quinta-feira, fevereiro 14, 2008

AOS MESTRES, PARA SEMPRE



AOS MESTRES, PARA SEMPRE...



Calfilho





          A vida, às vezes, leva-nos a caminhos que nunca imaginávamos trilhar.
                    Deixem-me voltar um pouco no tempo, relembrar dias que já vão muito longe.
                   O ano era 1949. Tinha eu sete anos de idade, estávamos morando pela primeira vez em Niterói. Eu ainda não estava totalmente alfabetizado, minha vida e de minha família tinha estado um pouco tumultuada nos últimos meses. Tínhamos voltado de Fortaleza para o Rio e como meu pai ainda não arranjara um outro apartamento para morarmos, acabou aceitando o convite do meu avô materno para residirmos por uns tempos com ele e minha avó, em Niterói. A cidade-sorriso, portanto, foi um acidente de percurso de minha vida, jamais imaginei ir lá morar.
                   Nasci no Rio, então a capital federal do nosso Brasil.                    Aqui passei os meus primeiros anos de vida, tendo apenas frequentado um ano de Jardim de Infância num colégio público no final da Belford Roxo, em Copacabana.
                   Essa minha única experiência escolar.
                 No início de 1949, meu pai, que era médico pediatra do Ministério da Saúde, foi convidado para chefiar a Delegacia Nacional da Criança, em Fortaleza. Como fora criado naquela cidade até os 16 anos, quando foi cursar medicina em Salvador e depois no Rio, aceitou o desafio. Sim, verdadeiro desafio, pois naquela época, a mortalidade infantil no Brasil era uma praga. Morriam crianças por falta de cuidados elementares com higiene, alimentação, e, principalmente, fome... Ainda mais no Nordeste brasileiro.
               E lá fomos nós para a capital cearense. Pegamos um navio do Ita, com toda a mobília e louça que minha mãe guardava com tanto cuidado.
            Lá chegando, a cidade ainda com carência de quase tudo (luz, saneamento básico, etc...), meu pai arregaçou as mangas e pôs o dedo na ferida grave da infância nordestina: a mortalidade. A maioria das crianças não chegava a um ano de vida, só conseguiam sobreviver aquelas oriundas de famílias mais abastadas e de um nível intelectual um pouco melhor.
              Demoramos um pouco a nos adaptar ao ritmo de vida mais lento da cidade. Ali, ninguém tinha pressa para nada: até o modo de falar era arrastado, as frases demorando a terminar.
           As autoridades locais conseguiram uma casa no centro da cidade para morarmos e meu pai foi tratado e saudado com todas as honrarias possíveis: era o filho da terra (apesar de ter nascido no Amazonas, quando meu avô ali foi um dos pioneiros da extração da borracha) que voltava à cidade onde fora criado, onde aprendera as primeiras letras e, agora, voltava como autoridade máxima na medicina infantil do Ministério da Saúde.
           Minha mãe não conseguiu matrícula para mim e meus irmãos nas escolas locais. Também, não sabíamos quanto tempo iríamos ali ficar. O futuro era incerto, nebuloso, era uma experiência que meu pai se dispusera a fazer.
               Por isso, para que, eu, filho mais velho, não ficasse na total ignorância, minha mãe passou a ensinar-me as primeiras letras. Com ela aprendi a ler, escrever, as contas de somar, diminuir, multiplicar e dividir. Foi minha primeira mestra, insuperável em vários aspectos.
                Como meu pai já previra, nossa passagem por Fortaleza foi muito rápida. Sabedor por um amigo aqui no Rio de que seu lugar no Ministério da Saúde estava prestes a ser preenchido por um apadrinhado do governo, voltou rapidamente para a então capital do Brasil, impedindo que a manobra política se consumasse.                 Nem voltou mais a Fortaleza. Mandou um telegrama para minha mãe mandando que ela vendesse toda a mobília e a louça inglesa e voltasse para o Rio. Imediatamente, segundo o telegrama.
Lembro-me perfeitamente de minha mãe ter anunciado a venda de mobília colonial e a louça importada no então único jornal de Fortaleza:
                “MOTIVO DE MUDANÇA URGENTE PARA O RIO DE JANEIRO. VENDO MOBÍLIA DE MADEIRA MACIÇA, ESTILO COLONITAL, VERNIZ ESCURO, COM CRISTALEIRA E LOUÇA IMPORTADA DA INGLATERRA NA COR AZUL”.
                  A casa da Tristão Gonçalves encheu-se de gente. A fina flor da sociedade da capital do Estado ali compareceu, interessada na aquisição de objetos tão raros. Eu e meus irmãos correndo alegremente pelo quintal e interior da casa, enquanto minha mãe regateava preço com os possíveis compradores.
            Vendidos os utensílios domésticos, pegamos um avião Constellation da Panair do Brasil com destino à minha cidade natal. Quadrimotor, a última novidade da época.
               E, quando aqui chegamos, não tínhamos onde morar. Meu pai não conseguira alugar o imóvel que queria, acabamos em Niterói. Meus avós maternos moravam então num apartamento de dois quartos, no início da Amaral Peixoto, que antes fora Duque de Caxias, bem no centro de Niterói.
              A cidade, naquele distante 1949, apesar de ser a capital do Estado do Rio de Janeiro, era ainda muito provinciana. Poucos edifícios com mais de quatro andares, comércio regular na rua da Conceição, alguns cinemas (Éden, Rio Branco, Imperial, Rink, Odeon, Mandaro, entre alguns outros).
             Por estarmos já no segundo semestre do ano, mais uma vez minha mãe não conseguiu matricular-me num colégio. Intensificou então suas lições, exigindo de mim que aprendesse muito mais outras coisas, além de apenas saber ler, escrever e fazer as quatro operações. Foram também lições de Conhecimentos Gerais, a outra matéria que fazia parte do currículo escolar da época.
          No início de 1950, tentamos a matrícula no Pinto Lima, grupo escolar mais perto de onde morávamos. Não conseguimos, as vagas já estavam todas preenchidas. Buscamos então no Getúlio Vargas, ali perto de São Domingos, onde também funcionava o Instituto de Educação, escola de formação de professoras. Ali fui matriculado na segunda série do então curso primário. No primeiro dia de aula, a professora fez um teste com os alunos novos, aqueles que estavam chegando no grupo escolar. E, graças à minha mãe, minha primeira mestra, fui logo transferido para uma turma da terceira série, pois, segundo o teste, estava muito adiantado para cursar a segunda.
              Minha primeira homenagem vai, pois, para minha mãe, que, com carinho e dedicação, mesmo assoberbada de trabalho com os afazeres domésticos e a criação de três filhos no início de uma vida de sua própria família, ainda conseguiu tempo para me ensinar o suficiente para que eu pulasse uma série no meu curso primário, adiantado que estava para a minha idade, oito anos na época.
           Minha primeira professora, na terceira série do Getúlio Vargas, chamava-se Gilda Baptista de Freitas. Magrinha, miúda, deveria ter uns 19, 20 anos quando pegou a nossa turma. Não sei se aquela foi a primeira turma que ela ensinou depois que concluiu o normal. Mas, por sua juventude e doçura, acredito que sim.
              Gostava muito dela. Aliás, toda a turma. Simpática, doce, exigente, sabia cativar os alunos e foi figura marcante na minha educação. Ah! Como era diferente a qualidade do ensino público daquela época comparada com a atual...
              Com Dª. Gilda, mantive uma relação de amizade que durou vários anos. Mesmo depois de não ser mais minha professora, trocávamos cartões de Natal todos os fins de ano. Infelizmente, depois de muito tempo, perdemos o contato. Não sei se casou, se mudou do endereço da Miguel de Frias, em Icaraí. Gostaria muito de revê-la. Para ela, portanto, a minha segunda homenagem especial.
                  Na quarta série primária, minha professora foi Dª. Dirce, severa, cabelos grisalhos. Não me recordo de seu sobrenome.
                Como não tinha idade para fazer o admissão para o Liceu (a mínima era dez anos completos), cursei ainda a quinta série no Getúlio Vargas. Minha professora foi Dª. Altina Lago, senhora com ar bonachão, também de cabelos grisalhos, que morava numa casa em frente ao grupo escolar, numa rua pequena que liga a Andrade Neves à antiga Visconde de Moraes.
               Bem, aí veio o Liceu, a melhor fase de minha vida escolar.
                    Minha terceira homenagem especial vai para Dª. Jacira Farias, minha professora de português do primeiro ao terceiro ano do antigo curso ginasial. Rigorosa, exigente, com uma grande verruga preta no rosto, óculos de grau sempre pendurados sobre o nariz, dificilmente sorria. Era temida por todos os alunos pelo rigor com que exercia sua profissão, pela cobrança dos deveres de casa e por ter o hábito de mandar os alunos para o quadro negro, o que era verdadeiro motivo de pânico para jovens com apenas onze anos de idade, que mal haviam deixado de usar calças curtas.
              Mas, atualmente, passados mais de cinqüenta anos daquela época maravilhosa, reconheço que foi ela a principal responsável por hoje eu escrever e falar razoavelmente a nossa língua. Se naquela época tremíamos de medo quando ela nos chamava ao quadro negro, ou quando nos mandava ler em voz alta algum trecho de literatura, ou ainda quando nos exigia atenção total nos seus intermináveis ditados, hoje os frutos de todo aquele rigor apareceram.
          Tão diferente do ensino do português dos dias de hoje, quando o corretor ortográfico do Word é o modelo de ensino para os nossos netos...
                Dª. Jacira ensinou-nos a amar a nossa língua, a ter com ela uma relação de intimidade difícil de ser encontrada nos dias de hoje, com a linguagem que nos é imposta pelas novelas de televisão, pelos filmes importados ou pelas pseudas facilidades que o computador trouxe para a nossa juventude.
             E, engraçado: apesar de toda aquela aparência de severidade que ela nos passava, não sei de algum aluno que tenha sido reprovado por ela. Evidentemente, deve ter havido um ou outro, mas sinceramente não me recordo de nenhum.
                 Existiram vários professores daquele meu tempo de Liceu que me marcaram profundamente. Vou citar apenas alguns, deixando bem claro que essa nomeação é apenas em relação àqueles ou àquelas que mais me impressionaram, que mais me influenciaram na minha vida adulta.
                   Dª. Anita, de Matemática, durante os três primeiros anos do ginasial.
                 Dª. Estefania Carvalho, doce professora de cabelos brancos, que incutiu em mim o gosto e a admiração pelo idioma francês, e responsável indireta pelas minhas viagens anuais à terra de Sartre.
                   Professor Almeida Cousin, de História Geral; Professor Vieira, de Geografia, com sua famosa frase “deponham o lápis” quando nos aplicava as provas mensais; Professora Acyra, de francês; Professor Michel Salim Saad, em francês, português e latim; Professor Nilo Neves, em português e francês; Professora Malca Beider, em História Geral.
                Abro um parêntese para relatar um episódio que considero marcante e que aconteceu muitos anos depois de eu já estar formado em Direito. O ano era 1972. Eu era Promotor de Justiça em Niterói e estava em meu gabinete de trabalho quando um oficial de justiça me disse que um advogado queria falar comigo. Mandei-o entrar e quando adentrou a sala, logo o reconheci. Meu ex-professor de francês e português no Liceu e componente da banca do vestibular de Direito da UFF.
            Cumprimentei-o, pedi que sentasse. Ele não me reconheceu, o que era compreensível, pois dera aulas para tantos alunos. Humildemente, até com alguma dificuldade de expor seu caso, entregou-me um requerimento de relaxamento de prisão em flagrante para que eu desse o meu parecer ao Juiz da Vara.
           Vi logo que a advocacia criminal não devia ser o seu forte, pela pouca intimidade que ele demonstrava ter com a matéria. Fiquei em silêncio, enquanto examinava seu requerimento. Ele me olhava de lado, ansioso, preocupado com o destino do seu cliente. Como tinha razão no que pretendia, dei meu parecer favorável ali na hora mesmo.
          Devolvi-lhe os autos com o parecer e, enquanto ele o lia, pareceu respirar aliviado. Levantou-se, estendeu-me a mão:
         – Muito obrigado, excelência – disse, apertando a minha mão. – Bem que me disseram que o senhor era um homem justo.
       Não dei importância ao elogio, pois estava acostumado a recebê-los, falsos ou verdadeiros, quando opinava a favor de um pedido formulado pelos advogados de defesa. Sabia que quando meus pareceres eram contrários, deveria ser xingado até a última geração.
            Não resisti, enquanto retribuía o aperto de mão. Disse:
           – O senhor não deve se recordar, mas fui seu aluno no Liceu.
           Ele ficou surpreso, olhando sem graça para mim. Perguntou:
           – Foi mesmo? De que matéria? Em que época?
           – Português e Latim. Por volta de 1956, 57 – respondi.
        Ele ficou emocionado. Não conseguiu conter duas lágrimas que lhe escorreram dos olhos. Depois de algum tempo em silêncio, disse:
         – Fico muito contente com essa revelação. O senhor me tocou profundamente, pode estar certo disso.
          Afastou-se, fechando a porta do gabinete.
         Alguns anos mais tarde, já quando era juiz de Direito no Rio de Janeiro, passei pela mesma experiência por ele vivida naquela ocasião. Senti enorme satisfação, uma sensação de dever bem cumprido, quando vi que vários dos meus alunos em cursos preparatórios para concursos para o Ministério Público e para a Magistratura foram aprovados e hoje são desembargadores e procuradores de justiça. É a sensação de que você foi feliz na missão de tentar transmitir alguma coisa a alguém.
            Voltando às minhas homenagens. No curso científico, que fiz porque pretendia fazer vestibular para medicina, três outros professores me marcaram pela didática, qualidade das aulas e exposição. Um deles foi o professor José Nelino, de português. Depois de Dª. Jacira no ginasial, o professor Nelino no científico consolidou meu aprendizado da língua pátria. Clareza de exposição, voz calma e tranquila, era uma das poucas aulas que fazia questão de assistir, eu, que na época, estava mais preocupado com o meu Grêmio do que em cumprir meus deveres escolares.
             E, depois de cursar o primeiro ano científico, quando quase fui reprovado em Química pelo professor Saleme, começou a aflorar minha aversão pelas ciências exatas. Mas, como tinha que cursar o científico para fazer o vestibular para medicina, fui levando, estudando a contragosto aquelas matérias que exigiam tanto. Mas, surpresa: no segundo ano, meu professor de Química foi Carlos Alberto Coelho da Costa: extraordinário, sabia cativar os alunos, transmitindo suas aulas com clareza e precisão. Quase me convenceu a passar no vestibular para a carreira do meu pai.
          A eles dois, professores Nelino e Coelhinho (era como o chamávamos na intimidade e irreverência estudantil), as minhas quarta e quinta homenagens especiais.
            Finalmente, a sexta e última. Não sei se será mais ou menos importante que as outras. Para mim, com certeza, será a de maior valor, maior carinho, maior admiração.
           Minha querida professora de matemática do científico, Nícia Muniz. Discreta, quase silenciosa, controlava uma turma de adolescentes rebeldes beirando os dezoito anos de idade apenas com o olhar. Sereno, como sempre.
       Naquele nosso último ano de Liceu, quando estávamos ansiosos em saber que caminhos tomaríamos dali para frente, as predileções de cada um de nós começavam a despontar. Eu, por exemplo, não sabia a razão de estar cursando o científico, já que não tinha nenhuma afinidade com matemática, física, química, desenho e outras ciências. Sentia uma indefinição muito grande pela frente. Iria fazer o vestibular de medicina para atender à vontade de meu pai, mas, sinceramente, percebia que não tinha nenhuma vocação para a carreira. Não me sentiria à vontade dando plantões num hospital qualquer ou sendo acordado no meio da noite para atender a um chamado de emergência. Medicina é sacerdócio e não era, definitivamente, o meu caso, a minha vocação.
             Dª. Nícia, na sua sabedoria silenciosa, deve ter percebido que eu e outros alunos da turma estavam no mesmo caso. Deslocados, estudando matérias de que não gostavam e que, talvez, a maioria não fosse utilizar nas carreiras que escolheriam. Assim, sem dizer nada, sem dar qualquer demonstração do que já havia percebido, continuou dando suas aulas discretamente, sem alarde, procurando orientar em separado um ou outro aluno que estava tendo dificuldades na sua matéria.
        Bem, o final do ano chegou. Vieram as provas finais, estávamos a poucos passos de encerrar um ciclo de nossas vidas e partir em busca de novos caminhos. Consegui passar raspando em várias matérias, umas por esforço próprio, outras olhando de soslaio para a prova do colega da carteira ao lado.
       Mas, tinha certeza: “vou ficar em segunda época em matemática”. Minhas notas durante o ano não tinham sido boas e, na prova oral do início de dezembro, respondi apenas algumas poucas perguntas. Não daria nem para tirar três. E, precisava de quatro para não ficar em segunda época.
         Já estava preparando as desculpas que teria que dar para minha mãe e meu pai. Eu, que nunca tinha ficado em segunda época, desde o primeiro ano ginasial.
           Enfim, terminada a prova oral do último aluno, Dª. Nícia iria dar as notas de cada um, decidir quem iria colar grau ou ficar para fazer a prova em fevereiro do ano seguinte.
         Sentados todos os alunos na salinha do primeiro andar, aquela tradicional das terceiras séries do científico, que dava para o pátio, ela abandonou um pouco sua posição de professora e sentou-se numa das cadeiras destinadas aos alunos, misturando-se aos mesmos.
         Começou a dar as notas em ordem alfabética. Quando chegou a minha vez, eu que era um dos primeiros da lista de presença, ela olhou fixamente para mim. Tentei interpretar seu olhar: enigmático, não sabia se de pena por me reprovar ou de censura por não ter eu estudado o suficiente. Ela continuou a me olhar fixamente. Esboçou um sorriso de bondade. Depois disse, displicente:
          – Quatro...
      Retribuí seu olhar, mas fazendo força para esconder duas lágrimas que teimavam em me marejar os olhos. Ela entendeu. Fui abraçado e cumprimentado por outros colegas, que sabiam da nota que eu precisava tirar.
          Nunca esqueci essa cena, Dª. Nícia, pode estar certo disso.
      E mais contente fiquei quando, recentemente, voltamos a manter um contato telefônico e a senhora me disse que exigia muito dos alunos para... depois assoprar. E, ainda mais importante: que a senhora também tinha sido aluna do Liceu. Somente quem viveu aquela experiência maravilhosa tem condição de entender as indefinições e incertezas que cercam os estudantes no encerramento de uma fase de suas vidas e no limiar de outra que definirá o futuro de cada um.
      Para mim, Nícia Muniz foi a minha professora mais que especial, foi minha amiga.
      Senti-me na obrigação de fazer esta homenagem aos professores que me ensinaram tudo que sei na vida. Quando verifico hoje que o ensino público está relegado a segundo plano, que colégios como o Liceu foram sucateados e fragmentados na sua essência e excelência e que a qualidade de ensino caiu de forma assustadora, tento aqui deixar meu protesto para que novamente possamos ter escolas públicas de qualidade e que os professores sejam respeitados e valorizados como os principais e verdadeiros formadores dos homens que irão dirigir o país no futuro. E, que sejam bem remunerados...
        Sem a qualidade dos professores que tive, eu e aqueles da minha geração não teríamos alcançado o que conseguimos na vida.
            A vocês, pois, mestres, nossos sinceros agradecimentos.

Vocês morarão sempre em nossos corações e fazem parte de nossas vidas.

terça-feira, janeiro 15, 2008

PAIXÃO...

P A I X Ã O . . .

CALF




– Eu já não sei mais o que fazer.... Dá vontade de largar tudo e me mandar para o interior... Já pensei numa casinha em Friburgo, num lugar sossegado, só p'ra mim e a Maria – disse Amâncio, jogando as cartas sobre a mesa.
Mário, olhando para as próprias cartas, escolhia qual a melhor jogada a fazer. Decidiu-se e comprou uma carta do "morto".
– Eu também já pensei nisso, mas p'ra mim, que sou sozinho, acho que vou ficar muito mais isolado. Aqui, pelo menos, os filhos e netos vêm me visitar, estão sempre por perto se alguma coisa me acontecer...– Parou de falar por um momento, como se estivesse refletindo. Continuou, voz baixa, quase um murmúrio: – Mas, isso aqui, realmente, está muito perigoso de viver, já não se pode mais nem sair à rua, é violência por todo canto...
Baixou uma trinca de reis.
– Eu já estou de saco cheio – disse Roberto, olhar atento nas cartas que tinha nas mãos. Baixou uma seqüência de espadas. – Já não tenho mais coragem de sair à noite, de ir a um teatro ou assistir um show. Nem mesmo para o meu chopinho no botequim do Arnaldo, coisa que fazia diariamente antes de dormir, hoje tenho ânimo para sair de casa.
Alberto ouvia tudo em silêncio, nada comentando. Olhava distraidamente para as cartas abertas à sua frente, olhar distante, como se estivesse desligado do jogo e da conversa.
Os quatro amigos, todos beirando os oitenta anos de idade, distraíam-se jogando buraco naquele cantinho do Posto seis, ponto tradicional de encontro dos idosos de Copacabana, lugarzinho cercado, em frente à praia, junto do local onde alguns anos antes se situara o imponente Cassino Atlântico, depois os estúdios da extinta TV - Rio. Em várias mesas espalhadas no cercado de lona, outras senhoras e senhores passando dos setenta conversavam animadamente.
Mário continuou:
– Quem diria que a cidade iria se transformar no que está agora... Lembra, Alberto, quando a gente brincava o Carnaval, pulando dos estribos dos bondes, fantasiados de palhaço ou mascarados, fazia a ronda por todos os bares de Copacabana e ia acabar na Fiorentina, lá no Leme, só indo p'ra casa às seis da manhã, dia clareando, conversando alto pela Atlântica, todo mundo de pilequinho?
– E as batalhas de confete e serpentina da Galeria Cruzeiro, aquele monte de mulher bonita desfilando pela Rio Branco... – lembrou Roberto, com um olhar de melancolia.
– Vai fazer isso agora, p 'ra ver o que te acontece... Tu chega nu em casa, se conseguir chegar vivo... Te roubam tudo, até a roupa do corpo, se bobear...
Alberto continuava sem nada dizer, uma guimba de cigarro no canto da boca, os ralos cabelos brancos esvoaçando com a brisa gostosa daquele fim de manhã de sol esplendoroso da "Princesinha do mar"... Olhava ora para as cartas, ora para o jogo que estava sobre a mesa, inteiramente concentrado no jogo.
– Não, eu não agüento mais ficar por aqui – repetiu Amâncio, um pouco exaltado, enquanto virava o resto de chope que havia em sua caneca. – Não se tem mais liberdade de sair à rua, todo mundo vive com medo, trancado em suas casas. Outro dia mesmo, na quinta-feira, 8 horas da manhã, vejam bem, 8 horas da manhã, depois de ter caminhado cedo na praia, voltava para casa e esperava o sinal abrir na esquina de Nossa Senhora com Santa Clara. Calmamente, distraído, pensando na morte da bezerra, quando comecei a ouvir : PUM! PUM! TAC! TAC!... Sem brincadeira… Mais de vinte tiros… Depois, os carros de polícia, em disparada pelas ruas, sirenes abertas, policiais com armas na mão.... Gente se jogando no chão, procurando abrigo nas lojas que começavam a abrir... Uma zorra total... Depois vim a saber que fora uma tentativa de assalto num caixa eletrônico na esquina da Figueiredo... Que loucura....
A praia estava praticamente lotada. As barracas multicoloridas imprensavam-se umas contra as outras, as ondas fortes beijavam com violência a areia clara, fazendo ressaltar a beleza indescritível de um dos mais famosos e belos cartões postais do mundo. No calçadão e na pista interditada aos domingos para o lazer dos cariocas, uma multidão de pessoas caminhava, corria, pedalava, outros apenas passeavam, aproveitando aquela maravilhosa manhã de domingo que só o Rio consegue oferecer.
– Eu também, acho que me mudo para o interior. Estou vendo alguma coisa lá pelos lados de Mangaratiba, pois não sei ficar longe da praia. Lá tem uns sítios bons, não são muito caros – disse Roberto. – Não quero acabar morrendo por uma bala perdida ou sendo assaltado por um bando de pivetes na rua.
– Pois é – prosseguiu Mário. – Minhas filhas já foram assaltadas nos ônibus, meu neto teve o celular arrancado das mãos outro dia desses. Até seus tênis os moleques já levaram...
– E vai tentar reagir, oferecer resistência – interrompeu Amâncio. –- Acaba levando um tiro ou uma facada, morre estupidamente nas mãos de um boçal desses...
– Viu aquela menina da Tijuca, semana passada? – indagou Roberto. – Os pais não deixavam ela sair sozinha na rua, iam levá-la e buscá-la no colégio todos os dias. Na única vez que permitiram que voltasse sozinha para casa, uma estação só do metrô, acontece aquela tragédia... Só quatorze anos, uma vida estupidamente perdida... Esse é o nosso Rio de Janeiro, a "Cidade Maravilhosa"...
– Tá parecendo Chicago dos anos 20, cidade sem lei, dominada por Al Capones, Dillingers, etc... – filosofou Mário.
– E os camelôs nas calçadas? – interveio Amâncio. – Aqui, na Nossa Senhora e no centro, não se pode mais andar pelas calçadas. Tem-se que passar pelo meio da rua, correndo o risco de ser atropelado.
– É verdade – concordou Roberto, ar de desânimo na voz. – E nós, que já estamos velhos, é que sofremos mais. Os carros não respeitam quando a gente atravessa as ruas, vêm para cima mesmo. E, somos os alvos preferidos dos pivetes e assaltantes. Juntam dois, três, empurram a gente, levam tudo que a gente carrega.
– E você, Alberto, não diz nada? Vai dizer que também não tem medo de viver aqui? – perguntou Amâncio.
Alberto, com o mesmo ar calmo e tranqüilo que mantinha até ali, olhou mais uma vez para as cartas que tinha nas mãos. Depositou-as suavemente sobre a mesa. Disse, olhando triunfalmente para os companheiros:
– Bati...
Os outros olharam desanimados para as cartas sobre a mesa. Mario chamou o garçom e pediu uma outra rodada de chope. Amâncio insistiu:
– E, então, Alberto, você não diz nada?
Ele coçou a cabeça, passando os dedos por entre os fios de cabelos brancos. Virou o resto do chope, acendeu um outro cigarro. Respondeu, voz macia, as palavras saindo-lhe vagarosamente pela boca onde alguns dentes já faltavam:
– Olha, vocês querem saber de uma coisa? Eu daqui não saio não. Nasci aqui, aqui fui criado, estudei, trabalhei e me casei. Minha mulher já morreu, a gente não teve filhos. Não tenho nenhum parente vivo e, mesmo que tivesse, não ia dar trabalho a ninguém no fim da vida. Vi essa cidade crescer, transformar-se, acompanhei as diversas fases da sua evolução. Aqui tenho de tudo: praia, montanha, floresta, comércio bom e variado, conheço todo mundo no meu quarteirão, padeiro, jornaleiro, bicheiro, farmacêutico, dono de botequim. Amo minha praia, adoro passear no centro da cidade, fazer um lanche na Colombo, tomar um chope no bar Luiz ou no Brasil, lá na Lapa. Não há nada que se compare ao almoço de domingo num desses restaurantes da beira da praia, onde fico mastigando alguma coisa, vendo as meninas desfilando nos seus biquínis mostrando quase tudo. Conheço cada esquina, cada buraquinho de Copacabana. Aqui vi a bossa nova nascer, lá no beco das Garrafas, freqüentei o Vogue, o Sacha's, o Copacabana Palace... Vi Heleno de Freitas jogar futebol na areia dessa praia, João Saldanha era meu vizinho na Miguel Lemos... Copacabana e o Rio fazem parte do meu corpo, da minha alma... Estão na minha pele, são meu sangue, me alimentam, me trouxeram até os meus 78 anos de vida... Esses bandidinhos que andam por aí, esses marginais de meia tigela, não vão me expulsar da minha cidade, não me metem medo... eu já vivia aqui muito tempo antes deles... se quiserem me matar, que matem, mas como dizia aquela antiga musiquinha de carnaval : '' DAQUI NÃO SAIO, DAQUI NINGUÉM ME TIRA... " . Aqui é minha cidade, tenho verdadeira paixão por ela, nela nasci e, se Deus quiser, nela vou morrer...
Quase todos os freqüentadores do local levantaram-se e bateram palmas, entusiasmados e emocionados, relembrando, talvez, um Rio de Janeiro que já não exista mais....

NIKITA DO LNP...

NIKITA DO LNP


CALF




– Psiu, neném! Não pode, não!!!
Lá vinha ele, no seu costumeiro terno marrom, o dedo indicador balançando naquele seu característico gesto de “não pode”. Descia os degraus da escada que dava acesso ao pátio e caminhava com passos vigorosos em direção à quadra de basquete. O pessoal interrompia por segundos o “racha” que acabara de começar.
Eu, que estava matando aula, disse para Serrinha:
– Vai lá, Serrinha, fala com ele que vocês estão de intervalo. Eu não posso aparecer porque estou matando.
A turma do Serrinha era do primeiro científico. Ele, um pouco temeroso dirigiu-se ao chefe dos inspetores de disciplina:
– Poxa, “seu” Borges, a gente está de intervalo, a professora de História faltou.
Ele, ainda sob a sombra acolhedora do pátio, olhou para Serrinha, depois para o pessoal que estava na quadra, a uns dez metros de distância. Eu procurei ficar atrás de um “cara” da turma deles, o Mangelli, tentando evitar que ele me visse.
Disse para Serrinha:
– Vocês já sabem que o diretor não permite futebol a não ser na hora do recreio.
Continuava a olhar para os garotos na quadra, tentando descobrir alguém de outra turma.
– Mas, “seu” Borges, a gente estava terminando uma partida interrompida no outro dia. Não tem mal nenhum, a gente não tem aula mesmo – tentou argumentar Serrinha.
– Mas, o diretor não deixa. Vocês gritam muito, perturbam os outros que estão em aula. Além disso, depois vão para a sala todos suados, não prestam atenção à nada, ficam conversando o tempo todo – retrucou “seu” Borges.
Repentinamente, dirigiu-se em passos rápidos para a quadra.
“Pronto, ele me viu, tou ferrado” – logo pensei.
Ainda na pista de atletismo, no limiar do cimento da quadra, parou. Falou baixo, quase um sussurro:
– “Seu” Carlos, por favor, venha aqui.
Saí detrás do Mangelli, caminhei vagarosamente em sua direção.
Ele indagou, sério:
– O que o senhor está fazendo aí, misturado com essa turma?
Pensei um instante antes de responder.
– Estava vendo umas coisas do Grêmio, “seu” Borges. Acabei me atrasando, perdi a aula. Também não era tão importante, era História, já tenho nota pra passar – emendei rápido.
– E aí o senhor vem jogar bola com o pessoal de outra série, não é?
Respondi, meio sem jeito, um pouco de cinismo na voz:
– Eu estava à-toa, eles precisavam de alguém para completar um dos times...
Mesmo com o uniforme já molhado de suor, aproximei-me dele, coloquei o braço esquerdo, ensopado de suor, sobre seu ombro.
Quase implorei, voz de pidão:
– Puxa, “seu” Borges, deixa os garotos brincarem. O jogo está empatado, eles apostaram dez cocas. Se o senhor quiser, eu saio, vou lá para o Grêmio, ou fico quieto, sentado aqui num banco, conversando com Cenira. Vou levar falta mesmo.
Ele olhou para mim, ainda com a fisionomia séria. Depois de alguns segundos, não conseguiu esconder um esboço de sorriso que lhe aparecia nos lábios. Afastou minha mão do seu ombro, limpando o suor que lhe molhava o paletó.
– Bem, desta vez passa – disse. – Agora, vejam se vocês não fazem barulho.
Virou as costas e voltou para o pátio, balançando a cabeça para os lados, num gesto de conformismo.
Assim era o “seu” Borges, em 1959, ano em que eu cursava o terceiro científico. No ano anterior, 1958, era muito mais rigoroso, realmente não permitia o jogo de futebol a não ser na hora do recreio. Chegou a apreender e furar várias das nossas bolas de borracha que levávamos para o colégio.
Mas, naquele ano, com a força que o Grêmio alcançou junto ao Professor Aldo, nosso diretor, bem como as atividades aos sábados, intensificadas nos recreios, quando até as meninas levavam bolas de vôlei para uma brincadeira naquele curto período, ele foi amaciando um pouco o rigor.
Era baixinho, pouco mais de um metro e sessenta. O terno marrom era sua marca característica bem como o cabelo todo branco, cortado bem rente, quase à moda escovinha, enevoando-lhe a cabeça. Daí, devido à semelhança que tinha com o então premier russo, Nikita Kruschev, que de diferente tinha apenas a cabeça raspada, passamos a chamá-lo de Nikita. Era o Nikita do LNP em oposição ao Nikita da KGB...
Ele, a princípio não entendeu a origem do apelido. Depois que soube, riu gostosamente, aceitando-o sem reclamar.
Tinha dois filhos que também estudavam no Liceu, Wilson e Carlinhos Borges. Por isso, talvez não se sentisse muito à vontade em proibir os “rachas” dos alunos, porque seus filhos também adoravam futebol e, não raro, eram surpreendidos por ele matando aula e disputando uma pelada animada.
Vivíamos nessa briga de gato e rato com ele. Começávamos um “racha” e dez minutos depois lá vinha ele com o dedo indicador balançando negativamente:
“– Psiu, neném. Vocês já saem que não pode”.
Mas, aos trancos e barrancos, a gente pedindo daqui, ele concordando dali, levamos o ano de 1959. Nunca deixamos de terminar uma pelada, Ouvíamos suas broncas, ele virava as costas e reiniciávamos a partida interrompida.
Certa feita, um colega de sala, o “Cabeça de Rolinha” ficou nervoso com a atitude de uma nova professora de História do Brasil. Ela, que nos dava sua primeira aula, em substituição à titular que estava adoentada, quis mostrar autoridade. Moça novinha, não devia ter mais de 25 anos. Chegou em sala e foi logo dizendo:
– Vou dar uma prova para vocês, valendo a nota do mês de maio.
As nossas provas sempre eram marcadas com antecedência de, no mínimo, quinze dias, dando-nos um tempo razoável para estudar a matéria. Ela não podia fazer aquilo conosco, a turma mais veterana do Liceu, a do terceiro científico.
“Cabeça de Rolinha”, um aluno alto, com mais de um metro e oitenta, não gostou. Tentou argumentar:
– Mas, professora, nós não estudamos nada. Nem sabemos qual a matéria.
Ela foi irredutível:
– Não interessa. Vou ditar as questões.
“Cabeça de Rolinha” levantou-se e num gesto de raiva, rasgou o papel almaço onde deveria fazer a prova. Esperei uns dez segundos e saí lá de trás da sala, também rasgando minha folha de papel, solidarizando-me ao gesto do colega. Saímos os dois de sala. A professora caiu numa crise de choro. Fomos levados para a Secretaria. Lá, “seu” Borges, com a fisionomia fechada, nos disse:
– Podem ir para casa. Vocês estão suspensos.
No dia seguinte, chegamos ao colégio para a primeira aula. “Seu” Borges mandou nos chamar na secretaria. Nossas cadernetas tinham sido apreendidas na véspera, dia do incidente. Ele disse para “Cabeça de Rolinha”:
– O senhor está suspenso por uma semana. Sua caderneta vai ficar comigo.
“Cabeça” saiu da secretaria, cabisbaixo:
– E eu, “seu” Borges, também estou suspenso por uma semana? – perguntei.
Ele me olhou de cima a baixo, Devolveu-me a caderneta, dizendo:
– Não, o senhor pode voltar para a sala. Não foi suspenso.
Surpreso, indaguei:
– Mas, por que, “seu” Borges? Nós fizemos a mesma coisa...
– É porque o senhor é aluno daqui desde o primeiro ginasial e nunca sofreu uma punição. Não vou manchar sua caderneta. Já ele é transferido de outro colégio, só tem dois anos de Liceu, merece ser punido. Além disso, foi ele quem teve a iniciativa da falta disciplinar, o senhor apenas se solidarizou.
– Mas, isso é injusto, “seu” Borges. Vai pegar mal pra mim perante a turma. Vão pensar que eu sou seu protegido. Também quero ser punido.
Ele olhou para mim, surpreso. Depois, sorriu. Abanou a cabeça e pediu minha caderneta de volta. Escreveu alguma coisa nela.
– Está certo, aqui vai sua punição. Agora, volte para sua sala – disse, devolvendo-me a caderneta vermelha.
Depois, a caminho da sala, enquanto lia o que ele escrevera na caderneta, não pude também deixar de rir.
Ali estava escrito que eu fora advertido verbalmente, apesar de ele ter consignado a advertência em letras bem claras na caderneta. Até hoje não sei se fui advertido de boca ou por escrito...
Assim era o nosso Nikita. Cara de mau, mas no fundo, no fundo, uma alma bondosa, um coração de mãe, que detestava prejudicar um aluno...
Depois que deixei o Liceu, já adulto, pai de filho, várias vezes nos encontramos na rua e demos boas gargalhadas, relembrando aquela época maravilhosa...

sábado, outubro 27, 2007

MANEQUINHO DO LICEU...

MANEQUINHO DO LICEU


CALF



Conheci-o em 1958.
Eu, no segundo científico. Ele, no quarto ginasial.
Timidamente, aproximou-se do pessoal do Grêmio, interessado em participar de suas atividades, principalmente as esportivas.
Cabelo castanho-claro cacheado num topete caído na testa, tipo Elvis Presley, um dos seus ídolos. Vivia cantarolando uma musiquinha ou outra do então “rei do rock”.
Seu outro grande ídolo era Almir, o “Pernambuquinho”, então estrela máxima do Vasco, supercampeão de 1958.
O Brasil, naquele ano, respirava futebol por todos os poros, após a inesquecível campanha da Suécia, que nos deu o primeiro título de campeões do mundo.
E, para Luiz Carlos, Almir só não participara daquela seleção porque estava contundido. O topete que usava também era uma homenagem ao craque vascaíno, que ostentava um semelhante caído na testa.
A propósito: seu nome verdadeiro era Luiz Carlos, mas todo o mundo o chamava carinhosamente pelo apelido: Maneco ou Manequinho.
Enturmado no Grêmio, passou a participar de suas atividades. Ia ao colégio todas as tardes, depois das aulas do turno da manhã e de uma rápida passada em casa para um almoço ligeiro, para ajudar na confecção das balizas de futebol de salão. Lixou a madeira dos postes e travessão, pintou-os de amarelo, a cor escolhida após votação entre os liceístas.
No dia de inauguração, uma festa num sábado á tarde.
O severo diretor não queria permitir a abertura do colégio aos sábados. Foi convencido a muito custo pelos alunos do Grêmio que se comprometeram a levar um professor de Educação Física para ficar responsável pela preservação do colégio.
Apesar de ser uma festa do Grêmio, até então freqüentado apenas pelos rapazes, várias meninas compareceram. Inclusive atraídas pela promessa de formação de uma equipe de vôlei feminino. Mas, a maioria delas acompanhava um ou outro craque do então embrionário time de futebol de salão do Liceu. Era a namorada do Irapuam, do Telúrio, do Regê, e Verinha, que então flertava com Manequinho. Além de outros casaizinhos de jovens alunos que nada tinham a ver com o futebol, mas que começavam a ter a oportunidade de curtir um pouco mais o seu colégio, fora dos dias de aula.
Realmente, foi uma festa. Recebemos o Plínio Leite, para uma partida amistosa contra os nossos dois times de futebol de salão.
O segundo, com Irapuam no gol, Carrano de parado, Eduardo e Carlinhos nas alas e Manequinho de pivô. Ganhamos de 5 X 3. Três gols de Maneco, um de Eduardo, outro de Carlinhos.
O primeiro time, com Maia no gol, Paulinho Massa de parado, Antonio Matheus e Sérgio Frigideira de alas e Ronaldo de pivô. Liceu 10 X 2.
Depois, quase todos os sábados, já agora com a aquiescência do nosso diretor (o professor Aldo só tinha fama de mau, por dentro era possuidor de um enorme coração), realizávamos festivais vespertinos, com partidas de futebol de salão, vôlei masculino e feminino e basquete.
O ano letivo terminou e, mesmo nas férias de início de ano, conseguimos reunir aqueles que não viajaram para alguns sábados à tarde no Liceu. Sempre com a presença do professor Alber, de Educação Física, e de Azer Ribeiro, que abria os vestiários para o pessoal.
Voltamos às aulas em março de 1959, meu último ano de científico e que também deveria ser o derradeiro no Liceu.
As atividades do Grêmio se intensificaram. Além dos esportes, continuamos com a “Hora do Grêmio”, nos recreios dos turnos da manhã e tarde. As excursões, culturais e esportivas: Quinta da Boa Vista, Volta Redonda (para visita à Cia. Siderúrgica), Angra dos Reis ( Colégio Naval), Marambaia e Cachoeiro do Itapemirim, entre outras.
Na época das festas juninas, organizamos quermesses e arraiais no pátio, com danças de quadrilha e outras típicas (o quentão era vendido escondido dos professores). Muita gente comparecia, já agora com as meninas em número maior, a maioria delas acompanhadas das mães severas, zelando pelo bom nome das filhas.
Manequinho participava de todos aqueles acontecimentos com intensidade. Dos torneios e jogos de futebol de salão, das festas e bailes, das excursões.
Adorava as brincadeiras que o pessoal fazia uns com os outros. Mesmo quando era ele a vítima. Uma vez, no início de 59, fizemos uma excursão ao Colégio Naval, em Angra dos Reis. Levamos os dois times de futebol de salão, vôlei, basquete, futebol de campo, até water-polo, mesmo sem nunca termos jogado esse esporte. Na ida para o Colégio, pegamos uma lancha da Marinha, um “aviso”, como era conhecida dos militares. Alguns dos alunos colocaram suas mochilas no chão e deitaram sobre elas, curtindo o maravilhoso sol daquela manhã de setembro.
Manequinho começou a cochilar. Eu e outros desmiolados lambuzamos seu cabelo com pasta de dente. Ele não acordava. As meninas que foram com a gente riam à vontade. Quando ele acordou, todo mundo fingiu que nada tinha acontecido. Bebeu uma coca, conversou animadamente, enquanto os risinhos escondidos eram dados às suas costas.
Em determinado momento, despreocupadamente, pediu-me o pente:
– Carlinhos, me empresta teu pente. Meu cabelo deve estar um gracinha...
Com cara de cínico, contendo o riso, passei-lhe o pente. Quando ele o passou pelos cabelos, tentando arrumar seu topete, olhou desolado para o mesmo, todo sujo de pasta de dente. Todo mundo ria à vontade, inclusive nosso professor de Educação Física.
Ele olhou para o pente todo sujo, depois para o pessoal que continuava a rir. Esboçou um sorriso. Somente disse, em voz baixa:
– Sacanagem de vocês. Pode deixar que eu vou à forra...
Nada mais que isso. Nenhuma demonstração de raiva,. de irritação. À noite, já no Colégio, não se lembrava de mais nada. Ria e brincava alegremente, como se nada tivesse acontecido.
Continuava sua idolatria por Elvis e Almir. Naquela época, foi lançado um LP de Presley, com as músicas de seu último filme, ainda em preto e branco: “King Creole”. Manequinho vivia assoviando e cantando pelos corredores uma das músicas do LP, intitulada “Young Dreams”...
Seu porta-caderno (naquele tempo era o que os alunos costumavam usar, um porta-caderno de folhas soltas) estava repleto de fotos dos seus dois ídolos.
Era a alegria em pessoa. Sempre brincando, rindo, extravasando bom-humor, amor pela vida.
Certa vez, no final de 1959, quando a cumeeira da casa que meu pai estava construindo no Saco de São Francisco ficou pronta, chamei-o para me acompanhar para tomar um chope lá na obra. Meu pai havia comprado dois barris para os operários. Eu esperava ainda encontrar alguma sobra de cerveja por lá. Era um final de tarde sábado. Deviam ser quatro e meia, cinco horas. Pegamos o trolley nas Barcas e em Icaraí, Verinha subiu. Os dois já não namoravam mais, mas continuavam bons amigos. Convidei-a também para nos acompanhar. Ela topou.
Chegamos na obra, ali na General Rondon, os operários já estavam de porre. Eu conhecia todos eles, pois nos últimos meses acompanhava de perto o andamento da construção. Sentamo-nos em banquinhos improvisados com tijolos e um dos pedreiros, o chefe deles, Joaquim, veio nos trazer os copos de chope. Ficamos a uma certa distância deles, que, respeitosamente, passaram a conversar em voz baixa, apesar de, vez em quando, lançarem um olhar com o rabo de olho para aquela morena bonita que nos acompanhava. Mas, permaneceram onde estavam, não falaram palavrões e por volta das seis horas, despediram-se e foram embora.
Joaquim ainda disse, virando-se para mim:
– “Seu” Carlinhos, ainda tem quase meio barril de chope sobrando. Podem acabar com ele, senão vai ficar choco.
– OK. Joaquim – respondi. – Obrigado e até segunda.
E, ficamos os três ali, iluminados apenas por uma luz de velas que achamos num canto da obra, até às nove da noite, acabando com o resto do barril e jogando conversa fora.
O tempo passou, saí do Liceu, entrei para a Faculdade. Manequinho ali permaneceu até o fim de 1961, quando terminou o científico.
Apesar de distante do dia-a-dia do colégio, continuava mantendo contato com os amigos mais íntimos. Manequinho era um deles. Ainda jogávamos uma partida de futebol de vez em quando, tomávamos um chope na Gruta, íamos a festas ou bailes de Carnaval no Canto do Rio, Gragoatá ou Regatas.
No início de 1962 ele foi servir o Exército, alistando-se no NPOR, lá no Terceiro Regimento de Infantaria, na rua Dr. March, na Venda da Cruz.
Já não o via há uns dois meses. No final de março, Sérgio, um ex-colega de Liceu, me encontrou na rua, e, com a fisionomia triste, me disse:
– Porra, Carlinhos, acabei de saber ontem...
Olhei para ele, ar de surpresa:
– O que foi, Sérgio?
Ele, procurando as palavras com cuidado, despejou no meu rosto:
– Manequinho está com câncer. Leucemia...
Levei um susto:
– O quê? – gritei na Amaral Peixoto, as pessoas olhando para mim.
– Isso mesmo, leucemia. Soube ontem pela mãe dele – retrucou João.
Fiquei um instante sem saber o que dizer. Passados alguns segundos daquele silêncio idiota, consegui falar:
– Meu Deus, Sérgio, isso é verdade mesmo? Eu falei com ele há pouco tempo atrás, jogamos uma pelada na praia, ele estava tão bem, esbanjando saúde...
Sérgio quase não conseguia conter as lágrimas.
– É verdade, sim. Está internado no Hospital Central do Exército, lá no Rio.
Despedi-me dele ainda atordoado, sem saber o que fazer. Chegando em casa, telefonei para outros colegas, que me confirmaram a notícia.


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Num domingo do início de abril, eu, João e Verinha pegamos o bonde no Rio e fomos até a Triagem, onde ficava o HCE.
Ele estava deitado numa cama, sua mãe ao lado.
Sorriu de alegria quando nos viu. Eu e João o abraçamos, Verinha o beijou no rosto. Conversou conosco por mais de meia hora, brincando muito, perguntando sobre o resultado do jogo do Vasco, se Almir tinha jogado bem. Estava apenas um pouco abatido, com aquele avental de hospital cobrindo-lhe o corpo. Mas não emagrecera, sua fisionomia era a mesma alegre de sempre.
Despedimo-nos dele, prometendo voltar no próximo domingo, dia de visita.
Do lado de fora do quarto, sua mãe, tentando manter o controle, não conseguiu esconder as lágrimas. Ainda perguntei:
– Qual é a gravidade? Ele vai se recuperar?
Ela, agora chorando copiosamente:
– Não... não... ele vai morrer... ele vai morrer...



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Na quarta-feira seguinte, 12 de abril, ouço tocar a campainha da casa. Havíamos nos mudado para São Francisco desde maio de 1961.
Minha mãe me chamou no quarto.
– É pra você. Um rapaz e uma moça.
Levantei-me da cama, saí do quarto e olhei pelo vidro da janela. No portão estavam João e Verinha.
Mandei-os entrar, falei que sentassem no balanço de ferro que havia na varanda.
– Péra aí que vou escovar os dentes – gritei.
Fui até o banheiro, lavei o rosto, escovei os dentes, coloquei um short e uma camisa.
Abri a porta da sala, descendo o degrau da varanda. Os dois estavam com os olhos cheios d’água.
Nem precisei perguntar. Verinha, soluçando, disse:
– Morreu, Carlinhos, morreu...
Dei um abraço nos dois e ficamos em silêncio, sem encontrar as palavras que exprimissem nossa dor...



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Eu já havia tido contato com a morte antes...
Quando meu avô morreu, em 1954, estava no segundo ano ginasial do Liceu, no turno da tarde. Era a hora do recreio. De repente, vejo meu pai e Da. Coralina, os dois em pé, junto àquela escadinha que dá acesso ao pátio. Estranhei, a princípio, mas logo caí em mim.
Meu avô materno já estava doente há vários meses, fora operado de um câncer no estômago, os médicos abriram e nem mexeram, dada a gravidade do caso. Meu pai, que era médico, assistira à operação que foi lá em São Paulo. Nos últimos dias, estava internado no Hospital Santa Cruz, da Beneficência Portuguesa. A morte era questão de dias. Por isso, apesar do choque, chorei o que devia chorar, já estava preparado para a notícia.
Quando cheguei perto do meu pai e da inspetora, ele apenas disse:
– Seu avô faleceu. Pegue seu material e vamos embora.
Acompanhei velório, enterro com relativa tranqüilidade. Era inevitável, a gente esperava...
Depois, soube da morte de alguns colegas do Liceu, durante o ginasial e o científico: Jorge Chocolate, Benedito, Noel, Terezinha, que a gente apelidou de Diacuí, por ser ela descendente de índios. Também alguns professores: Amaro, Vieira, Padre Carneiro, Dona Estefania. Mortes tristes, mas de pessoas um pouco distantes do nosso cotidiano.
Com Manequinho foi diferente. Ele era parte da gente, convivia o dia-a-dia com a nossa turma, partilhava das nossas alegrias e tristezas. Era como se nos tivessem amputado uma parte do nosso corpo...



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Ele parecia sorrir dentro do caixão. O topete caído na testa estava impecavelmente arrumado. Vestido com a farda de aspirante do NPOR, verde-oliva reluzente, tinha nos lábios aquele sorriso maroto de menino alegre e brincalhão que nunca desaparecia de seu rosto. As bandeiras do Grêmio, do Liceu, da FESN e do Vasco estavam ao lado do caixão.
A salinha da casa da Conselheiro Paulino, lá no bairro de Fátima, onde tantas vezes conversei com ele, estava cheia de gente. Todos chorando, não conseguindo conter as lágrimas por aquela perda que não tinha dimensão...
Só faltava estar tocando ao fundo uma balada de Elvis e Oduvaldo Cozzi narrando um gol de Almir Pernambuquinho...




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Quarenta e cinco anos depois da sua morte, você deve estar dando um sorriso de satisfação ao saber que tinha tantos amigos, ao constatar a falta que você faz para nós...








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sábado, outubro 13, 2007

O MAGISTRADO...

O MAGISTRADO

CALF



Era juiz no interior do Estado.
Tinha 56 anos, recusara por várias vezes a promoção para a Capital. Era, há muitos anos, o primeiro na lista de antigüidade, já poderia ser desembargador há muito tempo.
Preferiu ficar em Silvermado, comarca pequena, vida calma, tranqüila e metódica. Ali já estava por mais de 22 anos, sua primeira e única lotação desde que fora promovido a juiz titular.
Homem de rígidos princípios morais e éticos chegava diariamente ao Fórum às onze horas, início do expediente judiciário, conforme constava do Código de Organização da Justiça Estadual. Dali saía exatamente às 5 da tarde, como também determinava o referido Código. Tivesse ou não mais trabalho a fazer (exceto nos julgamentos prolongados do Tribunal do Júri). A população da cidade costumava dizer que os relógios das pessoas eram acertados pela "hora em que o Dr. Mario entra e sai do Fórum".
Vestia-se formalmente, com extrema sobriedade... Terno escuro (cinza ou preto), sempre bem passado colete, gravata discreta e um indefectível relógio, que trazia no bolsinho dianteiro da calça, preso a uma corrente de ouro.
Era casado com Maria há 32 anos, mulher de educação tradicional, feita sob medida para ele... Mario e Maria...
Residiam numa casa bonita, bem no centro da pequena cidade, jardim cheio de bem cuidadas roseiras e outras flores, dois andares, cômodos espaçosos, bem claros e ventilados...
Não tinham filhos (porque assim o decidiram).
Mas, gostavam sinceramente um do outro, passando reciprocamente uma atmosfera de carinho e compreensão pouco vista em outros casais. Se já não se amavam loucamente, com a paixão própria da juventude que já se perdera no tempo, respeitavam-se e se derramavam em atenções mútuas. Espontaneamente, sem afetação, quer estivessem sozinhos ou na presença de estranhos.
Dormiam em quartos separados, no segundo andar ("para preservar a privacidade de cada um").
Mas, religiosamente, a cada quinze dias, Mario ia ao quarto de Maria, onde mantinham conjunção carnal, dever sagrado entre um casal unido pelo matrimônio.
Antes, Mario preparava-se para todo o ritual que antecedia o ato sexual. Tomava um longo banho, perfumava-se discretamente, passava álcool nas mãos com cuidado... Maria, também, sabedora de que era chegado o dia, preparava-se com esmero para receber o marido, colocando um belo roupão cor-de-rosa e soltando os longos cabelos já começando a ficar grisalhos, normalmente presos no alto da cabeça.
Carnaval de 1976.
Mario começou a assistir o desfile das escolas de samba na televisão, na sala da casa, no primeiro andar.
Maria, em seu quarto, após o demorado banho, já vestindo o roupão cor-de-rosa, esperava pelo marido. Era o dia...
Às 9 da noite em ponto, Mario subiu.
A porta do quarto da mulher estava apenas encostada, como costumava acontecer a cada quinze dias (marcados no calendário dependurado na cozinha).
Mario entrou, tirou o pijama, abriu o roupão da mulher com delicadeza e, sem dizerem qualquer palavra, consumaram o ato sexual. "Papai e mamãe", é claro.
Após a satisfação da função biológica, Mario torna a vestir o pijama, dizendo para Maria:
- Até amanhã, Maria, durma bem.
Ela, ainda um pouco ofegante, respondeu:
- Até amanhã. Durma bem você também.
Após Mario sair do quarto, Maria levantou-se, tomou uma rápida chuveirada, trancou a porta e deitou-se outra vez, logo caindo no sono (como habitualmente fazia).
Mario foi até seu quarto, tomou outro banho, vestiu um outro pijama e, sem sono, decidiu descer para continuar assistindo o desfile das escolas.
Ligou a televisão, sentou-se no confortável sofá, pegou um refrigerante e biscoitos.
Desfilou o Salgueiro, depois a Mangueira, veio a Beija-Flor...
Mulatas exuberantes, seios à mostra, praticamente nuas, uma minúscula tanguinha, fingindo cobrir-lhes as partes íntimas, cabelinhos enrolados aparecendo na região pubiana, cheiro de pecado no ar, parecendo querer sair da tela de 20 polegadas...
Mario foi ficando excitado, o pênis começou a enrijecer, o pijama foi ficando molhado por um líquido viscoso saído ninguém sabe de onde.
Não conseguindo conter o desejo que o dominava, incontrolável, sobe as escadas e, voz suplicante, murmura, batendo na porta do quarto de Maria:
- Maria... Maria...
A mulher desperta do sono recém-iniciado. Ainda meio sonolenta, voz arrastada, reconhece a voz do marido. Pergunta, um pouco preocupada:
- Sim, Mario. O que aconteceu? Está precisando de alguma coisa?
Ele, gaguejando, voz meio sem graça, responde, perguntando:
- Maria, você se incomodaria... se incomodaria... de me adiantar uma quinzena?
A mulher pula da cama, e já sem qualquer peça de roupa no corpo, abre prazerosamente a porta do quarto...
Após a noite sem limites que tiveram (ela chegou a ficar de quatro para a penetração por trás), a primeira em tantos anos de vida em comum, na manhã seguinte, o relógio da igreja matriz da cidade, pela primeira vez, deu onze horas antes que o Dr. Mario chegasse ao Fórum...


* * *

quarta-feira, outubro 10, 2007

NAMORO NO LICEU...


CALF





Verinha olhou para o relógio.
Faltavam apenas dois minutos para tocar a sirene.
Não poderia esperar mais, tinha que ir para a sala. “Ele não chegava, porra” , praguejou mentalmente.
Seu coração disparava, não conseguia esconder a ansiedade estampada em seus olhos. Silmara, sua colega de carteira desde o primeiro ano do ginásio, chegou perto dela. Puxou-a pelo braço, dizendo:
– Vamos, ele deve ter se atrasado, ou não tem a primeira aula. Por isso se atrasou.
A sirene tocou, convocando os alunos para mais um dia de aulas. Sete e quinze da manhã, em ponto.
O pátio começou a se esvaziar, os alunos das várias séries do turno da manhã procuravam suas salas,
Verinha, já no corredor, nervosa, ainda deu um último olhar para trás, em busca de Rogério. O uniforme azul e branco do Liceu cintilava em seu corpo, limpinho, engomado. como sua mãe gostava que ela fosse para o colégio todas as manhãs.
Não conseguia se concentrar na aula. A professora de história falava sobre a vida de Joana D’Arc, mas seu pensamento passeava por aquelas tardes que ela e Rogério, de mãos dadas, caminhavam calmamente pela calçada da Praia de São Francisco.
Aquela era a fase mais deliciosa da sua vida.
Aproveitava cada minuto, cada segundo, não deixava nada escapar-lhe das mãos. Curtia o seu Liceu, era boa aluna, diretora do Grêmio, fora, a pedido de Carlinhos, quem redigira o seu primeiro estatuto. Adorava passar as manhãs, quando não tinha aula, naquela salinha apertada do Grêmio, lá no fundo do corredor, junto à escada que dava para aquela ruazinha atrás do Liceu.
A turma, ali, era muito gostosa de estar junto. Carlinhos, Josa, Irapuam, Carrano, Joãozinho, Silvinho e alguns outros que ali apareciam de vez em quando.
De menina, só ela.
Independente, resoluta, não tinha satisfações a dar de sua vida. Por isso, era a Verinha do Saco (de São Francisco). Gostava de fazer o que queria, ajudar os meninos do Grêmio na confecção de carteirinhas, programação de esportes, excursões, etc... Pouco se importava com que os outros diziam.
“Verinha só anda com aquele pessoal do Grêmio, gente que não gosta de estudar, que só pensa em festas, beber cuba-libre e hi-fi”.
“Dali, não vai sair ninguém que se aproveite, ninguém vai se formar, vão ficar por aí parasitando”, era o que os outros alunos e até professores comentavam.
Era apaixonada por Rogério, seu deus encantado. Moreno, alto, estudava numa série antes da dela.
Apaixonou-se à primeira vista.
Foi numa parada de Sete de Setembro.
O Liceu, impecável, uniforme azul e branco, fazia o aquecimento da bateria no Jardim São João, perto da Catedral de Niterói.
A bateria, comandada por Azer, fazia rufar os tambores. Bumbo, surdos, caixas e taróis repicavam sob o comando do apito do velho zelador, em estado de graça no seu uniforme de gala, calça azul marinho, camisa branca de mangas compridas, o reluzente LNP bordado no bolso esquerdo.
“LICEU, CAMINHEMOS A CANTAR...” – os alunos ensaiavam, cantando em voz baixa o hino do colégio...
Verinha, no auge dos seus dezesseis anos, era a porta bandeira do colégio. Orgulhosa, vestindo saia azul (era a única que tinha a saia acima dos joelhos) e blusa branca, o escudo do Liceu no ombro esquerdo, a gravata azul frouxa no pescoço, agitava nas mãos a bandeira grande do colégio, só usada em ocasiões especiais. Enorme, azul escuro, com a inscrição LNP em letras brancas em losango, no meio.
“LICEU, PATRIMÔNIO A RESGUARDAR...”, continuavam os alunos a cantar baixinho, aquecendo as vozes para o desfile.
Rogério, um menino de quinze anos, ficou encantado com a coreografia de Verinha, que fazia girar a bandeira do colégio em volteios graciosos, cheios de graça.
Aproximou-se dela , timidamente. Disse:
– Puxa, tá muito bonita essa bandeira. Onde você aprendeu a fazer tudo isso, fazer ela rodar assim?
Ela, rainha do Grêmio, olhou para ele pela primeira vez. Olho no olho, encantou-se pelo rapaz. Parecia com Elvis Presley, seu ídolo máximo. Ainda tentou manter sua posição de veterana, estrela da bateria:
– Gostou?
Ele olhava para ela, extasiado, ar de encantado, sem nada dizer.
– De que série você é? – ela perguntou.
– Quarta. Do ginásio – conseguiu ele responder, ainda sem tirar os olhos dela, admirando suas evoluções com a bandeira.
Amor à primeira vista.
Começaram a namorar, ele ia todas as terças, quintas, sábados e domingos a São Francisco, àquela época um bairro distante e esquecido de Niterói. Não havia água encanada, esgoto, calçamento só na Quintino Bocaiúva, a rua da praia. Ele, para chegar lá, tinha que pegar o trolley 5, dirigido por Roberto, um negão forte, que conhecia quase todos os ainda poucos moradores do bairro.
Verinha morava na Tapuias, na primeira quadra, num dos poucos edifícios de quatro andares que ali existiam.
O namoro era conhecido de todo Liceu. Nos intervalos de aula, no recreio, Rogério e Verinha passeavam de mãos dadas pelos corredores, pela pista de terra, quadra de basquete, dividiam uma merenda num dos bancos de cimento do enorme pátio coberto de telhas, trocavam um beijo escondido junto ao coqueiro da quadra de vôlei.
Sim, porque o Liceu tinha tudo isso naquela época: quadras de vôlei e basquete, campo de futebol, pista de atletismo, um enorme pátio para o passeio dos alunos. “Hora do Grêmio” no alto-falante no recreio, tocando músicas dos The Platters, Elvis, Little Richard...
Só não curtia o colégio quem não queria. Ele tinha tudo a nos oferecer.
A sirene tocou, encerrando a aula de História. A professora saiu, alguns alunos e alunas foram ao banheiro fumar um cigarro escondido.
Dez minutos depois, o som estridente outra vez. Ia começar outra aula. Dª. Nícia, professora de Matemática, sempre com aquele sorriso bondoso na boca, cumprimentou os alunos.
“Nada de Rogério” – pensou Verinha, já irritada.

***

Verinha não casou com Rogério.
Rogério não casou com Verinha.

Será se ainda estão apaixonados um pelo outro?



***
















quinta-feira, setembro 27, 2007

Não ter vontade de vencer...

Sinceramente, cansei...
Acho que o meu Botafogo não é o mesmo que eu vi jogar...Perdeu a vontade de vencer... Acomoda-se, tem o jogo na mão, entrega tudo de mão beijada, conforma-se em perder....
Chega...

quarta-feira, setembro 19, 2007

AS DUAS PATETAS...

AS DUAS PATETAS

calf


Três horas da tarde de sexta-feira... Sol escaldante, calor asfixiante... Copacabana fervia naquele início de verão... As ruas, cheias de gente... Turistas e nativos... As praias, lotadas... O comércio, o legalizado e o clandestino, vendendo de tudo...
Saí com as duas, Ana Lúcia e Nícia Maria... A primeira, minha mulher; a segunda, menina de Lambari, interior de Minas, pouco mais de vinte anos, que viera ao Rio acompanhando Ana Lúcia para comprar parte de seu enxoval de casamento...
Passamos antes numa farmácia da Santa Clara, onde comprei algumas coisas... Peguei o dinheiro que estava na pequena bolsa que Ana Lúcia trazia consigo a tiracolo, já que eu estava de bermuda e camisa sem bolsos...
Paguei, e já íamos voltar para casa, quando Ana Lúcia disse:
- Vamos dar uma volta pela Galeria Menescal, p'ra Nícia Maria ver as lojas?
Concordei, apesar de não estar passando muito bem. Estava doido p'ra tomar os remédios que acabara de comprar, p'ra ver se melhorava da dor de cabeça e da ardência que sentia no estômago e no fígado...
Atravessamos lentamente a galeria, depois de nela entrar pela Barata Ribeiro. Eu, mais à frente, as duas atrás, de braços dados, parando deslumbradas diante de todas as vitrines...
Nícia Maria, que vinha pela primeira vez ao Rio, olhava tudo com uma expressão misto de espanto, admiração e uma ponta de desconfiança, de um certo receio, atitude própria de mineiro, ainda mais do interior... Nunca vira tanta gente junta, tantos carros na rua... Acostumada à tranqüilidade da pequena Lambari, a cidade das águas virtuosas, onde não havia sinal de trânsito, elevador, um montão de ônibus cortando uns os outros loucamente em alta velocidade. Lá, onde fazia tudo a pé, onde as pessoas costumavam cumprimentar-se umas às outras, para ela, tudo aquilo era novidade...
Chegamos ao fim da galeria, depois de quase meia-hora. Esperei as duas e, quando chegaram, perguntei-lhes:
- Vocês querem voltar por onde? Pela galeria ou pela av. Copacabana?
Ana Lúcia respondeu:
- Pela Nossa Senhora... Vamos ver as novidades dos camelôs...
A avenida estava apinhada de gente... Pessoas que se moviam com dificuldade pelas calçadas, tomadas de um lado e de outro, junto ao meio-fio e a entrada das lojas, pelas barracas dos camelôs, coladas umas nas outras...
A multidão transitava lentamente através do corredor formado pelas barracas, arrastando-se passo a passo, esbarrando-se as pessoas umas nas outras, as que subiam com aquelas que desciam....As duas, ainda de braços dados, andavam a passo de tartaruga, parando em cada barraca, examinando as mercadorias, perguntando o preço...
As pessoas continuavam no seu interminável ir e vir, empurrando-se e empurrando-me...
Eu, com o saco de remédios numa das mãos, a cabeça me doendo, o estômago e o fígado me ardendo, sentia-me sufocar... Segui mais à frente, tentando desvencilhar-me da multidão...
Quase perto da esquina de Santa Clara, onde diminuiu a intensidade do movimento de pedestres, parei e fiquei aguardando as duas...
Vinham elas bem lá atrás... Ana Lúcia mostrando a Nícia Maria as novidades dos camelôs... Brincos, pulseiras, prendedor de cabelo, um creme que dizia ser importado e outras bugigangas mais... Nícia Maria olhava tudo com cara de deslumbrada, tudo queria comprar...
Passavam em frente à Casa Mattos, onde era mais intensa a aglomeração do povaréu...
Alguns alunos saíam de um curso que ali existe ao lado, fazendo algazarra na calçada... As pessoas se espremiam, procurando um lugar livre no chão onde pudessem colocar os pés...
Ana Lúcia, bolsa a tiracolo, braço dado com Nícia Maria, procurava me localizar mais à frente...
Um elemento abriu os braços diante dela... Assustou-se, tentou recuar, não conseguiu... Atrás delas, havia um montão de gente que a empurrava para frente, naquela maré humana que se arrastava pela calçada...
Conseguiram sair daquele nó de corpos que se espremiam, daquele cheiro pouco agradável de suor humano vespertino...
Foi então que ela se lembrou da bolsa a tiracolo... Sentiu-a mais leve, um calafrio percorreu-lhe a espinha... Estava aberta... Enfiou a mão... Vazia, ou melhor, só restava uma nota de cem... Seus documentos (carteira funcional do Tribunal de Justiça e carteira de motorista), bem como o cartão magnético do BANERJ, e aproximadamente oitocentos cruzeiros, haviam sumido...
Estourando de raiva, ela me divisou ao longe, parado em frente a uma loja, quase na esquina. Fez sinal com a mão. Aguardei...
- Fui roubada - disse nervosa, exibindo a bolsa vazia...
Olhei para ela, surpreso.
- Como foi isso? - perguntei.
- Sei lá, eu não vi. Deve ter sido agora, quando passei naquele monte de gente lá atrás...
As duas tinham o ar de duas patetas... Nícia Maria, espantada com tudo aquilo... Em Lambari não tem disso não, uai... Ana Lúcia, apesar de estar acostumada com a violência da cidade e de ver bandidos perigosos de perto (trabalhava numa Vara Criminal do Rio de Janeiro), estava "fula" da vida por ter "entrado naquela".
Ela insistiu em voltar ao lugar onde achava que o fato ocorrera. Tinha esperança, ao menos, de encontrar seus documentos no chão, talvez jogados fora pelo ladrão...
Eu lhe disse:
- Isso é besteira... Você não vai achar nada, no meio dessa gente toda...
Ela insistiu e voltou lá com Nícia Maria...

* * *

.Em casa, meia hora depois, ela ainda tentando conter a revolta, analisamos com mais calma a situação. O irmão mais velho também ali estava, tinha ido visitá-la e não sabia de nada...
Bem, o cartão magnético do banco não poderia ser usado... Não tinha sua assinatura e só funcionava quando digitada a senha, que só ela sabia... Em todo caso, era bom telefonar p'ro banco, comunicando o acontecido.
Ana Lúcia, volta e meia, desabafava. Criou idéia fixa de que iria pegar o cocô de sua cachorra, colocá-lo dentro da bolsa e, no dia seguinte, voltar ao lugar do furto, para que o ladrão, ao abrir novamente sua bolsa, enfiasse a mão na merda canina... Tentei demovê-la da idéia, dizendo-lhe que o dia seguinte era um sábado, e os ladrões não costumavam trabalhar aos sábados, já que são adeptos da semana inglesa...
O dinheiro subtraído, em torno de oitocentos cruzeiros reais (denominação horrível para a nossa moeda), era mixaria, não iria fazer grande falta... Não adiantava esquentar a cabeça por causa dele...
O que preocupava eram os documentos... A carteira funcional, além do retrato, tinha sua assinatura... Seria fácil uma cúmplice do ladrão ir até uma loja, exibir a carteira do Tribunal de Justiça, abrir um crediário e falsificar sua assinatura... Vendedor nenhum iria duvidar da autenticidade de uma carteira da Justiça...
A habilitação para dirigir, também... Apesar de vencida há quase um ano, ela não tinha cópia da mesma e não sabia o número do prontuário para providenciar a renovação...
Ainda pensei em recriminar sua falta de cuidado. Quantas vezes já lhe dissera, quando saíamos juntos pelas ruas de Copacabana ou do Centro da cidade (até mesmo em Buenos Aires, Amsterdam ou Paris):
- Cuidado com essa bolsa. Não fica dando bobeira. Aqui não é Lambari...
E ela, sempre autoconfiante:
- Pode deixar. Eu me garanto.
Tinha uma dose de razão. Quem foi criada e vivia no Rio de Janeiro, tem que aprender a se defender. Talvez seja a população mais prevenida do mundo.
Mas, mesmo assim, nunca era demais tomar certos cuidados. Bolsa, sempre com fecho-éclair, com alça atravessada no peito (para as mulheres). Para os homens, carregar pouco dinheiro, sempre dividido entre os bolsos da calça, da camisa, do paletó. Nada de usar carteira...
Naquela tarde, ela carregava a bolsa presa pela alça em um dos ombros... E, pior, uma bolsa fácil de abrir, um simples fecho, sem o zíper... Foi muito moleza para os larápios...
Enquanto um abria os braços à sua frente, assustando-a, o outro, por trás, abria-lhe a bolsa com destreza e surrupiava-lhe o conteúdo... "Entrara"...
Decidi não criticar, compreendendo o seu estado de espírito.
Ela, entretanto, voltou a bater na mesma tecla:
- Amanhã, eu boto o cocô da Kate na bolsa e volto lá... Aquele miserável vai sujar a mão toda...

* * *

Telefonou p'ro banco, foi até a l2ª Delegacia, onde registrou a ocorrência... Lá, outros vários fatos idênticos estavam sendo registrados... O policial de plantão disse-lhe que a média de furtos semelhantes era de vinte por dia, só naquele trecho, entre Siqueira Campos e Santa Clara... Orientou-a a procurar a COMLURB e os Correios... Se alguém achasse os documentos talvez fizesse a boa ação de encaminhá-los a um daqueles órgãos...

* * *

Passaram-se o sábado e o domingo.
Na segunda, elas foram até o posto da COMLURB em Copacabana e ao l9º Batalhão da Polícia Militar, na esperança de que os documentos tivessem sido encontrados... Nada...
Avisaram a alguns garis da COMLURB que varriam as ruas próximas, bem como aos guardas de trânsito das cercanias do local do evento... Talvez o ladrão, apoderando-se do dinheiro, não viu qualquer valia nos documentos, e os tivesse atirado fora, num bueiro qualquer ou numa cesta de lixo...
Terça-feira, feriado, sem notícias...
Quarta-feira, ela iria ao Tribunal providenciar a 2ª via da carteira funcional. A renovação da habilitação para dirigir era bobagem providenciar agora: o DETRAN estava demorando mais de seis meses para entregar a nova carteira.
Ia ser uma chateação. Tirar retrato, pegar a certidão da ocorrência na Delegacia, ir ao Tribunal dar mil explicações, esperar um tempo enorme, ficar sem documentos...
O que mais lhe dava raiva era saber que o ladrão tinha tudo dela nas mãos: nome, filiação, nº do CPF, retrato, assinatura, podendo fazer o que quisesse daquele documento...
Imagina se ele assalta alguém e é preso com sua carteira funcional... Será se iam pensar que ela era sua cúmplice?
Bem, não adiantava ficar preocupada por antecipação. Talvez ele não assaltasse ninguém... Talvez fosse esperto demais para ser preso... Ah! mas ela ia se vingar... Ia colocar o cocô da cachorra na bolsa e ia voltar ao local do furto... O criminoso não volta sempre ao lugar do crime?

* * *

Quarta-feira, pela manhã...
Vesti-me para ir à cidade. Tinha dentista às onze horas... Ana Lúcia e Nícia Maria também se aprontaram para ir ao Tribunal.
Desci antes delas... Conversava com o porteiro, apanhava a conta do telefone para pagá-la no Centro... Quando já ia subindo de volta, dois garis chegaram no portão de ferro, perguntando pela moradora do 201. O porteiro me chamou, já junto da porta do elevador...
Fui ver o que era.
- O senhor é parente da moradora do 201, dona Ana Lúcia?
- Sim - respondi. Sou o marido dela.
- É que ela nos avisou que roubaram seus documentos...
Fez uma pausa. Continuou:
- Nós achamos eles dentro de uma cesta de lixo...
E me entregou um saco plástico...
Abri-o rapidamente, exultando de satisfação. Lá estava tudo: carteira funcional, habilitação e o cartão magnético, quebrado ao meio... Tudo, menos o dinheiro, é claro...
Não consegui disfarçar o meu contentamento. Procurei nos bolsos algum dinheiro para gratificá-los... Estavam vazios... Pedi que aguardassem... Fui até o apartamento e peguei dois mil cruzeiros (reais)... Dei mil a cada um, agradecendo-lhes calorosamente.
Voltei ao apartamento...
Ela, bem como Nícia Maria, não escondiam a satisfação...
Mesmo assim, ela reclamou:
- Mas, você deu muito p'ra eles... Quinhentos para cada um estava muito bom... Eu só vou dar mil p'ros dois... Você deu mais mil porque quis.
E eu, sem ter nada a ver com aquilo tudo, acabei "entrando" em mil cruzeiros (reais)...
Dentro do saco plástico, a fina ironia... Junto com os documentos, o meliante ainda teve a consideração de juntar um pequeno folheto impresso com a oração de "SÃO DIMAS - O BOM LADRÃO...".

* * *

Ficou ele, como produto do furto, com oitocentos cruzeiros (reais)... Os garis, que nada furtaram, ficaram com mais que ele, mil cruzeiros (reais)... E eu, com menos mil cruzeiros (reais)...
Essa, a aritmética do crime...
Ainda bem que ela desistiu de colocar o cocô da cachorra na bolsa...

* * *

O HOMEM DO ÉTER...


O HOMEM DO ÉTER...

Calfilho



               Dele, todos zombavam, faziam chacota...
               Perambulava pelas ruas de Copacabana, barba crescida, cabelos na altura do ombro... As pernas, sempre trôpegas, exibiam várias feridas, já purulentas... As roupas, simples farrapos...
               Carregava sempre nas costas um saco de farinha sujo, já preto por falta de lavagem...
               Cheirava fortemente a éter... Era o que mais chamava a atenção das pessoas... Aquele cheiro característico que dele exalava, ao longe...
               Era como o chamavam na Santa Clara e adjacências... "O homem do éter...".
               Dormia nas calçadas, cheirava o seu éter, mas, engraçado, não perturbava ninguém... Não era indelicado, as feições, mesmo maltratadas, indicavam que não deveria ter mais de trinta e cinco anos...
                E, respeitoso...
                Certa vez, minha mulher comprava cigarros num botequim da Santa Clara, esquina com Cinco de Julho, e eu, no balcão, pedi um chope. Ela pagava na caixa os maços pedidos e o garçom tirava o meu chope. Ele aproximou-se dela, o cheiro do éter dominando o ambiente...
                Fiquei de sobreaviso (será se ele está armado?). Os empregados e fregueses riram dele, fizeram piadinhas...
                - Olha o "homem do éter", tá mais p'ra lá que p'ra cá...
                Ele, cambaleando, as pernas inchadas, sangrando as feridas, olhou para ela, distraída, de costas para ele, conferindo o troco:
                - A senhora pode me ceder um cigarro?
                Ela, surpresa, olhou para ele, ficou um pouco nervosa, temerosa ao ver sua aparência. Dirigiu um rápido olhar para mim, já sentado num tamborete, tomando o meu chope. Fiz-lhe um sinal com a cabeça, concordando... Apanhou o cigarro, afastou-se, dizendo apenas:
                - Muito obrigado...
               Olhou para mim e agradeceu, baixando, imperceptível e reverenciosamente, a cabeça... Como se dissesse: "Ele pensa que eu não o vi...".
               As pessoas no botequim riram mais uma vez quando ele se afastou...
               Alguns até disseram:
               - Vai dormir, "cachaça"...
               O dono disse para minha mulher:
               - A senhora desculpe o incômodo... Mas, ele anda sempre por aqui... A gente não pode fazer nada...
               Um outro freguês, sentado ao meu lado, disse para mim:
                - Cara folgado... Você não devia ter deixado que ela desse o cigarro...
                E, com ar de filósofo de botequim:
                - É isso que acostuma mal essa gente...
                Eu, virando o último gole do meu chope:
                - Tá tudo bem...

                                              * * *

               Dez anos antes, num hospital público do Rio de Janeiro...
Plantão de sábado para domingo... Movimento intenso de feridos, mortos, baleados, acidentados...
               Só um médico de serviço... Três enfermeiras, dois serventes... Uma loucura total... Um corre p'ra cá, outro p'ra lá, esbarrando-se nos corredores estreitos, empurrando macas, carregando frascos de soro...
               Na sala de cirurgia, mal iluminada, sem refrigeração, calor de mais de quarenta graus, o jovem médico fazia uma operação delicada... A barriga da vítima de disparo de arma de fogo já estava aberta, tripas à mostra... A enfermeira, nervosa, suando em bicas, tinha dificuldade em achar o instrumento cirúrgico solicitado... Um tumulto total, gente entrando e saindo a todo o momento, parentes de vítimas chorando pelos corredores, outros discutindo em voz alta, críticas ao governo, lamentações, desespero...
               O servente, sandália de dedo nos pés, vassoura nas mãos, coçava o nariz, tirava uma meleca que o incomodava, e, encostado na porta, assistia à cirurgia....O médico começava a extrair o projétil... Cuidadoso, mãos hábeis e sensíveis, procurava-o com extrema precisão... Suava abundantemente... Mal ou bem, mesmo diante de todas aquelas dificuldades do local, fazia-se silêncio no interior da sala... Uma incisão mais profunda, uma artéria pinçada...
                Entra na sala, esbaforida, uma das outras enfermeiras de plantão...
                 - Doutor, doutor, urgente, um outro caso de cirurgia...
                 Ele olha para ela, ainda com o bisturi na mão, o suor escorrendo-lhe pela testa...
                  - Bota na fila, não tá vendo que eu ainda não acabei com este...
                 Ela, já sem a máscara na boca, nervosa:
                 - Mas, doutor, é urgente...
                 Já descontrolado, por não ter conseguido estancar uma pequena hemorragia do baleado de barriga aberta, ele reponde, aos berros:
                  - Porra, vê se não enche o meu saco... Eu sou um só... Será que é só o seu caso que é urgente? Esse aqui também não é?
                  A enfermeira afastou-se, cabeça baixa. Deixou a sala, os olhos vermelhos, as lágrimas escorrendo-lhe pela face...
                  Não teve coragem de dizer-lhe...
                  O outro caso, o "urgente", era o filho dele, que agonizava na sala de espera da cirurgia... Sofrera um acidente de automóvel momentos antes... Três anos de idade... A mãe morrera no local... Ele acabou morrendo no hospital, coitado...
                 Tinha ido buscar o pai no trabalho para fazer-lhe uma surpresa...

* * *

                  O jovem cirurgião largou a profissão... Procurou refúgio no éter...

* * *

quarta-feira, agosto 15, 2007

A SABIDINHA...

A SABIDINHA ...

CALF


Considerava-se a dona da verdade...
Da vida, sabia tudo...
Trabalhava, ganhava bem, morava sozinha, dirigia seu próprio carro...
Era auto-suficiente, moderninha... Não dependia de ninguém, nem da família ou dos amigos...
Desde cedo, saíra de casa, ainda com 17 anos... Fez concurso para o Banco Central, fora aprovada em terceiro lugar... Formou-se depois em Direito, entrou para o corpo jurídico do banco... Falava inglês e espanhol, arranhava francês e alemão... Escolhia suas amizades, não dava bola p'ra ninguém... Amores na vida, nenhum... Uma trepadinha aqui, outra ali, fins-de-noite passageiros que se perdiam no esquecimento do dia seguinte... Tudo sem compromisso, descartável, só p'ra gozar...
Decidira passar as férias daquele ano em Salvador... Tudo planejado, bem programado... Reserva no hotel, uma parada em Vitória... Iria de carro, ela mesmo dirigindo...
Só, sem ninguém ao seu lado para chateá-la... Antes só que mal acompanhada...
Falaram-lhe maravilhas da capital da Bahia, a dourada cidade das praias mágicas, das igrejas, das mulatas, candomblé, comida de primeira... Por isso, queria curtir a cidade sozinha, conhecer todos os seus cantos e encantos... Poderia, talvez, ter levado sua mãe ou um "noivo"...
Não, preferiu ir sem ninguém...

* * *

Viagem cansativa... Mas, tudo bem, estava valendo a pena... Pernoitara em Vitória, que não conhecia... Deu uma entradinha em Ilhéus, a cidade que a encantara pelas cenas passadas na televisão, quando da exibição da novela "Gabriela".
Chegou a Salvador pouco depois do meio-dia. Foi direto p'ro hotel, no Corredor da Vitória... Perguntou aqui e ali, chegou lá... Deixou o carro na garagem, tomou um banho e dormiu um pouco...
Depois, saiu... Elevador Lacerda, Mercado Modelo, Bonfim, Itapagipe... Tudo no primeiro dia... Foi de táxi, já que não conhecia o trânsito da cidade... No dia seguinte, as praias... Porto da Barra, Farol, Ondina, Amaralina, Rio Vermelho, Boca do Rio, Piatã, Itapoã... Um pulinho até Abaeté... Muito acarajé, caruru, água de coco...
No terceiro dia, passeio de escuna até Itaparica. Deslumbrante... Salvador realmente correspondia a tudo o que dela falavam...
No quarto dia, já mais habituada com a cidade, decidiu sair de carro... Foi até Arembepe, praia linda, ainda primitiva e selvagem, distante quase uma hora de Salvador... A sensação de ouvir o barulho das ondas, o cheiro de maresia, o ambiente de paz, tranqüilidade, realmente a deixaram emocionada...
Já no quinto dia de Bahia, começou a se soltar um pouco mais... Saiu à noite, foi jantar num dos vários restaurantes da Barra, sempre cheios de gente. Adorou a comida baiana...
Experimentou de tudo... Vatapá, siri mole e catado, caranguejo, lambreta, caldo de sururu, abará, feijoada (que lá é feita com feijão manteiga), sarapatel... Um pouquinho de cada coisa, só para provar, como lhe disse o garçom, uma bicha baiana... Tomou uma caipirinha e três chopes.
Numa mesa ao lado, quatro rapazes começaram a reparar nela, sozinha, comendo tudo o que tinha direito, conversando animadamente com "Nega", o garçom... Fizeram sinal, quiseram puxar conversa... Ela, irritada, já que detestava aquele tipo de coisa (porra, será que uma mulher não pode jantar sozinha num restaurante?), pediu a conta, assinou o cheque, despediu-se de "Nega" e deixou o lugar...
Pegou o carro e tomou o caminho do hotel. Subiu a Ladeira da Barra e parou numa sinaleira, próximo à igreja da Vitória... Os quatro chegaram rápido, ela nem percebeu.
Emparelharam com o carro dela, três deles desceram e um foi logo encostando o cano do revólver em sua cabeça...
- Chega p'ra lá, minha sobrinha, isso é um assalto...
Olhou para o cara, surpresa... Obedeceu automaticamente, sem ter tempo para pensar em alguma coisa. Um deles tomou a direção, os outros dois também entraram no seu carro... O outro veículo os seguiu.
Ela perguntou, ainda espantada:
- Mas, o que é que é isso? O que vocês estão fazendo?
Um dos caras perguntou:
- Diga aí, minha irmã, o que é que você tem p'ra dar p'ra gente?
Aí, ela caiu na real...
Tentou conversar:
- Só o carro e isso que eu tenho na bolsa.
Um deles riu. Riso cínico, debochado...
- Só isso? A gente quer mais...
Apontou o revólver para ela. Disse, com o característico sotaque baiano, falando quase cantando:
- Olha, a gente já viu a placa do teu carro. É do Rio, não é? ... A gente sempre ouviu dizer que carioca é doida por uma sacanagem... Você quer dar p'ra gente, não quer?
Ela suou frio, gelou... Pela primeira vez na vida ficou com medo... Não conseguia manter o autocontrole... Logo ela, tão independente, tão confiante, que sabia lidar com todas as situações, por mais difíceis que fossem... Agora, estava apavorada... Nem no Rio, com toda sua violência, ela passara por situação igual... Não, eles deviam estar brincando, não teriam coragem...
Iam levar o carro, sua bolsa e deixá-la em qualquer lugar... Afinal de contas, ela sempre ouvira falar bem da hospitalidade baiana... Foram p'ro alto de Ondina.
Ali, enquanto um a segurava pelos ombros, outro lhe abria as pernas... O terceiro a penetrava, o quarto ria e aplaudia, com uma garrafa de conhaque Dreher na boca (o filho da puta poderia ter melhor gosto)...
Tudo era silêncio... Ninguém ouvia nada... Além do mais, um deles tapava-lhe a boca... Ela tentava reagir, gritar, espernear... Nada... Olhava aterrorizada para os quatro, que se revezavam, na ânsia de possuí-la... Todos eles a tiveram mulher, abertinha, por trás e pela frente, sem que ela nada pudesse fazer...
Desmaiou... Quando acordou, já o dia clareando, viu que fora largada sem carro, sem uma peça de roupa, completamente pelada, lá em cima do morro, com uma deslumbrante vista para a praia lá embaixo...
Conseguiu voltar para o hotel... Como, não se lembra direito...
Chegou, apenas...
Perdera oitenta por cento de sua autoconfiança...

* * *

sexta-feira, agosto 03, 2007

AMOR INFELIZ...

A M O R I N F E L I Z ...





Sílvio mais uma vez delirava...
Era essa sua rotina atual... Trancava-se em seu apartamento, abria uma garrafa de whisky (Teacher's, era a marca) e, depois da quinta dose, deitado na cama, começava a delirar...
Sua mente vagava por outras paisagens, por outras épocas...
Lembrava-se dos primeiros dias... Vinte anos atrás... Tudo felicidade, tudo cor-de-rosa...
Liliane era, realmente, a mulher de sua vida... Namoro bastante difícil, devido à resistência dos pais de ambos... Os dela, pessoas da alta sociedade carioca, achando que ele, advogado recém-formado, filho de família de classe média, sem nada de sólido ou estável a oferecer, estaria dando o golpe do baú... Os dele, pais de filho único, enciumados pela possibilidade dele deixar-lhes a companhia, à qual estavam tão acostumados e até mesmo, inconscientemente, dela dependiam... Afinal, com seus 30 anos de idade, era ele, Sílvio, quem resolvia todos os problemas da casa... Fazia pagamentos, comparecia às reuniões do condomínio (onde mantinha discussões que fizeram história com os demais condôminos, estando todas elas registradas nas atas das assembléias), levava ambos, pai e mãe, ao médico, ao dentista, ao barbeiro, à manicure... Talvez, por essa inconsciente dependência, à qual se habituaram, seus pais tinham medo do seu casamento, medo de perdê-lo...
Sílvio preparou outra dose, ainda deitado. Riu um pouco, riso nervoso, quase histérico... Analisava o seu relacionamento com o pai... "Seu" Silvano era um coroa simpático...
Fechado, sisudo, dava-lhe broncas homéricas... Nunca disse para ninguém, mas Sílvio já descobrira com um amigo mais velho, que ele já fora um dos maiores e mais respeitados boêmios da Copacabana dos anos 30/40... E, agora, depois de aposentado, cabelos grisalhos, próximo dos 65 anos de idade, não queria perder a pose dos tempos antigos... Isso mesmo, não queria perder a pose... Por isso, quando Sílvio, sentindo que o pai já se esquecia de alguma coisa, deixava de pagar esta ou aquela conta de luz ou gás, ele tomava a frente de tudo, resolvia as coisas, e aí surgiam as broncas...
- Você pensa que eu sou algum irresponsável? Quem é que você pensa que é?
Virou mais um gole duplo (puro, sem gelo)...
Com os pais de Liliane, o relacionamento era frio, distante, desconfiado... Ela, a mais nova das três filhas, era tratada a pão e mel. Toda mimada, toda cheia de cuidados... Mas, engraçado, ela, pessoalmente, não dava muito valor àqueles paparicos... Era franca, independente, às vezes até grossa demais....Apaixonaram-se loucamente... Colegas de faculdade, sentiram-se atraídos um pelo outro depois de alguns encontros casuais que tiveram no barzinho onde os alunos costumavam reunir-se. Iniciaram o namoro e, já quando Sílvio foi pela primeira vez à casa dela, sentiu a hostilidade de seus pais.
Era 1968, época em que ainda o namorado tinha que ser apresentado aos pais da namorada e obter o consentimento para o namoro. Tinha ela 19 anos e ele 23 (atrasou-se um pouco nos estudos, malandro de praia que fora). A apresentação foi formal, seca, para não dizer ridícula...
O pai dela, político importante da época, amigo íntimo de vários militares que então governavam o país, olhou-o de alto a baixo, examinando-o cuidadosamente, expressão no rosto misto de curiosidade e já de reprovação antecipada. Estendeu-lhe a mão com displicência:
- Muito prazer, senhor Sílvio (enfatizou o "senhor", como se quisesse manter distância). Então o senhor é o amigo de quem Liliane tanto fala...
Sílvio cumprimentou-o, reverenciosamente.
Apresentou-lhe a mulher, enchendo a boca:
- Esta é minha "esposa" (enfatizou a palavra), mãe de Liliane.
Sílvio riu interiormente. Achava "esposa" uma das palavras mais escrotas do nosso vocabulário...
Mas, educado, beijou a mão da "esposa"...
É claro que não se sentiu à vontade, completamente fora do seu ambiente. As poucas palavras que lhe dirigiram durante o jantar foram "o senhor é de qual família?", "quem são seus pais?", "o senhor trabalha onde?"...
Daí para frente, cada vez que ia à casa dela, sentia-se constrangido. A mesma frieza, as mesmas indagações, algumas indiretas disfarçadas, a mesma desconfiança... Mesmo assim, ia...
E, por isso, ele, que a amava loucamente (e tinha certeza de que era correspondido), teve que agüentar dos pais dela, quanto a um casamento para breve:
- É melhor vocês se formarem antes...
- Acho que, depois da formatura, vocês estarão mais maduros, terão refletido mais...
- Senhor Sílvio, o senhor já está trabalhando?
E ele agüentou... Porque a adorava...
Foi securitário, bancário, agente de viagens... Nenhum desses empregos conseguiu convencê-los... Queriam o melhor para a filha (até insinuavam com outros pretendentes, com melhor posição social e financeira)...
Concluíram o curso... Ele, primeiro que ela, que teve uma hepatite e foi obrigada a trancar a matrícula.
Agora, de diploma na mão, finalmente tomou coragem de pedi-la em casamento (também, às vezes, ele se achava meio covarde, meio devagar... Por que não a comeu logo?... Oportunidades não faltaram...).
E, mesmo com o diploma, ainda encontrou resistências... Ele, já 29 anos, ela com 25...
Finalmente, os respectivos pais decidiram e acabaram aceitando o casamento...

* * *

A festa foi linda (não para o seu gosto)... Riquíssima, cheia de convidados importantes, numa das igrejas mais badaladas do Rio de Janeiro... A recepção, então nem se fala...
Saiu em todas as colunas sociais... Afinal, noiva parenta de Governador não se encontra todo dia...
Mesmo que fosse do MDB, para dar uma aparência de escolha democrática, apesar de ter sido ele indicado pelos militares (a época era 1974, lembrem-se bem).
Felizes, tudo cor-de-rosa... Lua de mel em São Pedro d'Aldeia, os dois sozinhos, um mês só deles...
"Mais um whiskynho, que eu não sou de ferro", pensou em voz alta...
Duplo, sem gelo...
* * *

Um ano depois, nasceu Silvana... Nome difícil de ser escolhido... Ela não gostou, a princípio... Ele insistiu, bateu pé...
Ela ainda argumentou:
- É o nome daquele cientista maluco do Capitão Marvel... Doutor Silvana...
Ele retrucou:
- É também o nome do meu pai.
Ele não cedeu, sendo bastante egoísta, reconheceu depois. Mas, queria colocar na filha um nome que tivesse algo dele e de seu pai.
A família dela chiou... "Que nome feio..." Ele irritou-se, pela primeira vez rebelou-se...
Era aquele e pronto... Ficou sendo Silvana...

* * *

Foi nesse episódio que percebeu o primeiro momento em que Liliane, ao surgir uma desavença entre ele e os pais dela, ficou do lado dos pais.
Daí para frente, começou o seu martírio.
Liliane disse-lhe um dia, resoluta:
- Não quero mais ter filhos.
Ele:
.- Por quê? Eu quero três ou quatro...
Ela:
- Não vou engordar, ficar cheia de filhos p'ra criar... Uma só e basta...
Tudo degenerou... Da loucura, da adoração recíproca, começaram as brigas, as discussões. Motivos: nenhum, ou sem importância alguma... Tudo era pretexto para iniciarem uma batalha... Ofensas, xingamentos, baixaria...
Silvana crescendo... Sílvio, prendendo-se cada vez mais a ela, como a única tábua de apoio para a sua angústia de vida, para a sua solidão interior...
Enquanto isso, sua vida profissional deslanchava... Seu talento indiscutível começou então a aflorar. Rápido, em velocidade supersônica, o sucesso veio-lhe as mãos.
Com três anos de formado, já era considerado um dos melhores advogados do Rio, sendo chefe de um dos mais conceituados escritórios da cidade e ocupando cargo de maior relevância na administração estadual (obtido por concurso)...
Fez-se fácil, fácil, amigo de Promotores e Juízes. Privava da intimidade e do relacionamento pessoal com vários deles... Com eles debatia altas teses jurídicas, quer profissionalmente, dentro dos autos, quer socialmente, acompanhando-os no chope do "Chamego do Papai" ou nas extensões noite adentro que aquelas conversas proporcionavam...
Era respeitado e querido...
Nada daquilo, entretanto, o satisfazia...
Saía correndo do trabalho para ver Silvana, com ela brincar, sentir sua infância desabrochar a cada momento, a cada instante...
Oito anos durou o casamento... As brigas tornaram-se mais sérias, as ofensas mais graves, até porrada recíproca ocorreu...
Separaram-se... "amigavelmente"...
No dia da audiência, quando o juiz perguntou como seria feita a divisão de bens, Sílvio, de porre, respondeu:
- Eu não quero coisa nenhuma. Fica tudo p'ra elas (e já tinham apartamento próprio, casa em São Pedro, dinheiro na poupança, etc...).
Liliane, coitada, tinha feito o rol de todos os bens para a divisão. Até pregador de roupa ela relacionou... Olhou, frustrada, para o seu advogado, com a lista dos bens nas mãos... O advogado, que se preparara arduamente para uma verdadeira batalha jurídica, também frustrado, guardou na pasta de executivo, a brilhante sustentação que iria fazer...
Sílvio, embriagado, falava com voz arrastada, as palavras escorrendo-lhe pela boca. O juiz, seu conhecido, compreendeu. Sabia que Sílvio era bastante sensível e que adorava a mulher e a filha. Confidenciara-lhe esse amor pelas duas numa das inúmeras conversas de fim-de-noite no "Chamego"... Sabia que ele não iria, de cara limpa, admitir separar-se de Silvana e ficar discutindo bobagens sobre divisão de bens. Mesmo assim, ainda perguntou-lhe:
- O senhor tem certeza de que é isso mesmo que o senhor quer fazer? Vai abrir mão de todos os seus bens? O senhor sabe, como advogado que é, que tem direito à metade...
Sílvio respondeu rápido, a voz pastosa arrastando-se pela sala:
- É isso mesmo, meritíssimo. Fica tudo p'ra elas. Eu não quero nada.
O juiz ainda fez uma última tentativa:
- E o senhor vai viver de quê? Vai morar aonde?
- Eu me arranjo - respondeu com ar de triunfo, o rosto vermelho como um camarão, o cheiro de whisky exalando por todos os seus poros, tomando conta do ambiente e fazendo com que Liliane, a toda hora, levasse a mão ao nariz, procurando dele escapar. Detestava cheiro de bebida...

* * *

Daí em diante, para Sílvio começou o sofrimento...
Bebia todo dia, a toda hora, a qualquer momento... Afastou-se de tudo e de todos...
Trancava-se no quarto e, sozinho, procurava estancar o sangue que jorrava das feridas de sua imensa dor... "Silvana"... "Silvana, minha filhinha, quero você...".
Delirava, delirava, rolava na cama, tinha alucinações...

* * *

"O tempo é o único e melhor remédio para curar o sofrimento da alma", como já dizia minha avó...
E o tempo começou a curá-lo...
Devagar, bem lentamente. Uma ferida que secava aqui, mas reabria mais adiante, até fechar definitivamente... Uma cicatriz ali, outra acolá...
Pouco a pouco começou a absorver a dor da separação de Silvana. Absorver, talvez não fosse a palavra correta: administrar, cairia melhor... Via-a uma vez por semana, de quinze em quinze dias, às vezes... Os pais de Liliane, sentindo-se donos da situação, tomaram conta de tudo e, sempre que podiam, procuravam atormentar-lhe a vida... Criavam obstáculos, faziam insinuações, tentavam jogar Silvana contra ele...
Mas, ele melhorava... Resistia, não se entregava...
Voltou para o trabalho (pulou de repartição em repartição, é certo, dado o seu temperamento difícil, brigando sempre com chefes e superiores, discutindo e não aceitando cumprir ordens imbecis). Retomou seu lugar no escritório, investindo, agora, numa advocacia interestadual (São Paulo, Espírito Santo, Rio Grande do Sul). Passou a viajar com freqüência.
Reativou suas amizades no Judiciário. Dr. Caulo, velho amigo, juiz do cível. Dr. Marlos, juiz do Tribunal do Júri. Inscreveu-se como jurado, tendo funcionado efetivamente durante dois anos (l986 e l987). Fez novas amizades, principalmente com os jurados. Funcionou como vogal em apurações nas eleições de l982 e l986, sendo esta última em Nova Iguaçu, quando auxiliou o Dr. Marlos. Nesta, inclusive, transportou em seu carro várias escrutinadoras que moravam no Rio, todas elas com mais de 50 anos de idade. Daí porque seu carro foi apelidado de "O Comboio da Saudade". Divertia-se muito com esse apelido...
Mais uma dose, sorvida vagarosamente...
Engraçado, sentia-se bem quando estava com seus amigos. Fazia questão de organizar almoços, de programar reuniões e saídas noturnas, enfim, de conviver com as pessoas que lhe eram queridas. Definitivamente, não era uma pessoa amarga, daquelas consideradas de mal com a vida. Era prestativo, solidário, leal àqueles de quem gostava...
Certa vez acompanhou o Dr. Marlos a um casamento de um advogado militante do Júri, filho de um Procurador de Justiça. Ao final da festa, solidário como sempre, fez questão de levar o juiz seu amigo até Jacarepaguá, onde este residia. O juiz ainda ponderou que não fosse, pois sentiu que ele estava meio sonolento, meio de pilequinho. Ele insistiu, fez questão... Na volta, dirigindo, tonto de sono, deu uma senhora porrada com o carro, fraturando o nariz e outras coisas mais... Só mesmo ele...

* * *

Sorria novamente...
Lembrava-se de Silvana, em seus primeiros dias de vida... Como gostava de curti-la...
Trazia em sua carteira várias fotos dela, nas diversas fases de sua vida... Tinha, agora, doze anos de idade...
Mostrava aqueles retratos a todo mundo, a toda hora, sob qualquer pretexto...
Notava nela, atualmente, alguma diferença no tratamento que lhe dispensava... Um pouco mais fria, talvez mais distante... Será se ela estava passando por algum problema? Não, devia ser coisa de adolescente... De qualquer forma, iria conversar com ela amanhã, quando fosse vê-la, aproveitando o feriado de segunda-feira.
Iria a São Pedro, onde ela estava com a mãe e a levaria para passear e conversar. Já poderiam ter uma conversa mais adulta...

* * *

Passara quinze dias em São Paulo, onde fora resolver alguns problemas do escritório.
Mas, também fora refrescar a cabeça.
Nas suas últimas idas e vindas à capital paulista, fizera um novo grupo de amigos, que o faziam esquecer um pouco de suas amarguras no Rio.
Chegara de volta cerca das três da tarde. Ligou a secretária eletrônica. Vários recados.
Deu alguns telefonemas, conversou com vários amigos, tomou um banho e abriu a garrafa de whisky. Deitou-se na cama e pôs-se a divagar.
Tomou seus cinco comprimidos da tarde, aos quais já se habituara a ingerir por conta própria, três vezes ao dia. Vitaminas, desintoxicantes para o fígado, tranqüilizantes leves... Abriu seu terceiro maço de cigarros do dia. Queria parar de fumar (estava tossindo muito), mas adiava sempre o momento da decisão...
Em meio às suas divagações, ora sorria ao lembrar dos momentos bons de sua vida, ora as lágrimas escorriam-lhe pelo rosto, ao recordar-se dos maus. Chorava convulsivamente quando a imagem de Silvana vinha-lhe à mente.
Às 10 da noite, levantou-se, meio cambaleante, meio de pileque. Decidiu sair para jantar.
Costumava fazê-lo numa churrascaria de Copacabana, no posto 5, onde já conhecia todo mundo, do dono ao cozinheiro. Uma vez, meio de porre, acompanhado de uma dama da noite, quis ali jantar, à meia-noite, vestindo uma bermuda. Ponderaram com ele que o traje não era adequado para a noite. Ele insistiu e, como era conhecido de todo mundo, acabou entrando.
"Assim era ele", pensava consigo mesmo. Ganhava todo mundo na simpatia.

* * *

Chegou, cumprimento o garçom, sentou-se à mesa de sempre.
Picanha com fritas e farofa...
Comia devagar...
Divagava mais uma vez...
Tomou mais um gole do seu chope...
A dor veio forte, rasgando-lhe as entranhas.
Levou a mão ao peito, apertando-o com força...
Sorriu... Sentiu que era a hora...
A imagem de Silvana veio-lhe mais uma vez à mente... Forte, nítida, em todo o seu esplendor...
A cabeça, já sem vida, tombou sobre a mesa...* * *