quarta-feira, fevereiro 11, 2015
A MAGIA DE PARIS 1
segunda-feira, fevereiro 09, 2015
ANTIGOS CINEMAS DE NITERÓI
Outro dia, passando pelo Facebook, moderna rede social da internet, onde há um grupo do Liceu Nilo Peçanha, de Niterói, vi que um dos frequentadores perguntava se alguém sabia onde ficava o cinema Rio Branco.
Naquelas duas décadas, os principais cinemas de Niterói ficavam na rua Visconde do Rio Branco, antiga rua da Praia, onde sobressaíam a estação da Cantareira e o Mercado de Peixe, bem antes do aterro que modificou bastante aquela região do centro de Niterói.
O Rio Branco ficava nessa rua, quase chegando na avenida Feliciano Sodré, por onde passavam os bondes que se dirigiam à chamada zona norte da cidade, Fonseca e Barreto, além de alguns bairros da vizinha São Gonçalo: Neves, Barro Vermelho, Rodo... Era o último dos cinemas da Rio Branco, na direção da Ponta d'Areia. Descendo essa rua, na direção da Amaral Peixoto, a principal avenida de Niterói, tínhamos o cine Eden (entre São João e Marechal Deodoro, não estou certo), o cinema Odeon ( no final de uma galeria onde haviam algumas lojas comerciais, entre as ruas Coronel Gomes Machado e São Pedro).
Passando a Amaral Peixoto e a Conceição, entre esta e a rua José Clemente, pontificava o cinema Central, talvez o mais elegante da cidade, que passou a funcionar tempos depois, o primeiro a introduzir o ar refrigerado em suas dependências. Diferenciava-se dos demais por ter uma sessão aos domingos, às 10 horas da manhã, além das outras normais da tarde e noite. Ficava ao lado da concorrida padaria Pão Quente, que anunciava servir o melhor pão da cidade.
Ainda na rua da Praia, depois do grande magazine Mesbla, na outra esquina com a rua XV de Novembro, ficava o cine Imperial, no térreo do antigo Hotel Imperial, hoje o moderno shopping Plaza.
Na década de 50 (não me recordo se chegou à de 60), na rua Aurelino Leal esquina com Visconde do Uruguai, ficava o famoso cinema Rink, o mais procurado poeira de Niterói, que tinha sessões contínuas a partir das onze da manhã. Exibia ele, como chamariz semanal para seus espectadores, séries famosas do cinema americano, como Flash Gordon, Dick Tracy, Roy Rogers, Hopalong Cassidy e vários outras, o que atraía a atenção da garotada. Além das séries, apresentava um ou outro filme principal. Mas, o forte eram as séries.
Já em Icaraí, tínhamos o cine Cassino e seu irmão gêmeo, o Grill, que funcionavam no prédio onde sobressaíra o Cassino Icaraí, antes do jogo ser proibido. Perto dele, na esquina da rua Álvares de Azevedo com a pracinha, ficava o charmoso Cinema Icaraí, que resistiu bastante tempo, sendo um dos últimos a fechar. No Campo de São Bento, depois dos outros já mencionados, surgiu o Cine São Bento, também muito elegante.
No Largo do Marron, em Santa Rosa, ficava o imponente cine Mandaro. Na Alameda São Boaventura, o cine São Jorge, na esquina com a rua São Januário. O cine Alameda foi inaugurado depois.
Ah! não posso esquecer... meu clube, o Canto do Rio Futebol Clube, também na continuação da rua da Praia, na direção do Gragoatá, exibia uma sessão de cinema para os sócios, todas as terças feiras... Fui um dos mais assíduos espectadores...
Desculpem-me os niteroienses, principalmente os mais antigos, se não mencionei outros, mas, foram estes os cinemas que conheci, apesar de ter frequentado apenas os do centro da cidade (onde morava) e os de Icaraí, onde residia a maioria dos meus colegas do Liceu.
Hoje, com a televisão, tanto a aberta como a paga, nenhum deles sobreviveu. No Rio de Janeiro, também, os poucos que ainda funcionam estão escondidos nos shoppings da cidade.
Pena, pois naquela época, ir ao cinema um dos melhores e mais concorridos programas do niteroiense. Na década de 50, principalmente, os homens vestiam terno e gravata e as mulheres exibiam seus melhores vestidos...
sábado, fevereiro 07, 2015
ALGUNS BARES DE NITERÓI DOS ANOS 50 E 60
ALGUNS BARES DE NITERÓI DOS ANOS 50 E 60
quinta-feira, fevereiro 05, 2015
MANEL'S E OUTROS MAIS
segunda-feira, fevereiro 02, 2015
BOAS LEMBRANÇAS
BOAS LEMBRANÇAS
Verdade que, para o desenvolvimento de nossas atividades, contribuíram decisivamente o Professor de Educação Física ALBER PESSANHA, que nos dava um toque oficial do corpo docente do colégio e o zelador do Liceu, AZER RIBEIRO, que abria o colégio para os liceistas aos sábados e lá ficava até terminarem os jogos realizados.
Mas, voltemos ao meu amigo CARRANO: depois que deixamos o Liceu, cada um seguiu seu caminho na vida, apesar de termos cursado a faculdade de Direto, eu talvez um ou dois anos antes dele. Lembro que ensaiamos abrir um escritório de advocacia quando eu voltei de minha temporada em Cantagalo, mas a coisa não evoluiu e perdemos o contato.
Voltei a revê-lo brevemente, na década de 1980, quando eu já era juiz presidente do I Tribunal do Júri do Rio de Janeiro e tive o prazer de receber sua visita. Conversamos rapidamente e outra vez perdemos o contato.
Só agora recentemente, quando entrei num site de buscas da internet, pesquisando coisas sobre o Liceu, foi que soube que CARRANO tinha um blog em que meu nome era citado numa de suas postagens. Localizei e li o mesmo com emoção, passados mais de cinquenta anos daquela época tão especial para nós.
E, passando por seu blog uma vez ou outra, vi uma postagem recente, em que ele fala do MANEL'S, um local misto de mercearia e botequim, na esquina das ruas Lemos Cunha com Mariz e Barros, onde passamos momentos saudosos e deliciosos, acompanhados de uma Portuguesa (não se faz mais cerveja como antigamente) ou de um conhaque Dreher.
Mas, isso é outra história, que merece uma postagem especial...
terça-feira, maio 15, 2012
Mais Botafogo...
DESATUALIZAÇÕES...
segunda-feira, maio 14, 2012
MISTÉRIOS DA INFORMÁTICA...
Desculpem-me os amigos que me dão a honra de ler estas breves linhas, mas ainda não me acostumei com os mistérios da informática. A muito custo, depois de aposentado, e até com grande resistência, decidi comprar um computador, para não me considerar um desatualizado com as coisas modernas. Custei muito a aprender alguma coisa sobre seu funcionamento e somente o básico, aquilo que me interessava mais de perto, principalmente o WORD onde eu poderia produzir meus modestos contos e relatar algumas "historinhas" que presenciei, participei ou até mesmo imaginei durante os meus 70 anos de vida.Depois, alguns amigos sugeriram que eu criasse um blog para divulgar o que escrevia. Criei o mesmo, que é o presente, mas quando tento passar para aqui alguma coisa que escrevi no WORD, o texto sai sem formatação, sem parágrafos, como se eu estivesse escrevendo em uma única linha reta, sem qualquer pontuação. Por isso, quando lerem alguma coisa que aqui transcrevo do WORD, os erros de formatação não devem a mim ser atribuídos e, sim, ao próprio blog, que não tem os mesmos recursos do processador do Windows.
domingo, maio 13, 2012
TONINHO DO LICEU, MEU AMIGO
Estava distraído escutando o resumo dos acontecimentos da véspera, não mais de dez minutos... O telefone toca... Fiquei um pouco preocupado...
“Àquela hora”, pensei... “Não deveria ser coisa boa...”.
Já tivera duas experiências extremamente dolorosas quando o telefone tocou no início da manhã. Uma, em agosto de 1963, comunicando a morte de meu pai, num trágico acidente nas barcas, quando voltava do Rio para Niterói. O outro, recente, do meu filho mais novo, em outubro de 2007, assaltado e jogado de um viaduto após sair de uma festa no Rio de Janeiro, quando se preparava para voltar a Niterói.
Mas, ainda sonolento, atendi o telefone, com o espírito totalmente desarmado...
-- Oi, Carlinhos, bom dia, desculpe se estou te acordando – disse uma voz de mulher do outro lado da linha.
-- Bom dia, quem está falando? – perguntei, com uma ponta de curiosidade, esfregando os olhos para espantar o sono.
-- Aqui é Zezé.
Estranhei, mas não me surpreendi. Dias atrás, quarta feira, havia tido uma longa conversa interurbana com Toninho, eu no Rio, ele em Paraisópolis, pedindo sua opinião sobre uns exames que havia feito... Afinal de contas, eu tinha um clínico geral que me atende há mais de 20 anos aqui no Rio, mas sempre pedia uma segunda opinião a Toninho, em quem eu confiava muito mais...
Não era nada de extraordinário, apenas e somente 50 anos de amizade... No nosso último encontro bimestral da turma da praia, lá na Academia de Niterói, chamei-o de lado, mostrei meu tornozelo inchado e comentei sobre minha preocupação... queria sua opinião.
Teve até gente do nosso grupo que gozou:
-- Porra, o cara tá dando consulta em botequim, tem que cobrar... Eu, brincando, mandei o cara à merda e Toninho, naquele seu jeito gozador de sempre:
-- Vem cá você também, se quiser eu te examino...
Perguntei:
-- Oi, Zezé, tudo bem? Toninho ligou? Estava esperando uma resposta dele sobre meus exames...
Ela respondeu, a voz já embargada pela emoção:
-- Não, Carlinhos, ele não ligou. Ele morreu...
A sensação que tive foi de ter levado um soco na boca do estômago... Não consegui respirar, as palavras não saíam de minha boca... Depois de alguns segundos de silêncio consegui falar, apalermado, voz de idiota:
-- O QUÊ? NÃO BRINCA COMIGO A ESSA HORA DA MANHÃ...
Zezé, já não conseguindo segurar o choro:
-- Foi num desastre, na Dutra, perto de Piraí...
Eu não sabia o que dizer. Olha, que estava acostumado com a morte, depois de dez anos como juiz do Júri... Ali, vi e senti todos os tipos de emoções... Mães que perdem filhos, mulheres que perdem maridos, assassinos frios e cruéis, mortes inesperadas, muitas delas por motivos banais...
Tentei recuperar o controle.
-- Zezé, como foi isso? perguntei, sem saber direito o que perguntava.
O filme da minha vida começou a passar rapidamente em minha mente. As cenas se atropelavam, as épocas se misturavam, a dor era tão grande que eu não conseguia dimensioná-la.
Zezé falava:
-- Foi num acidente, ele vinha de carro para o Rio, capotou três vezes, quebrou vários ossos, o corpo está no necrotério de Volta Redonda... Já liguei para o Renato, ele ficou de avisar o resto do pessoal de vocês... O corpo chega por volta de onze horas, o enterro é às quatro da tarde, no Parque da Colina, capela 1...
O filme continuava a rodar em minha cabeça em velocidade máxima... Não sei, lembrava-me de Toninho ainda cheio de cabelos, aos doze, treze anos de idade, correndo atrás de uma bola de meia na pista de terra do Liceu, já que só os mais velhos tinham direito de jogar futebol nas quadras de vôlei e basquete... Para nós, calouros, só restavam as pistas de atletismo e o campinho do necrotério. Depois, vinha a imagem de Toninho careca, carregando Alessandra no colo, com apenas dois anos e meio de idade, quando fui visitá-lo em Paraisópolis, na época em que iniciava sua carreira de médico. Essa imagem misturava-se com aquela do dia em que eu, ele, Irapuam e Silvinho, viajamos para Campinas para o casamento de Celso, nosso colega do Liceu... Depois, veio-me à mente a imagem do nosso quarto ano ginasial no Liceu, quando estudamos na mesma turma e nossa amizade se solidificou. Suas descidas do lugar humilde onde morava, tomando o ônibus 24 – Palmeiras-Centro, para irmos até o Canto do Rio, para jogarmos futebol de salão, assistir um cineminha às terças feiras, brincarmos o carnaval ou mesmo acompanhar o clube nos diversos estádios cariocas, quando disputava ele a primeira divisão do campeonato do Rio de Janeiro... Ele torcia pelo Flamengo, eu pelo Botafogo, mas éramos Canto do Rio acima de tudo...
Disse para Zezé:
-- Olha, não sei se vou conseguir ir ao enterro. Estou tomando remédio para pressão, essa notícia mexeu em tudo comigo. Vou ligar para o meu médico e ver como está a pressão. Desculpe, Zezé, a gente se conhece, você deve saber como estou me sentindo. Peça desculpas ao resto do pessoal se eu não for. Vou ligar para o Renato e ver quem eu posso avisar... O filme continuava a rolar... Vieram cenas de eu visitá-lo várias vezes no Buraco do Juca, lá no final da São Januário, no Fonseca, à direita, na subida do morro, conversar com Dona Edith, sua mãe, com Lourdes, sua irmã, com Amaurílio, o irmão mais velho... Voltavam-me imagens dele me visitando em meu apartamento, na Amaral Peixoto, onde eu morava naquela época do Liceu... Terminamos o ginasial, ele foi estudar à noite, para trabalhar durante o dia e ajudar a família no sustento da casa. Eu continuei no científico de manhã, preparando-me para o vestibular de medicina, para seguir a carreira do meu pai... Mas, dali em diante, nunca mais perdemos o contato...
Já no Grêmio do Liceu, convoquei-o para o time de futebol de salão do colégio, colocando-o logo no primeiro time, pela qualidade do seu futebol... João Carlos Maia, Paulo Massa, Toninho Matheus, Ronaldo Ganso e Sérgio Frigideira, esse o primeiro time de futebol de salão do Liceu, invicto em mais de 80 jogos... Foi o primeiro a vir do turno da noite para o time do Grêmio... Depois, veio o Dario Seixas... O resto, inclusive o segundo time, era todo do turno da manhã... Foi a nossa época de ouro... Jogávamos futebol de salão no Liceu, em Neves, no time do Robertinho Siri (também liceísta), frequentávamos o Canto do Rio durante a semana, nos sábados ou domingos acompanhávamos o time nos diversos estádios da cidade, brincávamos o Carnaval na rua da Conceição, frequentávamos o Riviera, o Manuel’s, a Gruta de Capri, íamos a festinhas em casas de liceístas e no Regatas todos os fins de semana... Fora as excursões a Angra dos Reis, Marambaia, Cachoeiro do Itapemirim...
Depois, ficamos adultos...
Telúrio, mais velho que nós, mas meu colega de turma no Liceu, teve a idéia de formar um grupo, inicialmente de ex-liceístas, mas que foi sendo aumentado de outros vários amigos, para jogarmos uma pelada descompromissada aos sábados na Praia de Icaraí. O local escolhido foi o trecho entre Presidente Backer e Lopes Trovão. Começamos, timidamente, no final de 1960. Já conhecia Toninho Pêssego do Canto do Rio, que, apesar de não ser liceísta, era conhecido de praticamente todo mundo do grupo recém-formado. Vieram Alvinho, Madeira, Paulo Fernando, seu irmão José Carlos, Pinheiro, Paulo Cezar, Jorge, Paulo Moll, Anésio, juntando-se aos ex-liceístas Oswaldinho, Pedro Aurélio, Cezar (irmão de Oswaldinho), João Henrique Papoula, Irapuam, Joza, Silvinho, Laércio, eu, Francisco Roberto, Renato, Serginho. Mesmo alguns que não eram muito chegados aos encantos da bola, mas sendo ex-liceístas, conheciam quase todo mundo, por isso incorporaram-se ao pessoal, como o Nelson e o Dráusio. Como sempre, convidei Toninho para integrar o grupo e ele chamou Adalto, seu irmão para juntar-se a nós.
Depois do futebol na areia, que às vezes ia quase até o meio dia, alguns de nós dirigiam-se ao Luciu’s, misto de bar e mercearia, na esquina de Tavares Macedo e Lopes Trovão, para relaxar um pouco e curar as feridas que algumas entradas mais ríspidas da pelada tinham deixado em nossas pobres canelas.
Eu, que pretendia fazer medicina, seguindo a carreira do meu pai, acabei fazendo Direito e Toninho formou-se em Economia e Medicina...
Ironias do destino...
Adalto, irmão de Toninho, que eu conhecia apenas superficialmente, solidificou uma grande amizade comigo e, também formado em Direito, acabamos sócios de escritório e ele foi aprovado em concurso para Defensor Público do Estado.
O tempo passou rapidamente...
Os anos sucederam-se sem que tivéssemos a real noção dessa velocidade...
Toninho formou-se em Medicina, fui à sua formatura em Volta Redonda... Depois, foi trabalhar em Paraísópolis, interior de Minas, onde fui visitá-lo e conhecer sua filha, então com pouco mais de dois anos de idade e Maria José, sua mulher... Sempre nos falávamos, apesar da distância e das carreiras diferentes... Há uns três anos atrás, até por coincidência, viajamos juntos para a Europa, eu, minha mulher, Toninho e Zezé... Polônia, Hungria, República Tcheca, Suécia, Noruega, Rússia, Letônia...
Certo dia, no início de 2005, ele me telefona de Paraisópolis:
-- Carlinhos, porra, vê se consegue localizar o pessoal do futebol da praia, para a gente marcar um encontro, um bate-papo. Se não, vai acabar que só vamos nos encontrar em enterro, em cemitério...
Eu comentei:
-- Tudo bem, vou tentar... Mas, acho difícil, tem muita gente que talvez não se interesse em ir, tanto tempo se passou... A última vez que vi alguns deles foi no casamento de minha filha, em 88. Você, Irapuam, Toninho Pêssego, Renato, Joza, Silvinho, Jorge, segundo me lembro... Silvinho já morreu, menos um... Não sei o telefone do resto do pessoal. Mas, em todo caso, vou ligar para Renato, talvez ele saiba.
E, assim fiz. Falei com Renato, ele contatou alguns do grupo e fizemos nossa primeira reunião na Gruta de Capri, em maio de 2005. Poucas pessoas compareceram. Dali em diante, foram vários encontros na Academia de Niterói, em São Francisco, já agora com a quase totalidade dos integrantes originários dos craques da década de 60, da Praia de Icaraí. E, Toninho, o idealizador dessas reuniões, um dos seus mais assíduos frequentadores, morreu...
A inevitabilidade da morte é algo que temos que aceitar e aprendermos a com ela conviver... Mas, é muito duro quando essa dor nos atinge tão de perto... Parece que um pedaço de nós se perde, é arrancado de nosso corpo, sentimo-nos mais frágeis, mais vazios...
Triste, não é? Zezé continuava a falar ao telefone, passando-me outros detalhes da morte, do enterro... Eu não ouvia mais nada... Uma dor no peito me angustiava, não me deixava respirar... O filme continuava a passar diante dos meus olhos...
Toninho morreu...
quarta-feira, julho 20, 2011
Os Três minutos... (atualizado)
Os três minutos...
Calfilho
Os amigos se foram... As lembranças continuam... Não vi Heleno, mas vi Zizinho, Garrincha e Pelé... Até 1957, era cantorriense, o azul e branco de Niterói... Gostava muito do Canto do Rio, clube que então disputava o campeonato do Rio, apesar de ser de outro Estado, antes da fusão. Frequentava sua sede social, ali praticava vários esportes, curtia bastante seus bailes de carnaval. Tinha contato próximo com seus jogadores da época, que por ali sempre transitavam: Garcia, goleiro, que veio Flamengo; Veludo, também goleiro, reserva de Castilho na Copa do Mundo de 1954, vindo do Fluminense; Eli do Amparo, vindo do Vasco; Lafayette, Vitor, também oriundos do Fluminense. E Osmar, Mituca, Jairinho, Caboclo, pratas da casa, e tantos outros... A maioria dos que vieram de outros clubes estava em fim de carreira, aproveitando para jogar profissionalmente suas últimas partidas enquanto as pernas ainda aguentavam. Até que no final daquele ano, quando assisti pela televisão a final do Campeonato Carioca e vi aquele ponta direita endiabrado fazer o que fez em campo, arrasando com o pobre time do Fluminense, na épica vitória por 6 a 2, conquistando o título da cidade, tomei a decisão: dali para frente torceria pelo Botafogo, o time da estrela solitária. Já estava cansado de torcer para o Canto do Rio, que apenas ganhava um joguinho aqui, outro ali, mas sempre chegava nas últimas colocações quando o campeonato chegava ao fim. No meu fanatismo pelo futebol, cheguei a acompanhar a equipe cantorriense quando ia jogar nos diversos campos da cidade. Caio Martins, sua casa; Bariri, Conselheiro Galvão, Teixeira de Castro, São Cristóvão, Moça Bonita, Campos Sales, São Januário, Laranjeiras, General Severiano e, claro, até no Maracanã.
Depois que passei a torcer pelo Botafogo, cada dia mais me encantava com o que Garrincha fazia em campo. Lembro-me do seu início de carreira, quando estreou no time de futebol profissional do Botafogo, em 19 de julho de 1953. Oduvaldo Cozzi, transmitindo um jogo no Maracanã, recebeu a informação de que em Teixeira de Castro, o Botafogo estava lançando um ponta direita que estava infernizando a defesa do Bonsucesso. Já tinha feito três gols e o Botafogo continuava massacrando. Ninguém sabia seu nome ao certo. Pela informação que lhe foi passada e pela velocidade com que passava por seus adversários, o repórter disse a Cozzi que seu nome talvez fosse Gualicho, referência a um famoso cavalo muito veloz que corria no Hipódromo da Gávea.
Fiquei acompanhando de longe sua trajetória no Botafogo, às vezes via alguns jogos da equipe pela então TV Tupi. A princípio, pelo que vi, não me impressionei muito, torcedor de futebol com apenas doze anos de idade. Achava que ele driblava muito, era rápido, mas improdutivo. Seus dribles não levavam a nada de útil. Continuava cantorriense. Mas, depois daquele jogo contra o Fluminense, na final do Campeonato de 1957, não tive mais dúvidas: o homem era um gênio. Daquele jogo em diante, passei a acompanhar mais de perto sua carreira. Fenomenal, diabólico, ninguém conseguia marcá-lo. Seus famosos dribles para a direita passaram a ser mais objetivos: depois de deixar um ou dois marcadores para trás, centrava com precisão para um dos centroavantes botafoguenses. Inicialmente, Paulinho Valentim. Quando este foi vendido para o Boca Juniors, o felizardo passou a ser Quarentinha, que só tinha o trabalho de empurrar para as redes as bolas açucaradas que Mané lhe cruzava da direita.
Claro, em 1958, foi convocado para a seleção brasileira que iria disputar a Copa do Mundo na Suécia. Mas, quase não foi. Julinho Botelho, que então jogava na Fiorentina da Itália, era o preferido de Feola, o treinador. Junto com Joel, do Flamengo, seriam os dois convocados para a ponta direita. Julinho, entretanto, que já havia disputado a Copa do Mundo anterior, em 1954, na Suiça, num gesto de muita nobreza, preferiu recusar a convocação, dizendo que não seria justo com os jogadores que atuavam no Brasil. Ele, que jogava no exterior, entendia que não deveria participar de uma seleção brasileira, prejudicando, assim, jogadores que atuavam no Brasil. Tão parecido com os dias de hoje, não é mesmo?
Foi em 1958, na Copa do Mundo na Suécia, que vi os três minutos mágicos que o futebol me ofereceu... Nada de Ronaldo, nada de Zico, só a marca de um verdadeiro gênio... Hoje, a mídia exalta a aposentadoria do Ronaldo como se ele fosse o maior do mundo... Nada disso... O Flamengo celebra Zico, esquecendo-se de Dida, para mim, o maior jogador que o clube já teve...
O Brasil, depois de vencer com facilidade a Áustria na estreia, saiu de um empate apertado contra a Inglaterra. Aí decidiram colocar o gênio em campo...
Ele, que fora barrado por Feola e outros "sábios" da Comissão Técnica da então CBD, porque driblara a defesa inteira da Fiorentina num amistoso antes da Copa e, não satisfeito, já em cima da linha do gol, voltou para driblar novamente um dos beques e o goleiro antes de mandar a bola para o fundo das redes...
Engraçado que hoje, passados mais de 50 anos da Copa da Suécia, esse mesmo goleiro da Fiorentina, que foi driblado duas vezes pelo gênio, numa entrevista para a televisão, diz que nunca viu nada parecido com aquilo que ele sofreu e que futebol é isso mesmo, alegria, diversão, encantamento...
Contra a Áustria e a Inglaterra jogou Joel, ponta direita do Flamengo, que até tinha sido pivô de uma briga entre seu atual clube e o Botafogo, onde começara a sua carreira e fora aliciado pelo Flamengo, no início da década de 50. Era bom jogador, mas limitado, sem muito repertório a acrescentar ao escrete brasileiro.
O jogo contra a Rússia, o terceiro da fase classificatória, seria decisivo para o Brasil. Se perdesse, a seleção poderia arrumar as malas e retornar mais uma vez derrotada de uma Copa do Mundo.
Didi e Nilton Santos, os mais experientes jogadores da equipe, decidiram ir até o técnico Feola e ao presidente da delegação, Paulo Machado de Carvalho:
-- Dr. Paulo, o Garrincha tem que entrar, se não podemos dar adeus à Copa -- disse Didi.
-- Não temos nada contra o Joel, que é nosso amigo, mas o Garrincha vai dar um nó nos russos, eles vão ficar tontos, sem saber como reagir -- confirmou Nilton Santos.
Feola ainda tentou ponderar:
-- Mas, ele é indisciplinado, irresponsável, não pensa no time, parece que gosta de brincar sozinho com a bola, só dribla, dribla, não joga para a equipe...
-- Mas, ele é assim mesmo, "seu" Feola... tem aquele seu jeito desligado de jogar, mas enlouquece os marcadores... E, desculpe, ele joga para o time sim... quantos gols o Paulinho Valentim e o Quarentinha fizeram com cruzamentos dele, lá no Botafogo... -- rebateu Nilton.
Feola ironizou:
-- Nem no psicotécnico que o Dr. Carvalhaes fez com ele aqui, conseguiu ser aprovado...
-- Ele joga bola, "seu" Feola, é semianalfabeto, nem sabe o que é psicotécnico -- rebateu Didi.
Paulo Machado de Carvalho ouvia tudo em silêncio. Depois que todo mundo falou, disse:
-- Está certo, Didi e Nilton, vocês deram a sua opinião. Vou conversar com calma com o Feola e decidir o que fazer.
No dia seguinte, antes do jogo, Joel sentiu uma providencial dor no joelho direito e foi afastado. Feola escalou Garrincha e, de quebra, também chamou Pelé, para jogar ao lado de Vavá, que já fora colocado no lugar de Mazola. Zito, também entrou no meio de campo, no lugar de Dino Sani, contundido.
Toda a delegação temia os russos. Altos, fortes, treinavam de manhã e à tarde, num campinho perto da concentração brasileira. Tinham ido bem nos jogos anteriores e eram até considerados favoritos para o jogo contra o Brasil. No gol, tinham o melhor goleiro da Europa, o Aranha Negra, Yashin. No meio de campo, Ygor Netto, o grande capitão.
Nilton, na véspera do jogo, foi ao quarto de Garrincha:
-- Te prepara, Mané, que você vai entrar amanhã. Não vai decepcionar a gente, joga sério...
Ele, que nem esperava mais jogar na Copa, reagiu com indiferença:
-- Ué, Nilton, eu não jogo sério?
No dia do jogo, 15 de junho de 1958, as equipes perfiladas para ouvir a execução dos hinos nacionais, os russos olhavam com curiosidade para a equipe brasileira. Estavam preparados para a presença de Joel, que estudaram com cuidado nos jogos contra a Áustria e a Inglaterra.
Perguntavam baixinho,uns aos outros, enquanto os hinos eram tocados:
-- Quem é aquele moreno atarracado, com as pernas tortas, parecendo um aleijado, que vai entrar no lugar do Joel?
Depois, olharam para Pelé, no verdor dos seus dezessete anos. Comentaram com ironia:
-- O Mazola deve estar machucado, acho que eles não tinham ninguém para substitui-lo e colocaram um menino no lugar dele. Deve ser juvenil ainda.
Já antegozavam o prazer da vitória, achando que o jogo seria fácil.
Executados os hinos, escolhidos os lados do campo em que cada equipe atuaria no primeiro tempo, o Brasil iria dar a saída.
Começavam aí os três minutos mais lindos da história do futebol mundial, aqueles considerados os três minutos mágicos, reconhecidos como os mais espetaculares já vistos até hoje por toda a crítica especializada depois que o jogo terminou.
Vavá deu a saída, tocando a bola para Pelé. Esse recuou para Zito, alguns metros atrás. Zito avançou com a bola dominada e no círculo central, passou-a para Didi. Este, recebendo o passe, levantou a cabeça e divisou Garrincha aberto na ponta direita. Como se estivesse no seu Botafogo, esticou um passe de quase 30 metros. O gênio matou a bola no bico da chuteira e avançou devagar. No bico da grande área, Kusnetzov aproximou-se para dar-lhe combate. Manteve uma certa distância, talvez esperando que atitude o aleijado de pernas tortas tomaria. Deve ter pensado: "Vai ser fácil tirar-lhe a bola, não vai conseguir passar por mim".
De repente, a explosão: o demônio dá uma arrancada rápida para a direita, seu drible característico, deixando Kusnetzov a mais de dois metros distância atrás. Então, já no bico da pequena área, dá um violento petardo com a perna direita, que explode no poste esquerdo de Yashin, que, atônito, não sabia o que fazer. A bola, depois de balançar a trave russa, vai para fora. Os russos se entreolhavam, abismados.
Yashin bate o tiro de meta. No círculo central, a bola é dominada por Zito, que novamente faz o passe para Didi. Este, outra vez, procura Mané, na ponta direita. Ele recebe a bola e parte para cima da defesa russa. Agora, além de Kusnetzov, outro marcador estava ao seu lado. O demônio, mais uma vez, arranca pela direita, deixando os dois russos para trás, e, desta vez, cruza para o centro da área. Vavá não conseguiu alcançar a bola, que, novamente, sai pela linha de fundo.
A defesa russa estava um pandemônio. Discutiam entre si, gesticulavam nervosamente, procuravam encontrar a melhor forma de marcar aquele ser do outro mundo que estava infernizando-lhes a vida. E, durante aqueles três minutos, a cena se repetiu. Garrincha, já agora marcado por três ou quatro russos, continuava deixando-os para trás, enlouquecidos. Ora cruzava a bola para o meio da área, ora tentava o chute direto para o gol. Os russos só tinham tocado na bola na hora de bater os tiros de meta, pois, para eles, felizmente, nenhuma daquelas jogadas resultou em gol. Vagavam em campo como zumbis, como autômatos, incapazes de encontrar uma fórmula que lhes permitisse parar aquele demônio que jogava contra eles.
A marcação sobre Garrincha, nos lances seguintes, já tinha cinco, seis jogadores. Ele continuava driblando, driblando, passando o pé sobre a bola, voltando com ela dominada, dando gingas de corpo que deixavam seus marcadores enlouquecidos.
Com isso, com toda a marcação em cima de Garrincha, pelo lado direito do ataque brasileiro, foi fácil para Didi encontrar os espaços necessários para fazer lançamentos para Vavá e Pelé, tendo o primeiro marcado os dois gols do Brasil naquele jogo.
Depois do jogo, no vestiário russo, Kusnetzov desabafou, atirando com raiva as chuteiras contra os azulejos da parede:
-- Chega, vou parar aqui de jogar futebol. Eu pensava que jogava alguma coisa, mas futebol de verdade é o que eles jogam.
E o gênio voltou tranquilo para a concentração, esquecido de tudo aquilo que fizera em campo, sem se preocupar com o rebuliço que havia provocado na imprensa internacional com sua atuação, como se ela fosse a coisa mais natural do mundo. Colocou na vitrolinha portátil que comprara na Itália um disco do trombonista Raul de Barros e ficou assoviando despreocupado, como se estivesse sob a sombra de uma árvore na sua Pau Grande, de onde surgira para assombrar o mundo...