sabia que não lhe dariam a menor chance.
Vivera esses últimos meses se escondendo, fugindo, cada dia em um lugar diferente.
Sabia que, mais cedo ou mais tarde, eles o apanhariam. Mas, lutaria até o fim, não ia deixar barato não. Já vira a morte de perto várias vezes, acostumando-se a tê-la ao seu lado.
Nisso, a porta da frente foi empurrada violentamente, uma rajada de metralhadora varreu o recinto. Rabecão levantou-se de um só salto, colando-se à parede, junto à porta. O silêncio que se fez não deixava perceber nem o ruído da respiração de quem ali estava. A noite, escura como o breu, nada deixava ver no interior da casa.
Após aqueles momentos de tensão absoluta, quem estava lá fora gritou alto:
- Venham. Ou ele já fugiu ou eu acabei com o bicho. Tá tudo quieto por aqui...
O sujeito acendeu uma lanterna, iluminando o compartimento através da porta aberta.
Foi avançando lentamente. Rabecão coseu-se mais à parede, parando de respirar. Tirou a arma da cintura, já engatilhada, e apontou-a para a porta.
O outro avançava com cuidado. Primeiro, apareceu a ponta de sua metralhadora, feroz, ameaçadora. Depois, seu perfil vislumbrou-se junto à porta. Parou por um instante.
Levantou o cano da arma e gritou:
- Rabecão, você tá aí dentro? Sai de mãos p'ra cima...
O bandido deu um salto para frente. Voltando-se rapidamente, o outro disparou a metralhadora. Acertou apenas a parede, pois Rabecão deu-lhe dois tiros no peito. O camarada deu um grito e caiu pesadamente de cara no chão, no lugar da porta aberta..Aquilo, então, transformou-se num inferno.
Lá fora, parecia que estavam em guerra, visando um único alvo: a choupana. O compartimento foi varrido por balas de todas as armas possíveis de imaginar. Só faltou mesmo canhão...
Rabecão sentiu que fora atingido, jogando-se rapidamente ao chão. De seu ombro direito, quase junto ao pescoço, o sangue jorrava em abundância. Arrastou-se até a janela e, dali, passou a revidar. Os homens lá fora gritavam como doidos, histéricos:
- Vamos, acabem logo com esse miserável...
A dor em seu ombro era terrível. Perdia sangue cada vez mais. Sentia-se fraco, já meio tonto, as forças deixando-lhe o corpo. Era o fim que se aproximava. Sentou-se no chão, parando de responder aos tiros. Encostou-se na parede, estirando mais uma vez as pernas.
Procurou a "erva" em seu bolso e começou a enrolar um cigarro. Talvez fosse seu último. Depois de pronto, acendeu-o e puxou profundamente uma tragada. O efeito foi instantâneo. Seu corpo entrou numa espécie de dormência, fazendo-o esquecer a dor insuportável que sentia. O sangue, entretanto, continuava a esguichar. Já começava a se sentir fora daquilo tudo. Seu pensamento voltava à infância, à favela onde fora criado...
Lá fora, vendo que ele parara de atirar, também pararam. Após um silêncio de mais ou menos dois minutos, gritaram:
- Rabecão, sai de mãos p'ra cima, que não vamos te fazer nada. Você será julgado com justiça, eu te prometo...
Era o Delegado Silva Dantas quem falava. Ele, que já prendera Rabecão várias vezes anteriormente, que já o espancara e humilhara. Homem violento, frio, adorava matar bandidos em nome da lei. Rabecão pensava: "A única diferença entre ele e eu é que ele estudou e eu não... No fundo, os dois somos matadores..."
"Justiça... Conhecia bem a justiça deles". Suava abundantemente. Sua camisa, aberta no peito, estava colada ao corpo, empapada de sangue. O suor escorria-lhe pela testa, pela face, pelo pescoço. Seus olhos lacrimejavam pela ação do "fuminho"...
Num último esforço, sentindo-se quase desfalecer, levantou-se de súbito, as duas "45" nas mãos, e saiu porta afora. Tropeçou no cadáver à sua frente, reequilibrou-se... Do lado de fora, em pé, vomitou fogo por seus revólveres, gritando e chorando como um possesso:
- Venham, seus putos, cambada de covardes... Venham me apanhar se forem homens... Venham... Venham...
As balas choveram sobre ele. Seu rosto contraiu-se no último gesto de dor, o corpo virando uma peneira, os buracos esguichando sangue em todas as direções... Tremeu um pouco e caiu pesadamente. Caiu para a frente, a cara enterrando-se no solo úmido...
No dia seguinte, os jornais estampavam na primeira página a fotografia do Delegado Silva Dantas, vitorioso, transformado em herói, metralhadora na mão, ao lado do cadáver do bandido, sua presa afinal conseguida caçar.
As manchetes estampavam, em letras garrafais:
"ELIMINADO RABECÃO.
A sociedade já pode respirar tranqüila "
A justiça, mais uma vez, se fizera...

segunda-feira, junho 25, 2007

SONHO DE UM ANJO



SONHO DE UM ANJO

calf




Lílian acordou cedo naquela manhã. Era seu primeiro dia de aula. Ansiava por voltar à escola. Desejava rever suas colegas, conversar com elas sobre os passeios que fizera durante as férias, assistir Da. Célia dar a primeira aula daquele ano... Já estava na terceira série primária e era uma das primeiras da turma. Tomou seu banho e, ajudada pela mamãe, vestiu o uniforme novo, ainda passadinho, como viera da loja.
Ajeitou com cuidado a fita branca nos cabelos dourados, mirando-se demoradamente em frente ao espelho, numa atitude de prematura vaidade feminina...
Tinha oito anos e a vida, para ela, começava a desabrochar, na ânsia de aproveitar todos os seus minutos, na agitação contínua de estudar, cuidar de suas bonecas, brincar de roda e de pique. Mas, o que ainda mais gostava era ficar, horas a fio junto da mamãe, antes de chegar a hora de dormir, ouvindo-a ler para ela as histórias dos livros de fada... Adorava as aventuras de Branca de Neve em luta com a Bruxa-Madrasta, de ouvir como Chapeuzinho Vermelho e a Vovó enganavam o Lobo-Mau e, como Peter Pan e Sininho venciam o Capitão Gancho... Ria gostosamente, torcia por seus heróis, ficava apreensiva e nervosa quando as coisas não iam bem para eles, chorava...
Gritaram seu nome da rua:
– Lílian, anda logo... Já tá na hora...
Correu até a janela, e de lá respondeu:
– Já tou descendo... Um minutinho só...
Apanhou sua mala com o material escolar, deu-se uma última olhadela frente ao espelho e desceu correndo as escadas. Na porta, deu um beijo na mamãe, que lhe fez as recomendações costumeiras: cuidado ao atravessar as ruas, não correr muito, voltar logo p’ra casa, não conversar com estranhos, etc...etc...
Na rua, ainda voltou-se para dar um adeus à sua mãe, que a observava, em pé, junto à porta. Deu o braço à Silvinha, sua colega, e lá foram as duas juntas, saltitando alegremente pela calçada...
No colégio, o reencontro com as amigas, depois das longas férias, tomou-lhe todo o tempo disponível antes que tocasse a campainha que as fazia entrar em forma, a fim de se dirigirem para as respectivas salas de aula. Assim mesmo, já na fila, ainda comentava, rindo alegremente e falando alto, como aproveitara suas férias.
Mariazinha viajara de carro com o pai e a mãe; Sônia fora à praia todos os dias; Judith andou p’ra chuchu de barco à vela...
Dª Célia entrou na sala... Cumprimentou alegremente as meninas, tendo nos lábios o sorriso amigo e jovial, uma de suas mais marcantes características. Lílian a adorava... Não só pela maneira agradável e fácil de assimilar com que transmitia suas aulas, mas, principalmente, por sua extrema bondade... Conversava com as alunas após o horário, ouvia seus problemas e dificuldades no aprendizado escolar e da vida, tinha sempre uma palavra de alento e carinho. Levava-as à sua casa, passeava com elas, programava excursões, enfim, estava integrada às suas vidas. Era mais que uma mestra no cumprimento do dever profissional: era uma amiga mais velha.
Ao terminar aquele dia de aula, que passou rapidamente por ser o primeiro após as férias, as alunas precipitaram-se sala afora, fazendo uma barulheira tremenda. Da. Célia, apanhando seus livros sobre a mesa, ao ver passar Lílian e Silvinha, chamou:
– Lílian, tenho uma boa notícia para você...
A menina olhou-a, surpresa. Depois, ficou esperando com ansiedade. Da. Célia disse-lhe, devagar:
– Sua professora de ginástica me disse hoje que você será a representante do colégio, em corrida e salto em distância, nos Jogos Intercolegiais.
Lílian quase caiu para trás. Ficou paralisada. Queria falar, entretanto as palavras não lhe transpunham os lábios. Atirou-se para a professora, abraçando-a fortemente. Da. Célia correspondeu ao gesto, abraçando-a também com ternura.
Disse:
– Eu sabia que você iria ficar feliz...
A menina, voltando a si de sua alegria, afastou-se da mestra e pediu-lhe desculpas pela demonstração de intimidade. Da. Célia apenas riu, felicitando-a mais uma vez.
Na rua, braço dado com Silvinha, Lílian ainda não acreditava no que ouvira.
Permanecia em silêncio, os olhos quase em lágrimas de tanta alegria. Era esse o seu sonho dourado. Por ele treinara dois anos a fio, durante as férias e o período escolar.
Representando a escola, quer correndo, quer saltando, teria mais uma oportunidade de dar vazão à imensa vitalidade que tinha dentro de si. Era uma criança que só se sentia bem quando em atividade...
* * *
Um barulho, vindo de fora da casa, despertou-a. Ainda sorria, com o sonho que tivera ainda bem vivo em sua mente... Com toda a ingenuidade dos seus oito anos, refletia agora sobre a vida...
Dez minutos depois, gritou:
– Mamãe!
Sua mãe logo apareceu. Abraçou-se à filha, beijou-a na face. Perguntou-lhe:
– O que é que o anjo da mamãe quer?
Lílian retrucou, ainda olhando o teto:
– Quero dar uma volta no jardim...
Sua mãe sorriu meigamente e começou a empurrar a cadeira de rodas...
* * *


terça-feira, maio 29, 2007

O craque...

O craque...


Calf






O menino pobre, recém-saído da adolescência, assumia prematuramente as responsabilidades do homem adulto. Engravidara Luciana, a namorada de infância, ela com apenas quinze anos de vida, também uma menina pobre como ele. Mesmo que o pai da moça não o tivesse chamado às falas, ele não iria fugir à responsabilidade. Fora ele quem a “embuchara”, deveria deixar a criança nascer e casar-se com ela. Pouco importava se o emprego de salário mínimo na pequena fábrica de tecidos da cidade do interior mal desse para satisfazer suas menores despesas. Ia se virar, construir um barraco num terreno vazio qualquer da localidade, ali iria morar com Luciana e a criança e formar sua família.
Mas, seu grande sonho era ser jogador de futebol, ganhar dinheiro, ficar rico, ir morar no Rio de Janeiro. Nos estudos, nunca fora grande coisa, mal terminara o primário. Então, somente o futebol poderia fazer com que melhorasse de vida. Lá na sua cidade, era considerado disparado, aos vinte anos de idade, o melhor jogador de toda a região, que ia de Caxias, passava por Nova Iguaçu, Magé e chegava a outros centros maiores do futebol de várzea. Quando seu time ia jogar nessas localidades, os campinhos logo se enchiam para ver o ponta-direita endiabrado, que driblava todo mundo e levava à loucura os zagueiros adversários.
Ouvindo conselhos de amigos, foi tentar uma vaga no Fluminense, lá no Rio. Quando o treinador o viu, enfileirado junto com outros que iriam fazer a “peneira”, após olhar para suas pernas tortas, logo o dispensou, dizendo para o seu auxiliar que “agora até aleijado tenta ser jogador de futebol”. Sem ao menos vê-lo treinar, sem ao menos deixá-lo calçar as chuteiras. Jurou que nunca mais iria tentar treinar num time profissional.
Mas, agora, com a gravidez de Luciana e o casamento, acabou aceitando o convite de um olheiro do Botafogo para ir lá “dar um treininho, para ver se você aprova”. Foi, e quase que a cena se repetiu. O treinador, Gentil Cardoso, quando olhou para suas pernas tortas, ia tomar a mesma decisão que seu colega do Fluminense: mandá-lo embora sem ao menos treinar. Mas, como só tinham três jogadores para a “peneira” naquela tarde, mandou que ele trocasse de roupa. Já no campo, colocou-o na ponta-direita da equipe reserva. Iria ser marcado pelo então famoso Nilton Santos, considerado o melhor lateral esquerdo do Brasil.
O resto da história a maioria de vocês já conhece...

sábado, maio 05, 2007

PAIXÃO...

P A I X Ã O . . .

CALF


– Eu já não sei mais o que fazer.... Dá vontade de largar tudo e me mandar para o interior... Já pensei numa casinha em Friburgo, num lugar sossegado, só p'ra mim e a Maria – disse Amâncio, jogando as cartas sobre a mesa.
Mário, olhando para as próprias cartas, escolhia qual a melhor jogada a fazer. Decidiu-se e comprou uma carta do "morto".
– Eu também já pensei nisso, mas p'ra mim, que sou sozinho, acho que vou ficar muito mais isolado. Aqui, pelo menos, os filhos e netos vêm me visitar, estão sempre por perto se alguma coisa me acontecer...– Parou de falar por um momento, como se estivesse refletindo. Continuou, voz baixa, quase um murmúrio: – Mas, isso aqui, realmente, está muito perigoso de viver, já não se pode mais nem sair à rua, é violência por todo canto...
Baixou uma trinca de reis.
– Eu já tou de saco cheio – disse Roberto, olhar atento nas cartas que tinha nas mãos. Baixou uma seqüência de espadas. – Já não tenho mais coragem de sair à noite, de ir a um teatro ou assistir um show. Nem mesmo para o meu chopinho no botequim do Arnaldo, coisa que fazia diariamente antes de dormir, hoje tenho ânimo para sair de casa.
Alberto ouvia tudo em silêncio, nada comentando. Olhava distraidamente para as cartas abertas à sua frente, olhar distante, como se estivesse desligado do jogo e da conversa.
Os quatro amigos, todos beirando os oitenta anos de idade, distraíam-se jogando buraco naquele cantinho do Posto seis, ponto tradicional de encontro dos idosos de Copacabana, lugarzinho cercado, em frente à praia, junto do local onde alguns anos antes se situara o imponente Cassino Atlântico, depois os estúdios da extinta TV-Rio. Em várias mesas espalhadas no cercado de lona, outras senhoras e senhores passando dos setenta conversavam animadamente.

Mário continuou:
– Quem diria que a cidade iria se transformar no que está agora... Lembra, Alberto, quando a gente brincava o Carnaval, pulando dos estribos dos bondes, fantasiados de palhaço ou mascarados, fazia a ronda por todos os bares de Copacabana e ia acabar na Fiorentina, lá no Leme, só indo p'ra casa as seis da manhã, dia clareando, conversando alto pela Atlântica, todo mundo de pilequinho?
– E as batalhas de confete e serpentina da Galeria Cruzeiro, aquele monte de mulher bonita desfilando pela Rio Branco... lembrou Roberto, com um olhar de melancolia.
– Vai fazer isso agora, p 'ra ver o que te acontece... Tu chega nu em casa, se conseguir chegar vivo... Te roubam tudo, até a roupa do corpo, se bobear...
Alberto continuava sem nada dizer, uma guimba de cigarro no canto da boca, os ralos cabelos brancos esvoaçando com a brisa gostosa daquele fim de manhã de sol esplendoroso da "Princesinha do mar"... Olhava ora para as cartas, ora para o jogo que estava sobre a mesa, inteiramente concentrado no jogo.
– Não, eu não agüento mais ficar por aqui – repetiu Amâncio, um pouco exaltado, enquanto virava o resto de chope que havia em sua caneca. – Não se tem mais liberdade de sair à rua, todo mundo vive com medo, trancado em suas casas. – Outro dia mesmo, na quinta-feira, 8 horas da manhã, vejam bem, 8 horas da manhã, depois de ter caminhado cedo na praia, voltava para casa e esperava o sinal abrir na esquina de Nossa Senhora com Santa Clara. Calmamente, distraído, pensando na morte da bezerra, quando comecei a ouvir : PUM! PUM! TAC! TAC!... Sem brincadeira… Mais de vinte tiros… Depois, os carros de polícia, em disparada pelas ruas, sirenes abertas, policiais com armas na mão.... Gente se jogando no chão, procurando abrigo nas lojas que começavam a abrir... Uma zorra total... Depois vim a saber que fora uma tentativa de assalto num caixa eletrônico na esquina da Figueiredo... Que loucura....
A praia estava praticamente lotada. As barracas multicoloridas imprensavam-se umas contra as outras, as ondas fortes beijavam com violência a areia clara, fazendo ressaltar a beleza indescritível de um dos mais famosos e belos cartões postais do mundo. No calçadão e na pista interditada aos domingos para o lazer dos cariocas, uma multidão de pessoas caminhava, corria, pedalava, outros apenas passeavam, aproveitando aquela maravilhosa manhã de domingo que só o Rio consegue oferecer.
– Eu também, acho que me mudo para o interior. Estou vendo alguma coisa lá pelos lados de Mangaratiba, pois não sei ficar longe da praia. Lá tem uns sítios bons, não são muito caros – disse Roberto. – Não quero acabar morrendo por uma bala perdida ou sendo assaltado por um bando de pivetes na rua.
– Pois é – prosseguiu Mário. – Minhas filhas já foram assaltadas nos ônibus, meu neto teve o celular arrancado das mãos outro dia desses. Até seus tênis os moleques já levaram...
– E vai tentar reagir, oferecer resistência – interrompeu Amâncio. –- Acaba levando um tiro ou uma facada, morre estupidamente nas mãos de um boçal desses...
– Viu aquela menina da Tijuca, semana passada? – indagou Roberto. – Os pais não deixavam ela sair sozinha na rua, iam levá-la e buscá-la no colégio todos os dias. Na única vez que permitiram que ela voltasse sozinha para casa, uma estação só do metrô, acontece aquela tragédia... Só quatorze anos, uma vida estupidamente perdida... Esse é o nosso Rio de Janeiro, a "Cidade Maravilhosa"...
– Tá parecendo Chicago dos anos 20, cidade sem lei, dominada por Al Capones, Dillingers, etc... – filosofou Mário.
– E os camelôs nas calçadas? – interveio Amâncio. – Aqui, na Nossa Senhora e no centro, não se pode mais andar pelas calçadas. Tem-se que passar pelo meio da rua, correndo o risco de ser atropelado.
– É verdade – concordou Roberto, ar de desânimo na voz. – E nós, que já estamos velhos, é que sofremos mais. Os carros não respeitam quando a gente atravessa as ruas, vêm para cima mesmo. E, somos os alvos preferidos dos pivetes e assaltantes. Juntam dois, três, empurram a gente, levam tudo que a gente carrega.
– E você, Alberto, não diz nada? Vai dizer que também não tem medo de viver aqui? – perguntou Amâncio.
Alberto, com o mesmo ar calmo e tranqüilo que mantinha até ali, olhou mais uma vez para as cartas que tinha nas mãos. Depositou-as suavemente sobre a mesa. Disse, olhando triunfalmente para os companheiros:
– Bati...
Os outros olharam desanimados para as cartas sobre a mesa. Mario chamou o garçom e pediu uma outra rodada de chope. Amâncio insistiu:
– E, então, Alberto, você não diz nada?
Ele coçou a cabeça, passando os dedos por entre os fios de cabelos brancos. Virou o resto do chope, acendeu um outro cigarro. Respondeu, voz macia, as palavras saindo-lhe vagarosamente pela boca onde alguns dentes já faltavam:
– Olha, vocês querem saber de uma coisa? Eu daqui não saio não. Nasci aqui, aqui fui criado, estudei, trabalhei e me casei. Minha mulher já morreu, a gente não teve filhos. Não tenho nenhum parente vivo e, mesmo que tivesse, não ia dar trabalho a ninguém no fim da vida. Vi essa cidade crescer, transformar-se, acompanhei as diversas fases da sua evolução. Aqui tenho de tudo: praia, montanha, floresta, comércio bom e variado, conheço todo mundo no meu quarteirão, padeiro, jornaleiro, bicheiro, farmacêutico, dono de botequim. Amo minha praia, adoro passear no centro da cidade, fazer um lanche na Colombo, tomar um chope no bar Luiz ou no Brasil, lá na Lapa. Não há nada que se compare ao almoço de domingo num desses restaurantes da beira da praia, onde fico mastigando alguma coisa, vendo as meninas desfilando nos seus biquínis mostrando quase tudo. Conheço cada esquina, cada buraquinho de Copacabana. Aqui vi a bossa nova nascer, lá no beco das Garrafas, freqüentei o Vogue, o Sacha's, o Copacabana Palace... Vi Heleno de Freitas jogar futebol na areia dessa praia, João Saldanha era meu vizinho na Miguel Lemos... Copacabana e o Rio fazem parte do meu corpo, da minha alma... Estão na minha pele, são meu sangue, me alimentam, me trouxeram até os meus 78 anos de vida... Esses bandidinhos que andam por aí, esses marginais de meia tigela, não vão me expulsar da minha cidade, não me metem medo... eu já vivia aqui muito tempo antes deles... se quiserem me matar, que matem, mas como dizia aquela antiga musiquinha de carnaval : '' DAQUI NÃO SAIO, DAQUI NINGUÉM ME TIRA... " . Aqui é minha cidade, tenho verdadeira paixão por ela, nela nasci e, se Deus quiser, nela vou morrer...
Quase todos os freqüentadores do local levantaram-se e bateram palmas, entusiasmados e emocionados, relembrando, talvez, um Rio de Janeiro que já não exista mais....

O REENCONTRO...

 

 

O REENCONTRO...


CALF



                  No início do mês de dezembro de 2006, avisado por alguns amigos de longa data, todos ex-liceístas, compareci a uma missa e a um almoço em comemoração ao cinqüentenário de formatura das turmas que concluíram o ginasial no nosso Liceu, em 1956.
                  Estava curioso em saber como estariam, nos dias atuais, alguns daqueles que estudaram ao meu lado, na mesma sala, às vezes na carteira da esquerda ou da direita, na frente ou atrás, depois de passados cinqüenta anos.
                 Afinal de contas, foram quatro anos em que convivemos, pelo menos durante cinco horas, de segunda a sexta, numa das salas do antigo casarão do fim da Amaral Peixoto. Para sermos exatos, de 1953 a 1956.
Os três primeiros anos, no turno da tarde. O quarto, na parte da manhã.
                 Na noite anterior àquele domingo, dois de dezembro, rememorei mentalmente os momentos de felicidade e alegria passados naqueles meus primeiros anos de Liceu. Fui buscar, numa caixa esquecida de um armário empoeirado escondido num dos quartos não utilizados da casa, algumas fotografias daquele período inesquecível.
                 O grande prédio cor de rosa, dentro do qual era eu uma minúscula partícula no primeiro ano ginasial. O uniforme tradicional e pesado, o dólmã cáqui, com a lista branca em forma de “V” maiúsculo na braçadeira azul em cada uma das mangas. A gravata preta, dando um tom de seriedade à roupa do menino de onze anos, que até então só usara calças curtas. Tudo comprado na “Corporativa”, no início da Amaral Peixoto, ao lado do edifício onde eu morava.
                 O primeiro dia de aula foi de medos, de receios do desconhecido. Eram cinco turmas no primeiro ano ginasial. A primeira, na qual fui colocado, era composta por aqueles que haviam obtido as melhores notas no exame de admissão. Devíamos ser pouco mais de quarenta em cada turma. A última, a quinta, era destinada aos repetentes, misturados com os que obtiveram as piores notas no exame de ingresso ao colégio. Exame disputadíssimo por sinal, já que o Liceu era considerado a melhor escola de Niterói, então a capital do antigo Estado do Rio de Janeiro. Qualidade de ensino igual à dele só a do Pedro II, tradicional estabelecimento federal de ensino médio da época e até hoje respeitado como tal.
                 Sorte minha que haviam alguns conhecidos na mesma turma. Dos que estudaram juntos comigo no primário do Getúlio Vargas estavam o Harald, o Gilberto, a Neuza e a Carolina. Havia ainda o Lizardo, que conheci no ano anterior ao admissão e de quem logo me tornei amigo, freqüentando um a casa do outro e estudando juntos para a tão temida prova.
                 Todos os outros, ilustres desconhecidos.
                Nossa inspetora, cujo nome já não mais me recordo, nos fez sentar em ordem alfabética, ocupando as cadeiras em fila indiana, da esquerda para a direita da sala, que ficava no primeiro andar, no corredor que dava para o pátio.
                Aos poucos fui conhecendo o Gusmão (eu sentava atrás dele), o Cidoca, o Paulo Roberto, o Jorginho Sader, o Nelson, o Armandinho, o Marcos Honaiser, o Dráusio, a Maria Célia, o Luiz Antonio.
               Mas, naqueles primeiros dias, andava colado no Lizardo e no Gilberto, os três ainda assustados com aquele mundo novo e, pior, com medo de levar trote dos veteranos.
                Antes de entrarmos em sala tínhamos que formar no pátio e cantar o Hino Nacional. O diretor, Jayme Bittencourt, ficava no alto de uma pequena escada que dava acesso às salas, compenetrado, verificando se os alunos cantavam direito o nosso hino.
               Mas, o que mais nos assustou foi a quantidade de matérias com que teríamos de lidar. Além das já conhecidas Português e Matemática, passamos a estudar Francês, Latim, Desenho, Canto Orfeônico, Trabalhos Manuais, História Geral e Geografia (será se me esqueci de alguma?). Aulas rápidas, de cinqüenta minutos cada uma, bem diferente daquilo a que estávamos acostumados no primário: uma só professora para Português, Matemática e Conhecimentos Gerais.
               Cada aula, um professor ou professora. Fiz um esforço de memória e tentei me recordar do nome alguns deles. A temida Dª Jacira, de Português, exigente ao extremo, que causava medo em todos nós. A rigorosa Dª Anita, de Matemática (ainda bem que escapamos do Carias, tido como o terror dos alunos, segundo comentários dos demais liceístas). Francês, Dª Estefânia, com seus doces cabelos grisalhos. O Padre Carneiro, de batina e tudo, ministrava-nos o Latim. O Canto Orfeônico nos era ensinado por Dª Edith Pinho, que muitos e muitos anos mais tarde vim a saber ser esposa de um Desembargador da Guanabara. Professor Cousin era o responsável pelas aulas de História Geral. Finalmente, o Professor Vieira ensinava-nos Geografia (“Deponham o lápis”, era sua frase característica”). Não consegui me lembrar dos nomes, nem das fisionomias dos professores de Desenho e Trabalhos Manuais.
                Já no segundo semestre daquele primeiro ano estávamos mais à vontade no colégio. Passada aquela fase inicial de adaptação, já procurávamos alguma quadra ou campinho livre para jogar uma pelada com bola de borracha na hora do recreio. O uniforme cáqui, até então imaculado, passou a chegar em casa sujo de poeira e, às vezes, de lama. Eram rachas nas quadras de cimento ou, quando estas já estavam ocupadas pelos alunos mais velhos, no campinho de areia lá junto do necrotério ou até mesmo nas pistas de terra laterais, destinadas ao atletismo.
                Depois do futebol, a merenda rápida na cantina da Dona Cremilda. Seus dois filhos, Jorge e Haroldo, então adolescentes, fui reencontrá-los anos depois. Jorge chegou a tentar a carreira de goleiro no Canto do Rio. Haroldo, fui revê-lo em 1984, apitando um jogo de futebol de salão, no qual um dos meus filhos participava, disputando o campeonato de Niterói e São Gonçalo pelo Canto do Rio. Não consegui me lembrar do nome da filha de Dona Cremilda, que também “pendurava” para nós uma coca-cola ou um sanduíche de mortadela. Ah! acho que lembrei: Norma...
               Minha mente continuava a divagar, recordando aquelas cenas marcantes dessa época tão querida de minha vida.
                Veio o segundo ano. Continuei na primeira turma, numa sala do segundo andar que dava para o pátio. Outros colegas, transferidos de outros colégios vieram fazer parte da mesma. O Aloysio (hoje juiz trabalhista), o Carlos Eduardo, o “Pavão”, por sua semelhança com o então zagueiro do Flamengo, ele que também era zagueiro e chegou a jogar no Canto do Rio. Veio também o Nélio, forte como um touro, excelente meio-de campo do futebol de praia jogado na LAFA, em Icaraí.
                 Naquele ano nossa inspetora foi Dª Coralina, doce e meiga com seus cabelos começando a embranquecer, sempre atenta a um pedido nosso, sempre disposta a nos ouvir. Além das matérias que já havíamos dado no primeiro ano, foi acrescido o Inglês, cujo professor era o Odilon.
                 Já agora totalmente entrosados com a rotina diária do colégio, travamos conhecimento com os outros alunos das demais turmas do segundo ano, e, na hora do recreio, marcávamos jogo contra eles, em qualquer quadra que estivesse vaga. Assim conheci o Waldo, Adalberto Abelha, Manuel Terrinha, Antonio Matheus, Albino, Jorge, Diomedes e muitos outros.
                Passei muito bem para o terceiro ano, já que naquele tempo era um dos melhores alunos. Continuei na primeira turma. Nossa sala, em 1955, era no segundo andar, mas na ala que dava para o Jardim de Infância, nos fundos do Liceu. Era uma sala destinada às aulas específicas de desenho, com mesas tipo prancheta, mas que fora adaptada para o currículo normal. O uniforme ainda era o mesmo, dólmã cáqui, gravata e braçadeiras azuis. Só que agora já eram três as listras.
                Não me lembrava muito bem do terceiro ano. Não me recordei se entrou ou saiu alguma matéria, se mudou um ou outro professor. Da. Jacira e Da. Anita sei que continuaram. Vieram mais alguns outros alunos transferidos, entre eles o Ivan Elias. Os outros continuavam os mesmos, aqueles que vinham juntos comigo desde o primeiro ano. Das outras turmas, conheci o Clélio, o Mário Cid e vários outros.
                O futebol, agora, era mais intensificado na hora do recreio e mesmo depois das aulas, nos campinhos de grama improvisados na pracinha que ficava em frente ao Liceu, tendo a Biblioteca como fundo. Retornava para casa suado, o uniforme todo sujo, minha mãe é quem sofria, coitada.
                Agora, no terceiro ano, éramos os veteranos do turno da tarde. Estreitei minha amizade com o Cidoca, o Gusmão e o Vinicius, passando uns a freqüentar a casa dos outros, ir ao cinema juntos, jogar futebol na praia de Icaraí.
                Bem, finalmente, concluímos a terceira série e, no ano seguinte, iríamos estudar no turno da manhã, junto com o pessoal do científico e clássico.
               Quando começamos o quarto ano ginasial, em 1956, uma novidade: as turmas foram divididas não mais pela notas obtidas no ano anterior e, sim, por ordem alfabética. Isso foi muito bom e era uma das características dos colégios públicos: entrosar todos os alunos, não importando a condição social ou econômica de cada um deles. Na mesma turma tínhamos alunos de todos os bairros de Niterói e São Gonçalo, originários de bairros ricos, de classe média ou pobre. Brancos, negros, amarelos, mestiços.
                  Apesar dos três anos já passados no colégio, sentimos um pouco quando fomos para o turno da manhã. Nós, que éramos os veteranos do turno da tarde no ano anterior, passamos a ser os mais novos do turno da manhã.
                 O pessoal do científico e clássico mantinha uma distância considerável da gente, parecia que eles estavam em outro mundo. Algumas meninas das nossas turmas suspiravam pelos rapazes mais velhos, alguns já com barba começando a nascer nos rostos. E, nós, os “meninos” do quarto ano, olhávamos com admiração para as belas pernas e os seios atraentes das alunas dos cursos acima do nosso.
                   Outra novidade: foi extinto o uniforme pesado do dólmã cáqui e gravata preta, substituído por uma camisa branca de mangas curtas, calça azul de brim, gravata azul e quatro listas nas mangas da camisa. Além do inigualável escudo no lado esquerdo, junto ao coração, com as letras LNP sobressaindo gravadas em alto relevo.
                    Mudaram quase todos os professores.
                    Matemática passou a ser dada pela jovem Therezinha Werneck, aliás irmã de um nosso colega de turma, o Francisco Roberto. Português, pelo professor Luiz Carlos. Francês, pela vistosa Dª Acyra. Michel Salim Saad, mais tarde deputado federal, no Latim. O professor Vieira continuou nos ensinando Geografia. História do Brasil entrou como matéria nova. Não me lembro quem era o professor ou professora. Desenho, acho que era o Mendel, não estou certo.
                     Nossa sala ficava agora no corredor que dava acesso à cantina. Nossa inspetora, magrinha e mirrada, foi Dª Edir, segundo me lembro.
                      Bem, agora com a mudança na constituição das turmas, vários outros alunos das demais classes vieram fazer parte da minha, que continuei na primeira por causa da ordem alfabética. Vieram o Antonio Matheus, que se tornou um dos meus melhores amigos até os dias de hoje; o Augusto Donadel, mais tarde excelente repórter da “Última Hora” e tragicamente assassinado no final dos anos 60; o Celso, o Mangelli e outros. Entre as meninas, a Carmem Regina, Amélia, Cyrene e outras cujos nomes não me recordo mais.
                   Naquele ano, a integração entre as turmas se intensificou. Foram organizadas excursões à Quinta da Boa Vista, Companhia Siderúrgica Nacional (em Volta Redonda), Petrópolis, com visitas à casa de Santos Dumont e Museu Imperial, ocasiões em que os alunos se conheceram melhor. Preparavam-se, também, as festividades para a formatura no final do ano, arrecadando-se dinheiro principalmente para o baile que, como era habitual, seria realizado no Clube de Regatas Icaraí.
                  Completava-se, assim, um primeiro ciclo de nossa vida estudantil. Vários daqueles alunos, que vinham na mesma turma desde o primeiro ano ginasial, iriam agora partir para outros destinos. Muitos dos rapazes iriam tentar a carreira militar, seja no Exército, Marinha ou Aeronáutica. Foi o caso do Lizardo, Marcos Honaiser, Luiz Antonio, Dráusio, Gusmão, Armandinho e alguns outros. Entre as moças, várias delas iriam para o Instituto de Educação cursar o normal, já que, naquele tempo, não era comum as mulheres cursarem faculdade. Era muito raro isso acontecer, sendo a carreira de professora primária a mais comum para elas.
                  Que pena, amizades que se consolidaram naqueles quatro anos iriam agora se desfazer, já que a distância iria nos separar.
                   Por isso, recebi com emoção o convite para comparecer à missa e ao almoço que iriam comemorar nossos cinqüenta anos de formatura no ginasial.
                   Separei algumas daquelas fotos amarelecidas pelo decurso do tempo, tirei algumas cópias no computador para mostrar a quem comparecesse nos dois acontecimentos.
                  Como estariam aqueles que, concluídas as festividades de formatura, nunca mais vi? Alguns prosseguiram comigo, no científico, outros continuaram no Liceu cursando o clássico, com poucos deles mantive o contato durante esses cinqüenta anos. Será se muitos compareceriam? Como teria sido a ação do tempo sobre suas fisionomias? Será se me reconheceriam, hoje que estou com vários quilos a mais e com muito cabelo de menos?
                   Ah! tempo, como és cruel!!! O que fazes com a gente!!!
                   Bem, deixei de refletir sobre o decurso do tempo e, na manhã seguinte, estava lá na igreja Porciúncula de Santana, em frente ao Campo de São Bento. A igreja estava cheia, repleta de fiéis habituais. Procurei um lugar vazio, sentando-me num banco no meio da multidão.
                   Com os olhos, tentei localizar algum ex-colega liceísta. Em vão, não reconheci ninguém. Antes de começar a missa, o Toninho Matheus, meu velho companheiro de quarto ano ginasial e hoje médico renomado, sentou-se ao meu lado. Também em vão procurou algum conhecido.
                   Só depois de começada a missa é que reconhecemos o Ronaldo, num banco do outro lado da igreja. Continuamos a procurar e não reconhecemos mais ninguém.
                   O padre mencionou que aquela missa era também celebrada em homenagem aos formandos de 1956, do Liceu Nilo Peçanha.
                   A cerimônia religiosa continuou bonita e emocionante. No final, o celebrante convidou os ex-liceístas para que comparecessem na frente da igreja, junto ao altar e comemorassem o acontecimento.
                   Eu e Toninho para lá nos dirigimos. Foi então que reconheci a Sanandá e o Armandinho. Mas, vários outros se abraçavam, cumprimentavam-se.
                  Quem eram? Só depois que dissemos nossos nomes é que soubemos quem éramos. O Antonio Barreto, o Carlos Roberto, o Luiz Antonio, o Marcos Paulista. Não consegui reconhecer ninguém, como acredito que eles também não me reconheceram.
                   No almoço, num restaurante em São Francisco, falei ainda com a Mariáurea, a Amélia, a Marilza, a Vanzer e a Tilda. Outros estavam presentes, mas, sinceramente, não os reconheci, nem pelos nomes.
                  Trocamos fotografias, soube que o Lizardo, a Maria Célia, a Regina Lúcia e a Regina Coeli haviam falecido. Relembramos os tempos felizes passados naquele casarão da Amaral Peixoto, mais tarde pintado de amarelo, como permanece até hoje.
                   Tempos alegres, sem os compromissos da vida adulta, em que nossa única obrigação era estudar. Coisa que aquele colégio nos ensinou a fazer muito bem. Se hoje a maioria de nós foi um vencedor na vida, muito devemos às exigências de Dona Jacira, ao rigor de Dona Anita, à doçura de Dona Estefânia, à paciência dos Professores Cousin e Vieira.
                  Certos momentos de nossa vida deveriam ser congelados no tempo e no espaço, para que ficassem perpetuados para sempre.
                   Os meus anos de Liceu seriam alguns deles.

quinta-feira, maio 03, 2007

Zuma: a vida e a bola.

Zuma: a vida e a bola.


Zuma, maior astro do vôlei brasileiro, salta para “enterrar” a cortada que pode definir a final das Olimpíadas de Pequim.
Naquele instante, corpo flutuando no ar, mão direita preparada para aplicar o golpe fatal, mil pensamentos povoam sua mente, um atrás do outro, numa seqüência que faz lembrar um filme de longa metragem rodado em câmara lenta.
Menino pobre, nascido e criado numa das favelas miseráveis do Rio de Janeiro, teve uma infância pouco feliz. Viu quando o pai abandonou a família, quando tinha ele apenas seis anos de idade. Foi testemunha do duro danado que sua mãe deu para criar os sete filhos deixados para trás pelo marido, lavando para fora desde o nascer até o pôr do sol. Presenciou, com tristeza, o envolvimento dos dois irmãos mais velhos com o tráfico de drogas no morro, acabando ambos mortos pela Polícia. Finalmente, revoltado, mas sem nada poder fazer, logo percebeu que duas de suas irmãs, também mais velhas que ele, acabaram se prostituindo, fazendo programas em Copacabana e em outros bairros ricos da cidade. Procuravam esconder esse fato da mãe, mas Zuma logo percebeu, estranhando os presentes que recebiam e o dinheiro que às vezes traziam para casa, sem explicar direito a origem.
Ele, como todos os irmãos, foi matriculado pela mãe no colégio público mais próximo da favela, onde chegou a concluir o primeiro grau. Queria continuar estudando, mas sua mãe insistia que era necessário que ele fosse trabalhar para ajudar nas despesas de casa.
Foi quando a sorte bateu à sua porta.
Aos quinze anos, apesar de muito magro, era bem alto, quase um metro e oitenta. Pela altura, foi convidado a fazer parte do time de vôlei do seu colégio, que, por ser escola pública, tinha poucas condições de oferecer um treinamento adequado. Mas, mal ou bem, o professor de educação física era dedicado e conseguiu formar uma equipe razoável.
Numa tarde de sábado, num jogo de campeonato estudantil, no Méier, foi observado por Benedito, técnico de voleibol do Botafogo, que ali fora prestigiar um amigo, que treinava o time adversário. Benedito ficou impressionado com a altura e a qualidade técnica já esboçada por Zuma, convidando-o para fazer um teste no clube.
Entusiasmado, contou à mãe o que ocorrera. Ela acabou por concordar, apesar de já estar esperando que ele conseguisse um emprego para ajudar nas despesas da casa. Impôs uma condição: que ele arranjasse um trabalho qualquer, nem que fosse de meio-expediente e levasse algum dinheiro no fim do mês.
Passou no teste e foi incorporado à equipe infantil do Botafogo. Procurou, procurou e acabou conseguindo um emprego de entregador de uma farmácia na Voluntários da Pátria (somente muito mais tarde veio a saber que o emprego fora conseguido por Benedito).
Sua rotina diária era exaustiva. Acordava às cinco da manhã, botava para dentro um café requentado e um pedaço de pão dormido e pegava o ônibus para chegar à farmácia. Trabalhava até o meio-dia e ia almoçar no Botafogo, que tinha um refeitório para os atletas. Aproveitava para bater uma bolinha no intervalo do almoço. Voltava para o trabalho, onde ficava até às cinco. Retornava ao clube três vezes por semana, quando ocorriam os treinos do time infantil. Nas noites livres, ia para o colégio noturno, pois Benedito só aceitava atletas que estivessem estudando.
Foi campeão infantil e juvenil pelo clube, sendo convocado para a seleção brasileira de jovens aos 17 anos. Foi também campeão sul-americano.
Quando completou 19 anos, já com um metro e noventa de altura, seu corpo agora era só músculos, bem diferente do menino esquálido que chegou ao clube alguns anos antes.
Recebeu uma proposta excelente para se transferir para o Minas Tênis Clube. Consultou Benedito que, sabendo que o Botafogo não teria condições de cobrir aquela proposta, concordou com sua saída do clube.
Lá em Belo Horizonte tornou-se logo uma das estrelas da equipe. Agora, ganhando bem, alugou um apartamento que passou a dividir com um colega de time. Alimentava-se bem, vestia-se com apuro. E, finalmente, conseguiu realizar o sonho que acalentava já há algum tempo: comprou uma casa modesta mas confortável para a mãe e irmãos, no Méier. Dona Laurinda não cabia em si de contentamento quando se mudou, deixando para trás a violência, o tráfico de drogas e a miséria da favela.
Então, aconteceu também outra coisa pela qual esperava com ansiedade: a primeira convocação para a seleção brasileira adulta de vôlei.
Quando se apresentou na concentração, uma fazenda agradável nos arredores de Curitiba, estava um pouco nervoso, um pouco tímido. Mas, os demais jogadores logo o deixaram à vontade, procurando fazer com que se enturmasse rapidamente.
Na primeira noite de concentração, Louro, então o capitão da equipe brasileira, com ar sério, sentado ao seu lado na mesa do jantar, disse-lhe que o técnico era muito rigoroso e exigia que, a cada manhã, um dos jogadores acordasse mais cedo e fosse até o pátio externo e hasteasse a bandeira do Brasil. E, mais: depois de hasteá-la, o jogador teria que ficar em posição de sentido ao lado do mastro, aguardando que os outros atletas acordassem e fossem todos cantar o hino nacional. Era para exaltar o patriotismo, dizia o técnico.
Louro disse a Zuma, que por ser ele o mais novo da equipe, ficaria encarregado de hastear a bandeira na manhã seguinte, já que todos os outros jogadores já haviam passado por aquele ritual.
Zuma concordou e às cinco da manhã seguinte, com apenas um agasalho sobre as costas, estava no pátio hasteando a bandeira. Ficou em posição de sentido ao lado do pavilhão nacional, aguardando que os outros acordassem.
Por volta das sete, o técnico da equipe passava por um corredor externo, dirigindo-se ao refeitório, onde iria tomar o café da manhã. Vendo Zuma tiritando de frio (a temperatura devia estar por volta dos 6 graus), indagou o motivo de sua presença ali. Zuma, respeitosamente, respondeu que estava aguardando que os demais jogadores acordassem para entoar o hino nacional.
O técnico riu gostosamente, dizendo-lhe que se tratava de um trote dos veteranos. Zuma ficou encabulado, sem graça e puto da vida. Na mesa do café da manhã, cara amarrada, Louro ainda teve a cara de pau de perguntar-lhe se ele tinha dormido bem. Além de ter que agüentar a gozação dos demais membros da delegação.
Mas, logo se enturmou e realizou outro dos seus sonhos: viajar para o exterior. Conheceu a Europa, a Ásia, a Oceania. Visitou vários países, conviveu com outros povos, outras culturas.
Nesses anos de viagens quase contínuas, foi campeão do mundo e da Liga Mundial (2 vezes).
Agora, estava disputando os Jogos Olímpicos. Como as coisas se passaram tão rapidamente em sua vida! Do menino pobre de favela até pouco tempo atrás a astro do vôlei mundial...
A equipe brasileira, magnífica, vinha passando como um rolo compressor sobre seus adversários. Quartas, semifinal e, agora, a final contra a Rússia, adversário ferrenho dos últimos anos.
Jogo disputado palmo, ponto a ponto.
Primeiro set, Brasil 25 a 23.
Segundo set, Rússia 39 a 37.
O terceiro, Brasil, 25 a 23.
Quarto, Rússia 32 a 30.
As duas equipes descansaram por alguns minutos, tentando recuperar-se do desgaste sofrido nos sets anteriores. Os dois técnicos, histéricos, gritavam ordens e instruções aos jogadores que mal conseguiam ouvir o que era dito.
Voltaram para a quadra, cansados, suando em bicas, beirando à exaustão. O tie-brake começou emocionante. Os pontos eram disputados com ardor, um a um. Chegaram ao empate em 12. O Brasil consegue abrir 14 a 12. Estava a um ponto da vitória. Mas, a Rússia não se entrega, briga até o fim. Marca mais um, diminuindo a diferença para 14 a 13.
O saque é da Rússia. A bola voa alta, atravessando a rede e caindo do lado brasileiro. O líbero a recebe com dificuldade, dando um passe para o meio da rede. O levantador, mãos de seda, como se estivesse tratando a bola como a coisa mais preciosa da vida, toca-a de leve com a ponta dos dedos, levantando-a para a ponta esquerda da rede.
Zuma, qual um pássaro gigante, alça o vôo magnífico, atingindo uma altura inimaginável. Suas joelhos se flexionam, empurrando as duas pernas para trás. No ar, levanta o braço direito e prepara a mão para a cortada mortal.
Naquele segundo mágico, que realmente deveria ser congelado para ficar perpetuado no tempo e no espaço, sua vida toda passou por sua mente, como um filme de longa metragem rodando em baixa rotação.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

MORREU PIPICO...

   

 

MORREU PIPICO...

Calfilho






           Nunca foi de falar alto, botar para fora o que sua alma sentia...
         Sempre quieto, silencioso, quase escondido num canto qualquer, fosse qual fosse o lugar onde se encontrasse: uma solenidade, uma festa, ou um boteco esquecido da cidade...
          Advogado de mão cheia, mestre do Direito... Entretanto, não gostava de falar muito, não seguiu o exemplo dos grande oradores. Preferia o silêncio de um local calmo, tranquilo, onde colocava no papel todo o repertório de seus vastos conhecimentos jurídicos.
          Ainda jovem, acadêmico de Direito, juntou-se ao nosso grupo de ex-liceístas, no futebol disputado nas manhãs de sábado na Praia de Icaraí. Levado pelo irmão mais novo, integrou-se rapidamente à turma. Sempre com aquele seu modo típico de ser: quieto, calado, falando pouco e ouvindo muito.
           Futebol, não era seu ponto forte. Entrava quase sempre no segundo tempo de nossas peladas, ou no time reserva. Por isso, ponta-direita como o irmão “expert” na posição, que era titular absoluto do time da praia, conformava-se docilmente com a reserva.
            Mas, às vezes, dava umas investidas surpreendentes pela ponta, levando perigo à meta adversária, quando não convertia em gol alguma daquelas suas esporádicas escapadas.
               Daí, recebeu logo o apelido carinhoso de “Pipico”, então ponta-direita do Fluminense daquele início da década de 60. O verdadeiro, como ele, também era jogador de altos e baixos: ora se encolhia na ponta, esperando a bola chegar-lhe aos pés; outras vezes com ela dominada, insurgia surpreendentemente em arrancadas velozes e fulminantes em direção ao gol adversário.
             O apelido pegou e foi sua marca registrada durante aqueles doces anos descompromissados de peladas na areia, chopes na Gruta ou no Lucio’s. De vez em quando, um zagueiro ou um meio de campo irritado lançava-lhe uma bola, muitas vezes um passe mal feito e ainda reclamava:
        – Corre, Pipico, não fica chupando o sangue aí na ponta.
         Ele somente resmungava alguma coisa em voz baixa, palavras que ninguém conseguia entender. Mas, educado que era, não rebatia a ofensa.
          Assim era Pipico.
          Alguns anos mais tarde, nossos caminhos novamente se cruzaram.
          Já formados, iniciávamos nossa luta pela busca de um lugar ao sol na difícil carreira do Direito. Ele, formado antes de mim, já advogava aqui e ali, buscando seu espaço entre os advogados de Niterói. Eu, que tinha emprego fixo, começava a dar os primeiros passos na carreira.                
             Reencontramo-nos num botequim qualquer da cidade (acho que foi o Riviera) e decidimos estudar juntos para um concurso público na nossa área profissional.
             Foi ele de grande ajuda para mim, passando-me sua já adquirida experiência, eu, recém-formado e tendo passado dois anos no interior do Estado, como funcionário de banco estatal.
            Com outro amigo comum, que nos emprestou o escritório, íamos os dois, depois de um dia cansativo de trabalho, estudar até às dez, onze da noite.
            Fizemos juntos os concursos para Promotor de Justiça em São Paulo e aqui no Estado. Juntos também nos inscrevemos para o concurso de Juiz de Direito na antiga Guanabara e foi ele um dos meus maiores incentivadores.       Estudávamos até a madrugada, dia após dia, noite após noite, eu, Pipico e outros jovens advogados, felizmente quase todos aprovados em concursos públicos.
            Perdemos o contato durante alguns anos, só esporadicamente nos víamos. Falávamo-nos, às vezes, pelo telefone...
            Como é massacrante e cruel o tempo em que vivemos... Corre-se para lá e para cá, escravos do nosso trabalho, acabamos esquecendo dos amigos e até da família... Será se tudo isso é válido?
            Fiquei muito contente quando nosso grupo de praia se reencontrou e iniciamos o atual ciclo de congraçamento trimestral. Voltei a encontrar Pipico, autor da frase “Abriram as portas do asilo”, quando de nosso primeiro reencontro, ainda na Praia de Icaraí.
            Passados mais de quarenta anos...
            A alegria era a mesma, a satisfação de estarmos juntos novamente... Parecia que o tempo não havia passado...
            Pipico, sempre no seu canto, um pouco mais envelhecido, mas com a mesma discrição de outrora. Falando pouco, palavras silenciosas, quase ininteligíveis, só conseguidas serem ouvidas por aqueles que estavam ao seu lado.
            Alegre, feliz, por reencontrar a alegria do seu passado...
             Num dia triste e infeliz de fevereiro deste ano, sem alarde, sem dizer nada a ninguém, Pipico se foi...
            Discreto, sem alarido, como o passarinho que sempre foi...
            Que pena...

terça-feira, fevereiro 20, 2007

LICEU NILO PEÇANHA...





LICEU NILO PEÇANHA...

Calfilho





                 A imagem do grande prédio cor de rosa, quase no final da Amaral Peixoto, realmente impressionava. Imponente, grandioso, ao lado da Assembléia Legislativa, em frente à pracinha onde existiam estátuas de soldados e cavalos em bronze. Ao fundo, a Biblioteca de Niterói.
                 A avenida Amaral Peixoto, que começava na estação das Barcas e ia até a Marquês de Paraná, ainda tinha poucos edifícios, a mão de trânsito era dupla, naquele começo de 1953. Muitos terrenos vazios, um ar de cidade interiorana, os bondes fazendo o ponto final junto à antiga estação da Cantareira. Paralela a ela, a rua da Conceição, com o comércio intenso em seu começo, casas residenciais na sua parte final, quando mudava de nome para Dr. Celestino.
                Nervoso, recém-concluído o primário no Getúlio Vargas, lá em São Domingos, preparava-se para a prova de fogo: o exame de admissão no Liceu, tido como o melhor colégio do Estado do Rio. Tímido, temeroso, calças curtas, cabelo liso com franja na testa, o pai foi levá-lo até o imponente edifício, dar-lhe uma força, encorajá-lo. Centenas de candidatos do lado de fora, todos com o mesmo ar nervoso nos rostos, feições amedrontadas.
                 A prova foi difícil, cheia de palavras desconhecidas (“a lua fulgia no céu”, era uma delas), mas achava que dava para passar. Sua professora do primário, Dª. Gilda, sua maior incentivadora, disse-lhe que fora muito bem, não deveria ficar preocupado.
                Quinze dias depois, o resultado: aprovado. E, muito bem colocado, quinto lugar. Outros colegas seus do Getúlio Vargas também passaram: Carolina, Neuza, Harald, Lizardo, Gilberto. “Que bom, pelo menos teria gente conhecida no novo ambiente”.
                 Um mês e meio depois, o início das aulas. O medo do trote, o receio do desconhecido. Novos colegas, novo ambiente. Pela classificação obtida no admissão, foi colocado na primeira turma, entre as cinco do primeiro ano ginasial.
                Agora, uniforme novo: dólmã cáqui, calça comprida, gravata preta.
                 Formadas no pátio, turma por turma, as três séries do turno da tarde, cantavam o Hino Nacional, assistiam a bandeira ser hasteada e iam para as salas de aula. Onze matérias, onze professores diferentes, em vez da professora única do primário, que lecionava português, matemática, ciências e conhecimentos gerais.
                 O medo que Dª. Jacira, professora de português, causava nos alunos; o Padre Carneiro, professor de latim (nem sabia que padre dava aula, pensava que fosse só o catecismo); Dª. Anita, também rigorosa em matemática; Dª. Estefânia, com seus doces cabelos brancos, ensinava francês.
                 Só levou um trote, do Jorge Chocolate, aluno do segundo ano, que o mandou medir um banco de cimento com um palitinho de fósforo. Teve mais sorte que outros, que tiveram o rosto pintado, obrigados a fazer declaração de amor para as meninas, alguns mesmo choraram com as situações ridículas em que foram colocados.
                Conheceu gente nova: Sivoca, Vinícius, Gusmão, Jorginho, Armando, Célio Aquino. Gilberto, Harald, Lizardo, Carolina e Neuza, todos também bem colocados no admissão, ficaram na sua sala.
                 Depois das primeiras semanas, já enturmado, participava dos rachas na hora do recreio no campinho de cimento da quadra de vôlei, ou quando estavam todas ocupadas, no campinho de terra lá do fundo, junto ao necrotério.
                  O diretor, misto de educador e deputado estadual, estava sempre presente na hora da entrada, presenciando o hasteamento da bandeira e conferindo se o Hino Nacional estava sendo bem cantado.
                  O primeiro ano passou sem novidades, estudava muito, sempre um dos primeiros da classe. Foi aprovado para o segundo.
                 Nos segundo e terceiro anos, a rotina de estudos puxados continuou, entrou mais o inglês como matéria obrigatória. Português, matemática, francês, inglês, latim, desenho, canto orfeônico, geografia, história geral, educação física, trabalhos manuais. Ali, sua formação cultural se solidificava, consolidava-se naquele que era considerado o melhor colégio de Niterói e do Estado, equivalente ao Pedro II, no Rio. Começou a perceber isso quando ouvia comparações com os outros estabelecimentos de ensino da antiga capital fluminense, o José Clemente, Bittencourt Silva, Batista, Plínio Leite, Salesianos, São Vicente de Paulo, Colégio Brasil, Nossa Senhora das Mercês, considerados de nível bem inferior ao Liceu. Este, colégio público, onde estudavam alunos de todas as classes sociais da cidade, era considerado padrão de ensino pela qualidade excepcional do seu corpo de professores. Era visto como o orgulho do ensino público do Estado e, principalmente, como símbolo da democracia escolar. Era freqüentado por jovens de todos os bairros da cidade, os ricos e os pobres: Icaraí, Ingá, Barreto, Fonseca, Engenhoca, São Domingos e mesmo aqueles da vizinha São Gonçalo, como Neves, Barro Vermelho, Porto da Pedra, Alcântara, etc... Nele, não se percebia distinção de classes, eram todos iguais em busca do melhor ensino da região, sem qualquer preconceito de cor, raça, condição social ou financeira.
                   Sem perceber, foi-se prendendo mais e mais às coisas do colégio. Tinha prazer em ir para as aulas, conviver com seus colegas, participar de suas atividades, até mesmo ser exigido por Dª. Jacira nas aulas de português ou por Carias, terror da matemática. Morava no início da Amaral Peixoto, passou a ir para o Liceu de bicicleta, o que era considerado um sinal de status perante os colegas.
                    Tinha orgulho em ser liceísta. Disfarçadamente, era admirado por outros colegas da rua, da praia, do futebol, que sentiam uma pontinha de inveja por não terem conseguido passar no admissão para o colégio padrão de Niterói.
                    Aos 13 anos, no final de 1955, terminava o terceiro ano, sempre na primeira turma, aquela considerada como a dos CDFs. Encerrava, assim, o seu ciclo no turno da tarde, o uso do uniforme cáqui, a gravata preta, o dólmã com punhos azuis, que chegava em casa invariavelmente sujo de terra e poeira, após a pelada jogada na pista de terra do colégio.
                   Era a época da transição da infância que ficava para trás e a adolescência que agora começava, quando iria completar 14 anos de idade.

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                    Turno da manhã, o sonho dos alunos que estudavam à tarde. Ali iriam conviver com alunos mais velhos, do último ano do ginásio e os do cientifico e clássico, alguns já com barba começando a nascer nos rostos.
Houve modificação na forma de organizar as turmas que, em vez de ser pelas notas alcançadas no ano anterior, passou a ser por ordem alfabética. Passou a conhecer e conviver com alunos que vieram de outras turmas, como o Antonio, o Celso, o Augusto Cesar, a Cirene (neta do prefeito), a Bety Lee. Gente nova, outras mentalidades, outras origens de vida.
                   O uniforme também mudou. Em vez do pesado dólmã cáqui, uma calça azul de brim, uma camisa branca e uma gravata azul. Preso na gravata um escudo em forma de losango em azul e branco, em metal esmaltado com as letras LNP. Já era um veterano.
                 Sentia-se, agora, realmente, parte integrante do colégio. Começava a participar seriamente das atividades esportivas, excursões de futebol, plenamente integrado ao colégio que já amava, mesmo sem ter muita consciência disso.
                  O diretor já era outro, o Prof. Nilo, homem bom, amigo dos alunos, que tinha um filho que terminava o científico. Naquele tempo, então com 14 anos, ia assistir os jogos disputados pelo colégio, principalmente o futebol e o basquete, nas competições intercolegiais contra o Plínio Leite, Salesianos, Bittencourt Silva.
                  Já freqüentava, juntamente com o Antonio e o Lizardo, o clube Canto do Rio, onde praticavam vários esportes, como futebol de salão, basquete, tênis de mesa. Na época do Carnaval, não perdiam um baile, tanto os noturnos como as matinês. Tinha também o cineminha das terças-feiras, no salão de baile do clube.
                  Foi então que o Sivoca, que vinha na mesma turma que ele desde o primeiro ano, cismou de fazer uma gracinha:
                  -- Olha o mais novo casalzinho da turma: Marquinhos e Bety Lee. Foram feitos um para o outro.
                  Nem conhecia a menina, que estava vindo para aquela turma porque seu nome começava com a letra B e, naquele ano, as turmas foram divididas por ordem alfabética. Sentava na mesma fileira que ele, umas cinco carteiras mais à frente. Foi então que, após a brincadeira do Sivoca, passou a reparar nela. Moreninha bonitinha, olhos negros, baixinha, franjinha na testa, parecia uma indiazinha do clube do Curumim (programa da antiga TV Tupi). Ele ficou encabulado com a brincadeira, ela também. Mas, não deixaram de trocar um olhar de curiosidade, como se tivesse sido despertada neles dois uma prematura centelha de amor adolescente.
                    Era, entretanto, muito tímido, tinha medo de dela se aproximar, dar corda à brincadeira do Sivoca. Mas, notou que ela, também muito retraída, não era totalmente indiferente aos olhares esquivos que conseguiam trocar. Aos poucos, foi ficando atraído pela menina, procurava estar sempre perto de onde ela estava, exibia-se para ela junto aos colegas, procurando demonstrar ser um elemento importante do grupo.
                    Um dia, tomou coragem.
                    Depois das aulas, desceram vários deles a Amaral Peixoto em direção às Barcas, onde alguns pegariam o bonde para as respectivas casas. Ele e ela faziam parte do grupo. Quando chegaram em frente à estação da Cantareira, o grupo se dispersou e ela pegou o bonde para a Ponta d’Areia, bairro onde residia. Ele esperou que o mesmo fizesse a volta na Praça Araribóia e, quando ele chegou ao outro lado, em frente ao café Santa Cruz, subiu no estribo do veículo, sentando-se ao seu lado.
                   Perguntou, as palavras saindo-lhe da boca aos borbotões, atropelando-se umas às outras:
                    -- Bety Lee, começou tudo com aquela brincadeira do Sivoca, mas agora acho que estou gostando de você. Quem sabe a gente pode namorar?
                     Ela, muito nervosa, sem levantar os olhos:
                     -- Não, não posso, meu pai não vai deixar. Ele acha que ainda sou muito nova.
                      -- Mas, você gosta um pouquinho de mim? – perguntou ele.
                      -- Gosto sim, mas meu pai não vai deixar.
                     Era a primeira vez que falavam um com o outro. No colégio, tendo em vista a gozação dos colegas, nunca se falaram. Ele desceu do bonde mais adiante, dando por encerrada essa primeira tentativa de aproximação. Entendeu que a resposta que ela lhe deu não significava uma rejeição ao seu pedido de namoro. Quem sabe, um “talvez”...
                    Daí para frente, acreditando ser correspondido em seus sentimentos, não mais tirou a garota da cabeça. Ela matriculou-se num curso de reforço de matemática, o Riachuelo, lá na rua Andrade Neves. Para estar perto dela, convenceu a mãe a também matriculá-lo no referido curso, mesmo estando muito bem na matéria. Nos intervalos das aulas, jogavam vôlei com os demais alunos, participavam das atividades recreativas. Mas, não trocaram nem mais uma palavra, com vergonha da gozação dos outros.
                Através do Celso, colega do Liceu e que também estudava nesse curso de matemática, mandou-lhe alguns bilhetinhos. Ela não respondeu.
                Ficou com raiva do pai dela, que seria o obstáculo ao namoro dos dois. Para vingar-se dele, foi até sua loja, uma joalheria na Visconde de Uruguai e comprou uma aliança de noivado, mandando gravar o nome dela.  O pai da moça olhou desconfiado para aquele garoto de 14 anos, cara começando a ganhar espinhas, olhar inocente, cheio de empolgação.
                Perguntou:
                -- Mas, você não é muito novo para ficar noivo?
                -- É que eu gosto muito dela e ela de mim. A gente vai ficar noivo só pra nós dois, é um compromisso entre nós. Quando a gente crescer um pouco mais, aí vai ser de verdade.
                O joalheiro resmungou baixinho:
                -- Só espero que não seja a minha Bety Lee...
                “Como se existissem muitas Bety Lees no mundo...”.
               A paixão passou a consumi-lo. Só pensava na menina, não estudava mais direito, só ela povoava seus pensamentos.
                Certo dia, escreveu um bilhetinho para ela e o guardou dentro de sua mala de cadernos e livros, deixando-a sobre sua carteira quando foram para o recreio. Ia pedir ao Celso para que o entregasse no fim das aulas.
                Quando voltaram do recreio, o Gusmão, que sentava na sua frente, disse-lhe:
                 -- Gostei do bilhete. É isso mesmo, dá um duro nela p’ra ver se ela se decide.
               Aquilo o aborreceu profundamente. Tivera sua privacidade invadida, seus segredos mais íntimos violados.
                Gritou com Gusmão:
                -- Porra, quem te deu autorização pra mexer nas minhas coisas? Eu por acaso mexo nas tuas?
                E, como era costume naquela época:
                -- Depois da aula, te espero na pracinha. Vou te encher tua cara de porrada.
               E, realmente, depois das aulas, por volta do meio-dia, os dois foram brigar na pracinha. Juntou bastante gente para assistir, mas a briga nem começou. Os mais velhos interferiram, impediram que os dois brigassem. E, aí a amizade que tinha com o Gusmão ficou estremecida, amizade que vinha desde o primeiro ano.
               No fim daquele ano, terminado o ginasial, festa e baile de formatura, o golpe final na paixão prematura: ela foi para o Instituto de Educação fazer o normal, ele continuou no Liceu para cursar o científico. Separaram-se, viam-se muito raramente, o amor juvenil foi ficando esquecido nas sombras do passado.
                A aliança de ouro, não se lembra o que foi feito dela.

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                Primeiro ano científico.
                Matérias novas, outras antigas. Química, Física, Biologia, História do Brasil, Português, Matemática, Geografia, Desenho, Inglês, Espanhol.
                Terminado o ginasial, vários colegas deixaram o Liceu, seguindo a carreira militar: Marinha, Exército, Aeronáutica. Foi o caso do Lizardo, Marcos, Gusmão, Armando, Dráusio e outros.
                De outros colégios, vieram alunos transferidos: o Campista, o João Carlos, o Carlinhos Borbola, a Vânia, a Ilka. E havia alguns repetentes, como o Izapuam, o Estoniano, o Telúrio. Da época do ginasial permaneceram o Sivoca, Vinicius, Regina Coeli, Maria Célia, e mais alguns outros. O Antonio, com quem fizera grande amizade no quarto ano ginasial, foi estudar no turno da noite, pois precisou ir trabalhar para ajudar a família. Mas, continuaram a amizade, mantendo estreito contato diário.
                 No começo desse ano, 1957, no mês de fevereiro, fez uma viagem à Europa com toda a família. No princípio não queria ir, ainda com esperanças de uma aproximação com Bety Lee. Seus pais se desesperaram, ameaçaram expulsá-lo de casa, só a muito custo concordou em viajar. Antonio, fiel escudeiro, foi levá-lo até o embarque do navio, na Praça Mauá. Visitou Itália, França e Inglaterra, voltando no início de abril, com as aulas já começadas.
                  A viagem parece que o curou da paixão pela menina, pelo menos não pensava mais tanto nela. Voltava-se agora para o seu Liceu, onde iniciava seu processo de afirmação junto aos demais alunos. Voltou a praticar futebol e tênis de mesa com toda intensidade, disputou os Jogos Infantis pelo Canto do Rio, aceitou o convite que lhe fizeram para fazer parte do Grêmio Cultural Nilo Peçanha.
                  Nesse meio tempo, o colégio teve alguns diretores temporários, como a temida Professora Jacira, o não menos amedrontador Professor Carias e, finalmente o Professor Aldo, que já tinha sido diretor no final da década de 40 e que deixara atrás de si uma fama de severo, rigoroso, disciplinador. O prédio também foi todo pintado de amarelo.
                Ah! grande novidade... Marquinhos ganhou de presente de aniversário uma Gulivete, bicicleta motorizada, passando a ir com ela diariamente para o colégio. Vinícius também já tinha uma e Guido, aluno de uma série inferior, uma lambreta. Eram os símbolos maiores da mocidade daqueles anos. Os três usavam blusões tipo James Dean, herói da juventude transviada americana.
                 Mas, não usavam aquilo tudo para fazer pose para as meninas. Era só uma forma de afirmação, de demonstrar poder, de se exibir. Os três nem tinham namorada.
                 A nova diretoria do Grêmio decidiu revolucionar a instituição, dando prioridade aos esportes e lazer dos alunos. Até ali, o órgão representativo dos alunos era meramente decorativo, morto, sem qualquer atividade digna de nota.
                 Construíram balizas de futebol de salão, foi organizado um mutirão dos alunos para a pintura das mesmas, num sábado à tarde. A cor amarela foi algo que chamou a atenção, por ser diferente das usuais, geralmente em branco. Redes e bolas foram compradas, foi organizado um campeonato interno entre as diversas séries. Um sucesso!!!
                  Junto com Izapuam, passou a apresentar diariamente, na hora do recreio, nos turnos da manhã e tarde, “A Hora do Grêmio”, onde eram abertas as “janelas da Broadway”, ou seja, as janelas de uma pequena sala que dava para o pátio. Ali eram noticiados os fatos relevantes da programação gremista, aniversários, recados de namorados, tocando-se discos em 78 rotações dos sucessos da época. Elvis Presley, The Platters, Neil Sedaka, alguns sambas. Aquela era a época da febre do rockn’roll, o auge dos cantores americanos. “Only you”, “Tutti frutti” e “My Prayer” eram as músicas mais tocadas. A bossa nova ainda não havia estourado. O programa logo se tornou um sucesso, tornando mais alegre e divertido o recreio dos liceístas. O turno da tarde, então, o adorava, chegando a reclamar quando, por acaso, um dos dois apresentadores não podia voltar na parte da tarde para produzi-lo.
                  Organizaram-se bailes na casa de alunos, cobrando-se o ingresso e a bebida, visando angariar fundos para comprar uniformes de jogos, material esportivo.
                 Em pouco tempo, já tinha o Grêmio o uniforme amarelo ouro e azul, destinado ao futebol, basquete e vôlei. Essas cores se tornaram um símbolo do Liceu, quase obscurecendo a cor oficial do uniforme, que era o azul e branco.
                Foi feito um convênio com a FESN (FEDERAÇÃO DOS ESTUDANTES SECUNDÁRIOS DE NITERÓI), passando o Grêmio a vender os passes estudantis para o trolley, que já substituíra o bonde na Zona Sul da cidade. Ficou facilitada, assim, a vida dos liceístas, que ali mesmo, no seu colégio, poderiam comprar os passes, sem necessidade de deslocamento até a sede da FESN, lá no Rink...
                 Com toda essa atividade, seu aproveitamento escolar caiu radicalmente. Quase foi reprovado no primeiro ano do científico, já que, inclusive, perdeu um mês de provas em virtude de sua viagem à Europa. Mas, passou.
                  O segundo ano trouxe para sua sala de aula um aluno novo, transferido de uma escola particular.
                  Descendente de israelitas, baixinho, forte, voz nasalada, Sérgio era muito folgado.
                  Logo no primeiro dia de aula, os alunos costumavam marcar as respectivas carteiras, deixando ali seus livros e cadernos, saindo depois para o pátio, antes que tocasse o sinal para a primeira aula.
                 Quando entrou na sala junto com os demais alunos, todos já conhecidos de muito tempo, Marquinhos verificou que seu material não estava na carteira que escolhera, tendo ido parar numa outra, lá no fundo da sala. No lugar escolhido anteriormente já estava sentado um novo aluno, desconhecido.
                 -- Ei, meu chapa, esse lugar é meu -- disse Marquinhos.
                 O outro o olhou de cima a baixo, ar desafiador. Perguntou, com voz estridente:
                 -- Por quê? Tem seu nome gravado nele?
                 Aquela atitude agressiva, aliada ao tom de voz estridente, quase irônico, irritou Marquinhos. Arrancou o material do calouro de cima da carteira e colocou-o em outra, mais atrás.
                 -- Agora, faz favor de sair daí. Antigüidade é posto, meu camaradinha.
                  O outro ainda tentou argumentar, mas vendo o olhar de censura dos demais alunos, levantou-se e foi sentar lá no fundo da sala, resmungando baixinho. Esse o primeiro contato de Sérgio com a classe.
                  Depois, quebrado o gelo dos primeiros dias, passou a andar mais com Izapuam e Marquinhos, entrosando-se rapidamente com o resto da turma. Tinha sérios problemas de família e só com os dois novos amigos é que conseguia se abrir, desabafar.
                As atividades do Grêmio multiplicavam-se, ganhavam em intensidade. Eram competições internas, os sábados, agora, enchiam o colégio com as acirradas disputas de futebol de salão, basquete e vôlei. Torcidas organizadas de cada série, movimento de alunos pra lá e pra cá, pipoqueiro e sorveteiro faturando um extra de fim de semana, namoros, enfim, o congraçamento da família liceísta.
               A princípio, o severo diretor não queria permitir a abertura do colégio aos sábados.
               -- Não, não posso permitir. Quem vai ficar responsável pela abertura e fechamento do colégio, vestiários, etc...?
                Jorge, o presidente do Grêmio, argumentou:
                -- Mas, professor Aldo, isso é uma forma de prender mais o aluno ao colégio, de fazer com que sinta mais amor por ele. Sair da rotina de vir aqui só pela obrigação de assistir as aulas, cumprir o seu dever escolar...
                -- Mas, quem vai ficar responsável por tudo?
                -- Nós já falamos com o “seu” Azer, ele concordou em vir para abrir e fechar as coisas. E nós, do Grêmio, seremos os responsáveis por tudo.
                O velho diretor coçou os cabelos grisalhos, relutou um pouco, mas acabou concordando.
                Azer era uma figura extraordinária.
               Mulato alto, ventre volumoso, quase cinqüenta anos, cabeça grande, cabelos crespos começando a ficar grisalhos, mancha de vitiligo no rosto, era o zelador chefe do colégio. Fisionomia séria, não era de muito rir. Tinha a seu cargo a guarda dos vestiários e do material de educação física da escola.
               Depois que começaram a fazer “A Hora do Grêmio”, logo que tocava a sirene do recreio, Izapuam ou Marquinhos com ele apanhavam as chaves da salinha que dava para o pátio e onde ficava a aparelhagem de som.
                – Azer Ribeiro, me dá o seu chaveiro – costumavam pedir, numa rima improvisada.
                 E lá ia ele abrir a porta da sala.
               Aos sábados, passou também a ir ao colégio para abrir os vestiários, verificar os cadeados dos portões, enfim, zelar pela segurança da escola. O pessoal do Grêmio fazia uma vaquinha, dava-lhe uns trocados, convidava-o para uma cerveja num dos vários botequins perto do colégio.
               E ele foi-se prendendo aos rapazes, deles tornou-se amigo, convidava-os a visitá-lo em sua casa modesta, lá em São Gonçalo, no Encruzo do Maricá.
               Mas, o ponto alto de Azer era o desfile de Sete de Setembro. Ali se sentia realmente realizado.
               Era o responsável pela organização e harmonia da bateria do colégio. Começava os ensaios no final de julho, primeiro na quadra de basquete, depois na pista de atletismo e depois, nas ruas que circundavam o Liceu.
               Havia algumas figuras tradicionais que compunham a bateria, como o Aluisio, moreno alto, magro, que era eximo tocador de tarol e que, mesmo tendo deixado o Liceu em 1956, era chamado todo ano por Azer para tocar na bateria. No bumbo, o Estoniano, louro, filho de imigrantes europeus, dois metros de altura, responsável pela marcação.
                E, depois de exaustivamente ensaiados, chegado o grande dia, aguardavam com ansiedade a hora de desfilar, na concentração do Jardim São João.
                O Liceu, geralmente, era o último a entrar na Amaral Peixoto. Saíam do Jardim São João, desciam a rua do mesmo nome, dobrando à esquerda na Visconde do Rio Branco, a rua da praia.
                 Finalmente, com a platéia já aplaudindo, entravam garbosamente na larga avenida, a Amaral Peixoto. Antes, já haviam desfilado o Plínio Leite, o Batista, o Bittencourt Silva, o José Clemente e o Salesianos, o grande rival, com sua afinada banda de instrumentos de sopro.
               A multidão ficava dos dois lados da avenida aplaudindo a passagem dos estudantes, vestidos impecavelmente nos trajes de gala dos respectivos colégios.
                –Esse ano o Salesianos vai ganhar. Viu só a beleza da banda? – diziam uns.
                –Que nada, espera o Liceu passar, aí você vai ver o que é desfile – replicavam outros.
               E, realmente, quando as duas Gulivetes do Vinícius e do Marquinhos surgiam evoluindo, fazendo o oito no início da avenida, junto da estação das Barcas, seguidos do Izapuam e da Celinha, uniformes azul e branco limpinhos, luvas brancas empunhando e agitando as grandes bandeiras azuis com as letras L N P no centro, depois a força do tarol do Aluísio e do bumbo do Estoniano comandando o resto da bateria, a multidão entrava em delírio. Todos aplaudiam, atiravam papel picado e serpentina das janelas dos edifícios, era finalmente o Liceu que acabara de entrar na avenida. Quase quinhentos alunos dos turnos da manhã e da tarde, em marcha cadenciada, disciplinada, parecendo um corpo só que cantava:

“Liceu, caminhemos a cantar,
“Para frente, sempre, sempre avante,
“Liceu, patrimônio a resguardar,
“É o orgulho do bom estudante”.

                  E depois, o grito de guerra, todos cantando juntos, forte, bem alto para que toda a avenida ouvisse:
LI-CEU... LI-CEU... LI-CEU!!!
                 E Azer Ribeiro, feliz, com o apito na boca, luvas brancas naquele seu grande dia de gala, à frente da bateria, marcando o compasso das batidas das caixas, surdos e taróis. Não tínhamos o luxo dos instrumentos de sopro, colégio público que éramos, mas tínhamos uma garra difícil de ser vencida.
                Divulgado o resultado do concurso da Prefeitura, mais uma vez Liceu campeão...


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                  O aproveitamento escolar é que continuava descendo ladeira abaixo. Aquele aluno exemplar, sempre com excelentes notas do ginasial, deu lugar a um estudante que fazia apenas o suficiente para passar de ano. Raspando, notas no grau mínimo...
                  Estava muito envolvido com as coisas do colégio, com o seu Grêmio. Vivia e respirava Liceu o dia inteiro. Depois das aulas da manhã, chegava em casa, almoçava e voltava correndo para o colégio. Ia para a sala do Grêmio, lá no fim do corredor do primeiro andar, perto de uma das escadas que dava acesso para o segundo andar. Ali ficava a tarde toda, organizando campeonatos internos, marcando jogos amistosos com outros colégios, planejando excursões. Ele e outros diretores atendiam também os alunos do turno da tarde, que iam fazer suas carteiras do Grêmio e da FESN, comprar passes de trolley. Faziam “A Hora do Grêmio” vespertina, tinham mil e uma tarefas a realizar. E, três vezes por semana, ainda iam atender o turno da noite, na confecção de carteiras e venda de passes.
                 Costumavam, ao deixar o colégio lá pelas cinco da tarde, quando se encerravam as aulas, dar uma passada na Gruta de Capri, no início da Miguel de Frias, em Icaraí, onde já os esperava o Braz, garçom italiano, bonachão, voz calma e pausada, que lhes servia várias rodadas de chope, mesmo tendo Marquinhos apenas 16 anos. Mas, Izapuam já tinha mais de 18, por isso ele os servia.
                Outro local de encontro freqüente era o Bar Palmira, esquina de Lemos Cunha com Mariz e Barros, onde o dono, um português chamado Manuel e seu sócio Alfredo, vulgo Fred, já eram antigos conhecidos de Izapuam e ali os dois passavam vários fins de tarde.
                Esse contato com todas as séries do colégio fez com que se aproximassem de alunos de turmas mais atrasadas, como as do quarto ginasial e primeiro científico e clássico.
                Um deles foi Josa, que se agregou a Marquinhos, Izapuam e Sergio, passando a ser figura integrante e atuante do grupo que já dominava o Liceu.
                Entre as meninas, uma das mais importantes foi Celinha. Menina alegre, descontraída, estudava no ginasial quando se aproximou do pessoal do Grêmio. Fez logo amizade com todo mundo e não saía da sala da agremiação, ajudando aqui e ali. Morava no então distante bairro do Saco de São Francisco, que ainda era um grande loteamento com poucas casas, ruas de terra, sem água, esgoto ou asfalto implantados. Por isso era conhecida como “Celinha do Saco”. Foi a responsável pela elaboração do primeiro estatuto do Grêmio, que passou a ser conhecido como o “Estatuto da Celinha”, que só tinha dois artigos. Muito simples por sinal, sem complicações. O primeiro dizia que as decisões da diretoria eram irrevogáveis, não admitindo contestações. E o segundo estabelecia que ficavam revogadas as disposições em contrário. Mais democrático que isso, impossível.
                   Um dia, de manhã, ela e outros alunos estavam matando aula na sala do Grêmio, ajudando na confecção das tabelas do Campeonato de Vôlei Feminino que ia começar no sábado seguinte.
                   Nisso, alguém gritou:
                   -- Corram, corram... o diretor vem aí...
                  Dois rapazes que também matavam aula correram e pularam a janela que dava acesso para uma pequena rua atrás do colégio. Celinha foi atrás. Mas, hesitou na hora de pular, era muito alto até o chão. Rapidamente, Izapuam e Jorge, os mais fortes do grupo, foram até a janela, baixaram-na para o lado de fora e ficaram segurando seus pulsos para que não caísse ao chão. Ficaram os dois de costas para a janela, uma das mãos de cada um para fora da mesma segurando as mãos de Celinha suspensa no ar, do lado de fora.
                   O professor Aldo chegou à porta, cumprimentou todo mundo, deu uma olhada no ambiente, perguntou:
                   -- Tudo bem por aqui? Não tem ninguém perdendo aula, não é seu Marcos?
                   -- Não senhor, professor. Nós estamos em intervalo. Nosso professor faltou.
                   O diretor ainda deu uma outra olhadela, deve ter estranhado aqueles dois alunos encostados na janela com uma das mãos para fora, assoviando e olhando para o teto, mas nada disse. Retirou-se, silencioso.
                   Do lado de fora, na rua, os dois outros alunos que tinham pulado a janela antes de Celinha saíram de seus esconderijos num matagal ali próximo e ajudaram-na a descer ao chão. Depois, um deles disse:
-- Puxa, Celinha, foi sem querer, eu não queria ver, mas vi. A cor da sua calcinha era preta, desculpe.


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                  – Cininha, por favor, aproveita o teu intervalo e copia essa aula para mim.
                  Ele, o suor escorrendo pelo rosto, bebia água num tanque existente no pátio, deixando o líquido molhar-lhe os cabelos e a face. A camisa branca do uniforme estava molhada de suor e manchada pelas marcas da bola de borracha. Ela, sentada calmamente num banco de cimento ao lado, lia um livro de Geografia. Ele passou-lhe o caderno de uma colega com a aula do dia e o seu em branco.
                  – Mas, o que você vai fazer, Marquinhos? Tá matando aula?
                  Ele, com o dedo indicador nos lábios, como se pedisse silêncio.
                  – Tou sim, Cininha, fala baixo. Tou no meio de um racha lá na quadra de basquete. O meu time está perdendo e agora vai começar o segundo tempo.
                 Do pessoal das turmas mais novas, Cininha foi quem mais dele se aproximou, mais ficou sua amiga.
                 Estudava numa série uns dois ou três anos mais atrasada que ele.
                Talvez ela estivesse no ultimo ano do ginásio ou no primeiro do hoje segundo grau quando ele estava terminando o antigo científico. Moreninha de olhos escuros, dois dentinhos salientes na frente (ganhou logo o apelido de Esquilo), cabelos curtos, gravata solta displicentemente no pescoço, tornou-se sua maior amiga e companheira. Ele não tinha muitas amigas do sexo feminino, seu mundo era mais o de Izapuam, Sérgio, Antonio e Josa.
                Mas, Cininha era especial. Diferentemente de Celinha, que era a agitação em pessoa, era calma, tranqüila, jamais elevava a voz, sabia ouvir e conversar. Era a irmã (talvez a namorada) que ele sempre quis ter. Passavam horas e horas conversando, debatendo os problemas pessoais, familiares, da juventude daqueles dias. Ele, que, atualmente, faltava muito às aulas, totalmente absorvido pelas atividades do Grêmio, costumava repetir aquele pedido. E ela pacientemente copiava as aulas do terceiro científico, antecipando as matérias que só iria dar dois anos depois.
                Iam a bailes juntos, festas, jogos no Caio Martins, passeavam por Icaraí e outros lugares. Ela participou de várias excursões organizadas pelo Grêmio, como a Angra dos Reis e Colégio Naval. Ele a colocou como capitã do time de vôlei feminino do colégio, sendo ela a inspiradora da camisa amarela e azul que passou a ser o uniforme oficial esportivo do Grêmio.
                 Disse-lhe uma vez:
                 -- O amarelo ouro combina muito bem com o moreninho da tua pele.
                 E, apesar de sentir uma enorme atração por ela, nunca lhe falou em namoro, nunca lhe deu um beijo no rosto, nem a mão sobre seu ombro uma vez colocou. Talvez por timidez, talvez com receio de receber uma resposta negativa e terminar com aquela amizade que era tão importante para ele. Naquele tempo, na realidade, ainda não pensava em namoro sério, não tinha tempo a não ser para o Grêmio, queria tomar seus chopes na Gruta ou no Manuel’s, não queria se prender a ninguém. Também, talvez ela nunca tivesse pensado nele em termos de namoro. Eram excelentes amigos, quase irmãos, isso era tudo. Mas, quem sabe?
                 Conhecê-la e tê-la como amiga foi, na realidade, uma das coisas mais importantes de sua vida.


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                   -- O homem não deixou -- disse Jorge, desanimado. – Falou que se a gente for, vai suspender todo mundo.
                   -- Porra, sacanagem. Eu bem disse que a gente não devia ter falado nada pra ele – disse Marquinhos.
                   -- Mas, eu, como presidente do Grêmio, não podia deixar de comunicar-lhe. Afinal, vamos perder uma semana de aulas – rebateu Jorge.
                   -- E, agora, com tudo pronto, as passagens na mão, o pessoal lá esperando a gente... – lamentou-se Josa.
                  Tinham recebido, uns vinte dias antes, convite do Liceu de Cachoeiro do Itapemirim, Espírito Santo, para os Jogos Interliceus. Iriam o de Campos e vários outros do Espírito Santo. Várias modalidades de esporte: futebol, basquete, vôlei, natação, tênis de mesa, atletismo. Era a grande chance que o Liceu de Niterói esperava, a aventura maior de competir em outro Estado.
                  Conseguiram, através da Secretaria de Educação, as passagens de trem para 42 pessoas. Ficariam alojados em casas de alunos do Liceu de Cachoeiro, que nos ofereceram a hospitalidade.
                   E agora, o Professor Aldo não queria deixar o pessoal ir !!!
                  --Eu acho que a gente deve ir no peito. Depois, vê no que vai dar – disse Marcos.
                 Jorge, o presidente, refletiu por um minuto. Depois, resolveu:
                -- Tá certo. Vamos marcar uma reunião com todos os atletas convocados, explicar a eles o que está havendo e decidir com a maioria.
                 Feita a reunião, todos concordaram em desobedecer o diretor.
                 E lá foram eles. Viajaram 15 horas de trem, participaram de todas as competições, foram bem em algumas, deram vexame em outras, encantaram o pessoal de Cachoeiro, travando com eles sólida amizade. Tiveram noites divertidíssimas no alojamento do ginásio local, com brincadeiras, gozações, noites de violão e muita cerveja. Daquela excursão resultaram até alguns casamentos no futuro.
                 Uma semana depois, a volta.
                Na segunda-feira seguinte, todos meio escabreados, voltaram para as salas de aula. As monitoras entregavam um bilhetinho a cada um dos atletas, convocando-os para uma reunião no gabinete do diretor.
               Lá, todos reunidos, o Dr. Aldo sentado em frente à sua mesa, fisionomia fechada, mais sério que o costume. O olhar severo de sempre atrás das grossas lentes claras dos óculos.
               --E então, qual a explicação que vocês me dão?
               Jorge, o presidente, meio encabulado, tentou explicar:
               -- Desculpe-nos, professor Aldo, mas foi a decisão unânime de todos os atletas... tomada em assembléia geral...
              O diretor, ainda com a mesma fisionomia fechada, ficou em silêncio por alguns instantes. Passou os dedos pelos ralos cabelos brancos. Depois, esboçou um sorriso e disse:
               -- Eu quero é saber quantas medalhas vocês trouxeram...
               Os alunos riram, aliviados, abraçaram-se. Exibiram com orgulho as medalhas conquistadas. O diretor cumprimentou um a um.
               No final, a advertência:
               -- Não me repitam mais isso.
              É, na verdade, o Professor Aldo já não era mais o mesmo... amolecera o coração...


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                 Final de 1959.
                 Festa de formatura do científico.
                 O Teatro Municipal de Niterói, o João Caetano, lotado.
                A grande mesa, presidida pelo diretor, o Professor Aldo, estava enfeitada por uma linda corbeille de flores. Quase todos os professores a compunham. Atrás, os alunos do científico e do clássico. Depois dos discursos e cerimônias habituais, o diretor chamava um a um, que, acompanhados do padrinho ou madrinha, recebiam o diploma que simbolizava o término de uma fase de suas vidas. Talvez, a mais bonita de todas, término do fim da irresponsabilidade da adolescência e início dos deveres da vida adulta. Marcos, dando o braço à mãe, recebeu o diploma, enquanto apertava a mão do Professor Aldo e meditava sobre aquele momento.
                 Enfim, era hora de abandonar o Liceu querido, “razão de ser da própria vida”, como cantava seu glorioso hino.
                Os formandos, todos felizes, contentes, um sorriso nos lábios. Uma nova vida iria abrir-se para eles. Quantos se reencontrariam no futuro? O que seria de suas vidas? Advogados, engenheiros, médicos, dentistas? O que lhes reservava o futuro?


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                 Ele não se conformou.
                 O colégio era sua vida, só ali se sentia bem.
                Mesmo tendo sido aprovado no vestibular para Direito, matriculou-se no curso clássico do Liceu.
                 Não deixaria de usar o uniforme querido...

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