quarta-feira, fevereiro 11, 2015

A MAGIA DE PARIS 1

 

 

A MAGIA DE PARIS

Primeira parte
Calfilho


                    Há uns quatro anos atrás, quando jantava em Paris com meu amigo francês Patrick Louet, sugeriu-me ele que escrevesse um pequeno guia turístico para brasileiros que pretendessem viajar para a França.
                    Guia esse, segundo ele, destinado a pessoas da classe média brasileira, que não quisessem fazer uma viagem dispendiosa, mas que fosse, acima de tudo, bastante proveitosa em termos culturais e turísticos. Achava Patrick que eu conhecia bastante coisas da França e, principalmente de Paris, e que minha experiência pudesse ser transmitida a outras pessoas.
                     Claro que não levei a sério sua ideia, pois não tinha pretensão alguma de escrever um guia turístico, nem me achava capacitado para tal. Nas minhas várias viagens que fiz à França depois da minha aposentadoria, realmente conheci bastante coisas sobre aquele país, mas da forma que eu escolhi conhecer: por minha conta, sem recorrer a excursões, elaborando meu próprio roteiro, visitando os lugares que eu queria conhecer, por sua história, por sua tradição. Lá consegui acompanhar minha mulher, meus filhos e mulheres, meu irmão e cunhada, meu neto, alguns amigos...
                      Procurei sempre hospedar-me em hotéis medianos, de duas ou três estrelas (mesmo porque não tinha muito dinheiro para gastar), mas sempre perto de locais onde achava que iria encontrar aquilo que realmente me interessaria. As viagens entre cidades, sempre as fiz de trem, o melhor meio de locomoção na Europa, confortáveis, pontuais e com estações no centro das cidades. Dentro de Paris, locomovi-me, na grande maioria das vezes, sempre de metrô, transporte rápido, eficiente e com uma rede extraordinária, que permite ao visitante locomover-se por quase toda a cidade, além de barato. Mais recentemente, usei bastante o ônibus, raramente o táxi.
                       Recentemente, conversando por e-mails trocados com meu amigo ex-liceísta Jorge Carrano, que também assina um blog maravilhoso, sugeriu-me ele que eu escrevesse alguma coisa sobre pontes, pois ele já havia discorrido sobre essa matéria numa sua publicação anterior.
                       Pensei na sugestão anterior do inesquecível parisiense Patrick Louet, que prematuramente nos deixou em dezembro de 2013.  Atrevi-me então a escrever alguma coisa sobre minha experiência de viagens à França, sugerindo locais que visitei, hotéis em que me hospedei, caminhos que percorri durante essas viagens.
                       Quero deixar bem claro que tudo aquilo que aqui for publicado não constitui um guia turístico para quem pretender visitar a França e, principalmente Paris. Trata-se, apenas, de um relato de minhas experiências pessoais, com a impressão que colhi durante as visitas que fiz em diversos locais de interesse da capital francesa, bem como de algumas cidades das várias regiões visitadas. Procurei dar indicações de onde me hospedei, de como cheguei lá, sem que isso seja necessariamente a melhor orientação a seguir.
                         Em viagens, principalmente as internacionais, cada pessoa segue suas preferências pessoais. Uns preferem as excursões, onde terão menos trabalho em procurar lugares para visitar, menos preocupações com malas, meios de transporte, acomodações em hotéis. Outros preferem as viagens por conta própria, mas gostam de hotéis sofisticados, de um grande conforto, de finos restaurantes, de locomoção privativa.
                         Os relatos que vou fazer referem-se a viagens simples,  de trem ou metrô, à hospedagem em hotéis de duas ou três estrelas, mas quase sempre muito bem localizados. Não se trata de viagem de mochileiros, até porque já passei da idade de carregar uma mochila nas costas. Mas, também não foram viagens dispendiosas. Se servirem eles de orientação àqueles que pretendem fazer uma viagem proveitosa, intensa e sem muito gastar, já ficarei recompensado por ter ajudado...
                           Esclareço, também, que as expressões grafadas em francês que vão aparecer nesses relatos não se devem a  demonstração de esnobismo ou erudição (que não possuo). Servem apenas para familiarizar aqueles que me derem a honra da leitura com os termos usados pelos franceses no seu dia a dia...
                          Em breve preâmbulo, vou relatar como surgiu meu interesse e minha enorme atração pela cidade mágica...
                           Tinha eu 14 anos de idade quando visitei Paris pela primeira vez. Meu pai, que era médico pediatra, ia participar de um congresso naquela cidade, o que já fizera anteriormente em 1954 e 1955. Agora, em 1957, novamente convidado pelo Centre International de L'Enfance, decidira levar toda a família: minha mãe, meus dois irmãos gêmeos mais novos que eu, e minha avó materna.
                     Embarcamos, em fevereiro daquele ano, no "CONTE GRANDE", transatlântico italiano que fazia a linha regular entre a América do Sul e a Europa. Naquela época, as viagens internacionais eram feitas de navio, na sua maioria. A aviação comercial ainda engatinhava. Por isso, havia linhas regulares de navios que faziam aquela rota, como os italianos "CONTE BIANCAMANO", "CONTE GRANDE",  "AUGUSTUS" e "GIULIO CESARE", e os franceses "BRETAGNE" e "PROVENCE", além de alguns outros, misto de cargueiro e passageiro, de bandeiras diversas.
                       Os italianos tinham como porto final, geralmente, Nápoles, enquanto os franceses tinham Le Havre como porto de destino.
                       Já fora levar meu pai até o píer da Praça Mauá em seus embarques anteriores, em 1954 e 1955, quando viajou pelo "BRETAGNE" e pelo "AUGUSTUS" e ficara deslumbrado com a imponência e o tamanho dos navios, bem como o luxo interior, já que era permitido visitá-los.
                        Acabara de concluir o curso ginasial em 1956, no Liceu Nilo Peçanha, de Niterói. Em 1957 iria começar a cursar o científico, cujas aulas teriam início no mês seguinte, em março. Não queria perder aulas num curso com matérias novas, como Física, Química, Biologia. Também estava totalmente envolvido num namoro platônico com uma colega de classe do quarto ano ginasial e que iria cursar o normal, no Instituto de Educação. Apesar do namoro ser apenas à distância, achava que se viajasse naquele momento, tudo iria esfriar.
                         Por isso, embarquei no "CONTE GRANDE" bastante contrariado. Não queria viajar de jeito nenhum, largar meus amigos, meu futebol, perder minhas férias na praia, a namorada em potencial. Tudo isso mexia com a cabeça do menino de 14 anos.
                           Meu pai insistiu, quase me obrigou a viajar à força. Apesar da contrariedade, curti relativamente bem a viagem de navio, a segunda que fazia (a primeira foi em 1948, do Rio para Fortaleza). Paramos em Salvador, Recife, Dakar, Lisboa, Barcelona, Gênova e, finalmente Nápoles.
                           Em cada parada descíamos do navio, dávamos uma volta pela cidade. Salvador e Recife eu já conhecia. Em Dakar, lembro-me bem que um dos meus irmãos, então com dez anos, trocou um tubo metálico de lança perfume com um negro africano que levava suas mercadorias ao porto. Deu a meu irmão várias carteiras e objetos de couro de cobra e crocodilo. Só não ficou muito satisfeito, reclamando bastante com gestos, quando o navio já ia embora e o líquido do lança perfume acabara...
                           Em Lisboa, em plena ditadura salazarista, recordo-me com clareza que, no Rocio, após comprar um isqueiro com a imagem da Torre de Belém, fui avisado que não poderia usá-lo pois a polícia me prenderia.
          Perguntei, inocente:
          -- Mas, por quê?
                          
 -- Ora, pois é proibido -- respondeu o vendedor. -- Aqui é obrigatório o uso de fósforos, que paga um imposto ao governo.
                           Em Barcelona, já com muito frio, minha mãe foi comprar alguns agasalhos para todos nós, pois ainda estávamos no inverno europeu. Lembro-me bem que, caminhando pelas Ramblas, famosa avenida da cidade, vi as manchetes dos jornais anunciando a chegada do atacante Evaristo, recém-contratado ao Flamengo, do Rio.
                           Em Gênova, visitamos, entre outras coisas, o busto de Cristóvão Colombo.
                            Finalmente, chegamos a Nápoles, 17 dias após embarcarmos no Rio. Ficamos num hotel por duas noites. Visitamos a cidade e também Pompéia.
                            Fomos de trem para Roma, onde também ficamos duas noites. Depois, Florença, mais dois dias. Finalmente, Veneza, a esplendorosa.
                             A Itália, passados pouco mais de onze anos do fim da Segunda Grande Guerra, era um país em reconstrução. Muita pobreza, muitas ruínas. Uma cena que me marcou foi quando atirei uma ponta de cigarro no chão (dava meus primeiros passos no vício, que, felizmente, logo larguei) e vários homens se atiraram sobre ela, disputando-a ferozmente. Afinal, a Itália fora uma das perdedoras da guerra, tendo apoiado a Alemanha no sonho louco hitlerista.
                 Depois de conhecer a maravilhosa Veneza, pegamos o trem que nos conduziria até Paris. Lembro-me que, por volta da meia-noite, fizemos uma parada em Milão e, da janela, comprei uma garrafa de água mineral.
      Chegando em Paris, ficamos hospedados no Hotel Excelsior, na rue Cujas, quase esquina com o Boulevard de Saint-Michel. Aquele bairro era chamado de Quartier Latin (Bairro Latino), onde ficava a Sorbonne, o Pantheon, com vários cafés e restaurantes frequentados pela juventude estudantil de Paris e de vários lugares da França e de todo o mundo.
              O Hotel Excelsior era simples, diria modesto mesmo. Naquela época não tinha banheiro nos quartos, apenas um no corredor, utilizado por todos os hóspedes do andar. Um elevador bem antigo, daqueles com porta de sanfona, levava aos cinco pavimentos. Ficamos em dois quartos. O hotel existe até os dias de hoje, no mesmo local e com o mesmo nome, mas bastante remodelado e modernizado, com banheiros individuais, televisão nos quartos e wi-fi em todo o prédio.
            Nos três primeiros dias de Paris meu pai saiu conosco e mostrou-nos as atrações principais da redondeza: Notre Dame, Conciergerie, Sainte Chapelle, Pantheon, Jardim de Luxembourg. No dia seguinte, início de março, ele iria começar seu curso no Bois de Boulogne, onde ficava o Centre International de L'Enfance.
        Os restaurantes de Paris, mesmo os mais simples, eram extraordinários. Podia-se almoçar ou jantar refeições ligeiras e baratas, como salsichas grelhadas com fritas, acompanhadas da picante mostarda francesa e já estávamos bem alimentados. No café da  manhã, pedíamos uma xícara de café com leite (café-au-lait), uma tartine beurrée (um pedaço do genuíno pão francês, aberto ao meio e lambuzado de manteiga), uma geleia (confiture) e um suco de laranja (jus d'orange).
          Claro que sentíamos falta do arroz com feijão preto, coisa praticamente impossível de ser encontrada. Mas, logo nos habituamos à culinária francesa, mesmo a mais simples.
           Na véspera de começar seu curso, que duraria quase 30 dias, meu pai me chamou num canto:
                -- Olha, você é o mais velho, vou te explicar algumas coisas para você poder andar em Paris e mostrar a cidade e os pontos mais interessantes à sua mãe, avó e irmãos.
              Mostrou-me o mapa do metrô, ensinou-me como locomover-me através dele, indicou-me os locais a serem visitados.
      No Liceu, desde o primeiro ano ginasial, eu havia tido aulas de francês. Nos dois primeiros com Dª. Estephania, excelente professora. No terceiro, com o professor Michel Saad e no quarto, já na turma da manhã, com a professora Acyra. Tinha um razoável conhecimento da língua, mas apenas superficial.
                  E, apenas com meus 14 anos, fui servir de guia para minha família, sem conhecer nada da cidade, sem dominar a língua.
                 Hoje, digo com muito orgulho: até que não me saí muito mal. Visitamos vários museus, monumentos, bairros distantes, apenas me guiando por um mapa da cidade e pelas indicações que meu pai me dera. O metrô não foi problema: num instante aprendi seu mecanismo de funcionamento. Não havia ainda o RER, as linhas eram em menor número.
                                Meu pai só ficava conosco aos domingos, já que durante a semana saía cedo do hotel, por volta das 8 horas e só retornava à noite. Toda noite, quando ele chegava, eu fazia-lhe o relato das atividades do dia.
                                Na duas últimas semanas em Paris, ainda em curso o mês de março, mudamos para outro hotel, o Acacias, perto do Arco do Triunfo.
                                 Lembro-me com nitidez que, quando completei quinze anos, no dia 16 de março, meu pai e minha mãe me levaram para comemorar num jantar, só nós três, num restaurante elegante da avenida de Champs Elysées, o "La Pérgola". E, que lá, experimentei o famoso "coq au vin".
                                Deixamos Paris no início de abril, partindo para Londres, onde ficamos por três dias. Na capital inglesa, o intérprete realmente fui eu, pois meu pai não falava a língua e eu, mal ou bem, além dos três anos de estudo no Liceu, ainda tinha terminado o segundo ano da Cultura Inglesa.
                                  Em Southampton, pegamos um navio, metade cargueiro, metade atendendo a passageiros eventuais, sem qualquer luxo. Chamava-se "HIGHLAND CHIEFTAIN" e nele regressamos ao Rio de Janeiro.
                                 Aquele mês passado em Paris marcou-me profundamente. Foi caso de amor à primeira vista com a cidade. Nunca mais dela esqueci, pensava a ela voltar logo que fosse possível.
                 Essa possibilidade só veio a acontecer quase quarenta anos depois...
                                 
                               
         
                          


segunda-feira, fevereiro 09, 2015

ANTIGOS CINEMAS DE NITERÓI

 
 
 
 
 
 
ANTIGOS CINEMAS DE NITERÓI
 
 
Calfilho
 
 
 
 
 
                        Vou tentar lembrar aqui dos cinemas niteroienses que conheci nas décadas de 50 e 60, época da minha adolescência.
                        Outro dia, passando pelo Facebook, moderna rede social da internet, onde há um grupo do Liceu Nilo Peçanha, de Niterói, vi que um dos frequentadores perguntava se alguém sabia onde ficava o cinema Rio Branco.
                         Naquelas duas décadas, os principais cinemas de Niterói ficavam na rua Visconde do Rio Branco, antiga rua da Praia, onde sobressaíam a estação da Cantareira e o Mercado de Peixe, bem antes do aterro que modificou bastante aquela região do centro de Niterói.
                          O Rio Branco ficava nessa rua, quase chegando na avenida Feliciano Sodré, por onde passavam os bondes que se dirigiam à chamada zona norte da cidade, Fonseca e Barreto, além de alguns bairros da vizinha São Gonçalo: Neves, Barro Vermelho, Rodo... Era o último dos cinemas da Rio Branco, na direção da Ponta d'Areia. Descendo essa rua, na direção da Amaral Peixoto, a principal avenida de Niterói, tínhamos o cine Eden (entre São João e Marechal Deodoro, não estou certo), o cinema Odeon ( no final de uma galeria onde haviam algumas lojas comerciais, entre as ruas Coronel Gomes Machado e São Pedro).
                         Passando a Amaral Peixoto e a Conceição, entre esta e a rua José Clemente, pontificava o cinema Central, talvez o mais elegante da cidade, que passou a funcionar tempos depois, o primeiro a introduzir o ar refrigerado em suas dependências. Diferenciava-se dos demais por ter uma sessão aos domingos, às 10 horas da manhã, além das outras normais da tarde e  noite. Ficava ao lado da concorrida padaria Pão Quente, que anunciava servir o melhor pão da cidade.
                         Ainda na rua da Praia, depois do grande magazine Mesbla, na outra esquina com a rua XV de Novembro, ficava o cine Imperial, no térreo do antigo Hotel Imperial, hoje o moderno shopping Plaza.
                          Na década de 50 (não me recordo se chegou à de 60), na rua Aurelino Leal esquina com Visconde do Uruguai, ficava o famoso cinema Rink, o mais procurado poeira de Niterói, que tinha sessões contínuas a partir das onze da  manhã. Exibia ele, como chamariz semanal para seus espectadores, séries famosas do cinema americano, como Flash Gordon, Dick Tracy, Roy Rogers, Hopalong Cassidy e vários outras, o que atraía a atenção da garotada. Além das séries, apresentava um ou outro filme principal. Mas, o forte eram as séries.
                        Já em Icaraí, tínhamos o cine Cassino e seu irmão gêmeo, o Grill, que funcionavam no prédio onde sobressaíra o Cassino Icaraí, antes do jogo ser proibido. Perto dele, na esquina da rua Álvares de Azevedo com a pracinha, ficava o charmoso Cinema Icaraí, que resistiu bastante tempo, sendo um dos últimos a fechar. No Campo de São Bento, depois dos outros já mencionados, surgiu o Cine São Bento, também muito elegante.
                        No Largo do Marron, em Santa Rosa, ficava o imponente cine Mandaro. Na Alameda São Boaventura, o cine São Jorge, na esquina com a rua São Januário. O cine Alameda foi inaugurado depois.    
                         Ah! não posso esquecer... meu clube, o Canto do Rio Futebol Clube, também na continuação da rua da Praia, na direção do Gragoatá, exibia uma sessão de cinema para os sócios, todas as terças feiras... Fui um dos mais assíduos espectadores...
                        Desculpem-me os niteroienses, principalmente os mais antigos, se não mencionei outros, mas, foram estes os cinemas que conheci, apesar de ter frequentado apenas os do centro da cidade (onde morava) e os de Icaraí, onde residia a maioria dos meus colegas do Liceu.
                         Hoje, com a televisão, tanto a aberta como a paga, nenhum deles sobreviveu. No Rio de Janeiro, também, os poucos que ainda funcionam estão escondidos nos shoppings da cidade.
                         Pena, pois naquela época, ir ao cinema um dos melhores e mais concorridos programas do niteroiense. Na década de 50, principalmente, os homens vestiam terno e gravata e as mulheres exibiam seus melhores vestidos...
        
 

                        

sábado, fevereiro 07, 2015

ALGUNS BARES DE NITERÓI DOS ANOS 50 E 60




ALGUNS BARES DE NITERÓI DOS ANOS 50 E 60



Calfilho


                       Niterói, nos anos finais da década de 50 e início da de 60, tinha vários bares e restaurantes frequentados pela boemia niteroiense, mas também por outros representantes da sociedade local, bem, como e, principalmente, pela juventude da cidade, aqueles que completavam os 18 anos de idade e davam os primeiros passos na vida adulta.
                    Não havia, é claro, para os jovens da cidade naquela época, onde a construção da Ponte Rio-Niterói ainda era um sonho distante, as opções de lazer que o Rio de Janeiro oferecia aos seus habitantes.
                  Niterói só tinha um teatro, o João Caetano, e poucas peças eram ali apresentadas. Cinemas, tinha alguns, espalhados pelos vários bairros, mas os filmes que lá chegavam já tinham passado há alguns meses no Rio.
             Apesar de separadas apenas por uma travessia de barca que durava pouco mais de 30 minutos, as duas cidades apresentavam estilos de vida bem diferentes uma da outra.
              O Rio de Janeiro era a capital do Brasil, o Distrito Federal, sede do governo federal e onde estavam localizados todos os ministérios que dirigiam o país. Era o centro cultural, o coração intelectual do Brasil, onde eram tomadas as mais importantes decisões que ditariam o presente e o futuro de nossa nação. Nada mais justo que ali se concentrassem os principais estabelecimentos destinados ao entretenimento do povo brasileiro: variedade de teatros, multiplicidade de cinemas, casas noturnas, boates, botequins famosos...
                    Já Niterói, então capital do Estado vizinho, guardava ainda o aspecto provinciano de cidade de interior. Apesar de muitos de seus habitantes trabalharem no Rio de Janeiro, fazendo a travessia diária de barca entre as duas cidades, o ritmo de vida era mais calmo, mais tranquilo do que na capital do país.
                      Havia a praia, principal local de encontro e lazer. Icaraí,  Itapuca e Flexas (a grafia original era assim mesmo, com um x), as mais badaladas. Cinemas e clubes, em número reduzido, existentes em alguns dos bairros. Somente isso, segundo me recordo.
                      Os jovens costumavam ir a bailes nos clubes ou festinhas em casas de família. Passaram, então, a frequentar alguns dos restaurantes ou bares da cidade, onde pudessem apenas beliscar algum tira-gosto e beber uma cerveja ou um chope, já que a maioria ainda não trabalhava, vivendo das mesadas que os pais forneciam.
                      Entre os restaurantes, os mais conhecidos eram o Municipal e o Monteiro, na rua da Conceição, o Derby, na Visconde do Rio Branco, próximo à antiga loja da Mesbla, além das leiterias Arcádia (na Av. Amaral Peixoto) e Brasil (na rua da Conceição), que também funcionavam como restaurante. Em Icaraí havia a Gruta de Capri . Evidentemente, outros deveriam funcionar naquela época, mas não tão conhecidos como os acima mencionados.
                    Já os bares eram em número maior. No centro da cidade, havia o Riviera (também restaurante), na rua da Conceição, o Elite (na rua Moreira Cezar, em Icaraí), o Manel's, já mencionado em narrativa anterior, o Luciu's (na rua Tavares de Macedo, Icaraí), o Soares (hoje Edson's, na rua Presidente Pedreira, no Ingá), o Canto do Rio (no final da Praia de Icaraí, onde o bonde ou o trolley nº. 4 fazia o retorno), o Fragata (na rua Coronel Gomes Machado), a Confeitaria Sportiva (rua da Conceição), o Atanásio e o Horácio (na praia de São Francisco) e muitos outros menores, às vezes uma pequena porta que dava para um diminuto estabelecimento, onde, normalmente, o português ou o espanhol serviam cerveja, cachaça, conhaque e outras bebidas aos fregueses cansados após um duro dia de trabalho.
     Tentarei fazer algumas observações sobre dois deles, pois a respeito do Manel's já me reportei anteriormente.
     Um dos locais que costumávamos frequentar, após deixarmos o Liceu, no final da tarde, era a Gruta de Capri, em Icaraí. Situado na rua Miguel de Frias, quase chegando na Praia de Icaraí, era mais restaurante do que bar. Naquela época, onde o consumo de pizza não era tão disseminado como hoje,  eu e meu amigo Irapuam, às vezes Josa ou Silvinho, costumávamos dar uma passada na Gruta para beliscar umas fatias de pizza e bebermos dois ou três chopinhos, a fim de aclarar as ideias. 
                     Éramos atendidos por um italiano simpático, beirando os cinquenta anos, forte, alto, vasta cabeleira com fios brancos já aparecendo na cabeça. Chamava-se Braz, não era de muito sorrir, mas sempre muito educado, sempre atencioso. Quando o movimento era fraco, ficava junto à nossa mesa, sempre em pé, em atitude respeitosa, batendo um papo agradável, falando de sua terra natal, uma pequena cidade da Itália.
                       Ali passamos vários fins de tarde, aproveitando a brisa serena que vinha da praia, apreciando uma ou outra moça interessante que passava em frente à mesa de ferro coberta com uma toalha, em plena calçada da rua Miguel de Frias.
                      A Gruta de Capri existe até hoje, apesar de bastante modificada em seu aspecto original. Até ar condicionado colocaram no salão interno, coisa inimaginável de ser pensada naquela época...
           O outro bar muito frequentado era o Riviera. Situado no início da rua da Conceição, lado direito de quem sobe, chamava logo a atenção de quem passava pela sua frente. Bem na entrada havia um enorme aquário, povoado de peixes exóticos de diversas espécies coloridas. Funcionava principalmente como restaurante no jirau superior, onde existiam umas seis mesas, alcançadas por uma pequena escada do lado direito. No térreo funcionava como bar, com vários banquinhos enfileirados junto ao comprido balcão, que se estendia até o final do estabelecimento, onde havia um acanhado mictório.
                      Fora inaugurado pelo Mário, um português de meia idade, meio alourado, bigode fino sobre os lábios. Pouco tempo depois chegou José, irmão mais novo. E, alguns anos mais tarde, veio João, outro irmão, que deveria ser o do meio.
                        Fez logo sucesso, por inovar com os banquinhos junto ao balcão, ao estilo dos bares europeus e americanos. Aliás, os três irmãos eram originários da ilha da Madeira. Vivia sempre lotado, cheio de fregueses, que saboreavam, com satisfação, as fatias de pizza feitas na hora (víamos a cozinha do banquinho onde estávamos sentados), acompanhadas de um chope bem gelado tirado na nossa frente.
                  "-- Sem colarinho, Zezinho" -- pedíamos.
     Zezinho foi como, carinhosamente, passamos a chamar o José, o irmão mais novo, que ficava atrás do balcão nos atendendo e jogando conversa fora. Era o mais simpático e conversador dos três: Mario era mais reservado, apesar de sua simpatia; João o mais antipático, só pensando em vender, em obter lucro. Acabou assassinado em circunstâncias meio suspeitas.
        Zezinho, não. Alegre, comunicativo, um pouco mais velho que a gente (devia ter uns 23 ou 24 anos), gostava de conversar, de aprender sobre as coisas do Brasil, de contar sobre sua ilha da Madeira.
                        Eu, que morava ali perto na época (início dos anos 60), na Av. Amaral Peixoto, sempre passava pelo bar para um dedo de prosa com Zezinho. Ficamos amigos e, depois de algum tempo, também passei a "pendurar" algumas contas com ele... Mas, era frequente a ida de colegas do Liceu ao local.
                  Mário, eu revi alguns anos atrás, tinha montado uma confeitaria na rua Visconde do Uruguai. Zezinho, revi-o num pequeno bar que instalou no Vital Brazil, depois acho que voltou para a ilha da Madeira ou foi para Paraty, segundo me disse o Mário.
                  O Manel's, o Riviera, o Elite, o bar Canto do Rio, o Municipal, o Monteiro, as leiterias Arcádia e Brasil, o Derby não existem mais.
             A ação inclemente do tempo, a ponte Rio-Niterói que mudou radicalmente o aspecto físico daquela Niterói pacata e romântica daquela época, fizeram com que a cidade perdesse aquele seu ar de cidade provinciana, ideal para criar os filhos... Hoje, os espigões proliferam, as casas desapareceram, os camelôs invadiram as ruas do centro, os assaltos aumentaram assustadoramente...
                    Mas, ainda guarda alguns traços de cidade-dormitório do Rio... 
                                      
                                 
                              

quinta-feira, fevereiro 05, 2015

MANEL'S E OUTROS MAIS

MANEL'S E OUTROS MAIS 
Calfilho

                                   A mercearia tinha como nome de fantasia "Casa Palmyra". Ficava no lado esquerdo da rua Lemos Cunha, direção Campo de São Bento/Rua Joaquim Távora, fazia esquina com a rua Mariz e Barros. 
                                    Irapuam, meu colega de turma no Liceu de Niterói, ali me levou pela primeira vez, nos anos finais da década de 1950. Talvez 1958 ou 1959. Terminado nosso "expediente" vespertino no Grêmio Cultural Nilo Peçanha, no Liceu de Niterói, onde apresentamos, no intervalo do recreio, a "Hora do Grêmio", e tendo atendido na nossa "sede" os liceístas que ali acorriam para comprar passes de trolley ou bonde, deixávamos o colégio por volta das cinco e meia da tarde. Às vezes, íamos até a Gruta de Capri, em Icaraí, outras até o Riviera, no início da rua da Conceição, no centro da cidade. Ali tomávamos um ou dois chopes, mastigávamos uma fatia de pizza, o máximo que nossa curta mesada que recebíamos dos pais dava para gastar.
                                    Num desses finais de tarde, saindo do Liceu, Irapuam comentou:
                                     -- Olha, achei um lugar em Icaraí onde podemos "pendurar" a conta e só pagar no fim do mês, quando recebermos nossa mesada.
                                      -- Vamos lá ver -- retruquei.
                                      Pegamos um trolley, saltamos no ponto da Estácio de Sá (hoje Roberto Silveira, que, na época, era mão dupla), esquina com Mariz e Barros, descemos a última até a esquina com a rua Lemos Cunha. As portas do estabelecimento estavam abertas, exibindo uma mercearia onde algumas senhoras faziam suas compras.
                                       Guiado por Irapuam, dobrei a esquina à direita, e, já na Lemos Cunha, havia uma pequena porta  tipo "Far West", aquelas de vai- e-vem, onde, após entrarmos, vi que ali funcionava um pequeno botequim, com mesas de tampo de mármore e pés de ferro. Irapuam apresentou-me a um dos sócios do estabelecimento, o Manuel, um português forte, ostentando vastos bigodes lusitanos. Convidou-nos a sentar. Ocupamos uma das mesas vagas (existiam apenas umas quatro ou cinco no espaço diminuto), ele foi providenciar o que Irapuam havia pedido: uma porção de queijo prato cortado em cubos e uma Portuguesa bem gelada.
                                        Já na terceira cerveja e beliscando umas fatias de salaminho, Manuel apresentou-nos o outro sócio, o Fred, bem mais novo que ele, também português.
                                        Quando deixamos o estabelecimento, lá pelas sete e meia da noite, Irapuam chamou Manuel:
                                         -- "Seu" Manuel, por favor, feche aqui e coloque na minha conta.
                                         O português respondeu:
                                           -- Está certo, "seu" Irapuam, vou anotar.
                                         Confesso que aquela cena me surpreendeu. Apesar de alguns estabelecimentos de Niterói ainda utilizarem as cadernetas de compras, onde o freguês que já fosse bem conhecido podia pagar as contas no final do mês, quando eram depositados (ou pagos em espécie) os salários de cada  um, isso não era muito comum em bares e restaurantes, onde junto ao caixa se via um pequeno cartaz que dizia '' FIADO, SÓ AMANHÃ".
                                          Comentei com Irapuam:
                                          -- Legal esse lance do "seu" Manuel. Assim podemos comer e beber durante todo o mês e só pagar quando recebermos a mesada.
                                          Poucos de nós já trabalhavam naquela época, quando ainda não havíamos terminado o científico ou o clássico. Que me lembre, só o Toninho Matheus, grande amigo de peladas e carnavais do Canto do Rio (estudava no turno da noite, trabalhava durante o dia) e Silvinho Ribeiro, o nosso amigo Ximú.
                                           E, assim fizemos.
                                           Quase todos os fins de tarde, durante a semana, após atendermos o turno da tarde do Liceu, dávamos uma passada na Mercearia Palmyra, para uma Portuguesinha e um tira-gosto rápidos. Nossa intimidade com "seu" Manuel aumentava. Nem precisávamos pedir quando chegávamos, ele vinha logo com uma cerveja numa das mãos e um prato com salgadinhos na outra. E, pagávamos religiosamente, as contas penduradas quando recebíamos nossa mesada.
                                            Com o tempo, fomos chamando a Palmyra de "Manuel's, devido ainda à forte influência da cultura americana e da língua inglesa aqui no Brasil, para, finalmente, aportuguesarmos um pouco o nome do estabelecimento para "Manel's".
                                             Vários outros colegas liceistas passaram a ali frequentar, como o Josa, o Toninho, o Carrano, o Silvinho. Fora disso, nas outras mesas, sentavam-se os fregueses habituais, como o Teófilo, o Coelho e outros não tão eventuais, que, depois que nos conheceram, passaram conosco a dividir a filosofia de botequim.
                                              Foi com imensa saudade que, alguns meses atrás, comparecendo a um almoço de confraternização de antigos amigos do futebol da Praia de Icaraí, de que participei naquela época, verifiquei que o restaurante escolhido fora o Zagatti, também esquina de Lemos Cunha com Mariz e Barros, só que na esquina em diagonal, no lado direito de quem vai para a Joaquim Távora, logo após passar a Mariz e Barros.
                                             Comentei com Irapuam e Josa, também presentes ao almoço:
                                               -- Olhem lá, do outro lado da rua, o que virou o "Manel's"...
                                                E, com tristeza, olhando para aquela esquina tão querida, palco de muitos dos nossos fins de tarde daquela época que ficou marcada em nossas memórias, às vezes ponto de partida para nossas  aventuras da juventude nos bailes de sábado ou domingo, vimos que o "Manel's" transformara-se numa reles oficina mecânica, sem graça, sem vida, sem histórias para contar.
                                                 Por isso, ao ler, dias atrás, no blog do meu amigo CARRANO, uma publicação sua sobre o Manel's, não resisti. Decidi, também, dar aqui o meu testemunho sobre aquele local que nos deixou tantas e tão boas recordações...
                                                 Em outra oportunidade, tentarei contar alguma coisa mais sobre os outros botequins de Niterói, que fizeram parte da história da cidade...
                                        
                                         




segunda-feira, fevereiro 02, 2015

BOAS LEMBRANÇAS

                       



BOAS  LEMBRANÇAS

                                                                                                 Calfilho


               
                     Depois de muito tempo,  na realidade vários anos, tive o prazer de reencontrar, graças aos mistérios da internet, o meu ex-colega do Liceu Nilo Peçanha de Niterói, JORGE CARRANO.
                     Apesar de nunca termos estudado na mesma sala, tivemos um contato bem próximo nos anos de 1958 e 1959, quando cursei a segunda e a terceira séries do então curso científico. Acredito que CARRANO era um ou dois anos mais atrasado que eu, não me recordo ao certo.
                     Em 1958, eu e outros colegas de turma, principalmente o Irapuam Assumpção e o Telúrio Tércio de Aguiar, vendo o abandono em que se encontrava o Grêmio Cultural Nilo Peçanha, decidimos reunir um grupo de abnegados de outras séries e reativar as atividades gremistas.
                     Éramos todos apaixonados por esportes, principalmente o futebol, mas ficávamos limitados a alguns "rachas" nos intervalos do recreio ou quando "matávamos" uma ou outra aula mais enfadonha. Depois de correr alucinadamente pelas quadras de basquete ou vôlei atrás de uma bola de borracha furada com prego quente para não quicar, voltávamos totalmente suados e bastante cansados para as aulas seguintes. Mas, exibindo sempre um sorriso de satisfação nos lábios.
                      Conversamos com alunos de outras séries mais novas, o João Bonvini, o Josa (José Henrique Paredes), o Fernando (Pernambuco) e alguns outros, e decidimos reativar o Grêmio.
                       Em primeiro lugar, fomos verificar as condições em que se encontrava a agremiação. Abandono total, que datava de alguns anos... O material esportivo, comprado em administrações anteriores, estava em casa de ex-liceístas, servindo um dos uniformes, conforme apuramos, para forro para o cachorro dormir...
                       Tínhamos que recomeçar do zero.
                        Procuramos um colega de outra série, o JORGE CARRANO, que às vezes "rachava" conosco na quadra de basquete, e propusemos lançar sua candidatura à presidência do Grêmio. Candidato único, pois ninguém se interessava pela agremiação, ganhou facilmente as eleições. CARRANO parecia-nos ser talvez o mais equilibrado, o mais responsável de todos nós, o mais indicado para nos representar junto ao diretor do estabelecimento e outras autoridades com quem teríamos que lidar.
                        Telúrio foi nomeado diretor de esportes e eu, responsável pelo futebol. Irapuam era o diretor social, cargo que bem lhe coube, dada a facilidade que tinha no convívio com as liceístas...
                         Eu, Carrano e Irapuam fomos ao gabinete do então diretor do Liceu, Professor Aldo Muylaert, e solicitamos sua permissão para a reativação do Grêmio, bem como a apresentação de um programa musical na hora do recreio do turno da manhã. Ele ouviu nossa reivindicação e, depois de refletir por alguns instantes, decidiu aprová-la.
                          Nascia, assim, a "Hora do Grêmio", que, nos quinze minutos do recreio, informava os alunos sobre as atividades da agremiação e tocava os 78 rotações da época: Elvis, The Platters, Little Richard, Nat King Cole, entre outros. O Brasil sofria, à época, forte influência da música norte americana, principalmente o rock'n roll, que invadiu como um furacão as rádios e televisões dos Estados Unidos e também do Brasil. A bossa nova brasileira ainda engatinhava e nossa música constituía-se de bolero e samba canção, não interessando muito à juventude dos anos 50. O programa, logo depois, foi estendido ao turno da tarde e, às vezes, até ao noturno.
                          Pela "Hora do Grêmio" convocamos os liceístas, amantes dos esportes, para que viessem ajudar na reconstrução de nossa agremiação. E, já no sábado seguinte, vários deles apareceram para, juntos, construirmos as balizas de futebol de salão. Pintamos as mesmas de amarelo, para ficarem diferentes das tradicionais brancas, compramos as redes e duas semanas depois, realizávamos nossa primeira Olimpíada Interna, na qual a turma do 2º. científico (por acaso, a minha) sagrou-se campeã.
                           Criamos, em seguida, o departamento de vôlei, tanto o masculino como o feminino e o basquete. Realizamos, em 1958 e 1959, várias excursões memoráveis, como as de Marambaia, Angra dos Reis e a inesquecível ida a Cachoeiro do Itapemirim. O Liceu também teve participação importante nas Olimpíadas Estudantis, realizadas no Ginásio Caio Martins. Em nossa quadra de basquete, adaptada para o futebol de salão, recebemos para partidas amistosas, vários colégios de Niterói, entre eles o Plínio Leite, José Clemente, Salesianos... Nosso diretor social, Irapuam, organizou uma festa junina no pátio e realizávamos festas nas casas de colegas para angariar fundos para comprar material esportivo.
                             Verdade que, para o desenvolvimento de nossas atividades, contribuíram decisivamente o Professor de Educação Física ALBER PESSANHA, que nos dava um toque oficial do corpo docente do colégio e o zelador do Liceu, AZER RIBEIRO, que abria o colégio para os liceistas aos sábados e lá ficava até terminarem os jogos realizados.
                            A salinha do Grêmio, escondida num cantinho do imponente prédio, na confluência de dois corredores na parte de trás do colégio, próximo a uma escada que dava acesso ao segundo andar, tornou-se o centro de reunião dos liceístas. Iam ali conversar, bater papo, folhear uma revista e, principalmente, comprar passes de trolley ou bonde, com desconto significativo para os estudantes, grande vitória alcançada pelo Grêmio junto à Federação dos Estudantes Secundários de Niterói (FESN). Vendíamos os passes na sede do Grêmio, sem necessidade do deslocamento dos alunos até a FESN, então localizada na Praça do Rink.
                              Mas, voltemos ao meu amigo CARRANO: depois que deixamos o Liceu, cada um seguiu seu caminho na vida, apesar de termos cursado a faculdade de Direto, eu talvez um ou dois anos antes dele. Lembro que ensaiamos abrir um escritório de advocacia quando eu voltei de minha temporada em Cantagalo, mas a coisa não evoluiu e perdemos o contato.
                               Voltei a revê-lo brevemente, na década de 1980, quando eu já era juiz presidente do I Tribunal do Júri do Rio de Janeiro e tive o prazer de receber sua visita. Conversamos rapidamente e outra vez perdemos o contato.
                               Só agora recentemente, quando entrei num site de buscas da internet, pesquisando coisas sobre o Liceu, foi que soube que CARRANO tinha um blog em que meu nome era citado numa de suas postagens. Localizei e li o mesmo com emoção, passados mais de cinquenta anos daquela época tão especial para nós.
                               E, passando por seu blog uma vez ou outra, vi uma postagem recente, em que ele fala do MANEL'S, um local misto de mercearia e botequim, na esquina das ruas Lemos Cunha com Mariz e Barros, onde passamos momentos saudosos e deliciosos, acompanhados de uma Portuguesa (não se faz mais cerveja como antigamente) ou de um conhaque Dreher.
                               Mas, isso é outra história, que merece uma postagem especial...
                            
                            
                                         


terça-feira, maio 15, 2012

Mais Botafogo...

Lamentável... Sai ano, entra ano, e tudo continua na mesma... O Botafogo parece que se conformou em ser time médio, mero participante de campeonatos, apenas para completar o número mínimo de equipes que irão disputar a competição. Nem vou recordar mais o passado glorioso que teve décadas atrás, pois seria chover no molhado... Mudam diretorias, mudam presidentes, mudam técnicos, mudam jogadores, as coisas continuam as mesmas... Um campeonato carioca aqui, outro dez anos depois, nada mais que isso... E a torcida vai deixando de comparecer aos estádios, afasta-se do time, não tem mais empolgação para torcer... Os dirigentes dizem que não têm dinheiro para contratar ninguém de nome, ninguém que faça realmente desequilibrar o jogo dentro de campo... O Flamengo tem? Contrata Ronaldinho Gaúcho e Vagner Love, O Fluminense tem? Contrata Fred e Deco, além de Sóbis e outros menos cotados. O Vasco tem? Contrata Diego Souza, Juninho Pernambuco, repatria Felipe. O Santos, que viveu fase parecida com a do Botafogo atual, não se reergueu, não produziu craques como Robinho, Diego, Neymar, Ganso? Por que o Botafogo não revela mais ninguém em suas divisões de base? Por que fica na mediocridade de Loco Abreu, Felipe Menezes, Elkeson? Os dois únicos de razoáveis para bons que existem no elenco (Jeferson e Renato) vão logo embora, pois ninguém gosta de virar ano após ano levando pancada. ACORDA BOTAFOGO!!!

DESATUALIZAÇÕES...

Outro dia, alguns amigos reclamaram comigo que não escrevo mais nada neste blog (detesto a palavra "post", coisa de americano). Por acaso, acabei localizando meu amigo de Liceu, Jorge Carrano, aqui pela internet e fiquei com vergonha do que eu "postava" aqui, pela minha completa ignorância sobre problemas de formatação, diagramação de textos, parágrafos e outras coisas mais. Ainda sou da escola de Dona Jacyra, do Liceu Nilo Peçanha, que me ensinou a usar o caderno pautado, a caneta tinteiro Esterbrook (vermelha), o lápis e a borracha. Aqui, tudo que escrevo parece que sai direto, sem parágrafos, sem pontuação, sem fôlego. Por isso, achei tão interessante a forma como Carrano, até mais velho que eu, conseguiu se adaptar a coisas que parecem tão simples para alguns, tão intricadas para outros. Perguntem ao Irapuam, que entrou no mundo da informática depois de mim e me contou que várias vezes teve vontade de atirar o computador pela janela do prédio onde mora. eu também já tive essa vontade. Mas, consegui ultrapassar essaa fase e hoje o Word me serve de grande ferramenta para o que pretendo escrever. Mas, por favor, não exijam mais de mim. Minha filha reclamou que depois da crônica que escrevi sobre o maior jogador de futebol que já vi atuar, um tal de Mané Garrincha (Os três minutos), não escrevi mais nada aqui no blog. Foi porque fiquei um pouco decepcionado com a formatação que deram aquilo que escrevi, deturpando totalmente o sentido de minhas palavras. Enfim, Carrano me deu novo incentivo. Vou ver se consigo aprender.

segunda-feira, maio 14, 2012

MISTÉRIOS DA INFORMÁTICA...

Desculpem-me os amigos que me dão a honra de ler estas breves linhas, mas ainda não me acostumei com os mistérios da informática. A muito custo, depois de aposentado, e até com grande resistência, decidi comprar um computador, para não me considerar um desatualizado com as coisas modernas. Custei muito a aprender alguma coisa sobre seu funcionamento e somente o básico, aquilo que me interessava mais de perto, principalmente o WORD onde eu poderia produzir meus modestos contos e relatar algumas "historinhas" que presenciei, participei ou até mesmo imaginei durante os meus 70 anos de vida.Depois, alguns amigos sugeriram que eu criasse um blog para divulgar o que escrevia. Criei o mesmo, que é o presente, mas quando tento passar para aqui alguma coisa que escrevi no WORD, o texto sai sem formatação, sem parágrafos, como se eu estivesse escrevendo em uma única linha reta, sem qualquer pontuação. Por isso, quando lerem alguma coisa que aqui transcrevo do WORD, os erros de formatação não devem a mim ser atribuídos e, sim, ao próprio blog, que não tem os mesmos recursos do processador do Windows.

domingo, maio 13, 2012

TONINHO DO LICEU, MEU AMIGO

 
 
 
 
 
 
 
 
 
TONINHO DO LICEU, MEU AMIGO...

 
Calfilho
 
 
 
                     Seis e meia da manhã... Acordara minutos antes, o corpo, cansado, parecia não suportar como antes, os 68 anos de vida... Andei vagarosamente do quarto até a cozinha do apartamento... Acendi a luz, comi uma banana, coloquei um pouco de leite para esquentar no micro-ondas... Quando ficou pronto, misturei um gole de café requentado da garrafa térmica, não queria acordar minha mulher, que ainda dormia... Dirigi-me lentamente até a sala, sentei-me no sofá, liguei a TV, para ver o primeiro jornal do dia... Era domingo, as notícias não deveriam ser tão ruins...
Estava distraído escutando o resumo dos acontecimentos da véspera, não mais de dez minutos... O telefone toca... Fiquei um pouco preocupado...      
                   “Àquela hora”, pensei... “Não deveria ser coisa boa...”.
                   Já tivera duas experiências extremamente dolorosas quando o telefone tocou no início da manhã. Uma, em agosto de 1963, comunicando a morte de meu pai, num trágico acidente nas barcas, quando voltava do Rio para Niterói. O outro, recente, do meu filho mais novo, em outubro de 2007, assaltado e jogado de um viaduto após sair de uma festa no Rio de Janeiro, quando se preparava para voltar a Niterói.
                  Mas, ainda sonolento, atendi o telefone, com o espírito totalmente desarmado...
                  -- Oi, Carlinhos, bom dia, desculpe se estou te acordando – disse uma voz de mulher do outro lado da linha.
                  -- Bom dia, quem está falando? – perguntei, com uma ponta de curiosidade, esfregando os olhos para espantar o sono.
                  -- Aqui é Zezé.
                  Estranhei, mas não me surpreendi. Dias atrás, quarta feira, havia tido uma longa conversa interurbana com Toninho, eu no Rio, ele em Paraisópolis, pedindo sua opinião sobre uns exames que havia feito... Afinal de contas, eu tinha um clínico geral que me atende há mais de 20 anos aqui no Rio, mas sempre pedia uma segunda opinião a Toninho, em quem eu confiava muito mais...
                 Não era nada de extraordinário, apenas e somente 50 anos de amizade... No nosso último encontro bimestral da turma da praia, lá na Academia de Niterói, chamei-o de lado, mostrei meu tornozelo inchado e comentei sobre minha preocupação... queria sua opinião.
                 Teve até gente do nosso grupo que gozou:
                -- Porra, o cara tá dando consulta em botequim, tem que cobrar...                 Eu, brincando, mandei o cara à merda e Toninho, naquele seu jeito gozador de sempre:
                -- Vem cá você também, se quiser eu te examino...
                Perguntei:
                -- Oi, Zezé, tudo bem? Toninho ligou? Estava esperando uma resposta dele sobre meus exames...
               Ela respondeu, a voz já embargada pela emoção:
               -- Não, Carlinhos, ele não ligou. Ele morreu...
               A sensação que tive foi de ter levado um soco na boca do estômago... Não consegui respirar, as palavras não saíam de minha boca... Depois de alguns segundos de silêncio consegui falar, apalermado, voz de idiota:
              -- O QUÊ? NÃO BRINCA COMIGO A ESSA HORA DA MANHÃ...
              Zezé, já não conseguindo segurar o choro:
              -- Foi num desastre, na Dutra, perto de Piraí...
              Eu não sabia o que dizer. Olha, que estava acostumado com a morte, depois de dez anos como juiz do Júri... Ali, vi e senti todos os tipos de emoções... Mães que perdem filhos, mulheres que perdem maridos, assassinos frios e cruéis, mortes inesperadas, muitas delas por motivos banais...
              Tentei recuperar o controle.
              -- Zezé, como foi isso? perguntei, sem saber direito o que perguntava.
              O filme da minha vida começou a passar rapidamente em minha mente. As cenas se atropelavam, as épocas se misturavam, a dor era tão grande que eu não conseguia dimensioná-la.
              Zezé falava:
              -- Foi num acidente, ele vinha de carro para o Rio, capotou três vezes, quebrou vários ossos, o corpo está no necrotério de Volta Redonda... Já liguei para o Renato, ele ficou de avisar o resto do pessoal de vocês... O corpo chega por volta de onze horas, o enterro é às quatro da tarde, no Parque da Colina, capela 1...
              O filme continuava a rodar em minha cabeça em velocidade máxima... Não sei, lembrava-me de Toninho ainda cheio de cabelos, aos doze, treze anos de idade, correndo atrás de uma bola de meia na pista de terra do Liceu, já que só os mais velhos tinham direito de jogar futebol nas quadras de vôlei e basquete... Para nós, calouros, só restavam as pistas de atletismo e o campinho do necrotério. Depois, vinha a imagem de Toninho careca, carregando Alessandra no colo, com apenas dois anos e meio de idade, quando fui visitá-lo em Paraisópolis, na época em que iniciava sua carreira de médico. Essa imagem misturava-se com aquela do dia em que eu, ele, Irapuam e Silvinho, viajamos para Campinas para o casamento de Celso, nosso colega do Liceu... Depois, veio-me à mente a imagem do nosso quarto ano ginasial no Liceu, quando estudamos na mesma turma e nossa amizade se solidificou. Suas descidas do lugar humilde onde morava, tomando o ônibus 24 – Palmeiras-Centro, para irmos até o Canto do Rio, para jogarmos futebol de salão, assistir um cineminha às terças feiras, brincarmos o carnaval ou mesmo acompanhar o clube nos diversos estádios cariocas, quando disputava ele a primeira divisão do campeonato do Rio de Janeiro... Ele torcia pelo Flamengo, eu pelo Botafogo, mas éramos Canto do Rio acima de tudo...
               Disse para Zezé:
               -- Olha, não sei se vou conseguir ir ao enterro. Estou tomando remédio para pressão, essa notícia mexeu em tudo comigo. Vou ligar para o meu médico e ver como está a pressão. Desculpe, Zezé, a gente se conhece, você deve saber como estou me sentindo. Peça desculpas ao resto do pessoal se eu não for. Vou ligar para o Renato e ver quem eu posso avisar...              O filme continuava a rolar... Vieram cenas de eu visitá-lo várias vezes no Buraco do Juca, lá no final da São Januário, no Fonseca, à direita, na subida do morro, conversar com Dona Edith, sua mãe, com Lourdes, sua irmã, com Amaurílio, o irmão mais velho... Voltavam-me imagens dele me visitando em meu apartamento, na Amaral Peixoto, onde eu morava naquela época do Liceu... Terminamos o ginasial, ele foi estudar à noite, para trabalhar durante o dia e ajudar a família no sustento da casa. Eu continuei no científico de manhã, preparando-me para o vestibular de medicina, para seguir a carreira do meu pai... Mas, dali em diante, nunca mais perdemos o contato...
              Já no Grêmio do Liceu, convoquei-o para o time de futebol de salão do colégio, colocando-o logo no primeiro time, pela qualidade do seu futebol... João Carlos Maia, Paulo Massa, Toninho Matheus, Ronaldo Ganso e Sérgio Frigideira, esse o primeiro time de futebol de salão do Liceu, invicto em mais de 80 jogos... Foi o primeiro a vir do turno da noite para o time do Grêmio... Depois, veio o Dario Seixas... O resto, inclusive o segundo time, era todo do turno da manhã... Foi a nossa época de ouro... Jogávamos futebol de salão no Liceu, em Neves, no time do Robertinho Siri (também liceísta), frequentávamos o Canto do Rio durante a semana, nos sábados ou domingos acompanhávamos o time nos diversos estádios da cidade, brincávamos o Carnaval na rua da Conceição, frequentávamos o Riviera, o Manuel’s, a Gruta de Capri, íamos a festinhas em casas de liceístas e no Regatas todos os fins de semana... Fora as excursões a Angra dos Reis, Marambaia, Cachoeiro do Itapemirim...
              Depois, ficamos adultos...
              Telúrio, mais velho que nós, mas meu colega de turma no Liceu, teve a idéia de formar um grupo, inicialmente de ex-liceístas, mas que foi sendo aumentado de outros vários amigos, para jogarmos uma pelada descompromissada aos sábados na Praia de Icaraí. O local escolhido foi o trecho entre Presidente Backer e Lopes Trovão. Começamos, timidamente, no final de 1960. Já conhecia Toninho Pêssego do Canto do Rio, que, apesar de não ser liceísta, era conhecido de praticamente todo mundo do grupo recém-formado. Vieram Alvinho, Madeira, Paulo Fernando, seu irmão José Carlos, Pinheiro, Paulo Cezar, Jorge, Paulo Moll, Anésio, juntando-se aos ex-liceístas Oswaldinho, Pedro Aurélio, Cezar (irmão de Oswaldinho), João Henrique Papoula, Irapuam, Joza, Silvinho, Laércio, eu, Francisco Roberto, Renato, Serginho. Mesmo alguns que não eram muito chegados aos encantos da bola, mas sendo ex-liceístas, conheciam quase todo mundo, por isso incorporaram-se ao pessoal, como o Nelson e o Dráusio. Como sempre, convidei Toninho para integrar o grupo e ele chamou Adalto, seu irmão para juntar-se a nós.
               Depois do futebol na areia, que às vezes ia quase até o meio dia, alguns de nós dirigiam-se ao Luciu’s, misto de bar e mercearia, na esquina de Tavares Macedo e Lopes Trovão, para relaxar um pouco e curar as feridas que algumas entradas mais ríspidas da pelada tinham deixado em nossas pobres canelas.
               Eu, que pretendia fazer medicina, seguindo a carreira do meu pai, acabei fazendo Direito e Toninho formou-se em Economia e Medicina...
               Ironias do destino...
              Adalto, irmão de Toninho, que eu conhecia apenas superficialmente, solidificou uma grande amizade comigo e, também formado em Direito, acabamos sócios de escritório e ele foi aprovado em concurso para Defensor Público do Estado.
              O tempo passou rapidamente...
              Os anos sucederam-se sem que tivéssemos a real noção dessa velocidade...
              Toninho formou-se em Medicina, fui à sua formatura em Volta Redonda... Depois, foi trabalhar em Paraísópolis, interior de Minas, onde fui visitá-lo e conhecer sua filha, então com pouco mais de dois anos de idade e Maria José, sua mulher... Sempre nos falávamos, apesar da distância e das carreiras diferentes... Há uns três anos atrás, até por coincidência, viajamos juntos para a Europa, eu, minha mulher, Toninho e Zezé... Polônia, Hungria, República Tcheca, Suécia, Noruega, Rússia, Letônia...
            Certo dia, no início de 2005, ele me telefona de Paraisópolis:
            -- Carlinhos, porra, vê se consegue localizar o pessoal do futebol da praia, para a gente marcar um encontro, um bate-papo. Se não, vai acabar que só vamos nos encontrar em enterro, em cemitério...
           Eu comentei:
           -- Tudo bem, vou tentar... Mas, acho difícil, tem muita gente que talvez não se interesse em ir, tanto tempo se passou... A última vez que vi alguns deles foi no casamento de minha filha, em 88. Você, Irapuam, Toninho Pêssego, Renato, Joza, Silvinho, Jorge, segundo me lembro... Silvinho já morreu, menos um... Não sei o telefone do resto do pessoal. Mas, em todo caso, vou ligar para Renato, talvez ele saiba.
          E, assim fiz. Falei com Renato, ele contatou alguns do grupo e fizemos nossa primeira reunião na Gruta de Capri, em maio de 2005. Poucas pessoas compareceram. Dali em diante, foram vários encontros na Academia de Niterói, em São Francisco, já agora com a quase totalidade dos integrantes originários dos craques da década de 60, da Praia de Icaraí. E, Toninho, o idealizador dessas reuniões, um dos seus mais assíduos frequentadores, morreu...
         A inevitabilidade da morte é algo que temos que aceitar e aprendermos a com ela conviver... Mas, é muito duro quando essa dor nos atinge tão de perto... Parece que um pedaço de nós se perde, é arrancado de nosso corpo, sentimo-nos mais frágeis, mais vazios...
         Triste, não é? Zezé continuava a falar ao telefone, passando-me outros detalhes da morte, do enterro... Eu não ouvia mais nada... Uma dor no peito me angustiava, não me deixava respirar... O filme continuava a passar diante dos meus olhos...
         Toninho morreu...

quarta-feira, julho 20, 2011

Os Três minutos... (atualizado)

               Os três minutos...

                                                  Calfilho

           Os amigos se foram... As lembranças continuam... Não vi Heleno, mas vi Zizinho, Garrincha e Pelé... Até 1957, era cantorriense, o azul e branco de Niterói... Gostava muito do Canto do Rio, clube que então disputava o campeonato do Rio, apesar de ser de outro Estado, antes da fusão. Frequentava sua sede social, ali praticava vários esportes, curtia bastante seus bailes de carnaval. Tinha contato próximo com seus jogadores da época, que por ali sempre transitavam: Garcia, goleiro, que veio Flamengo; Veludo, também goleiro, reserva de Castilho na Copa do Mundo de 1954, vindo do Fluminense; Eli do Amparo, vindo do Vasco; Lafayette, Vitor, também oriundos do Fluminense. E Osmar, Mituca, Jairinho, Caboclo, pratas da casa, e tantos outros... A maioria dos que vieram de outros clubes estava em fim de carreira, aproveitando para jogar profissionalmente suas últimas partidas enquanto as pernas ainda aguentavam. Até que no final daquele ano, quando assisti pela televisão a final do Campeonato Carioca e vi aquele ponta direita endiabrado fazer o que fez em campo, arrasando com o pobre time do Fluminense, na épica vitória por 6 a 2, conquistando o título da cidade, tomei a decisão: dali para frente torceria pelo Botafogo, o time da estrela solitária. Já estava cansado de torcer para o Canto do Rio, que apenas ganhava um joguinho aqui, outro ali, mas sempre chegava nas últimas colocações quando o campeonato chegava ao fim. No meu fanatismo pelo futebol, cheguei a acompanhar a equipe cantorriense quando ia jogar nos diversos campos da cidade. Caio Martins, sua casa; Bariri, Conselheiro Galvão, Teixeira de Castro, São Cristóvão, Moça Bonita, Campos Sales, São Januário, Laranjeiras, General Severiano e, claro, até no Maracanã.
                Depois que passei a torcer pelo Botafogo, cada dia mais me encantava com o que Garrincha fazia em campo. Lembro-me do seu início de carreira, quando estreou no time de futebol profissional do Botafogo, em 19 de julho de 1953. Oduvaldo Cozzi, transmitindo um jogo no Maracanã, recebeu a informação de que em Teixeira de Castro, o Botafogo estava lançando um ponta direita que estava infernizando a defesa do Bonsucesso. Já tinha feito três gols e o Botafogo continuava massacrando. Ninguém sabia seu nome ao certo. Pela informação que lhe foi passada e pela velocidade com que passava por seus adversários, o repórter disse a Cozzi que seu nome talvez fosse Gualicho, referência a um famoso cavalo muito veloz que corria no Hipódromo da Gávea.
             Fiquei acompanhando de longe sua trajetória no Botafogo, às vezes via alguns jogos da equipe pela então TV Tupi. A princípio, pelo que vi, não me impressionei muito, torcedor de futebol com apenas doze anos de idade. Achava que ele driblava muito, era rápido, mas improdutivo. Seus dribles não levavam a nada de útil. Continuava cantorriense. Mas, depois daquele jogo contra o Fluminense, na final do Campeonato de 1957, não tive mais dúvidas: o homem era um gênio.         Daquele jogo em diante, passei a acompanhar mais de perto sua carreira. Fenomenal, diabólico, ninguém conseguia marcá-lo. Seus famosos dribles para a direita passaram a ser mais objetivos: depois de deixar um ou dois marcadores para trás, centrava com precisão para um dos centroavantes botafoguenses.      Inicialmente, Paulinho Valentim. Quando este foi vendido para o Boca Juniors, o felizardo passou a ser Quarentinha, que só tinha o trabalho de empurrar para as redes as bolas açucaradas que Mané lhe cruzava da direita.
            Claro, em 1958, foi convocado para a seleção brasileira que iria disputar a Copa do Mundo na Suécia. Mas, quase não foi. Julinho Botelho, que então jogava na Fiorentina da Itália, era o preferido de Feola, o treinador. Junto com Joel, do Flamengo, seriam os dois convocados para a ponta direita. Julinho, entretanto, que já havia disputado a Copa do Mundo anterior, em 1954, na Suiça, num gesto de muita nobreza, preferiu recusar a convocação, dizendo que não seria justo com os jogadores que atuavam no Brasil. Ele, que jogava no exterior, entendia que não deveria participar de uma seleção brasileira, prejudicando, assim, jogadores que atuavam no Brasil. Tão parecido com os dias de hoje, não é mesmo?
           Foi em 1958, na Copa do Mundo na Suécia, que vi os três minutos mágicos que o futebol me ofereceu... Nada de Ronaldo, nada de Zico, só a marca de um verdadeiro gênio... Hoje, a mídia exalta a aposentadoria do Ronaldo como se ele fosse o maior do mundo... Nada disso... O Flamengo celebra Zico, esquecendo-se de Dida, para mim, o maior jogador que o clube já teve...
          O Brasil, depois de vencer com facilidade a Áustria na estreia, saiu de um empate apertado contra a Inglaterra. Aí decidiram colocar o gênio em campo...
           Ele, que fora barrado por Feola e outros "sábios" da Comissão Técnica da então CBD, porque driblara a defesa inteira da Fiorentina num amistoso antes da Copa e, não satisfeito, já em cima da linha do gol, voltou para driblar novamente um dos beques e o goleiro antes de mandar a bola para o fundo das redes...
         Engraçado que hoje, passados mais de 50 anos da Copa da Suécia, esse mesmo goleiro da Fiorentina, que foi driblado duas vezes pelo gênio, numa entrevista para a televisão, diz que nunca viu nada parecido com aquilo que ele sofreu e que futebol é isso mesmo, alegria, diversão, encantamento...
            Contra a Áustria e a Inglaterra jogou Joel, ponta direita do Flamengo, que até tinha sido pivô de uma briga entre seu atual clube e o Botafogo, onde começara a sua carreira e fora aliciado pelo Flamengo, no início da década de 50. Era bom jogador, mas limitado, sem muito repertório a acrescentar ao escrete brasileiro.
          O jogo contra a Rússia, o terceiro da fase classificatória, seria decisivo para o Brasil. Se perdesse, a seleção poderia arrumar as malas e retornar mais uma vez derrotada de uma Copa do Mundo.
          Didi e Nilton Santos, os mais experientes jogadores da equipe, decidiram ir até o técnico Feola e ao presidente da delegação, Paulo Machado de Carvalho:
       -- Dr. Paulo, o Garrincha tem que entrar, se não podemos dar adeus à Copa -- disse Didi.
       -- Não temos nada contra o Joel, que é nosso amigo, mas o Garrincha vai dar um nó nos russos, eles vão ficar tontos, sem saber como reagir -- confirmou Nilton Santos.
          Feola ainda tentou ponderar:
           -- Mas, ele é indisciplinado, irresponsável, não pensa no time, parece que gosta de brincar sozinho com a bola, só dribla, dribla, não joga para a equipe...
            -- Mas, ele é assim mesmo, "seu" Feola... tem aquele seu jeito desligado de jogar, mas enlouquece os marcadores... E, desculpe, ele joga para o time sim... quantos gols o Paulinho Valentim e o Quarentinha fizeram com cruzamentos dele, lá no Botafogo... -- rebateu Nilton.
               Feola ironizou:
               -- Nem no psicotécnico que o Dr. Carvalhaes fez com ele aqui, conseguiu ser aprovado...
               -- Ele joga bola, "seu" Feola, é semianalfabeto, nem sabe o que é psicotécnico -- rebateu Didi.
                Paulo Machado de Carvalho ouvia tudo em silêncio. Depois que todo mundo falou, disse:
               -- Está certo, Didi e Nilton, vocês deram a sua opinião. Vou conversar com calma com o Feola e decidir o que fazer.
                No dia seguinte, antes do jogo, Joel sentiu uma providencial dor no joelho direito e foi afastado. Feola escalou Garrincha e, de quebra, também chamou Pelé, para jogar ao lado de Vavá, que já fora colocado no lugar de Mazola. Zito, também entrou no meio de campo, no lugar de Dino Sani, contundido.
             Toda a delegação temia os russos. Altos, fortes, treinavam de manhã e à tarde, num campinho perto da concentração brasileira. Tinham ido bem nos jogos anteriores e eram até considerados favoritos para o jogo contra o Brasil. No gol, tinham o melhor goleiro da Europa, o Aranha Negra, Yashin. No meio de campo, Ygor Netto, o grande capitão.
           Nilton, na véspera do jogo, foi ao quarto de Garrincha:
           -- Te prepara, Mané, que você vai entrar amanhã. Não vai decepcionar a gente, joga sério...
           Ele, que nem esperava mais jogar na Copa, reagiu com indiferença:
            -- Ué, Nilton, eu não jogo sério?
           No dia do jogo, 15 de junho de 1958, as equipes perfiladas para ouvir a execução dos hinos nacionais, os russos olhavam com curiosidade para a equipe brasileira. Estavam preparados para a presença de Joel, que estudaram com cuidado nos jogos contra a Áustria e a Inglaterra.
Perguntavam baixinho,uns aos outros, enquanto os hinos eram tocados:
           -- Quem é aquele moreno atarracado, com as pernas tortas, parecendo um aleijado, que vai entrar no lugar do Joel?
            Depois, olharam para Pelé, no verdor dos seus dezessete anos.         Comentaram com ironia:
            -- O Mazola deve estar machucado, acho que eles não tinham ninguém para substitui-lo e colocaram um menino no lugar dele. Deve ser juvenil ainda.
              Já antegozavam o prazer da vitória, achando que o jogo seria fácil.
              Executados os hinos, escolhidos os lados do campo em que cada equipe atuaria no primeiro tempo, o Brasil iria dar a saída.
              Começavam aí os três minutos mais lindos da história do futebol mundial, aqueles considerados os três minutos mágicos, reconhecidos como os mais espetaculares já vistos até hoje por toda a crítica especializada depois que o jogo terminou.
            Vavá deu a saída, tocando a bola para Pelé. Esse recuou para Zito, alguns metros atrás. Zito avançou com a bola dominada e no círculo central, passou-a para Didi. Este, recebendo o passe, levantou a cabeça e divisou Garrincha aberto na ponta direita. Como se estivesse no seu Botafogo, esticou um passe de quase 30 metros. O gênio matou a bola no bico da chuteira e avançou devagar.        No bico da grande área, Kusnetzov aproximou-se para dar-lhe combate. Manteve uma certa distância, talvez esperando que atitude o aleijado de pernas tortas tomaria. Deve ter pensado: "Vai ser fácil tirar-lhe a bola, não vai conseguir passar por mim".
          De repente, a explosão: o demônio dá uma arrancada rápida para a direita, seu drible característico, deixando Kusnetzov a mais de dois metros distância atrás. Então, já no bico da pequena área, dá um violento petardo com a perna direita, que explode no poste esquerdo de Yashin, que, atônito, não sabia o que fazer. A bola, depois de balançar a trave russa, vai para fora. Os russos se entreolhavam, abismados.
            Yashin bate o tiro de meta. No círculo central, a bola é dominada por Zito, que novamente faz o passe para Didi. Este, outra vez, procura Mané, na ponta direita. Ele recebe a bola e parte para cima da defesa russa. Agora, além de Kusnetzov, outro marcador estava ao seu lado. O demônio, mais uma vez, arranca pela direita, deixando os dois russos para trás, e, desta vez, cruza para o centro da área. Vavá não conseguiu alcançar a bola, que, novamente, sai pela linha de fundo.
            A defesa russa estava um pandemônio. Discutiam entre si, gesticulavam nervosamente, procuravam encontrar a melhor forma de marcar aquele ser do outro mundo que estava infernizando-lhes a vida. E, durante aqueles três minutos, a cena se repetiu. Garrincha, já agora marcado por três ou quatro russos, continuava deixando-os para trás, enlouquecidos. Ora cruzava a bola para o meio da área, ora tentava o chute direto para o gol. Os russos só tinham tocado na bola na hora de bater os tiros de meta, pois, para eles, felizmente, nenhuma daquelas jogadas resultou em gol. Vagavam em campo como zumbis, como autômatos, incapazes de encontrar uma fórmula que lhes permitisse parar aquele demônio que jogava contra eles.
           A marcação sobre Garrincha, nos lances seguintes, já tinha cinco, seis jogadores. Ele continuava driblando, driblando, passando o pé sobre a bola, voltando com ela dominada, dando gingas de corpo que deixavam seus marcadores enlouquecidos.
         Com isso, com toda a marcação em cima de Garrincha, pelo lado direito do ataque brasileiro, foi fácil para Didi encontrar os espaços necessários para fazer lançamentos para Vavá e Pelé, tendo o primeiro marcado os dois gols do Brasil naquele jogo.
           Depois do jogo, no vestiário russo, Kusnetzov desabafou, atirando com raiva as chuteiras contra os azulejos da parede:
            -- Chega, vou parar aqui de jogar futebol. Eu pensava que jogava alguma coisa, mas futebol de verdade é o que eles jogam.
             E o gênio voltou tranquilo para a concentração, esquecido de tudo aquilo que fizera em campo, sem se preocupar com o rebuliço que havia provocado na imprensa internacional com sua atuação, como se ela fosse a coisa mais natural do mundo. Colocou na vitrolinha portátil que comprara na Itália um disco do trombonista Raul de Barros e ficou assoviando despreocupado, como se estivesse sob a sombra de uma árvore na sua Pau Grande, de onde surgira para assombrar o mundo...